Autores vs Os Seus Livros: Uma Reflexão Sobre Marion Zimmer Bradley


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Estive horas à volta da melhor maneira de começar este post, e acabei por decidir ir directa ao assunto - Marion Zimmer Bradley foi recentemente acusada de abuso sexual de menores, pela filha, Moira Greyland. Num email, partilhado com permissão no blog de Deirdre Saoirse Moen, Greyland afirmou que a mãe a abusou até aos doze anos, e que não foi a única vítima. Acrescenta ainda informações relativamente ao pai, Walter H. Breen, acusado e condenado a dez anos de prisão por abuso sexual de menores em 1992.

O meu primeiro pensamento foi para Moira Greyland, e para a coragem que demonstrou ao fazer estas acusações - espero sinceramente que daqui não resulte ainda mais sofrimento. É fácil compreender, ao ler as palavras de Greyland, o porquê de apenas ter falado sobre isto agora, e é particularmente fácil compreender o seu receio face às reacções dos fãs da sua mãe.

Marion Zimmer Bradley é, efectivamente, um nome sonante no mundo da fantasia e ficção científica. Escreveu mais livros do que consigo contar, entre eles o hiper-popular The Mists Of Avalon, preocupou-se sempre em dar um cunho feminino (e acima de tudo, feminista) às suas obras, e para ajudar à festa, escrevia bem que se fartava. Aprendi muito com os seus livros, e sempre invejei a sua linguagem, elegante e equilibrada, nunca se sobrepondo às histórias que contava. Não me considero uma fã, não li o suficiente para o ser, mas considero-me... talvez uma admiradora casual, para quem esta notícia levantou uma importante questão.

Como é que me sinto relativamente a Marion Zimmer Bradley agora?

Não fui a única a questionar-me, claramente. A internet está cheia de posts inflamados de leitores outrora fiéis que se recusam a voltar a pegar nos livros desta autora, e de respostas ligeiramente menos emotivas de quem se recusa, isso sim, a confundir um autor com a sua obra. É uma boa pergunta. Onde é que começa a escrita, e acaba o escritor? Será justo julgar a primeira à luz de uma opinião pessoal sobre o segundo?

Pessoalmente, não me vejo a pegar em qualquer livro de Marion Zimmer Bradley num futuro próximo. Em primeiro lugar, porque ainda estou a lidar com a desilusão de descobrir esta faceta de uma autora que sempre admirei; em segundo lugar, porque tenho quase a certeza que ler qualquer episódio sexual num livro de Marion Zimmer Bradley me dará flashbacks imediatos para o depoimento de Moira Greyland, e não quero ter de me sujeitar a isso.

Se a autora ainda estivesse viva, tudo isto seria de fácil solução - não voltaria a comprar livros dela, dado não ter qualquer interesse em apoiar quem comete aquele que, para mim, é bem capaz de ser o pior crime à face da terra. Não preciso de investir o meu dinheiro na carreira de pessoas que, pelo menos em parte, me repulsam. Cada vez mais, enquanto leitora e escritora, vejo os meus investimentos como uma espécie de mecenato em pequena escala. Não sou milionária, nem famosa, mas não quero investir o meu dinheiro, nem o meu tempo, nem a pouca exposição que posso proporcionar a um autor, em pessoas que não aprovo a nível pessoal. Mas Rafaela, isso quer dizer que preferes promover uma obra má de uma boa pessoa a uma obra boa de uma má pessoa? Não exactamente, caro leitor - apenas quer dizer que estou automaticamente mais inclinada a investir em alguém que admiro a nível pessoal. Posso não o fazer, pela razão já mencionada de considerar a sua obra um notável desastre, por exemplo, mas a propensão vai continuar lá, de uma maneira ou de outra.

De qualquer forma, a verdade é que Marion Zimmer Bradley faleceu em 1999, e duvido que alguém receba royalties no Além, pelo que a questão do investimento deixa de se colocar. Ou não. Jani Lee Simner, uma autora entre vários que participaram nas antologias Darkover de Marion Zimmer Bradley, já afirmou que doará a sua fatia dos lucros a uma instituição de solidariedade; numa linha similar, Victor Gollancz Ltd, editores de vários ebooks de Bradley, afirmaram igualmente que doarão os lucros das vendas dos mesmos à instituição Save The Children. Nada do que aconteceu é culpa destes indivíduos, mas fico feliz por ver que, de todo um leque de opções possíveis, incluindo a sempre confortável opção de ficar calado e não fazer nada, optaram por ser nobres.

Marion Zimmer Bradley pode estar morta, mas as suas vítimas vivem, e se há algo que me parece crucial fazer neste momento, mais do que decidir o que fazer quanto aos livros desta escritora, é utilizar esta situação como uma oportunidade para quebrar o silêncio e ter uma conversa sincera sobre o tabu que ainda é, para muitos, a violência sexual. A comunidade literária está a desempenhar o seu papel admiravelmente, se querem a minha opinião. Todo este assunto poderia ter sido abafado, enterrado bem fundo numa qualquer acção de relações públicas motivada pela preservação da memória da falecida autora, mas tal não aconteceu. As pessoas estão a falar, e estão a falar alto. Passaram-se mais de quinze anos, mas o mundo não mudou tanto que pessoas como Marion Zimmer Bradley já não existam - elas continuam aqui, por vezes nas ruas que frequentamos todos os dias, por vezes em posições de poder e prestígio, por vezes por detrás de obras de ficção que nos inspiram e motivam. Não me compete a mim dizer a alguém o que fazer relativamente às obras desta escritora, mas compete-me, enquanto leitora, admiradora, blogger, feminista, e talvez até ser humano, falar sobre isto. Compete-me denunciar a violência sexual pelo que é, independentemente de quem a perpetra, e compete-me agir em conformidade com tudo o que tenho dito e escrito neste blog sobre violência sexual.

A violência sexual não tem lugar no mundo em que quero viver - nem na ficção, nem na realidade.

E, por associação, esta velha admiração por Marion Zimmer Bradley não tem lugar no mundo em que quero viver. Já eliminei pessoas dos meus panteões pessoais por menos. Será que ainda posso admirar a sua escrita, num vácuo? Não, nem pensar, porque não acredito em vácuos ideológicos - mas vamos fingir, por um momento, que sim. Aí a resposta passa a talvez. Talvez seja possível admirar e apreciar a escrita de Marion Zimmer Bradley sem atentar aos seus crimes, mas isso leva-nos novamente à questão inicial, e à minha resposta final - não sei onde começa a escrita e acaba a escritora. Talvez a escritora não acabe, sequer. O nome dela continua na capa*, e já dizia Federico Fellini que toda a arte é autobiografia. Se tal for verdade... em que é que ficamos?

Bem, eu fico num estado de insegurança constante. Fico com medo de pegar num livro e pegar também, acidentalmente, num portal para uma mente que já não quero visitar. Não consigo ser mais sincera do que isto, caros leitores. Não me vejo a pegar em qualquer livro de Marion Zimmer Bradley num futuro próximo. Talvez nem num futuro longínquo, pois a poeira tende sempre a assentar sobre uma versão de mim ligeiramente mais implacável do que a anterior.

Talvez esta relação tenha verdadeiramente chegado ao fim - e curiosamente, isso nem me incomoda tanto quanto pensei. O que dizem vocês?

* Deixemos a polémica dos ghost writers para outro dia, ok?
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Opinião: 'Clean: An Unsanitised History Of Washing', Katherine Ashenburg



★ ★ ★ ★ ☆

'Clean: An Unsanitised History Of Washing
Katherine Ashenburg

For the first-century Roman, being clean meant a public two-hour soak in baths of various temperatures, a scraping of the body with a miniature rake, and a final application of oil. For the seventeenth-century aristocratic Frenchman, it meant changing his shirt once a day, using perfume to obliterate both his own aroma and everyone else’s, but never immersing himself in – horrors! – water. By the early 1900s, an extraordinary idea took hold in North America – that frequent bathing, perhaps even a daily bath, was advisable. Not since the Roman Empire had people been so clean, and standards became even more extreme as the millennium approached. Now we live in a deodorized world where germophobes shake hands with their elbows and where sales of hand sanitizers, wipes and sprays are skyrocketing.

Juro que não hei-de morrer sem dedicar um ano inteiro da minha vida a ler não-ficção. Não há nada melhor do que mergulhar num tema novo e emergir, duas horas depois, com todo um catálogo de factos interessantes para partilhar com estranhos nas festas mais aborrecidas. Não que eu vá a festas, mas o sentimento mantém-se.

Clean é, tal como o nome indica, um livro sobre higiene - a história da mesma, para ser mais específica. Katherine Ashenburg divide o tema em nove capítulos, da Antiguidade Clássica aos dias de hoje, passando pelas frequentes mudas de camisa dos séculos XVI a XVIII e a obsessão com sabonete da primeira metade do século XX. É um livro divertido, embora não o deva totalmente ao estilo, pois o tema empresta-se bem a uma certa dose de sentido de humor.

Adorei a análise que a autora faz do tema, e a forma como consegue interligar o ideal higiénico de uma sociedade com as suas aspirações e valores morais. Quem pensaria que os mártires Cristãos não tomavam banho por considerar o acto hedonista? (bem, eu pensaria, seria de esperar de pessoal que se alimenta de vinagre e crostas... mas continua a ser um dado interessante)

A única falha que posso apontar ao livro é o facto de me parecer uma análise superficial - não sou nenhuma expert no tema, mas tenho a sensação de que este volume funciona melhor como uma introdução do que propriamente uma "bíblia". Por outro lado, tal acaba por ser uma vantagem para leitores casuais. Não é preciso qualquer conhecimento prévio sobre o assunto para poder apreciar esta viagem pelo mundo da limpeza - e da sujidade. Quatro estrelas, recomendado!
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Sobre Snobismos, Livros A Sério, "Literatura", & Tolkien (sempre Tolkien)


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Aí há uns anos, cometi o erro de dizer que não gosto de Tolkien. Não me refiro com isto ao senhor, claro, que descanse em paz, mas aos três livros que li dele. Já passou muito tempo, e não me lembro exactamente do meu argumento, mas deve ter sido algo do género ele demora duzentas páginas a levar o pessoal do ponto A ao ponto B. O meu interlocutor não gostou da minha opinião, e tentou mostrar-me o meu erro, afirmando que "um escritor a sério" deve ser capaz de pintar uma cena com palavras, e é exactamente isso que Tolkien faz. Segundo ele, quanto mais complexo melhor.

Uns anos depois, escrevi uma opinião no Goodreads sobre um livro que não será nomeado, onde me queixava de um final mal engendrado, de um clímax resolvido por uma arma que, até aí, nunca fora mencionada. Conhecem a expressão Chekhov's Gun? Se a história me mostra uma arma, é bom que seja para a disparar? O reverso, para mim, é quase mais importante - se a história dispara uma arma, é bom que ma tenha mostrado antes.

A minha crítica referia-se exactamente ao este facto - um estranho na internet não gostou, e respondeu, curiosamente, de uma forma que também comparava livros a pinturas. Segundo este comentador, um livro é como um daqueles cadernos para colorir, e embora o leitor deva seguir as indicações gerais do autor, o resultado final está mais dependente da nossa imaginação do que das palavras que nos são dadas. Ou seja, o autor não precisa de mencionar a arma para a disparar - cabe-me a mim, quando ela surge, imaginar que ela sempre lá esteve, no bolso do protagonista, à espera de salvar o dia.

Esta duas pessoas têm, como podemos ver, ideias muito claras sobre aquilo que constitui literatura a sério. Falam-me de formas correctas de escrever e formas correctas de ler, e eu continuo aqui, a pestanejar inocentemente e a questionar-me sobre as razões que levam alguém a convencer-se de que a sua opinião é, na verdade, um facto incontornável.

Aqui entre nós, costumo atribuir a este pessoal a alcunha colectiva (e carinhosa, sempre carinhosa) de O Snob. Existem várias espécies de O Snob, claro. "A J.K. Rowling escreveu o Harry Potter, que eu adoro, e eu adoro-a, logo é a melhor escritora do mundo." "Só gosto de ficção científica, é um género superior que obriga as pessoas a pensar." "A fantasia não tem qualquer valor literário porque os elfos não existem." "YA é só para quem não tem capacidade para ler livros mais avançados." "Só lê esses livros com homens em tronco nu na capa quem precisa de apimentar a sua vida sexual." E por aí fora.

Ter preferências não é, note-se, automaticamente um sintoma de que nos estamos a tornar O Snob. Deixem-me falar-vos sobre mim. Eu não leio romance. Abro raras excepções para romance queer, mas é basicamente isso. Não leio erotica, nas mesmas condições. Leio YA quando os resumos prometem mais do que, vocês adivinharam, romance. Não leio fantasia medieval, porque a minha tolerância para reis e cavalos e cruzadas e casamentos políticos e possivelmente dragões e misoginia disfarçada com um manto de "correcção histórica" é tão reduzida que só pode ser correctamente representada como ZERO.

Estes são os meus gostos pessoais. Definem um campo claro em que me sinto confortável, e ajudam-me a filtrar os milhares de livros a que sou exposta todos os anos. A questão aqui é que um The Secret History ou um The Melancholy Of Anatomy, dois dos melhores livros que li este ano, não são em nada superiores a um The Fault In Our Stars ou a um 50 Shades Of Grey, objectivamente falando. É verdade que estes dois últimos são livros que nunca escolheria para a minha própria estante, por não se enquadrarem nos "filtros" que já mencionei. Também é verdade que, a lê-los, provavelmente iria bater com a cabeça nas paredes e dar-lhes um rating de duas estrelinhas a cada um.

Mas também é verdade que essas duas estrelas vos iriam dizer pouco sobre o livro, e muito sobre mim.

Não acredito em bons livros e maus livros. Acredito em livros, leitores, e magia negra quando se encontram. Muitas vezes, apercebo-me que as minhas ratings negativas estão directamente relacionadas com a minha posição relativamente ao público-alvo do livro. Eu não sou o público-alvo de Twilight, por exemplo. Posso lê-lo na mesma, e opinar na mesma, e dar estrelas na mesma (estrelas negativas, mas hey, azar, são as que correspondem à minha opinião), mas não posso esperar encontrar a perfeição num livro que não me é destinado.

Independentemente disso, a verdade é que milhares de pessoas encontraram a perfeição na série Twilight. Tal como milhares de pessoas encontraram a perfeição na série 50 Shades Of Grey. Porquê? Bem, porque o público-alvo tende a gostar dos livros que lhe são dirigidos, e estes livros têm públicos-alvo bastante vastos.

E é aqui que O Snob, que gosta de apontar para os números e afirmar a qualidade como uma coisa que apenas o seu restrito círculo social compreende, pode entrar e concordar "ah pois, porque o público-alvo são as massas incultas que lêem um livro por ano, só quando vão à praia". Tudo bem, mas se é essa a interpretação dada aos 100 milhões de cópias vendidas de 50 Shades Of Grey... pergunto-me se se mantém para os 150 milhões de The Lord Of The Rings.

Há uma citação de Murakami que ilustra perfeitamente a mentalidade que, me parece, está subjacente às acções d'O Snob: if you only read the books that everyone else is reading, you can only think what everyone else is thinking. Talvez seja uma pretensão de exclusividade que leva O Snob a virar costas àquilo que é popularizado pela sociedade em que se encontra. Talvez seja uma necessidade exacerbada de se mostrar original e misterioso - o quê, estás a ler isso? Por favor, deixa-me recomendar-te este livro muito melhor de que nunca ninguém ouviu falar. Só tem uma review no Goodreads porque ninguém é esperto o suficiente para o compreender. Ah, e sim, fui eu que escrevi.

Não compreendo, nem nunca compreendi, esta necessidade de valorar e policiar o acto de ler - porque aparentemente, ler todos lemos, mas uns Lêem melhor do que outros. Uns Lêem para alargar os seus horizontes ou polir o seu ego com as palavras de escritores mortos que pouco nos vale criticar, enquanto outros lêem para passar o tempo, ou para se apaixonar por pessoas que não existem e obter aí o que lhes falta na vida real. O primeiro leitor não é necessariamente melhor do que o segundo, mas ainda assim persiste a ideia de que faço melhor uso do meu tempo a ler clássicos do que romances Harlequin - pois O Snob parece ter dificuldade em compreender que o meu tempo livre me pertence, e que tenho capacidade plena para decidir o que fazer com ele.

Agradeço as recomendações para Ler Livros de Literatura, a sério, é uma honra, mas para ser sincera... prefiro ler só livros.
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Opinião: 'The Clockwork Scarab', Colleen Gleason



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Clockwork Scarab
Colleen Gleason

Evaline Stoker and Mina Holmes never meant to get into the family business. But when you’re the sister of Bram and the niece of Sherlock, vampire hunting and mystery solving are in your blood. And when two society girls go missing, there’s no one more qualified to investigate.

Now fierce Evaline and logical Mina must resolve their rivalry, navigate the advances of not just one but three mysterious gentlemen, and solve murder with only one clue: a strange Egyptian scarab. The stakes are high. If Stoker and Holmes don’t unravel why the belles of London society are in such danger, they’ll become the next victims.

Por que é que li este livro?
A sobrinha de Sherlock Holmes e a irmã de Bram Stoker são contratadas por Irene Adler para combater o crime na capital Inglesa. Vagamente steampunk. Por que é que eu não havia de ler este livro?

1. Plot
Meninas da alta sociedade Londrina vão desaparecendo sem razão aparente, deixando para trás pequenos escaravelhos mecânicos. E obviamente que têm de ser escaravelhos, porque como sabes, Bob, a sociedade Vitoriana pouco mais inclui do que corpetes e artefactos egípcios. Mas passemos à frente. As nossas heroínas, que não se conhecem de lado nenhum (e que preferiam manter esse gracioso estado de coisas), são chamadas por Irene Adler a pedido da Princesa Alexandra para resolver este estranho caso, e obviamente que a princípio não se entendem. Infiltram-se, lêem muitos livros, fazem asneiras, o Big Bad pode ou não ser uma paródia do movimento feminista (se pretende ser uma representação fiel do mesmo, meus deuses, é terrível), e é basicamente isso. Há triângulos amorosos que em nada contribuem para a história, e as capacidades sobre-humanas das nossas protagonistas acabam por não passar de palavras bonitas no ecrã do meu Kobo. O Big Bad escapa. Há mais do que espaço para escrever uma sequela. Eu queixava-me desta manipulação desavergonhada do leitor, mas não estou suficientemente interessada.

Oh, e há viagens no tempo? Pois, mas nem isso interessa.

2. Personagens
Nem sei por onde começar. Por um lado, apetece-me dizer que nem Mina Holmes nem Evaline Stoker merecem carregar os apelidos dos seus populares parentes. Mas nem é isso que me incomoda. O que me incomoda é que estes apelidos arrastam consigo toda uma série de expectativas para o leitor, que saem completamente furadas neste livro. Mina Holmes é sobrinha de Sherlock Holmes, e tudo nela é exactamente como seria de esperar - inteligente, super inteligente, tão inteligente que detesta festas e a governanta tem medo de entrar no seu laboratório. Não sei bem o que é que a autora pretendia com isto - criar uma versão feminina de Sherlock Holmes? Bem, uma versão feminina de Sherlock Holmes não morreria de amores por um inspector qualquer só porque ele consegue acompanhar o seu raciocínio - e até antecipá-lo! Uma versão feminina de Sherlock Holmes seria, tal como o original, a pessoa mais inteligente em todas as salas onde Mycroft Holmes não está. Isto não acontece com Mina. Mina é uma versão genérica daquilo que uma versão feminina de Sherlock Holmes devia ser, sem qualquer personalidade própria, encaixada num livro que não sabe bem se pretende ser fantasia, mistério, ou romance.

Por outro lado, temos Evaline Stoker, cuja caracterização parece ter sido um pouco mais considerada - é uma caçadora de vampiros, tem super força (que nem uma Buffy Vitoriana, you go girl), e montes de poderes que lhe permitem caçar vampiros. O único problema é que já não existem vampiros em Londres, e Evaline quase desmaia ao ver sangue. Agora... isto poderia ser um plot interessante. O que acontece quando uma pessoa escolhida para determinada tarefa ancestral é completamente incapaz de cumprir com a mesma? Desastres acontecem, obviamente. Auto-estimas destroçadas, crises familiares, sessões constantes de second-guessing. Colleen Gleason não aborda nada disto. O seu pensamento parece ir mais numa linha de esta é a minha caçadora de vampiros mas não há vampiros e ela não gosta de ver sangue, TOMEM LÁ UM TRIÂNGULO AMOROSO.

Parece que a sinopse foi escrita por uma feminista do século vinte e um, e o livro por um médico ultra-conservador do século dezanove. A dissonância cognitiva é elevada o suficiente para me dar quebras de tensão.

Ah, e o melhor personagem de todos. Segurem-se aos vossos corpetes, donzelas, que isto está prestes a aquecer. Dylan Ekhert. Vem do futuro com uma t-shirt da Aéropostale, não tem qualquer relevância para o plot, e salva o dia com um iPhone. Percebem a minha dor?

3. Setting/worldbuilding
Vamos rebobinar ao Verão passado, quando disse, relativamente ao livro Soulless, de Gail Carriger, que "podíamos tirar o steam, e não íamos perder nada". O mesmo é aplicável a este livro, tirando que as invenções steampunk conseguem ser ainda mais irrelevantes para o desenvolvimento do setting.

Talvez isto se resuma tudo a uma tentativa de aproveitar a onda steampunk para vender livros que se passariam, de outra forma, numa era Vitoriana ligeiramente melhorada para as sensibilidades modernas, mas custa-me um pouco digerir este tipo de coisa. Ou talvez os puristas me estejam finalmente a afectar - o que seria irónico, considerando que nunca na vida li os livros recomendados por este pessoal, e o meu interesse por steampunk continua a ser quase puramente estético.

Ok, pronto, também tenho interesse nas senhoras de bloomers a pilotar aeronaves, mas uma guerra de cada vez.

O importante aqui é que o setting não vai muito além de Template Vitoriano #1 - temos opium dens, o museum britânico, mansões, um ou outro baile, e um par de tabernas vagamente mal frequentadas. O steam é um acessório, e não faz qualquer falta ao livro. Off with it!

4. Estilo de escrita
Meh? Nada de particularmente interessante a apontar. Acho que me aborreci tanto com a conteúdo que nem me preocupei particularmente com a forma. A única crítica objectiva que tenho refere-se à organização dos capítulos entre as duas protagonistas - Mina e Evaline têm cada uma o seu POV, mas são ambos em primeira pessoa e completamente impossíveis de distinguir. Para duas personagens que aparentam ser tão diferentes ("aparentam" sendo aqui, claro, a palavra-chave), soam extraordinariamente parecidas. Foi muito, muito difícil orientar-me nesta leitura.

Em resumo...
Este livro vai acabar, muito infelizmente, na estante de Boas Ideias Mal Executadas. Duas raparigas de alta sociedade, uma Holmes e uma Stoker, a investigar crimes? Boa ideia. Este livro? Má execução.

O problema principal deste livro (pronto, além do plot simplista e mal resolvido) é que se propõe ser uma fantasia pseudo libertadora para as mulheres Vitorianas, um pouco na linha da já mencionada série de Gail Carriger, mas nunca chega efectivamente a dar-me o que promete. A autora está constantemente a colocar as suas personagens femininas em situações em que precisam de ser salvas. Mina não é, nem de perto nem de longe, tão esperta quanto me querem fazer crer. A força e coragem de Evaline são virtualmente inúteis. Tudo bem, elas quebram uma outra regra, mas consigo resumir o livro todo com "olha nós a fazer coisas que as mulheres Vitorianas não devem fazer, E A FALHAR REDONDAMENTE". O setting não o salva, a escrita não o salva, e com muita pena minha, não posso recomendar este livro a ninguém.

A sequela, The Spiritglass Charade, sai a 7 de Outubro de 2014. Não tenciono lê-la, mas é bom saber, certo?
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Penny Dreadful: Opiniões a 3 Episódios do Final



Não sou muito de ver televisão, mas de vez quando o mundo sai-se com algo tão absolutamente brilhante que é impossível não ver, pelo menos, o primeiro episódio. American Horror Story: Coven foi a única série recente que vi do princípio ao fim, com looooongas crises de fangirling entre episódios, e quando acabou, fiquei sem saber o que fazer com o meu tempo.

Felizmente, fui informada da existência de Penny Dreadful umas semanas antes de estrear. Baptizada em honra dos periódicos vitorianos que aliciavam os leitores com os seus temas mórbidos e sensacionalistas, Penny Dreadful conta a história de uma liga de cavalheiros vagamente extraordinários em busca de uma mulher chamada Mina, que pode ou não ter sido raptada por vampiros. O grupo é encabeçado por uma misteriosa dupla: Sir Malcolm Murray, pai de Mina e ex-explorador de África, e Vanessa Ives, ex-melhor amiga de Mina e ocasional porta-voz dos muitos espíritos presentes em Londres. (às vezes vestem-se a combinar, mas nem sempre)



Um dos selling points da série, para mim, foi o facto de prometer um novo olhar sobre personagens que muitos de nós já consideram familiares - Victor Frankenstein, um jovem médico que instalou um workshop de construção de humanos na cave, e Dorian Gray, um jovem socialite que também instalou coisas na cave, mais particularmente um retrato de si mesmo. Por coincidência, ou talvez não, os personagens com base literária acabam por parecer os hipsters do grupo, mas isso é um detalhe que não deve ser mencionado fora dos círculos mais profundos da fandom. (ainda não se conhecem, mas prevejo um autêntico Battle Royale pelo título de Ultimate Dandy)




A equipa fica completa com Ethan Chandler, um Americano completamente normal com boa pontaria, Brona Croft, uma imigrante Irlandesa a morrer de tuberculose, e Sembene, o companheiro silencioso (mais ridiculamente competente, escrevam o que vos digo) de Sir Malcolm.





Não consigo não elogiar este elenco, sinceramente. Eva Green é absolutamente espectacular como Vanessa Ives - se esta série faz o favor de contrastar Vanessa e a desaparecida Mina como duas faces quase completamentares, uma sempre de negro, uma sempre de branco, então faz sentido ter Eva Green a representar o papel mais sombrio. Para mim, ela é a definição de Dark Feminine - complexa, segura de si mesma, e com muitos esqueletos no armário. E representa bem que se farta, como demonstrado por todos os episódios até agora, particularmente Séance e Closer Than Sisters. Vanessa é, quer se queira quer não, a protagonista da série, e a verdadeira essência de Penny Dreadful - violenta, sexual, inteligente, excessiva e controlada ao mesmo tempo, sempre com margem para uma ou outra piada bem colocada.



Tenho também de mencionar a minha completa obsessão por Harry Treadaway como Victor Frankenstein, porque nunca pensei que fosse possível pôr um poster boy da Burberry a fazer este papel. Adoro a vulnerabilidade que ele traz ao personagem, e acima de tudo, acho-o credível naquela corda bamba entre cientista punk (palavras do actor, não minhas) e poeta frustrado com perfeita noção de que o universo está contra ele, e com razão. Todo ele é um raio de sol.



Ainda numa de personagens, menção honrosa para as performances de Alex Price e Olly Alexander, nos episódios 1-2 e 3-4, respectivamente. Não ficam connosco muito tempo, mas empatizei mais com eles do que com muitos personagens principais noutras séries.




Em termos de plot, tenho visto críticas acusando a série de ser demasiado lenta para algo que se pretende terminar em oito episódios (embora tenha sido, entretanto, confirmada a segunda temporada). Pessoalmente, vejo Penny Dreadful como uma série acima de tudo character-driven, pelo que o desenrolar do enredo acaba por ficar em segundo lugar face ao desenvolvimento dos personagens - prefiro passar um episódio a ver Dorian Gray a falar apaixonadamente sobre orquídeas do que ver gente a caçar vampiros só porque sim.

Obviamente, é uma série que precisa urgentemente de mais mulheres, e mais pessoas de cor (Sembene tem menos de uma fala por episódio, o que é trágico, porque tudo o que quero na vida é ouvir Danny Sapani a narrar a história do universo), mas já leva alguns pontos bónus por não ter passado um paninho branco sobre a orientação sexual do menino de ouro de Oscar Wilde. É sempre hilariante ver audiências reagir à não-heterossexualidade de um personagem principal e anunciar que não tencionam ver nem mais um episódio - para citar uma conversa que ouvi sem querer num evento social, agora está na moda tornar toda a gente gay.


Acima, o Oscar e o Bosie mostram-se desiludidos com esta tendência moderna de aceitar pessoas pela sua sexualidade.

Ainda em matérias vagamente sexuais, pessoalmente, tenho sempre algum receio de ver séries de época, pelo facto de os criadores aproveitarem a "correcção histórica" para disfarçar a sua misoginia, fazer duas cenas de sexo irrelevantes por episódio, e despir todas as personagens femininas sempre que possível. (estou a olhar para ti, Da Vinci's Demons, estou sempre a olhar para ti) Penny Dreadful, para mim, tem feito um trabalho brilhante a desconstruir estes clichés - as cenas de sexo estão lá, mas acho-as ridiculamente bem filmadas, e a nudez não é um fenómeno que só afecta, por alguma razão, as mulheres do elenco. E já agora, este é um bom momento para confessar que, ontem, vi um reviewer a queixar-se que a nudez total do monstro de Frankenstein o deixava desconfortável. Eu compreendo. É lixado quando um personagem que tem todas as razões e mais algumas para estar nu aparece nu no background de uma cena, não é? (eu nem reparei) Nada que se compare à constante nudez de personagens femininas tantas vezes acompanhada de ângulos de câmara reminiscentes de um filme pornográfico, claro, porque isso já é tão comum que nem olhamos duas vezes. É assim que nos apercebemos da existência de um problema, caros amigos - uma mulher nua é "normal", um homem nu é "desconfortável". Azar o vosso, e lavo disto as minhas mãos.

Visualmente, a série é extraordinária. Tenho andado a ver os vídeos da produção no Youtube, e o cuidado dedicado à parte estética da coisa só aumenta o meu respeito por todo este trabalho - o visual dos vampiros é conseguido através de maquilhagem (pensei que era CGI, fiquei parva), e a equipa construiu um teatro inteiramente funcional para realizar a visão que John Logan tinha do seu Grand Guignol, uma adaptação Londrina de um teatro Parisiense conhecido pelo mesmo tipo de conteúdos que os penny dreadfuls da época.




A conclusão disto tudo é que Penny Dreadful tem tudo o que gosto de ver numa série - um ensemble cast de lobos (HAHA) em pele de cordeiro, toda aquela ambiência pseudo-Vitoriana que acerta o suficiente para ser credível (sim, refiro-me ao guarda-roupa) sem se preocupar com os detalhes irrelevantes, uma variedade absurda de referências que só serão, decerto, apanhadas por pessoas de leituras mais vastas que as minhas (só li The Picture Of Dorian Gray e Dracula, mas começo a pensar que talvez seja boa ideia ler Frankenstein durante o hiato, e talvez também The Tempest, The Phantom Of The Opera, e uns cinco volumes de poesia romântica), um respeito descomunal pelas obras que adapta, e nas palavras do próprio Sir Malcolm, um mundo onde a ciência e a superstição andam de mãos dadas.

Espero ansiosamente os três últimos episódios, e estou mais do que capaz de considerar esta uma das minhas séries favoritas... de todos os tempos. Quem já viu?
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Opinião: 'The Dream Thieves', Maggie Stiefvater



★ ★ ★ ☆ ☆

The Dream Thieves
Maggie Stiefvater

Now that the ley lines around Cabeswater have been woken, nothing for Ronan, Gansey, Blue, and Adam will be the same.

Ronan, for one, is falling more and more deeply into his dreams, and his dreams are intruding more and more into waking life.

Meanwhile, some very sinister people are looking for some of the same pieces of the Cabeswater puzzle that Gansey is after...

O tema de hoje é “coisas que podiam ter sido muito boas, mas não foram” - ou seja, yup, chegámos ao volume dois do tão promissor The Raven Cycle.

Por que é que li este livro?
Porque li o primeiro e adorei, tão simples quanto isso. É por isso que as pessoas lêem sequelas, não é?

1. Plot


The Dream Thieves não prima por um plot exaustivamente bem organizado, ou sequer... lógico. Apresenta pelo menos cinquenta plot holes, quase todos concentrados nas últimas cem páginas (que raio de final foi aquele?), e todas as pessoas com quem discuti este livro concordam num ponto - tem cenas muito boas, é divertido de se ler, mas não existe tal coisa como um enredo sólido que o unifique.

Ora bem. Este livro pega no grande plot twist de última linha do anterior, e leva-o ao extremo. Os que leram saberão que Ronan Lynch, o membro rebelde do ensemble cast, tem agora a capacidade ligeiramente imprevisível de retirar coisas dos seus sonhos. Coisas como canetas, ou o seu corvo de estimação, Chainsaw.

O plot apresenta-nos então a Kavinsky, o rival favorito do nosso protagonista (por via de simplificar as coisas, vamos assumir que o protagonista deste livro é Ronan), que a) é Russo, ou assim, b) conduz um Mitsubishi branco, c) deixa as mãos do nosso protagonista a suar. Oh, honey. Kavinsky inferniza a vida de Ronan, não só com a sua superior performance no mundo do street racing, mas também com a sua língua afiada que insinua, três vezes por página, que Ronan e Gansey têm, como eu costumo dizer, uma cena. Não têm. Gansey está caído pela nossa protagonista Blue, como todos sabemos, e embora Ronan esteja firmemente caído pelo seu próprio género (obrigada, Maggie!), Gansey não é de todo o seu tipo ideal.

Portanto, este livro conta a história de como Ronan se aproximou de Kavinsky, descobriu que também ele era um dream thief, se aproveitou dele para aprender tudo o que precisava, e depois voltou aos seus Raven Boys. Entretanto, aprendemos que o pai de Ronan também era um dream thief que tirou não só uma fortuna dos seus sonhos, mas também todos os animais que tinha na sua quinta, e a sua esposa. Estando ele morto, tudo isto ficou “adormecido” sem a sua presença – e isso inclui a mãe de Ronan, que passa 99% do livro em estado basicamente vegetativo. No final, levam-na à floresta mágica, ela acorda, sorri muito feliz, e fica tudo bem.

Estão a gozar comigo? Quer dizer, um dos pontos cruciais da história é como Kavinsky é Uma Pessoa Muito Má, porque usa e abusa dos seus poderes e retira tudo e mais alguma coisa dos sonhos, coisas como centenas de Mitsubishis brancos e uma réplica do seu pai para encobrir o facto de o ter assassinado. A narrativa deixa claro que não devemos idolizar ou simpatizar com Kavinsky, mas o pai de Ronan sai de tudo isto impune. Por que é que sonhar carros é mais grave do que sonhar dinheiro? Por que é que sonhar um pai novo é mais grave do que sonhar uma mulher? Para citar Calla, a única pessoa com dois dedos de testa neste livro todo... não há mulheres que cheguem no mundo? Não posso apoiar uma narrativa que praticamente idoliza um destes personagens e condena outro. E não só! Esta mulher, que está efectivamente inconsciente durante a maioria do livro, é tratada como um objecto. Ela existe, literalmente, para servir os caprichos dos homens do livro – o pai de Ronan trá-la para o mundo real porque não consegue viver solteiro, suponho eu, e Ronan trá-la de volta porque não consegue viver sem mãe. Ronan não tem grande culpa, eu faria o mesmo, mas toda esta narrativa é absurda. E depois trazem-na de volta em duas ou três linhas, e fica tudo bem? Eh pá... não.

E tudo isto sobre a plotline de Ronan, que ocupa francamente a maior parte do livro. O restante é dedicado a Adam – que desde o livro anterior, não esqueçamos, saiu de casa dos seus pais abusivos, vendeu a alma a uma floresta, e matou um homem. O primeiro livro torna fácil torcer por Adam, pelo seu sucesso, pela sua relação com Blue, mas o segundo livro assiste à sua total transformação no tipo de rapaz que não suporto. Continuem a ler para perceber porquê.

2. Personagens
Maltratado pelo pai em frente a uma mãe que nunca o defendeu, Adam chega a limites absurdos para recusar a bondade daqueles que o rodeiam, e tudo isso é orgulho – ele quer ter sucesso sozinho, e eu respeito isso, mas ter sucesso sozinho não implica recusar ajuda quando ela é precisa, ou afastar pessoas só porque têm mais sucesso do que nós, ou descarregar a nossa raiva esmurrando paredes enquanto a nossa namorada tenta ter uma conversa séria connosco. Compreendo, e aceito, que pessoas reais reajam a situações de abuso desta forma, mas a forma como a narrativa representa Adam continua a ser problemática – a narrativa quer à força toda que eu simpatize com ele e valide as suas desculpas, mas infelizmente eu sou anti-desculpabilização de comportamentos anti-sociais e nada disto pega comigo. Boa tentativa.

As verdadeiras estrelas do livro são, no entanto, Ronan e Kavinsky. A narrativa é bastante mais imparcial no que lhes toca, e não há qualquer tentativa de os representar como “heróis” ou “boas pessoas”. Kavinsky é uma arma de destruição maciça, e Ronan só lhe fica atrás por ter Gansey como moral compass.

E falando de Gansey, este continua a ser a personagem mais estável do livro; Noah, que, como todos sabemos nesta altura do campeonato, é um fantasma, tem uns quantos momentos para brilhar; e Blue é criminalmente ignorada. É óbvio que os livros não são sobre ela, e continuo fula por me terem tentado convencer que sim.

Há uma grande diferença entre este livro e o primeiro, no entanto – se excluirmos o facto de se dedicar em 80% à relação mutualmente destrutiva de Ronan e Kavinsky. A “maldição” que impede Blue de beijar o amor da sua vida passa para primeiro plano, e temos duas cenas pseudo-românticas com beijos incluídos (e que cenas, a autora merece um prémio por elas). O plot aproveita-se do lento deteriorar da personagem de Adam para se começar a focar em Gansey/Blue, e se havia dúvidas de que este é O Casal Oficial, elas dissipam-se totalmente neste livro.

Infelizmente, e para citar a minha reacção inicial, acho este casal tão entusiasmante como um desenrolador de fita-cola. Oops.

3. Setting/worldbuilding
Tudo o que disse sobre o primeiro livro continua a ser verdade relativamente a este. Cidade pequena, número limitado de cenários, etc. A única coisa que muda é a magnitude daquilo que é “permitido” em termos de magia. Se no primeiro livro pouco mais havia do que videntes e florestas surrealistas, agora temos dragões e monstros retirados directamente dos pesadelos dos nossos protagonistas. É isso. Next!

4. Estilo de escrita
O facto de seguir principalmente Ronan torna o estilo deste livro ligeiramente mais “colorido” do que o anterior. Há insultos que cheguem para manter qualquer um entretido, e referências sexuais de duas em duas páginas. Os diálogos continuam a ser bons, mas uma vez mais, não posso dizer que tenha ficado fascinada com a escrita da autora.

Em resumo...
Adorei The Raven Boys, o primeiro livro desta série. Não adorei The Dream Thieves, e não consigo de forma nenhuma dar-lhe as mesmas quatro estrelas. É um livro que entretém bastante, não me entendam mal, mas só entretém se o leitor já estiver emocionalmente investido nas personagens – caso contrário, suspeito que os plot holes sejam suficiente para demover até os mais corajosos.

Três estrelas, e começa assim a espera pelo terceiro livro da série, Blue Lily, Lily Blue. Esperemos que recupere a qualidade do primeiro!
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Opinião: 'The Raven Boys', Maggie Stiefvater



★ ★ ★ ★ ☆

The Raven Boys
Maggie Stiefvater

Every year, Blue Sargent stands next to her clairvoyant mother as the soon-to-be dead walk past. Blue never sees them--until this year, when a boy emerges from the dark and speaks to her.

His name is Gansey, a rich student at Aglionby, the local private school. Blue has a policy of staying away from Aglionby boys. Known as Raven Boys, they can only mean trouble.

But Blue is drawn to Gansey, in a way she can't entirely explain. He is on a quest that has encompassed three other Raven Boys: Adam, the scholarship student who resents the privilege around him; Ronan, the fierce soul whose emotions range from anger to despair; and Noah, the taciturn watcher who notices many things but says very little.

For as long as she can remember, Blue has been warned that she will cause her true love to die. She doesn't believe in true love, and never thought this would be a problem. But as her life becomes caught up in the strange and sinister world of the Raven Boys, she's not so sure anymore.

Por que é que li este livro?
Porque fiquei traumatizada quando acabei The Secret History, e nada me parecia bom o suficiente para aligeirar a transição dessa real obra de arte para a restante ficção plebeia à minha disposição. Mais uma vez, o Tumblr salvou-me, e sugeriu esta série – ensemble cast, jovens vagamente pretensiosos obcecados com tempos há muito passados, e talvez até homicídio. Não soa perfeito?

1. Plot
Ora bem. Estão a ver aquele blurb? Esqueçam. A secção de marketing esforça-se muito por vender The Raven Boys como um trágico romance YA entre um rapaz quase morto e uma rapariga que está destinada a matar o seu verdadeiro amor com um beijo, mas na vida real... aquilo que o livro efectivamente oferece nada tem a ver com isso. Alinhem comigo num suspiro de alívio colectivo.

The Raven Boys, por muito que queira dar protagonismo a Blue na sinopse e no primeiro capítulo, é a história de um grupo de rapazes cuja relação precede, em muito, o surgimento de Blue nas suas vidas. Gansey, um menino rico de um colégio privado, passa os seus dias armado com medidores EMF e demais instrumentos de investigação paranormal. O seu objectivo é identificar a ley line que, segundo ele, passa perto do seu colégio, e depois encontrar o rei Galês que se encontra sepultado algures sobre (ou sob, depende da perspectiva) essa linha.

Blue, por outro lado, tem os pés bem assentes na terra, se exceptuarmos o facto de ser a única pessoa sem grande aptidão paranormal na sua casa habitada exclusivamente por mulheres médiums (a sua mãe, a sua tia, sua prima, uma amiga da mãe, outra amiga da mãe... e por aí fora). Blue tem, no entanto, o poder de amplificar manifestações paranormais para aqueles que as conseguem sentir. Uma noite, Blue acompanha a sua tia ao evento paranormal do ano, onde é possível ver as almas das pessoas que vão morrer nos doze mese seguintes. O objectivo da médium é recolher os nomes destas pessoas, para as poder avisar em tempo útil –se elas lhe pagarem para o saber, claro. Blue apercebe-se da presença da alma de um rapaz da sua idade, a quem pergunta o nome. Ele chama-se Gansey, e o resto, como podem imaginar, é história.

...ou será que é? Talvez seja uma consequência da “maldição” que se abate sobre Blue, mas não existe um único beijo neste livro, e os subplots românticos nunca se sobrepõem à busca do grupo pelo rei Galês. Blue mostra algum interesse, correspondido, por um dos membros do grupo, mas a) não é Gansey, a b) a relação de ambos prima-se por uma inocência e um respeito mútuo que não tem igual em todos os livros YA que já li. Hooray!

2. Personagens
Estes livros têm, mais coisa menos coisa, cinco personagens principais. Em primeiro lugar, os titulares Raven Boys, assim chamados devido ao emblema do colégio que frequentam: Gansey, o protagonista e líder da cruzada paranormal, Ronan, o melhor amigo rebelde que tem um corvo de estimação e uma certa propensão para o street racing, Adam, o outro melhor amigo, oriundo de uma família abusiva e sem o estatuto económico dos seus colegas, e Noah, o grande mistério do grupo, também conhecido como “the smudgy one” . Em quinto lugar, temos Blue, a protagonista idealista, sem paciência para falsidades, e com um ligeiro complexo de inferioridade face à sua falta de poderes psíquicos.

A diferentes níveis e de diferentes formas, diria que as personagens estão bem construídas – parecem pessoas reais, e esse é o maior elogio que posso dar a um livro de ficção. As suas emoções são genuínas, ou parecem-no, e não tomam decisões que não se coadunam com as suas personalidades. São consistentes, lógicas, e é fácil compreendê-las.

Pessoalmente, identifiquei-me mais com Gansey (o menino rico com objectivos de vida absurdos, um coração de ouro, e sem grande filtro entre aquilo que pensa e aquilo que diz, yup, é o meu tipo) e Adam, e quis muito identificar-me com Blue – mas infelizmente, para quem é a narradora do primeiro capítulo do livro, e a pessoa de quem todas as sinopses falam, ela acaba por não ter tanto protagonismo quanto seria desejável. Uma crítica que tenho visto, e com a qual concordo, é que Blue é, de certa forma, uma assistente nas histórias deoutras pessoas. Tendo em conta que esse é o seu poder psíquico, faz sentido que esse seja também o grande tema da história pessoal da Blue – pelo que talvez seja de esperar que ela consiga finalmente promover-se de assistente a protagonista num futuro próximo?

Considerando que o terceiro livro da série (olhem ali na barra direita) usa o palavra "Blue" duas vezes no seu título... acho que devo ter razão.

3. Setting/worldbuilding
Este livro desenrola-se numa pequena cidade na Virginia, num conjunto limitado de cenários, todos eles com algum tipo de significado para o plot em geral: a casa de Blue (e sabemos que médiums são sempre plot-relevant), a fábrica renovada em que Gansey vive com Ronan e Noah, a floresta surreal sobre a ley line, e vagamente, a casa de Adam. Todos estes locais evocam um sentimento diferente no leitor, muito devido à forma como são descritos – as cores, o ambiente, os acontecimentos que lá se desenrolam. A magia que marca a floresta tem regras, o leitor tem perfeita noção delas, e embora o verdadeiro carácter dos talentos psíquicos da família de Blue não seja sempre claro (são só muito observadoras? têm poderes? estão sempre certas? Gansey vai mesmo morrer?), tal não é algo que me tenha incomodado. A parte da mitologia é sem dúvida interessante, e uma base firme para o leitor se orientar na caça ao tesouro.

Basicamente, ninguém vai ler este livro pelo setting, mas em comparação com outros YAs passados no mundo “real”, não há qualquer queixa a fazer. É um setting. Acontecem coisas. Voltem acima e leiam os pontos 1 e 2, que são os que me efectivamente me permitem vender-vos este livro.

4. Estilo de escrita
Devo dizer que me passou ligeiramente ao lado, e que não tenho qualquer comentário bonitinho a fazer sobre a escrita de Maggie Stiefvater. Adorei os diálogos, mas o resto da escrita, para mim, foi invisível. Na prática, o que isto quer dizer é que a escrita deste livro cumpre a sua função, mas não se eleva àquele ponto em que passa a ter um peso próprio no desenvolvimento da história – não como a escrita de Angela Carter ou de Tanith Lee, por exemplo.

Leva, no entanto, pontos bónus pelo plot twist de última linha. Adoro plot twists de última linha.

Em resumo...
Adorei The Raven Boys. Certo, o plot é a clássica caça ao tesouro (que não é resolvida neste livro, para que conste), mas as personagens são extraordinárias, e as relações entre elas... bem, dão pano para mangas. Não tem elementos excessivamente problemáticos – sim, porque estou sempre aqui com o meu feminismo à mão para criticar literatura –, a escrita é competente, o worldbuilding é competente, e não me parece que se possa pedir muito mais de um YA. Quatro estrelas, recomendado.

O mesmo não se poderá dizer do segundo, infelizmente. Amanhã há mais!
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Opinião: 'The Corset: A Cultural History', Valerie Steele



★ ★ ★ ☆ ☆

The Corset: A Cultural History
Valerie Steele

An essential element of fashionable dress from the Renaissance into the 20th century, the corset has been viewed not only as an object of eroticism but also as an instrument of torture and subjugation. This is an exploration of the cultural history of the corset.

Continuando na minha vaga de leituras de não-ficção, motivada em grande parte pela experiência marcante (no melhor dos sentidos, acreditem) que foi ler The Secret History em dois ou três dias, o livro que hoje vos trago foca-se naquela que é, para muitos, a peça mais de roupa mais polémica da história da humanidade. Yup, é um livro sobre corpetes - ou espartilhos, se preferirem a palavra que soa mais dolorosa.

Valerie Steele é uma autora especializada em história da moda, e neste livro, dedica-se a uma análise contextualizada da história do corpete, desde as suas origens até aos nossos dias, passando pelo seu auge na época Vitoriana. Em seis capítulos, a autora explora a função original do corpete, visto como um instrumento auxiliar na construção do corpo aristocrático ideal; os movimentos sociais anti-corpete do século XIX, liderados tanto por grupos feministas como por médicos e "homens de ciência"; a forma como o corpete já era, nesta época, sexualizado e visto como um objecto de grande valor erótico; e finalmente, a utilização do corpete nos dias de hoje, associado a novos ideiais de beleza que pouco têm a ver com a aristocracia ideal descrita no início do livro.

É um livro ilustrado com fotografias e gravuras das várias épocas retratadas, o que acaba por compensar o seu tom aborrecido - é um pouco como ler um livro escolar, para ser sincera. Aprendi um par de coisas novas, mas no geral, achei o livro pouco interessante para alguém que já tenha algum conhecimento sobre o assunto. As suas 176 páginas poderiam ter sido melhor aproveitadas com outro tipo de informação.

Três estrelas, e assim continua a busca por um livro que me diga tudo o que preciso de saber sobre corpetes. Não é este. Nope.
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Opinião: 'The Empire Of Death' e 'Heavenly Bodies', Paul Koudounaris



★ ★ ★ ★ ★

The Empire Of Death
Paul Koudounaris

In this tour de force of original cultural history, Paul Koudounaris takes the reader on an unprecedented international tour of macabre and devotional architectural masterpieces in nearly 20 countries. This is the first book to bring together the world's most important charnel sites, ranging from the crypts of the Capuchin monasteries in Italy and the skull-encrusted columns of the ossuary in Évora in Portugal, to the strange tomb of a 1960s wealthy Peruvian nobleman decorated with the exhumed skeletons of his Spanish ancestors. Illustrated with specially taken photographs of sites rarely open to the public and forgotten archive images of others long destroyed, this mesmerising, shocking and deeply moving book is an essential memento mori for our modern age.

Perturba-me muito, não saber se a palavra "tafofilia" existe em bom português. O blog Mort Safe diz que sim, e define a palavra como "a atracção (mórbida ou não, de acordo com o ponto de vista de cada um) por túmulos e cemitérios". Se é possível sofrer de tal coisa, eu sofro, e se é possível ter toda uma carreira tafófila... este senhor tem.

Paul Koudounaris é um autor e fotógrafo de Los Angeles, doutorado em História da Arte, que decidiu dedicar a sua vida literária ao campo dos ossuários e capelas dos ossos. Há quem o considere uma celebridade no campo da arte "macabra", e eu sinto-me inclinada a concordar. Hoje, vou rever os seus dois livros já publicados - juntos não só devido à temática, mas também por me parecer que são melhor apreciados quando lidos em conjunto.

O primeiro dos dois, The Empire Of Death, foi publicado em 2011, e inclui dezenas de fotografias, algumas delas inéditas, de ossuários localizados maioritariamente na Europa. Desde as Catacumbas de Paris ao famoso ossuário de Sedlec, os monumentos mais reconhecíveis estão todos incluídos, acompanhados por exemplos mais humildes como a nossa pequena capela de Campo Maior. Sabiam que, de acordo com Koudounaris, Portugal é o país da Europa com mais estruturas decoradas com ossos humanos? Da próxima vez que vos disserem que não valemos para nada, lembrem-se disso (sempre funciona como ameaça).

As fotografias de Koudounaris são acompanhadas por textos minuciosamente detalhados, que misturam factos históricos e relatos anedóticos do próprio autor. O texto acompanha as diversas fases artísticas da construção destes monumentos, começando pela Contra-Reforma do séc. XVI, e oferece contexto a praticamente todos os monumentos fotografados. Desde criptas onde era comum senhoras "adoptarem" um crânio, a um candelabro feito com pelo menos um exemplar de cada osso do corpo humano, há aqui mais do que informação para os tafófilos (palavra do dia!) interessados.

Relativamente à minha experiência com o livro, tenho de admitir que demorei... praticamente um ano a lê-lo. Em primeiro lugar, com imagens tão fabulosas, a tentação de ler apenas as legendas é muito grande; em segundo lugar, achei o texto talvez um tudo-nada demasiado académico. Ainda assim, este é um livro com pelo menos algumas pretensões académicas, pelo que não me parece justo acusá-lo de usar um tom errado. Simplesmente, não foi um que me desse vontade de "devorar" o livro. Mesmo assim, leva cinco estrelas, porque é o melhor livro que alguma vez li sobre o tema.

Vantagens de ser o único autor num dado campo de estudos, huh?



★ ★ ★ ★ ★

Heavenly Bodies
Paul Koudounaris

Following on the success of his book The Empire of Death , which has attracted a global cult following, Paul Koudounaris brings the catacomb saints out of the darkness with this astonishing volume, which includes arresting images of more than seventy spectacular jeweled skeletons and the fascinating stories of dozens more, accompanied by rare archive material. This is the first time that some of these incredible relics both intriguing historical artifacts and masterpieces of artistic craftsmanship in their own right have appeared in a publication, with Koudounaris gaining unprecedented access to photograph in some of the most secretive religious establishments in Europe. This will be essential reading for goths, art historians and everyone in between.

Ora, a questão é que o problema do tom excessivamente académico é rectificado com o segundo livro do autor, Heavenly Bodies. Este é mais pequeno, mais prático de manusear, e pareceu-me, até mesmo pela encadernação (tem um dustjacket, coisa que ao primeiro falta), que foi publicado com a intenção de ser lido, ao invés do primeiro, que é um livro para ser "mostrado". Sabem aqueles livros da Taschen que toda a gente tem nas mesinhas de centro mas ninguém lê, efectivamente? Pois, refiro-me a isso.

Heavenly Bodies é, para mim, o melhor destes dois - e o seu tema empresta-se mais à comédia, diga-se de passagem. Este volume, publicado em 2013, conta a história praticamente esquecida de um grupo de esqueletos retirado das Catacumbas Romanas no século XVII, e posteriormente decorado lascivamente (se alguma vez houve contexto para esta palavra, é este) por equipas de freiras, com jóias e vestes do mais exuberante possível. Se isto soa a black comedy, esperem até vos ser dito que estes esqueletos, de origem humilde, foram erradamente identificados como mártires do início da Era Cristã, decorados como tal, e depois exportados para territórios de língua Alemã como uma estratégia de Contra-Reforma Cristã. A maioria foi destruída durante o Iluminismo, quando finalmente se ganhou consciência do ridículo de tal prática, mas Koudounaris conseguiu acesso aos exemplares sobreviventes (certo, sobreviventes...), e daí saiu este livro.

Aqui, o tom académico é colocado de lado para dar lugar a um tom mais informal, quase irónico em determinadas passagens. Dei por mim a rir à gargalhada várias vezes, com descrições do Papa a descer às Catacumbas e a apontar os esqueletos que, tinha ele a certeza, eram mártires, ou com a fase em que a criatividade para baptizar mártires começou a esgotar-se, dando azo a pérolas como Saint Anonymous, Saint Incognitus, and Saint Innominabilis.

Há algo, para mim, de muito trágico em toda esta história, mas também de... ingénuo. Adorei ler este livro, e merece cinco estrelas mais sólidas do que o primeiro. Quer dizer, quase chorei com a história de dois "santos" que foram retirados da sua igreja contra a vontade da população, e devolvidos 70 anos depois. Ha dias assim. A vida real consegue ser mais estranha do que a ficção.

Agora... tenho ouvido rumores de que Paul Koudounaris anda a investigar demónios sexuais e gatos possuídos por demónios. Para quando os livros?
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Opinião: 'The Secret History', Donna Tartt



★ ★ ★ ★ ☆

The Secret History (publicado como A História Secreta em PT)
Donna Tartt

Richard Papen arrived at Hampden College in New England and was quickly seduced by an elite group of five students, all Greek scholars, all worldly, self-assured, and, at first glance, all highly unapproachable. As Richard is drawn into their inner circle, he learns a terrifying secret that binds them to one another... a secret about an incident in the woods in the dead of night where an ancient rite was brought to brutal life... and led to a gruesome death. And that was just the beginning...

Por que é que li este livro?
Posso ser sincera? Gráficos bonitos no Tumblr. Essa foi a primeira gota. A última chegou há uns tempos, quando pedi ao meu Facebook que me sugerisse hangover books (vocês sabem... aqueles que nos deixam meios atordoados e incapazes de começar outro livro num futuro imediato) e uma amiga me sugeriu este livro. Pareceu-me que as estrelas se tinham finalmente alinhado.

Além disso, quem é que não quer acompanhar um protagonista desajeitado na sua busca pela atenção e amizade dos seus cinco senpais colegas de turma?

1. Plot
Já vi este livro descrito não como um whodunnit, mas um whydunnit. As primeiras páginas dão-nos a informação clara de quem um rapaz de nome Bunny foi morto pelo nosso protagonista & companhia, e a primeira metade do livro dedica-se principalmente à tarefa de reunir os personagens principais, dar-lhes um motivo, e colocá-los no local do crime. Todos sabemos que vai acontecer, mas ver toda a ginástica mental que é necessária por parte do grupo para efectivamente levar o seu plano avante acrescenta um novo nível de dor a esta leitura. A segunda metade do livro dedica-se à aftermath do crime - a investigação criminal, o aperto do cerco policial, a coragem necessária para ir ao funeral de um amigo que se assassinou. Nesta fase, acho que é legítimo dizer que o leitor já não está muito preocupado com o crime em si - é a lenta degradação das personagens, das suas relações e do seu carácter, que nos faz virar a página.

Este não é um livro rápido. Não é um page-turner. É, sim, o tipo de livro que sádicos como eu usam para entretenimento quando queremos ver seres humanos em espirais de auto-destruição, mas estamos demasiado doentes e fracos para os colocar lá. (confiem em mim, estava de cama quando li isto, sei do que falo)

2. Personagens
Richard Papen, o nosso protagonista, é um rapazito pretensioso. Muito se tem falado de protagonistas pretensiosos ultimamente, em grande parte devido ao sucesso estrondoso de livros como The Fault In Our Stars (shots fired), mas acho que Richard é bem capaz de levar a taça nesta categoria. Depois de uma infância aborrecida numa pequena cidade na Califórnia, Richard ingressa no Hampden College, Nova Inglaterra, onde aproveita para criar uma nova personalidade para si mesmo, uma que não destoe entre os seus novos e privilegiados colegas. A vida de Richard é um jogo de aparências, desde a forma como se veste à forma como trata as pessoas à sua volta - e não me venham dizer que frases como "apetecia-me agarrá-la, violá-la" não são um óptimo exemplo de um rapaz a tentar representar à força toda uma personalidade (super dominante, super hetero, super máscula) que nada tem a ver com a sua. Pessoalmente, acho Richard uma pessoa detestável, mas um óptimo narrador para este tipo de livro. Sejamos sinceros, muitos de nós também não hesitariam em mentir um bocadinho para impressionar uns quantos lobos em pele de cordeiro.

O grupo principal fica depois completo com Henry Winter, génio pouco emotivo e mastermind do grupo; Bunny Corcoran, racista, homofóbico, e em bom português, amigo da onça... também conhecido como Asshole Victim; Francis Abernathy, um misto de príncipe e Jack The Ripper (toda a gente adora esta citação, não olhem para mim); e Camilla e Charles Macaulay, os gémeos órfãos aparentemente funcionais. O mentor do grupo dá pelo nome de Julian Morrow, o professor de grego mais despótico que alguma vez li, e devo confessar, também a personagem que menos compreendi. Se a princípio pensei que isto ia dar numa de The Philosophers, com o professor a convencer os seus pupilos da beleza de um homicídio bem cometido... afinal Julian acaba por ficar mais traumatizado do que o leitor quando descobre os pequenos monstros a quem andou a ensinar filosofia. Oops.

Uma crítica que tive relativamente a este grupo, assim que acabei de ler o livro, foi o facto de incluir apenas uma rapariga, aliado ao facto de a sua inclusão parecer servir o único propósito de dar ao livro uns quantos subplots românticos. “Parecer” é, no entanto, a palavra-chave, ou não fossem as relações entre os rapazes do grupo um labirinto igualmente complexo de atracções mal resolvidas. Como diria esta citação nunca de facto presente no livro:

Fine, okay. I guess we’re not really family. It’s more complicated than that because unlike a real family there’s nothing to stop any one of us from looking at each other as sexual prospects.

Mas voltando a Camilla. Camilla é a única rapariga do grupo, e agora percebo porquê. Este livro é, muito basicamente, um estudo sobre o conceito de privilégio, e Camilla existe na posição em que existe para demonstrar isso mesmo - este é um mundo de homens, e não existem muitas formas aceitáveis de ser mulher nele, pelo que Camilla se debate constantemente entre a sua personalidade, e a personalidade adequada aos frágeis egos dos rapazes com quem se dá. Esta não é, de todo, a minha forma favorita de levar o feminismo para a ficção – já o disse muitas vezes, mostrar opressão não chega, é preciso que a personagem oprimida tenha uma oportunidade para combater essa opressão –, mas devo admitir que aqui... até funciona.

3. Setting/worldbuilding
Uma universidade Americana nos anos 80. Richard tem aulas de grego, partilha o seu dormitório com todo um exército de consumidores de substâncias várias, toda a gente bebe, toda a gente fuma, toda a gente adora excessos e drogas e rock n'roll.

E curiosamente, não foi isto que me ficou como imagem mental quando acabei este livro. Nope. O que ficou foi a floresta. E os lagos, e a casa de campo, e a ravina onde Bunny morreu, e a casa dos gémeos tão ridiculamente decorada com todos os tipos de oddities, e o cemitério, e o escritório de Julian que cheirava sempre a flores frescas e chá acabado de fazer. Ficaram as folhas que iam mudando de cor com as estações, e ficou a casa-de-banho ensanguentada depois da orgia (right, talvez já devesse ter mencionado isso, pessoal... há uma orgia, conhecida oficialmente por Bacanal).

Basicamente, ficaram os sentimentos e as imagens invocadas pelo setting, mas nenhum facto concreto sobre o setting em si. Não me vão ouvir a queixar, pois adoro quando isto acontece.

4. Estilo de escrita
Ooooooooh, boy. Donna Tartt escreve bem que se farta (se repararem, este é um elogio que reservo apenas aos escritores tão bons que até irritam), e não há página do livro que não se possa citar de forma pretensiosa para impressionar os nossos inimigos mais próximos. É possível que o estilo do livro seja demasiado purple para alguns, mas não o é para mim – afinal, eu sigo a escola de pensamento Angela Carter e os seus dois mandamentos. Escreve prosa bonita, e nunca peças desculpa por ela.

Em resumo...
Imaginem um prédio. Se o prédio cair, as críticas vão concentrar-se na sua estrutura, nas suas falhas, na forma como foi construído. Mas se o prédio não cair, que é o mínimo que se pode exigir dele... vamos elogiar a técnica que o construiu? Vamos dedicar centenas de palavras à forma como os responsáveis conseguiram colocar um tijolo em cima do outro e manter o edifício de pé? Nope. Vamos mencionar tudo isso, claro, mas depois vamos acabar por nos concentrar em coisas inúteis como "adoro aquela gárgula", ou "o corrimão da escada principal não serve para nada mas é bonito e eu gosto".

É por isto que sou tão má a opinar sobre livros que me agradam. É difícil manter-me concentrada, e é difícil manter-me séria, porque as coisas que gosto neles não estão em nada relacionadas com críticas objectivas que vos poderiam levar a lê-los. Senti-me em casa, com este livro. Senti que conhecia estas pessoas, e senti-me muito, muito investida nas vidas delas. É mais um daqueles casos em que as personagens e a escrita são tão boas que eu não me importaria se todo o livro fosse uma lista de compras.

Leiam The Secret History, pessoal. Jantar de cinco estrelas para dois, cogumelos, bilhetes para a América do Sul, revólver. É das melhores listas de compras que alguma vez li.
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Review: 'A Face Like Glass', Frances Hardinge



★ ★ ★ ☆ ☆

A Face Like Glass
Frances Hardinge
Ebook, aprox. 490 pages

In the underground city of Caverna the world's most skilled craftsmen toil in the darkness to create delicacies beyond compare. They create wines that can remove memories, cheeses that can make you hallucinate and perfumes that convince you to trust the wearer even as they slit your throat. The people of Caverna are more ordinary, but for one thing: their faces are as blank as untouched snow. Expressions must be learned. Only the famous Facesmiths can teach a person to show (or fake) joy, despair or fear — at a price.

Into this dark and distrustful world comes Neverfell, a little girl with no memory of her past and a face so terrifying to those around her that she must wear a mask at all times. For Neverfell's emotions are as obvious on her face as those of the most skilled Facesmiths, though entirely genuine. And that makes her very dangerous indeed...

Why did I read this book?
A world where facial expressions need to be learned, otherwise people's faces are always blank? How brilliant is that? That's all it took to get me interested in the book. I think I might have seen it recommended somewhere... but at this point I really can't remember.

1. Plot
Once upon a time, in an underground city where people were naturally unable to show facial expressions, there was a girl named Neverfell whose face was incredibly expressive. She'd always lived with her adoptive father, an old cheesemaker, in a secluded part of this aforementioned underground city, but one day she found a way out of his tunnels... and escaped into the big bad world outside. Mind you, I'm using outside as a relative term - she escapes the cheesemaker's tunnels to find larger, public tunnels, that's what I mean. She meets friendly nobles and unfriendly nobles, wins the favor of half of The Grand Steward (it's... complicated, I'll get there in a second), becomes his favorite food taster, spends half the book running and hiding, and eventually decides to save the poor and the oppressed by making them climb a rope ladder up into the Overground. Note, the Overground really is outside. It's where you and I live, with sky and birds and sunlight.

The plot twists and turns and I will admit it was hard, at times, to tell friend from foe, but then it got too caught up in court politics and I lost interest. And maybe even that isn't completely true, because I don't think I ever truly gained interest. Let me tell you something. 31 users on Goodreads have shelved this book as "Childrens > Middle Grade", while 51 users have shelved it as "Young Adult", and either way, it’s definitely too young for me. The stakes are high, true, but the author has a way of plucking our protagonist from trouble in the most Deus Ex Machina of ways ("and at that precise moment someone walked in"), to a point where I stop caring because I know she'll make it out, no matter what happens. Now, I understand this is probably what writers want to give a younger target audience, a little bit of hope, a little bit of "there's always a way out"... but I'm an older, slightly cynical reader, and it didn't work for me.

2. Characters
Our protagonist, Neverfell, is really young and hopeful and clumsy, and I can see why she's headlining this book. I couldn't empathise with her, though, because I kept snapping out of the story due to her jumbled thoughts. In a way, I felt like her "strangeness" and "craziness" were nothing but excuses to have Neverfell do these incredible deductions that make no sense in context, but are needed to move the plot along.

There are many other relevant characters, but I won’t get into them. What I will say, though, is that, in general, I didn't think there was much character development. The characters didn’t really grow throughout the book, except when the plot needed them to reveal themselves as hidden villains or allies – then, they’d sort of “snap” and become a different person altogether.

There is an honorable mention, though, for The Grand Steward of Caverna. In Frances Hardinge's own words, from her website, "the two halves of his brain take it in turn to sleep, so that one of them is always awake [...] one is cold, curt and does not suffer fools gladly, while the other is mute and unpredictable, communicating only in gestures". This, in my opinion, was all it took to create one of the most interesting, not to mention tragic, characters I've read in a while. It's bad enough when two halves of the brain work different shifts - it gets worse when they start thinking of each other as enemies.

3. Setting/worldbuilding
The setting is, by far, the best thing about this book. Hardinge explores various implications of the whole expressions-must-be-taught scenario, from the difficulties in everyday communication (you can’t tell what people are thinking, you’re never sure they’re not lying to you, you may not have the right face to portray what you’re feeling so you’ll have to approximate with an expression that may not be quite right) to the classist implications of not teaching the exploited workers any unhappy faces (since their expressions are all neutral, they’re unable to show anger or exhaustion, which in turn prompts the nobles to treat them as robots and push them further).

I also liked the magical side of Caverna – the underground city is very much part of the real world you and I live in, but you see, people have discovered some sort of magic that allows them to create True Delicacies. These include wines able to erase or recover memories, cheeses that bring visions of the future, and perfumes that influence social interactions. There is a whole range of magical artifacts that can be used to further the plot, and Hardinge makes use of all of them.

4. Writing style
I underlined maybe one passage, so style-wise, we can say I found this book unremarkable - but again, considering the target audience, I think it does the job just fine. The first half could have been shortened, though. As is, it’s too slow to build up, which then leaves only the second half to develop and wrap up the whole plot. A little more balance would have been great.

Long story short...
I did not dislike this book. It lacks the sharp edges and grey moralities that make me boost ratings around here, but it's not fair to demand that from a book that's somewhere between middle grade and YA. Were I a few years younger, perhaps ten years younger, I think I would have loved this – but alas, today, it will only get three stars.
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Review: 'The Melancholy Of Anatomy', Shelley Jackson



★ ★ ★ ★ ☆

The Melancholy Of Anatomy
Shelley Jackson
Ebook, aprox. 200 pages

Amusing, touching, and unsettling, The Melancholy Of Anatomy is that most wonderful of fictions, one that makes us see the world in an entirely new light. Here is the body turned inside out, its members set free, its humors released upon the world. Hearts bigger than planets devour light and warp the space around them; the city of London has a menstrual flow that gushes through its underground pipes; gobs of phlegm cement friendships and sexual relationships; and a floating fetus larger than a human becomes the new town pastor. In this debut story collection, Shelley Jackson rewrites our private passages, and translates the dumb show of the body into prose as gorgeous as it is unhygienic.

Why did I read this book? First, the title-cover combo did the job of getting my attention. Then, the blurb struck me as very experimental, perhaps even a little pretentious. I googled Shelley Jackson, found her novel Half Life, and realised she was probably the kind of writer my bookshelf would like to be friends with.

I was right. The Melancholy Of Anatomy might just be the most original book I've ever read. It's a short story collection, which opens with a short short piece titled Heart before splitting into four sections, according to the four temperaments: Choleric brings us Egg, Sperm, and Foetus; Melancholic delivers Cancer, Nerve, and Dildo; Phlegmatic is composed of Phlegm, Hair, and Sleep; and Sanguine closes the show with Blood, Milk, and Fat.

Style-wise, Jackson is just the kind of writer I like - her words are beautiful and intricate, but they never overpower her content. It would be easy to file something this experimental under the good old "style and no substance" category, but there's a moment in every single one of Jackson's stories where you just can't pretend you're reading mindless surrealism. I've read short stories by Haruki Murakami, and those, I had to make peace with - sometimes, they really don't make any sense. But Jackson's stories do. Foetuses float and cities menstruate, but the people who inhabit this world are very much like the people who inhabit our own - their struggles are our struggles, sometimes oversimplified, sometimes exaggerated. Sure, they obsess over eggs and fall in love with nerve bundles, but so do we. They exchange bodily fluids to ascertain relationships, so do we. They try to keep their houses and cities squeaky clean, sterile, so do we. They battle blood and fat and their own organic fluids. So do we.

Coming as no surprise, considering the references I just made, my favorite stories of the bunch were Nerve and Blood, which were incredibly bittersweet, and tremendously well thought out, respectively. Besides those, Heart, Foetus, Cancer, and Fat will stay with me for a really, really long time. There was just one little thing I could have lived without, and that was Phlegm. A reviewer on Goodreads stated she "could not read [it] all the way through because it made [her] want to cry and die", and I have to agree. I made it through the whole thing relatively unharmed, and I did find the human element of the story very good, but gods, why phlegm. Why.

I was fully convinced, then and there, that Shelley Jackson doesn't give a damn about her reader's comfort, and I love her for it. This is a surreal, sometimes gross, sometimes shocking book. But it's also one of the most honest takes on the human condition (with all its strange fluids and organic mishaps) that I've ever read, and for that, it gets four stars. Probably five in three months, when I look back and realise I haven't stopped thinking about it. Go read it!
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Review: 'Angelopolis', Danielle Trussoni



★ ★ ☆ ☆ ☆

Angelopolis
Danielle Trussoni
Ebook, aprox. 320 pages

A decade has passed since Verlaine saw Evangeline alight from the Brooklyn Bridge, the sight of her new wings a betrayal that haunts him still. Now an elite angel hunter for the Society of Angelology, he pursues his mission with single-minded devotion: to capture, imprison, and eliminate her kind.

But when Evangeline suddenly appears on a twilit Paris street, Verlaine finds her nature to be unlike any of the other creatures he so mercilessly pursues, casting him into a spiral of doubt and confusion that only grows when she is abducted before his eyes by a creature who has topped the society’s most-wanted list for more than a century. The ensuing chase drives Verlaine and his fellow angelologists from the shadows of the Eiffel Tower to the palaces of St. Petersburg and deep into the provinces of Siberia and the Black Sea coast, where the truth of Evangeline’s origins — as well as forces that could restore or annihilate them all—lie in wait.

Why did I read this book?
I am a bit of an angel fangirl, I have my own angel books to publish one day (hopefully) and I read Angelology back when it came out in 2010. I was... disappointed, to say the least, but alas, I have a slightly masochistic streak that makes me want to give bad books a second chance.

So, Angelology had quite a few flaws - three different POVs in three different timelines, a terrible love story, and a final twist that caught exactly no one by surprise. I was hoping Angelopolis would correct some of these flaws, and while it did... it also created some new, equally bad ones. Let me walk you through them.

1. Plot
From what I gather, this book has one main plot point and that is... Verlaine, who is now an angel hunter, needs/wants to find Evangeline. Why? Well, let’s see if I can explain it. Professionally, he needs to find her so he can kill her, but personally, he spends half the book yapping about how important she is to him even though they haven’t seen each other or communicated in any way in over ten years. Besides, let me remind you all that Angelology ended with Evangeline perched on a bridge opening her plot twisty angel wings, and Verlaine looking at her from below, in complete despair because that meant the end of their love story, even though they’d known each other for 48 hours.

I have a very big problem with this. Evangeline was the main character in the first book, so why was she only given 2-3 pages of “screentime” in this one? Why did the author decide to transform her just-turned-Nephilim (that's a human/angel hybrid, for the uninitiated) main character into a plot device to fuel Verlaine’s manpain? I would rather have read about Evangeline’s transformation. How does this woman cope with life as a Nephilim when the events of the first book have taught her to fear them above all else? How does she cope with becoming a monster, every inch like the monsters responsible for the eradication of her family? How does she learn to use her new powers? Is he self-taught? Does she make friends among the old Nephilim families? How does this transformation change her, as opposed to how does this transformation change the guy who fell for her in the first book? Personally, I found the POV change rather unsuccessful, simply because it kept a curtain between me and the things I truly wanted to know.

About the plot development itself... it was weak. I’ve told you about Verlaine’s goal, but that goal is nothing but an excuse to unveil conspiracies and historical secrets related to Fabergé eggs (hence the cover), John Dee’s hypothetical talks with angels, a pre-diluvian seed bank, and a Panopticon for angels. I love alternate interpretations of Biblical texts and Christan mythology, I really do, but if your goal is to write entertaining fiction, sometimes you need to know where to hold back the history and focus on the actual story.

2. Characters
I’ve mentioned that Angelology, this book’s predecessor, commited the grave mistake of telling three different stories in three different timelines – two of those timelines were much more interesting than the others, and it just so happened that the least interesting of all was the contemporary timeline, the one where Evangeline and Verlaine meet. Why? Well, because the characters couldn’t keep me interested.

So let me tell you, if the characters were bad in Angelology, you don’t want to hear about Angelopolis. Here, characters are nothing but names and physical descriptions – they sit around, they talk, sometimes they act, but they never really feel, and the same goes for me. It’s hard for me to stay interested in a book if I can’t connect with at least one of the characters, and these people were nothing but walking, talking textbooks. Their motivations, when not strictly professional, were a mystery to me – and let’s be honest, even if we assume their motivations were all strictly professional, who wants to read a book about people robotically doing their jobs?

3. Setting/worldbuilding
Now, if there's one thing Danielle Trussoni is good at, is creating ambiance. From dark alleys in Paris to antique shops in St. Petersburg, from barren landscapes seen through the windows of the trans-siberian to greenhouses in Bulgaria filled with nothing but pre-diluvian plants... when Danielle Trussoni writes it, I can imagine myself there. The problem is... well, ambiance doesn't sell books unless you're Angela Carter (and your characters have a personality).

Apart from that, my biggest setting-related complaint goes to the way the author has chosen to frame her Nephilim. Back in 2010, I described this setting as "Nephilim are real and live undercover in their big-ass NYC penthouses" and "they're obnoxiously rich and throw parties round the clock and are responsible for all the evil in the world". This is all fine and dandy, more than fine and dandy, but the problem, I think, is that Danielle Trussoni doesn't know where to stop - if, in the first book, the Nephilim were connected to everyone from Adolf Hitler to Karl Marx, and I thought that was over the top, now they're also connected to the whole Romanov dynasty and Coco Chanel. Oh, and Jesus was a Nephilim too. We've gone from "interesting take on historical details" to full on conspiracy theory.


By now you all probably know I am a hardcore defender of the entertainment value of shows like Ancient Aliens, so... skip this book, go watch Giorgio A. Tsoukalos and his pyramid theories instead.

4. Writing style
I do remember liking, perhaps even loving the writing style in Angelology, but sadly, I didn’t feel that same wow factor in this book. While I have complimented the author’s ability to create ambiance and describe a setting to create a mood, the rest of the writing was definitely lackluster. The dialogues were wooden and unnatural - though perhaps we can consider that an unfortunate consequence of having only academic-type characters infodumping around coffee tables -, and the biggest chunk of writing was dedicated to exposition as opposed to character development and, you know, actual action.

Long story short...
Angelopolis is a disappointment. It doesn't live up to its already flawed predecessor, and it tries really hard to pave the way for a hypothetical third installment where, I assume, all hell will break loose and Evangeline and Verlaine will lead opposing factions into battle. It gets two stars from me, and before you ask... yes, yes, I'm pretty sure I'll still read the third one.

I have a slightly masochistic streak that makes me want to give bad books a third chance.
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White Christmas Recap: Episode 02



Hello fellow White Christmas fans, and welcome to shipping central! First of all, I’d like to thank everyone who commented on the first installment of this recap, and/or reblogged it on Tumblr – also, thank you Mariam Watt for correcting me about Kangmo’s hearing aid! Yup. Cochlear implant. I will correct the previous post as soon as I can.

Like before, spoilers FOR THE WHOLE SHOW ahead, so don’t read if you haven’t watched it.

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White Christmas Recap: Episode 01



Today, I bring you something a little different. After AHS:Coven ended, I realised I'd love to start writing episode recaps. I don't watch a lot of TV, but when I do, I tend to stay with the shows because there are various things I like about them - and the more things I like, the more I have to say. But, alas, Coven was too ambitious to start with, so I thought... why not recap White Christmas? It's a Korean drama, not one of the most popular, sadly, and there aren't that many recaps out there, so one more really can't hurt. Here's what Wikipedia has to say:

A series of deaths, including murder and suicide, take place over eight days in a private, elite high school deep in the mountains, with the students cut off from the outside world and in highly volatile and unstable emotional conditions. The drama deals with the question of whether evil is organic or environmental, and the potential for adolescents to be extremely empathetic as well as equally cruel.

And here's what I'd like you to know: I'm going to talk about all the things that I like. I'm going to talk about foreshadowing, costume design, character relationships, camera angles, and whatever else I feel like adding. I will make regular pauses to look at pretty faces, and I will be slightly sarcastic about the whole thing. I will also spoil you, a lot, because I want to do a sort of hindsight recap and discuss the way certain quotes and scenes influence the ending. Conclusion: don't read this recap if you haven't watched THE WHOLE SHOW.

Let's go!

[edit: Read More links aren't working for some reason, so please click here]

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[ENG] "Pacific Rim: The Official Movie Novelization" by Alex Irvine



★ ★ ☆ ☆ ☆

Pacific Rim: The Official Movie Novelization
Alex Irvine
Ebook, aprox. 270 pages

When legions of monstrous creatures, known as Kaiju, started rising from the sea, a war began that would take millions of lives and consume humanity's resources for years on end. To combat the giant Kaiju, a special type of weapon was devised: massive robots, called Jaegers, which are controlled simultaneously by two pilots whose minds are locked in a neural bridge. But even the Jaegers are proving nearly defenseless in the face of the relentless Kaiju.

On the verge of defeat, the forces defending mankind have no choice but to turn to two unlikely heroes-a washed up former pilot and an untested trainee - who are teamed to drive a legendary but seemingly obsolete Jaeger from the past. Together, they stand as mankind's last hope against the mounting apocalypse.

I know, I know, so many good books in the world and here I am reviewing a movie novelization, shame on me. Well, at least we all know who to blame.



And perhaps we should add Tacit Ronin to the list too, since it's my favorite Jaeger of all time. It's my inner bug enthusiast, I look at it and all I see is a massive praying mantis.



But anyway, to the book! I won't write an exhaustive review, because most of us have watched the movie and know all about the plot, the characters, and the worldbuilding - there's no use in repeating all of that! Now, I chose to read this novelization because Pacific Rim really did grow on me over the past year. If at first I was a little disappointed in the movie (not enough robots, I said over and over again, not enough robots), as soon as I rewatched it, I was dragged into the hype all over again. I just couldn't stop thinking about the nearly unlimited potential of this Jaeger/Kaiju concept. I might have read 90% of the Wiki in a couple of days. And then, because my thirst for knowledge and backstory was so strong, I decided to read the book. Aaaaaaand I was disappointed.

This book's main problem is the writing style. Raleigh Beckett acts as our POV character, and I'll be honest, he's quite entertaining and witty at first. There are lots of little side notes and in-jokes that make the book a lot of fun, even if you've just finished watching the movie. The problem is that... it doesn't last. After a few dozen pages, the book goes downhill, quickly turning into, to put it simply, a step-by-step description of the movie. I don't know what's the usual modus operandi for writing novelizations, but it seriously seems like the author sat in a movie theatre, watched Pacific Rim, and described everything he saw on the screen. Then, to make people pay for the book, he scattered about a few extra tidbits. Profit!

The implications of this are really bad. You see, I don't like using the old show/tell comparison, because I don't think it holds all the time, but I'll have to use it here - this book is nothing but tell. There's no emotion. The characters have no inner lives. There are no risks, no challenges, and there's no causality from one action to the other. Imagine Striker Eureka punching a Kaiju on screen. The book will say "Striker Eureka punched a Kaiju". It's just... not good enough. Oh, and there's no character development either.

The other big problem here is that the book has no structure. It doesn't even look like something that's been planned - the author jumps from major scene to major scene without bothering to set things up or pad the events. One minute two Jaegers have been lost, next minute we're running all the way to the Breach with a bomb strapped to Striker's back. About the aforementioned tidbits of extra information, I'd just like to say... I wanted to learn more about the side characters (Tendo Choi, the Wei triplets, the Kaidanovskys, maybe even Pentecost?), but the extra info I did get arrived in the shape of "official documents" and newspaper cut-outs. They were mostly worldbuilding extras, really - still interesting, but not quite what I had in mind.

Finally, I'd like to mention the ending. The ending was one of the best parts of Pacific Rim, for me. Why? Well, because the leads didn't kiss, of course! It was a welcome change, and I was really happy with it. Unfortunately, good things never last, and they actually did kiss in the book. I didn't deserve that.

So, let's conclude this. This novelization is not a good novelization, and I think it could have been. Pacific Rim is a movie that relies heavily on the visuals and little on the actual plot - Cherno Alpha taunting the enemy via banging its fists together, the boat sword, the way everyone in the theatre gasped when Otachi opened its wings.... these are moments you can't recreate half as effectively in a book, for obvious reasons, but that still doesn't mean there wasn't anything worth exploring in print. What about Raleigh's trauma after losing his brother, or Pentecost's health problems, or Mako's big damn moment where she finally got to pilot a Jaeger? How did these people feel, throughout the movie? The book could have delved deeper into the inner lives of the characters, instead of simply grazing the surface in a bland retelling of the movie. Besides, the extras really weren't worth it - so I'm giving this a two-star rating.

Now the question is... am I going to read the prequel comic? Probably. I'll most definitely buy the artbook, though.
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