Opinião: 'Clean: An Unsanitised History Of Washing', Katherine Ashenburg



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'Clean: An Unsanitised History Of Washing
Katherine Ashenburg

For the first-century Roman, being clean meant a public two-hour soak in baths of various temperatures, a scraping of the body with a miniature rake, and a final application of oil. For the seventeenth-century aristocratic Frenchman, it meant changing his shirt once a day, using perfume to obliterate both his own aroma and everyone else’s, but never immersing himself in – horrors! – water. By the early 1900s, an extraordinary idea took hold in North America – that frequent bathing, perhaps even a daily bath, was advisable. Not since the Roman Empire had people been so clean, and standards became even more extreme as the millennium approached. Now we live in a deodorized world where germophobes shake hands with their elbows and where sales of hand sanitizers, wipes and sprays are skyrocketing.

Juro que não hei-de morrer sem dedicar um ano inteiro da minha vida a ler não-ficção. Não há nada melhor do que mergulhar num tema novo e emergir, duas horas depois, com todo um catálogo de factos interessantes para partilhar com estranhos nas festas mais aborrecidas. Não que eu vá a festas, mas o sentimento mantém-se.

Clean é, tal como o nome indica, um livro sobre higiene - a história da mesma, para ser mais específica. Katherine Ashenburg divide o tema em nove capítulos, da Antiguidade Clássica aos dias de hoje, passando pelas frequentes mudas de camisa dos séculos XVI a XVIII e a obsessão com sabonete da primeira metade do século XX. É um livro divertido, embora não o deva totalmente ao estilo, pois o tema empresta-se bem a uma certa dose de sentido de humor.

Adorei a análise que a autora faz do tema, e a forma como consegue interligar o ideal higiénico de uma sociedade com as suas aspirações e valores morais. Quem pensaria que os mártires Cristãos não tomavam banho por considerar o acto hedonista? (bem, eu pensaria, seria de esperar de pessoal que se alimenta de vinagre e crostas... mas continua a ser um dado interessante)

A única falha que posso apontar ao livro é o facto de me parecer uma análise superficial - não sou nenhuma expert no tema, mas tenho a sensação de que este volume funciona melhor como uma introdução do que propriamente uma "bíblia". Por outro lado, tal acaba por ser uma vantagem para leitores casuais. Não é preciso qualquer conhecimento prévio sobre o assunto para poder apreciar esta viagem pelo mundo da limpeza - e da sujidade. Quatro estrelas, recomendado!
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Sobre Snobismos, Livros A Sério, "Literatura", & Tolkien (sempre Tolkien)


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Aí há uns anos, cometi o erro de dizer que não gosto de Tolkien. Não me refiro com isto ao senhor, claro, que descanse em paz, mas aos três livros que li dele. Já passou muito tempo, e não me lembro exactamente do meu argumento, mas deve ter sido algo do género ele demora duzentas páginas a levar o pessoal do ponto A ao ponto B. O meu interlocutor não gostou da minha opinião, e tentou mostrar-me o meu erro, afirmando que "um escritor a sério" deve ser capaz de pintar uma cena com palavras, e é exactamente isso que Tolkien faz. Segundo ele, quanto mais complexo melhor.

Uns anos depois, escrevi uma opinião no Goodreads sobre um livro que não será nomeado, onde me queixava de um final mal engendrado, de um clímax resolvido por uma arma que, até aí, nunca fora mencionada. Conhecem a expressão Chekhov's Gun? Se a história me mostra uma arma, é bom que seja para a disparar? O reverso, para mim, é quase mais importante - se a história dispara uma arma, é bom que ma tenha mostrado antes.

A minha crítica referia-se exactamente ao este facto - um estranho na internet não gostou, e respondeu, curiosamente, de uma forma que também comparava livros a pinturas. Segundo este comentador, um livro é como um daqueles cadernos para colorir, e embora o leitor deva seguir as indicações gerais do autor, o resultado final está mais dependente da nossa imaginação do que das palavras que nos são dadas. Ou seja, o autor não precisa de mencionar a arma para a disparar - cabe-me a mim, quando ela surge, imaginar que ela sempre lá esteve, no bolso do protagonista, à espera de salvar o dia.

Esta duas pessoas têm, como podemos ver, ideias muito claras sobre aquilo que constitui literatura a sério. Falam-me de formas correctas de escrever e formas correctas de ler, e eu continuo aqui, a pestanejar inocentemente e a questionar-me sobre as razões que levam alguém a convencer-se de que a sua opinião é, na verdade, um facto incontornável.

Aqui entre nós, costumo atribuir a este pessoal a alcunha colectiva (e carinhosa, sempre carinhosa) de O Snob. Existem várias espécies de O Snob, claro. "A J.K. Rowling escreveu o Harry Potter, que eu adoro, e eu adoro-a, logo é a melhor escritora do mundo." "Só gosto de ficção científica, é um género superior que obriga as pessoas a pensar." "A fantasia não tem qualquer valor literário porque os elfos não existem." "YA é só para quem não tem capacidade para ler livros mais avançados." "Só lê esses livros com homens em tronco nu na capa quem precisa de apimentar a sua vida sexual." E por aí fora.

Ter preferências não é, note-se, automaticamente um sintoma de que nos estamos a tornar O Snob. Deixem-me falar-vos sobre mim. Eu não leio romance. Abro raras excepções para romance queer, mas é basicamente isso. Não leio erotica, nas mesmas condições. Leio YA quando os resumos prometem mais do que, vocês adivinharam, romance. Não leio fantasia medieval, porque a minha tolerância para reis e cavalos e cruzadas e casamentos políticos e possivelmente dragões e misoginia disfarçada com um manto de "correcção histórica" é tão reduzida que só pode ser correctamente representada como ZERO.

Estes são os meus gostos pessoais. Definem um campo claro em que me sinto confortável, e ajudam-me a filtrar os milhares de livros a que sou exposta todos os anos. A questão aqui é que um The Secret History ou um The Melancholy Of Anatomy, dois dos melhores livros que li este ano, não são em nada superiores a um The Fault In Our Stars ou a um 50 Shades Of Grey, objectivamente falando. É verdade que estes dois últimos são livros que nunca escolheria para a minha própria estante, por não se enquadrarem nos "filtros" que já mencionei. Também é verdade que, a lê-los, provavelmente iria bater com a cabeça nas paredes e dar-lhes um rating de duas estrelinhas a cada um.

Mas também é verdade que essas duas estrelas vos iriam dizer pouco sobre o livro, e muito sobre mim.

Não acredito em bons livros e maus livros. Acredito em livros, leitores, e magia negra quando se encontram. Muitas vezes, apercebo-me que as minhas ratings negativas estão directamente relacionadas com a minha posição relativamente ao público-alvo do livro. Eu não sou o público-alvo de Twilight, por exemplo. Posso lê-lo na mesma, e opinar na mesma, e dar estrelas na mesma (estrelas negativas, mas hey, azar, são as que correspondem à minha opinião), mas não posso esperar encontrar a perfeição num livro que não me é destinado.

Independentemente disso, a verdade é que milhares de pessoas encontraram a perfeição na série Twilight. Tal como milhares de pessoas encontraram a perfeição na série 50 Shades Of Grey. Porquê? Bem, porque o público-alvo tende a gostar dos livros que lhe são dirigidos, e estes livros têm públicos-alvo bastante vastos.

E é aqui que O Snob, que gosta de apontar para os números e afirmar a qualidade como uma coisa que apenas o seu restrito círculo social compreende, pode entrar e concordar "ah pois, porque o público-alvo são as massas incultas que lêem um livro por ano, só quando vão à praia". Tudo bem, mas se é essa a interpretação dada aos 100 milhões de cópias vendidas de 50 Shades Of Grey... pergunto-me se se mantém para os 150 milhões de The Lord Of The Rings.

Há uma citação de Murakami que ilustra perfeitamente a mentalidade que, me parece, está subjacente às acções d'O Snob: if you only read the books that everyone else is reading, you can only think what everyone else is thinking. Talvez seja uma pretensão de exclusividade que leva O Snob a virar costas àquilo que é popularizado pela sociedade em que se encontra. Talvez seja uma necessidade exacerbada de se mostrar original e misterioso - o quê, estás a ler isso? Por favor, deixa-me recomendar-te este livro muito melhor de que nunca ninguém ouviu falar. Só tem uma review no Goodreads porque ninguém é esperto o suficiente para o compreender. Ah, e sim, fui eu que escrevi.

Não compreendo, nem nunca compreendi, esta necessidade de valorar e policiar o acto de ler - porque aparentemente, ler todos lemos, mas uns Lêem melhor do que outros. Uns Lêem para alargar os seus horizontes ou polir o seu ego com as palavras de escritores mortos que pouco nos vale criticar, enquanto outros lêem para passar o tempo, ou para se apaixonar por pessoas que não existem e obter aí o que lhes falta na vida real. O primeiro leitor não é necessariamente melhor do que o segundo, mas ainda assim persiste a ideia de que faço melhor uso do meu tempo a ler clássicos do que romances Harlequin - pois O Snob parece ter dificuldade em compreender que o meu tempo livre me pertence, e que tenho capacidade plena para decidir o que fazer com ele.

Agradeço as recomendações para Ler Livros de Literatura, a sério, é uma honra, mas para ser sincera... prefiro ler só livros.
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Opinião: 'The Clockwork Scarab', Colleen Gleason



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Clockwork Scarab
Colleen Gleason

Evaline Stoker and Mina Holmes never meant to get into the family business. But when you’re the sister of Bram and the niece of Sherlock, vampire hunting and mystery solving are in your blood. And when two society girls go missing, there’s no one more qualified to investigate.

Now fierce Evaline and logical Mina must resolve their rivalry, navigate the advances of not just one but three mysterious gentlemen, and solve murder with only one clue: a strange Egyptian scarab. The stakes are high. If Stoker and Holmes don’t unravel why the belles of London society are in such danger, they’ll become the next victims.

Por que é que li este livro?
A sobrinha de Sherlock Holmes e a irmã de Bram Stoker são contratadas por Irene Adler para combater o crime na capital Inglesa. Vagamente steampunk. Por que é que eu não havia de ler este livro?

1. Plot
Meninas da alta sociedade Londrina vão desaparecendo sem razão aparente, deixando para trás pequenos escaravelhos mecânicos. E obviamente que têm de ser escaravelhos, porque como sabes, Bob, a sociedade Vitoriana pouco mais inclui do que corpetes e artefactos egípcios. Mas passemos à frente. As nossas heroínas, que não se conhecem de lado nenhum (e que preferiam manter esse gracioso estado de coisas), são chamadas por Irene Adler a pedido da Princesa Alexandra para resolver este estranho caso, e obviamente que a princípio não se entendem. Infiltram-se, lêem muitos livros, fazem asneiras, o Big Bad pode ou não ser uma paródia do movimento feminista (se pretende ser uma representação fiel do mesmo, meus deuses, é terrível), e é basicamente isso. Há triângulos amorosos que em nada contribuem para a história, e as capacidades sobre-humanas das nossas protagonistas acabam por não passar de palavras bonitas no ecrã do meu Kobo. O Big Bad escapa. Há mais do que espaço para escrever uma sequela. Eu queixava-me desta manipulação desavergonhada do leitor, mas não estou suficientemente interessada.

Oh, e há viagens no tempo? Pois, mas nem isso interessa.

2. Personagens
Nem sei por onde começar. Por um lado, apetece-me dizer que nem Mina Holmes nem Evaline Stoker merecem carregar os apelidos dos seus populares parentes. Mas nem é isso que me incomoda. O que me incomoda é que estes apelidos arrastam consigo toda uma série de expectativas para o leitor, que saem completamente furadas neste livro. Mina Holmes é sobrinha de Sherlock Holmes, e tudo nela é exactamente como seria de esperar - inteligente, super inteligente, tão inteligente que detesta festas e a governanta tem medo de entrar no seu laboratório. Não sei bem o que é que a autora pretendia com isto - criar uma versão feminina de Sherlock Holmes? Bem, uma versão feminina de Sherlock Holmes não morreria de amores por um inspector qualquer só porque ele consegue acompanhar o seu raciocínio - e até antecipá-lo! Uma versão feminina de Sherlock Holmes seria, tal como o original, a pessoa mais inteligente em todas as salas onde Mycroft Holmes não está. Isto não acontece com Mina. Mina é uma versão genérica daquilo que uma versão feminina de Sherlock Holmes devia ser, sem qualquer personalidade própria, encaixada num livro que não sabe bem se pretende ser fantasia, mistério, ou romance.

Por outro lado, temos Evaline Stoker, cuja caracterização parece ter sido um pouco mais considerada - é uma caçadora de vampiros, tem super força (que nem uma Buffy Vitoriana, you go girl), e montes de poderes que lhe permitem caçar vampiros. O único problema é que já não existem vampiros em Londres, e Evaline quase desmaia ao ver sangue. Agora... isto poderia ser um plot interessante. O que acontece quando uma pessoa escolhida para determinada tarefa ancestral é completamente incapaz de cumprir com a mesma? Desastres acontecem, obviamente. Auto-estimas destroçadas, crises familiares, sessões constantes de second-guessing. Colleen Gleason não aborda nada disto. O seu pensamento parece ir mais numa linha de esta é a minha caçadora de vampiros mas não há vampiros e ela não gosta de ver sangue, TOMEM LÁ UM TRIÂNGULO AMOROSO.

Parece que a sinopse foi escrita por uma feminista do século vinte e um, e o livro por um médico ultra-conservador do século dezanove. A dissonância cognitiva é elevada o suficiente para me dar quebras de tensão.

Ah, e o melhor personagem de todos. Segurem-se aos vossos corpetes, donzelas, que isto está prestes a aquecer. Dylan Ekhert. Vem do futuro com uma t-shirt da Aéropostale, não tem qualquer relevância para o plot, e salva o dia com um iPhone. Percebem a minha dor?

3. Setting/worldbuilding
Vamos rebobinar ao Verão passado, quando disse, relativamente ao livro Soulless, de Gail Carriger, que "podíamos tirar o steam, e não íamos perder nada". O mesmo é aplicável a este livro, tirando que as invenções steampunk conseguem ser ainda mais irrelevantes para o desenvolvimento do setting.

Talvez isto se resuma tudo a uma tentativa de aproveitar a onda steampunk para vender livros que se passariam, de outra forma, numa era Vitoriana ligeiramente melhorada para as sensibilidades modernas, mas custa-me um pouco digerir este tipo de coisa. Ou talvez os puristas me estejam finalmente a afectar - o que seria irónico, considerando que nunca na vida li os livros recomendados por este pessoal, e o meu interesse por steampunk continua a ser quase puramente estético.

Ok, pronto, também tenho interesse nas senhoras de bloomers a pilotar aeronaves, mas uma guerra de cada vez.

O importante aqui é que o setting não vai muito além de Template Vitoriano #1 - temos opium dens, o museum britânico, mansões, um ou outro baile, e um par de tabernas vagamente mal frequentadas. O steam é um acessório, e não faz qualquer falta ao livro. Off with it!

4. Estilo de escrita
Meh? Nada de particularmente interessante a apontar. Acho que me aborreci tanto com a conteúdo que nem me preocupei particularmente com a forma. A única crítica objectiva que tenho refere-se à organização dos capítulos entre as duas protagonistas - Mina e Evaline têm cada uma o seu POV, mas são ambos em primeira pessoa e completamente impossíveis de distinguir. Para duas personagens que aparentam ser tão diferentes ("aparentam" sendo aqui, claro, a palavra-chave), soam extraordinariamente parecidas. Foi muito, muito difícil orientar-me nesta leitura.

Em resumo...
Este livro vai acabar, muito infelizmente, na estante de Boas Ideias Mal Executadas. Duas raparigas de alta sociedade, uma Holmes e uma Stoker, a investigar crimes? Boa ideia. Este livro? Má execução.

O problema principal deste livro (pronto, além do plot simplista e mal resolvido) é que se propõe ser uma fantasia pseudo libertadora para as mulheres Vitorianas, um pouco na linha da já mencionada série de Gail Carriger, mas nunca chega efectivamente a dar-me o que promete. A autora está constantemente a colocar as suas personagens femininas em situações em que precisam de ser salvas. Mina não é, nem de perto nem de longe, tão esperta quanto me querem fazer crer. A força e coragem de Evaline são virtualmente inúteis. Tudo bem, elas quebram uma outra regra, mas consigo resumir o livro todo com "olha nós a fazer coisas que as mulheres Vitorianas não devem fazer, E A FALHAR REDONDAMENTE". O setting não o salva, a escrita não o salva, e com muita pena minha, não posso recomendar este livro a ninguém.

A sequela, The Spiritglass Charade, sai a 7 de Outubro de 2014. Não tenciono lê-la, mas é bom saber, certo?
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Penny Dreadful: Opiniões a 3 Episódios do Final



Não sou muito de ver televisão, mas de vez quando o mundo sai-se com algo tão absolutamente brilhante que é impossível não ver, pelo menos, o primeiro episódio. American Horror Story: Coven foi a única série recente que vi do princípio ao fim, com looooongas crises de fangirling entre episódios, e quando acabou, fiquei sem saber o que fazer com o meu tempo.

Felizmente, fui informada da existência de Penny Dreadful umas semanas antes de estrear. Baptizada em honra dos periódicos vitorianos que aliciavam os leitores com os seus temas mórbidos e sensacionalistas, Penny Dreadful conta a história de uma liga de cavalheiros vagamente extraordinários em busca de uma mulher chamada Mina, que pode ou não ter sido raptada por vampiros. O grupo é encabeçado por uma misteriosa dupla: Sir Malcolm Murray, pai de Mina e ex-explorador de África, e Vanessa Ives, ex-melhor amiga de Mina e ocasional porta-voz dos muitos espíritos presentes em Londres. (às vezes vestem-se a combinar, mas nem sempre)



Um dos selling points da série, para mim, foi o facto de prometer um novo olhar sobre personagens que muitos de nós já consideram familiares - Victor Frankenstein, um jovem médico que instalou um workshop de construção de humanos na cave, e Dorian Gray, um jovem socialite que também instalou coisas na cave, mais particularmente um retrato de si mesmo. Por coincidência, ou talvez não, os personagens com base literária acabam por parecer os hipsters do grupo, mas isso é um detalhe que não deve ser mencionado fora dos círculos mais profundos da fandom. (ainda não se conhecem, mas prevejo um autêntico Battle Royale pelo título de Ultimate Dandy)




A equipa fica completa com Ethan Chandler, um Americano completamente normal com boa pontaria, Brona Croft, uma imigrante Irlandesa a morrer de tuberculose, e Sembene, o companheiro silencioso (mais ridiculamente competente, escrevam o que vos digo) de Sir Malcolm.





Não consigo não elogiar este elenco, sinceramente. Eva Green é absolutamente espectacular como Vanessa Ives - se esta série faz o favor de contrastar Vanessa e a desaparecida Mina como duas faces quase completamentares, uma sempre de negro, uma sempre de branco, então faz sentido ter Eva Green a representar o papel mais sombrio. Para mim, ela é a definição de Dark Feminine - complexa, segura de si mesma, e com muitos esqueletos no armário. E representa bem que se farta, como demonstrado por todos os episódios até agora, particularmente Séance e Closer Than Sisters. Vanessa é, quer se queira quer não, a protagonista da série, e a verdadeira essência de Penny Dreadful - violenta, sexual, inteligente, excessiva e controlada ao mesmo tempo, sempre com margem para uma ou outra piada bem colocada.



Tenho também de mencionar a minha completa obsessão por Harry Treadaway como Victor Frankenstein, porque nunca pensei que fosse possível pôr um poster boy da Burberry a fazer este papel. Adoro a vulnerabilidade que ele traz ao personagem, e acima de tudo, acho-o credível naquela corda bamba entre cientista punk (palavras do actor, não minhas) e poeta frustrado com perfeita noção de que o universo está contra ele, e com razão. Todo ele é um raio de sol.



Ainda numa de personagens, menção honrosa para as performances de Alex Price e Olly Alexander, nos episódios 1-2 e 3-4, respectivamente. Não ficam connosco muito tempo, mas empatizei mais com eles do que com muitos personagens principais noutras séries.




Em termos de plot, tenho visto críticas acusando a série de ser demasiado lenta para algo que se pretende terminar em oito episódios (embora tenha sido, entretanto, confirmada a segunda temporada). Pessoalmente, vejo Penny Dreadful como uma série acima de tudo character-driven, pelo que o desenrolar do enredo acaba por ficar em segundo lugar face ao desenvolvimento dos personagens - prefiro passar um episódio a ver Dorian Gray a falar apaixonadamente sobre orquídeas do que ver gente a caçar vampiros só porque sim.

Obviamente, é uma série que precisa urgentemente de mais mulheres, e mais pessoas de cor (Sembene tem menos de uma fala por episódio, o que é trágico, porque tudo o que quero na vida é ouvir Danny Sapani a narrar a história do universo), mas já leva alguns pontos bónus por não ter passado um paninho branco sobre a orientação sexual do menino de ouro de Oscar Wilde. É sempre hilariante ver audiências reagir à não-heterossexualidade de um personagem principal e anunciar que não tencionam ver nem mais um episódio - para citar uma conversa que ouvi sem querer num evento social, agora está na moda tornar toda a gente gay.


Acima, o Oscar e o Bosie mostram-se desiludidos com esta tendência moderna de aceitar pessoas pela sua sexualidade.

Ainda em matérias vagamente sexuais, pessoalmente, tenho sempre algum receio de ver séries de época, pelo facto de os criadores aproveitarem a "correcção histórica" para disfarçar a sua misoginia, fazer duas cenas de sexo irrelevantes por episódio, e despir todas as personagens femininas sempre que possível. (estou a olhar para ti, Da Vinci's Demons, estou sempre a olhar para ti) Penny Dreadful, para mim, tem feito um trabalho brilhante a desconstruir estes clichés - as cenas de sexo estão lá, mas acho-as ridiculamente bem filmadas, e a nudez não é um fenómeno que só afecta, por alguma razão, as mulheres do elenco. E já agora, este é um bom momento para confessar que, ontem, vi um reviewer a queixar-se que a nudez total do monstro de Frankenstein o deixava desconfortável. Eu compreendo. É lixado quando um personagem que tem todas as razões e mais algumas para estar nu aparece nu no background de uma cena, não é? (eu nem reparei) Nada que se compare à constante nudez de personagens femininas tantas vezes acompanhada de ângulos de câmara reminiscentes de um filme pornográfico, claro, porque isso já é tão comum que nem olhamos duas vezes. É assim que nos apercebemos da existência de um problema, caros amigos - uma mulher nua é "normal", um homem nu é "desconfortável". Azar o vosso, e lavo disto as minhas mãos.

Visualmente, a série é extraordinária. Tenho andado a ver os vídeos da produção no Youtube, e o cuidado dedicado à parte estética da coisa só aumenta o meu respeito por todo este trabalho - o visual dos vampiros é conseguido através de maquilhagem (pensei que era CGI, fiquei parva), e a equipa construiu um teatro inteiramente funcional para realizar a visão que John Logan tinha do seu Grand Guignol, uma adaptação Londrina de um teatro Parisiense conhecido pelo mesmo tipo de conteúdos que os penny dreadfuls da época.




A conclusão disto tudo é que Penny Dreadful tem tudo o que gosto de ver numa série - um ensemble cast de lobos (HAHA) em pele de cordeiro, toda aquela ambiência pseudo-Vitoriana que acerta o suficiente para ser credível (sim, refiro-me ao guarda-roupa) sem se preocupar com os detalhes irrelevantes, uma variedade absurda de referências que só serão, decerto, apanhadas por pessoas de leituras mais vastas que as minhas (só li The Picture Of Dorian Gray e Dracula, mas começo a pensar que talvez seja boa ideia ler Frankenstein durante o hiato, e talvez também The Tempest, The Phantom Of The Opera, e uns cinco volumes de poesia romântica), um respeito descomunal pelas obras que adapta, e nas palavras do próprio Sir Malcolm, um mundo onde a ciência e a superstição andam de mãos dadas.

Espero ansiosamente os três últimos episódios, e estou mais do que capaz de considerar esta uma das minhas séries favoritas... de todos os tempos. Quem já viu?
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Opinião: 'The Dream Thieves', Maggie Stiefvater



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The Dream Thieves
Maggie Stiefvater

Now that the ley lines around Cabeswater have been woken, nothing for Ronan, Gansey, Blue, and Adam will be the same.

Ronan, for one, is falling more and more deeply into his dreams, and his dreams are intruding more and more into waking life.

Meanwhile, some very sinister people are looking for some of the same pieces of the Cabeswater puzzle that Gansey is after...

O tema de hoje é “coisas que podiam ter sido muito boas, mas não foram” - ou seja, yup, chegámos ao volume dois do tão promissor The Raven Cycle.

Por que é que li este livro?
Porque li o primeiro e adorei, tão simples quanto isso. É por isso que as pessoas lêem sequelas, não é?

1. Plot


The Dream Thieves não prima por um plot exaustivamente bem organizado, ou sequer... lógico. Apresenta pelo menos cinquenta plot holes, quase todos concentrados nas últimas cem páginas (que raio de final foi aquele?), e todas as pessoas com quem discuti este livro concordam num ponto - tem cenas muito boas, é divertido de se ler, mas não existe tal coisa como um enredo sólido que o unifique.

Ora bem. Este livro pega no grande plot twist de última linha do anterior, e leva-o ao extremo. Os que leram saberão que Ronan Lynch, o membro rebelde do ensemble cast, tem agora a capacidade ligeiramente imprevisível de retirar coisas dos seus sonhos. Coisas como canetas, ou o seu corvo de estimação, Chainsaw.

O plot apresenta-nos então a Kavinsky, o rival favorito do nosso protagonista (por via de simplificar as coisas, vamos assumir que o protagonista deste livro é Ronan), que a) é Russo, ou assim, b) conduz um Mitsubishi branco, c) deixa as mãos do nosso protagonista a suar. Oh, honey. Kavinsky inferniza a vida de Ronan, não só com a sua superior performance no mundo do street racing, mas também com a sua língua afiada que insinua, três vezes por página, que Ronan e Gansey têm, como eu costumo dizer, uma cena. Não têm. Gansey está caído pela nossa protagonista Blue, como todos sabemos, e embora Ronan esteja firmemente caído pelo seu próprio género (obrigada, Maggie!), Gansey não é de todo o seu tipo ideal.

Portanto, este livro conta a história de como Ronan se aproximou de Kavinsky, descobriu que também ele era um dream thief, se aproveitou dele para aprender tudo o que precisava, e depois voltou aos seus Raven Boys. Entretanto, aprendemos que o pai de Ronan também era um dream thief que tirou não só uma fortuna dos seus sonhos, mas também todos os animais que tinha na sua quinta, e a sua esposa. Estando ele morto, tudo isto ficou “adormecido” sem a sua presença – e isso inclui a mãe de Ronan, que passa 99% do livro em estado basicamente vegetativo. No final, levam-na à floresta mágica, ela acorda, sorri muito feliz, e fica tudo bem.

Estão a gozar comigo? Quer dizer, um dos pontos cruciais da história é como Kavinsky é Uma Pessoa Muito Má, porque usa e abusa dos seus poderes e retira tudo e mais alguma coisa dos sonhos, coisas como centenas de Mitsubishis brancos e uma réplica do seu pai para encobrir o facto de o ter assassinado. A narrativa deixa claro que não devemos idolizar ou simpatizar com Kavinsky, mas o pai de Ronan sai de tudo isto impune. Por que é que sonhar carros é mais grave do que sonhar dinheiro? Por que é que sonhar um pai novo é mais grave do que sonhar uma mulher? Para citar Calla, a única pessoa com dois dedos de testa neste livro todo... não há mulheres que cheguem no mundo? Não posso apoiar uma narrativa que praticamente idoliza um destes personagens e condena outro. E não só! Esta mulher, que está efectivamente inconsciente durante a maioria do livro, é tratada como um objecto. Ela existe, literalmente, para servir os caprichos dos homens do livro – o pai de Ronan trá-la para o mundo real porque não consegue viver solteiro, suponho eu, e Ronan trá-la de volta porque não consegue viver sem mãe. Ronan não tem grande culpa, eu faria o mesmo, mas toda esta narrativa é absurda. E depois trazem-na de volta em duas ou três linhas, e fica tudo bem? Eh pá... não.

E tudo isto sobre a plotline de Ronan, que ocupa francamente a maior parte do livro. O restante é dedicado a Adam – que desde o livro anterior, não esqueçamos, saiu de casa dos seus pais abusivos, vendeu a alma a uma floresta, e matou um homem. O primeiro livro torna fácil torcer por Adam, pelo seu sucesso, pela sua relação com Blue, mas o segundo livro assiste à sua total transformação no tipo de rapaz que não suporto. Continuem a ler para perceber porquê.

2. Personagens
Maltratado pelo pai em frente a uma mãe que nunca o defendeu, Adam chega a limites absurdos para recusar a bondade daqueles que o rodeiam, e tudo isso é orgulho – ele quer ter sucesso sozinho, e eu respeito isso, mas ter sucesso sozinho não implica recusar ajuda quando ela é precisa, ou afastar pessoas só porque têm mais sucesso do que nós, ou descarregar a nossa raiva esmurrando paredes enquanto a nossa namorada tenta ter uma conversa séria connosco. Compreendo, e aceito, que pessoas reais reajam a situações de abuso desta forma, mas a forma como a narrativa representa Adam continua a ser problemática – a narrativa quer à força toda que eu simpatize com ele e valide as suas desculpas, mas infelizmente eu sou anti-desculpabilização de comportamentos anti-sociais e nada disto pega comigo. Boa tentativa.

As verdadeiras estrelas do livro são, no entanto, Ronan e Kavinsky. A narrativa é bastante mais imparcial no que lhes toca, e não há qualquer tentativa de os representar como “heróis” ou “boas pessoas”. Kavinsky é uma arma de destruição maciça, e Ronan só lhe fica atrás por ter Gansey como moral compass.

E falando de Gansey, este continua a ser a personagem mais estável do livro; Noah, que, como todos sabemos nesta altura do campeonato, é um fantasma, tem uns quantos momentos para brilhar; e Blue é criminalmente ignorada. É óbvio que os livros não são sobre ela, e continuo fula por me terem tentado convencer que sim.

Há uma grande diferença entre este livro e o primeiro, no entanto – se excluirmos o facto de se dedicar em 80% à relação mutualmente destrutiva de Ronan e Kavinsky. A “maldição” que impede Blue de beijar o amor da sua vida passa para primeiro plano, e temos duas cenas pseudo-românticas com beijos incluídos (e que cenas, a autora merece um prémio por elas). O plot aproveita-se do lento deteriorar da personagem de Adam para se começar a focar em Gansey/Blue, e se havia dúvidas de que este é O Casal Oficial, elas dissipam-se totalmente neste livro.

Infelizmente, e para citar a minha reacção inicial, acho este casal tão entusiasmante como um desenrolador de fita-cola. Oops.

3. Setting/worldbuilding
Tudo o que disse sobre o primeiro livro continua a ser verdade relativamente a este. Cidade pequena, número limitado de cenários, etc. A única coisa que muda é a magnitude daquilo que é “permitido” em termos de magia. Se no primeiro livro pouco mais havia do que videntes e florestas surrealistas, agora temos dragões e monstros retirados directamente dos pesadelos dos nossos protagonistas. É isso. Next!

4. Estilo de escrita
O facto de seguir principalmente Ronan torna o estilo deste livro ligeiramente mais “colorido” do que o anterior. Há insultos que cheguem para manter qualquer um entretido, e referências sexuais de duas em duas páginas. Os diálogos continuam a ser bons, mas uma vez mais, não posso dizer que tenha ficado fascinada com a escrita da autora.

Em resumo...
Adorei The Raven Boys, o primeiro livro desta série. Não adorei The Dream Thieves, e não consigo de forma nenhuma dar-lhe as mesmas quatro estrelas. É um livro que entretém bastante, não me entendam mal, mas só entretém se o leitor já estiver emocionalmente investido nas personagens – caso contrário, suspeito que os plot holes sejam suficiente para demover até os mais corajosos.

Três estrelas, e começa assim a espera pelo terceiro livro da série, Blue Lily, Lily Blue. Esperemos que recupere a qualidade do primeiro!
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Opinião: 'The Raven Boys', Maggie Stiefvater



★ ★ ★ ★ ☆

The Raven Boys
Maggie Stiefvater

Every year, Blue Sargent stands next to her clairvoyant mother as the soon-to-be dead walk past. Blue never sees them--until this year, when a boy emerges from the dark and speaks to her.

His name is Gansey, a rich student at Aglionby, the local private school. Blue has a policy of staying away from Aglionby boys. Known as Raven Boys, they can only mean trouble.

But Blue is drawn to Gansey, in a way she can't entirely explain. He is on a quest that has encompassed three other Raven Boys: Adam, the scholarship student who resents the privilege around him; Ronan, the fierce soul whose emotions range from anger to despair; and Noah, the taciturn watcher who notices many things but says very little.

For as long as she can remember, Blue has been warned that she will cause her true love to die. She doesn't believe in true love, and never thought this would be a problem. But as her life becomes caught up in the strange and sinister world of the Raven Boys, she's not so sure anymore.

Por que é que li este livro?
Porque fiquei traumatizada quando acabei The Secret History, e nada me parecia bom o suficiente para aligeirar a transição dessa real obra de arte para a restante ficção plebeia à minha disposição. Mais uma vez, o Tumblr salvou-me, e sugeriu esta série – ensemble cast, jovens vagamente pretensiosos obcecados com tempos há muito passados, e talvez até homicídio. Não soa perfeito?

1. Plot
Ora bem. Estão a ver aquele blurb? Esqueçam. A secção de marketing esforça-se muito por vender The Raven Boys como um trágico romance YA entre um rapaz quase morto e uma rapariga que está destinada a matar o seu verdadeiro amor com um beijo, mas na vida real... aquilo que o livro efectivamente oferece nada tem a ver com isso. Alinhem comigo num suspiro de alívio colectivo.

The Raven Boys, por muito que queira dar protagonismo a Blue na sinopse e no primeiro capítulo, é a história de um grupo de rapazes cuja relação precede, em muito, o surgimento de Blue nas suas vidas. Gansey, um menino rico de um colégio privado, passa os seus dias armado com medidores EMF e demais instrumentos de investigação paranormal. O seu objectivo é identificar a ley line que, segundo ele, passa perto do seu colégio, e depois encontrar o rei Galês que se encontra sepultado algures sobre (ou sob, depende da perspectiva) essa linha.

Blue, por outro lado, tem os pés bem assentes na terra, se exceptuarmos o facto de ser a única pessoa sem grande aptidão paranormal na sua casa habitada exclusivamente por mulheres médiums (a sua mãe, a sua tia, sua prima, uma amiga da mãe, outra amiga da mãe... e por aí fora). Blue tem, no entanto, o poder de amplificar manifestações paranormais para aqueles que as conseguem sentir. Uma noite, Blue acompanha a sua tia ao evento paranormal do ano, onde é possível ver as almas das pessoas que vão morrer nos doze mese seguintes. O objectivo da médium é recolher os nomes destas pessoas, para as poder avisar em tempo útil –se elas lhe pagarem para o saber, claro. Blue apercebe-se da presença da alma de um rapaz da sua idade, a quem pergunta o nome. Ele chama-se Gansey, e o resto, como podem imaginar, é história.

...ou será que é? Talvez seja uma consequência da “maldição” que se abate sobre Blue, mas não existe um único beijo neste livro, e os subplots românticos nunca se sobrepõem à busca do grupo pelo rei Galês. Blue mostra algum interesse, correspondido, por um dos membros do grupo, mas a) não é Gansey, a b) a relação de ambos prima-se por uma inocência e um respeito mútuo que não tem igual em todos os livros YA que já li. Hooray!

2. Personagens
Estes livros têm, mais coisa menos coisa, cinco personagens principais. Em primeiro lugar, os titulares Raven Boys, assim chamados devido ao emblema do colégio que frequentam: Gansey, o protagonista e líder da cruzada paranormal, Ronan, o melhor amigo rebelde que tem um corvo de estimação e uma certa propensão para o street racing, Adam, o outro melhor amigo, oriundo de uma família abusiva e sem o estatuto económico dos seus colegas, e Noah, o grande mistério do grupo, também conhecido como “the smudgy one” . Em quinto lugar, temos Blue, a protagonista idealista, sem paciência para falsidades, e com um ligeiro complexo de inferioridade face à sua falta de poderes psíquicos.

A diferentes níveis e de diferentes formas, diria que as personagens estão bem construídas – parecem pessoas reais, e esse é o maior elogio que posso dar a um livro de ficção. As suas emoções são genuínas, ou parecem-no, e não tomam decisões que não se coadunam com as suas personalidades. São consistentes, lógicas, e é fácil compreendê-las.

Pessoalmente, identifiquei-me mais com Gansey (o menino rico com objectivos de vida absurdos, um coração de ouro, e sem grande filtro entre aquilo que pensa e aquilo que diz, yup, é o meu tipo) e Adam, e quis muito identificar-me com Blue – mas infelizmente, para quem é a narradora do primeiro capítulo do livro, e a pessoa de quem todas as sinopses falam, ela acaba por não ter tanto protagonismo quanto seria desejável. Uma crítica que tenho visto, e com a qual concordo, é que Blue é, de certa forma, uma assistente nas histórias deoutras pessoas. Tendo em conta que esse é o seu poder psíquico, faz sentido que esse seja também o grande tema da história pessoal da Blue – pelo que talvez seja de esperar que ela consiga finalmente promover-se de assistente a protagonista num futuro próximo?

Considerando que o terceiro livro da série (olhem ali na barra direita) usa o palavra "Blue" duas vezes no seu título... acho que devo ter razão.

3. Setting/worldbuilding
Este livro desenrola-se numa pequena cidade na Virginia, num conjunto limitado de cenários, todos eles com algum tipo de significado para o plot em geral: a casa de Blue (e sabemos que médiums são sempre plot-relevant), a fábrica renovada em que Gansey vive com Ronan e Noah, a floresta surreal sobre a ley line, e vagamente, a casa de Adam. Todos estes locais evocam um sentimento diferente no leitor, muito devido à forma como são descritos – as cores, o ambiente, os acontecimentos que lá se desenrolam. A magia que marca a floresta tem regras, o leitor tem perfeita noção delas, e embora o verdadeiro carácter dos talentos psíquicos da família de Blue não seja sempre claro (são só muito observadoras? têm poderes? estão sempre certas? Gansey vai mesmo morrer?), tal não é algo que me tenha incomodado. A parte da mitologia é sem dúvida interessante, e uma base firme para o leitor se orientar na caça ao tesouro.

Basicamente, ninguém vai ler este livro pelo setting, mas em comparação com outros YAs passados no mundo “real”, não há qualquer queixa a fazer. É um setting. Acontecem coisas. Voltem acima e leiam os pontos 1 e 2, que são os que me efectivamente me permitem vender-vos este livro.

4. Estilo de escrita
Devo dizer que me passou ligeiramente ao lado, e que não tenho qualquer comentário bonitinho a fazer sobre a escrita de Maggie Stiefvater. Adorei os diálogos, mas o resto da escrita, para mim, foi invisível. Na prática, o que isto quer dizer é que a escrita deste livro cumpre a sua função, mas não se eleva àquele ponto em que passa a ter um peso próprio no desenvolvimento da história – não como a escrita de Angela Carter ou de Tanith Lee, por exemplo.

Leva, no entanto, pontos bónus pelo plot twist de última linha. Adoro plot twists de última linha.

Em resumo...
Adorei The Raven Boys. Certo, o plot é a clássica caça ao tesouro (que não é resolvida neste livro, para que conste), mas as personagens são extraordinárias, e as relações entre elas... bem, dão pano para mangas. Não tem elementos excessivamente problemáticos – sim, porque estou sempre aqui com o meu feminismo à mão para criticar literatura –, a escrita é competente, o worldbuilding é competente, e não me parece que se possa pedir muito mais de um YA. Quatro estrelas, recomendado.

O mesmo não se poderá dizer do segundo, infelizmente. Amanhã há mais!
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Opinião: 'The Corset: A Cultural History', Valerie Steele



★ ★ ★ ☆ ☆

The Corset: A Cultural History
Valerie Steele

An essential element of fashionable dress from the Renaissance into the 20th century, the corset has been viewed not only as an object of eroticism but also as an instrument of torture and subjugation. This is an exploration of the cultural history of the corset.

Continuando na minha vaga de leituras de não-ficção, motivada em grande parte pela experiência marcante (no melhor dos sentidos, acreditem) que foi ler The Secret History em dois ou três dias, o livro que hoje vos trago foca-se naquela que é, para muitos, a peça mais de roupa mais polémica da história da humanidade. Yup, é um livro sobre corpetes - ou espartilhos, se preferirem a palavra que soa mais dolorosa.

Valerie Steele é uma autora especializada em história da moda, e neste livro, dedica-se a uma análise contextualizada da história do corpete, desde as suas origens até aos nossos dias, passando pelo seu auge na época Vitoriana. Em seis capítulos, a autora explora a função original do corpete, visto como um instrumento auxiliar na construção do corpo aristocrático ideal; os movimentos sociais anti-corpete do século XIX, liderados tanto por grupos feministas como por médicos e "homens de ciência"; a forma como o corpete já era, nesta época, sexualizado e visto como um objecto de grande valor erótico; e finalmente, a utilização do corpete nos dias de hoje, associado a novos ideiais de beleza que pouco têm a ver com a aristocracia ideal descrita no início do livro.

É um livro ilustrado com fotografias e gravuras das várias épocas retratadas, o que acaba por compensar o seu tom aborrecido - é um pouco como ler um livro escolar, para ser sincera. Aprendi um par de coisas novas, mas no geral, achei o livro pouco interessante para alguém que já tenha algum conhecimento sobre o assunto. As suas 176 páginas poderiam ter sido melhor aproveitadas com outro tipo de informação.

Três estrelas, e assim continua a busca por um livro que me diga tudo o que preciso de saber sobre corpetes. Não é este. Nope.
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Opinião: 'The Empire Of Death' e 'Heavenly Bodies', Paul Koudounaris



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The Empire Of Death
Paul Koudounaris

In this tour de force of original cultural history, Paul Koudounaris takes the reader on an unprecedented international tour of macabre and devotional architectural masterpieces in nearly 20 countries. This is the first book to bring together the world's most important charnel sites, ranging from the crypts of the Capuchin monasteries in Italy and the skull-encrusted columns of the ossuary in Évora in Portugal, to the strange tomb of a 1960s wealthy Peruvian nobleman decorated with the exhumed skeletons of his Spanish ancestors. Illustrated with specially taken photographs of sites rarely open to the public and forgotten archive images of others long destroyed, this mesmerising, shocking and deeply moving book is an essential memento mori for our modern age.

Perturba-me muito, não saber se a palavra "tafofilia" existe em bom português. O blog Mort Safe diz que sim, e define a palavra como "a atracção (mórbida ou não, de acordo com o ponto de vista de cada um) por túmulos e cemitérios". Se é possível sofrer de tal coisa, eu sofro, e se é possível ter toda uma carreira tafófila... este senhor tem.

Paul Koudounaris é um autor e fotógrafo de Los Angeles, doutorado em História da Arte, que decidiu dedicar a sua vida literária ao campo dos ossuários e capelas dos ossos. Há quem o considere uma celebridade no campo da arte "macabra", e eu sinto-me inclinada a concordar. Hoje, vou rever os seus dois livros já publicados - juntos não só devido à temática, mas também por me parecer que são melhor apreciados quando lidos em conjunto.

O primeiro dos dois, The Empire Of Death, foi publicado em 2011, e inclui dezenas de fotografias, algumas delas inéditas, de ossuários localizados maioritariamente na Europa. Desde as Catacumbas de Paris ao famoso ossuário de Sedlec, os monumentos mais reconhecíveis estão todos incluídos, acompanhados por exemplos mais humildes como a nossa pequena capela de Campo Maior. Sabiam que, de acordo com Koudounaris, Portugal é o país da Europa com mais estruturas decoradas com ossos humanos? Da próxima vez que vos disserem que não valemos para nada, lembrem-se disso (sempre funciona como ameaça).

As fotografias de Koudounaris são acompanhadas por textos minuciosamente detalhados, que misturam factos históricos e relatos anedóticos do próprio autor. O texto acompanha as diversas fases artísticas da construção destes monumentos, começando pela Contra-Reforma do séc. XVI, e oferece contexto a praticamente todos os monumentos fotografados. Desde criptas onde era comum senhoras "adoptarem" um crânio, a um candelabro feito com pelo menos um exemplar de cada osso do corpo humano, há aqui mais do que informação para os tafófilos (palavra do dia!) interessados.

Relativamente à minha experiência com o livro, tenho de admitir que demorei... praticamente um ano a lê-lo. Em primeiro lugar, com imagens tão fabulosas, a tentação de ler apenas as legendas é muito grande; em segundo lugar, achei o texto talvez um tudo-nada demasiado académico. Ainda assim, este é um livro com pelo menos algumas pretensões académicas, pelo que não me parece justo acusá-lo de usar um tom errado. Simplesmente, não foi um que me desse vontade de "devorar" o livro. Mesmo assim, leva cinco estrelas, porque é o melhor livro que alguma vez li sobre o tema.

Vantagens de ser o único autor num dado campo de estudos, huh?



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Heavenly Bodies
Paul Koudounaris

Following on the success of his book The Empire of Death , which has attracted a global cult following, Paul Koudounaris brings the catacomb saints out of the darkness with this astonishing volume, which includes arresting images of more than seventy spectacular jeweled skeletons and the fascinating stories of dozens more, accompanied by rare archive material. This is the first time that some of these incredible relics both intriguing historical artifacts and masterpieces of artistic craftsmanship in their own right have appeared in a publication, with Koudounaris gaining unprecedented access to photograph in some of the most secretive religious establishments in Europe. This will be essential reading for goths, art historians and everyone in between.

Ora, a questão é que o problema do tom excessivamente académico é rectificado com o segundo livro do autor, Heavenly Bodies. Este é mais pequeno, mais prático de manusear, e pareceu-me, até mesmo pela encadernação (tem um dustjacket, coisa que ao primeiro falta), que foi publicado com a intenção de ser lido, ao invés do primeiro, que é um livro para ser "mostrado". Sabem aqueles livros da Taschen que toda a gente tem nas mesinhas de centro mas ninguém lê, efectivamente? Pois, refiro-me a isso.

Heavenly Bodies é, para mim, o melhor destes dois - e o seu tema empresta-se mais à comédia, diga-se de passagem. Este volume, publicado em 2013, conta a história praticamente esquecida de um grupo de esqueletos retirado das Catacumbas Romanas no século XVII, e posteriormente decorado lascivamente (se alguma vez houve contexto para esta palavra, é este) por equipas de freiras, com jóias e vestes do mais exuberante possível. Se isto soa a black comedy, esperem até vos ser dito que estes esqueletos, de origem humilde, foram erradamente identificados como mártires do início da Era Cristã, decorados como tal, e depois exportados para territórios de língua Alemã como uma estratégia de Contra-Reforma Cristã. A maioria foi destruída durante o Iluminismo, quando finalmente se ganhou consciência do ridículo de tal prática, mas Koudounaris conseguiu acesso aos exemplares sobreviventes (certo, sobreviventes...), e daí saiu este livro.

Aqui, o tom académico é colocado de lado para dar lugar a um tom mais informal, quase irónico em determinadas passagens. Dei por mim a rir à gargalhada várias vezes, com descrições do Papa a descer às Catacumbas e a apontar os esqueletos que, tinha ele a certeza, eram mártires, ou com a fase em que a criatividade para baptizar mártires começou a esgotar-se, dando azo a pérolas como Saint Anonymous, Saint Incognitus, and Saint Innominabilis.

Há algo, para mim, de muito trágico em toda esta história, mas também de... ingénuo. Adorei ler este livro, e merece cinco estrelas mais sólidas do que o primeiro. Quer dizer, quase chorei com a história de dois "santos" que foram retirados da sua igreja contra a vontade da população, e devolvidos 70 anos depois. Ha dias assim. A vida real consegue ser mais estranha do que a ficção.

Agora... tenho ouvido rumores de que Paul Koudounaris anda a investigar demónios sexuais e gatos possuídos por demónios. Para quando os livros?
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Opinião: 'The Secret History', Donna Tartt



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The Secret History (publicado como A História Secreta em PT)
Donna Tartt

Richard Papen arrived at Hampden College in New England and was quickly seduced by an elite group of five students, all Greek scholars, all worldly, self-assured, and, at first glance, all highly unapproachable. As Richard is drawn into their inner circle, he learns a terrifying secret that binds them to one another... a secret about an incident in the woods in the dead of night where an ancient rite was brought to brutal life... and led to a gruesome death. And that was just the beginning...

Por que é que li este livro?
Posso ser sincera? Gráficos bonitos no Tumblr. Essa foi a primeira gota. A última chegou há uns tempos, quando pedi ao meu Facebook que me sugerisse hangover books (vocês sabem... aqueles que nos deixam meios atordoados e incapazes de começar outro livro num futuro imediato) e uma amiga me sugeriu este livro. Pareceu-me que as estrelas se tinham finalmente alinhado.

Além disso, quem é que não quer acompanhar um protagonista desajeitado na sua busca pela atenção e amizade dos seus cinco senpais colegas de turma?

1. Plot
Já vi este livro descrito não como um whodunnit, mas um whydunnit. As primeiras páginas dão-nos a informação clara de quem um rapaz de nome Bunny foi morto pelo nosso protagonista & companhia, e a primeira metade do livro dedica-se principalmente à tarefa de reunir os personagens principais, dar-lhes um motivo, e colocá-los no local do crime. Todos sabemos que vai acontecer, mas ver toda a ginástica mental que é necessária por parte do grupo para efectivamente levar o seu plano avante acrescenta um novo nível de dor a esta leitura. A segunda metade do livro dedica-se à aftermath do crime - a investigação criminal, o aperto do cerco policial, a coragem necessária para ir ao funeral de um amigo que se assassinou. Nesta fase, acho que é legítimo dizer que o leitor já não está muito preocupado com o crime em si - é a lenta degradação das personagens, das suas relações e do seu carácter, que nos faz virar a página.

Este não é um livro rápido. Não é um page-turner. É, sim, o tipo de livro que sádicos como eu usam para entretenimento quando queremos ver seres humanos em espirais de auto-destruição, mas estamos demasiado doentes e fracos para os colocar lá. (confiem em mim, estava de cama quando li isto, sei do que falo)

2. Personagens
Richard Papen, o nosso protagonista, é um rapazito pretensioso. Muito se tem falado de protagonistas pretensiosos ultimamente, em grande parte devido ao sucesso estrondoso de livros como The Fault In Our Stars (shots fired), mas acho que Richard é bem capaz de levar a taça nesta categoria. Depois de uma infância aborrecida numa pequena cidade na Califórnia, Richard ingressa no Hampden College, Nova Inglaterra, onde aproveita para criar uma nova personalidade para si mesmo, uma que não destoe entre os seus novos e privilegiados colegas. A vida de Richard é um jogo de aparências, desde a forma como se veste à forma como trata as pessoas à sua volta - e não me venham dizer que frases como "apetecia-me agarrá-la, violá-la" não são um óptimo exemplo de um rapaz a tentar representar à força toda uma personalidade (super dominante, super hetero, super máscula) que nada tem a ver com a sua. Pessoalmente, acho Richard uma pessoa detestável, mas um óptimo narrador para este tipo de livro. Sejamos sinceros, muitos de nós também não hesitariam em mentir um bocadinho para impressionar uns quantos lobos em pele de cordeiro.

O grupo principal fica depois completo com Henry Winter, génio pouco emotivo e mastermind do grupo; Bunny Corcoran, racista, homofóbico, e em bom português, amigo da onça... também conhecido como Asshole Victim; Francis Abernathy, um misto de príncipe e Jack The Ripper (toda a gente adora esta citação, não olhem para mim); e Camilla e Charles Macaulay, os gémeos órfãos aparentemente funcionais. O mentor do grupo dá pelo nome de Julian Morrow, o professor de grego mais despótico que alguma vez li, e devo confessar, também a personagem que menos compreendi. Se a princípio pensei que isto ia dar numa de The Philosophers, com o professor a convencer os seus pupilos da beleza de um homicídio bem cometido... afinal Julian acaba por ficar mais traumatizado do que o leitor quando descobre os pequenos monstros a quem andou a ensinar filosofia. Oops.

Uma crítica que tive relativamente a este grupo, assim que acabei de ler o livro, foi o facto de incluir apenas uma rapariga, aliado ao facto de a sua inclusão parecer servir o único propósito de dar ao livro uns quantos subplots românticos. “Parecer” é, no entanto, a palavra-chave, ou não fossem as relações entre os rapazes do grupo um labirinto igualmente complexo de atracções mal resolvidas. Como diria esta citação nunca de facto presente no livro:

Fine, okay. I guess we’re not really family. It’s more complicated than that because unlike a real family there’s nothing to stop any one of us from looking at each other as sexual prospects.

Mas voltando a Camilla. Camilla é a única rapariga do grupo, e agora percebo porquê. Este livro é, muito basicamente, um estudo sobre o conceito de privilégio, e Camilla existe na posição em que existe para demonstrar isso mesmo - este é um mundo de homens, e não existem muitas formas aceitáveis de ser mulher nele, pelo que Camilla se debate constantemente entre a sua personalidade, e a personalidade adequada aos frágeis egos dos rapazes com quem se dá. Esta não é, de todo, a minha forma favorita de levar o feminismo para a ficção – já o disse muitas vezes, mostrar opressão não chega, é preciso que a personagem oprimida tenha uma oportunidade para combater essa opressão –, mas devo admitir que aqui... até funciona.

3. Setting/worldbuilding
Uma universidade Americana nos anos 80. Richard tem aulas de grego, partilha o seu dormitório com todo um exército de consumidores de substâncias várias, toda a gente bebe, toda a gente fuma, toda a gente adora excessos e drogas e rock n'roll.

E curiosamente, não foi isto que me ficou como imagem mental quando acabei este livro. Nope. O que ficou foi a floresta. E os lagos, e a casa de campo, e a ravina onde Bunny morreu, e a casa dos gémeos tão ridiculamente decorada com todos os tipos de oddities, e o cemitério, e o escritório de Julian que cheirava sempre a flores frescas e chá acabado de fazer. Ficaram as folhas que iam mudando de cor com as estações, e ficou a casa-de-banho ensanguentada depois da orgia (right, talvez já devesse ter mencionado isso, pessoal... há uma orgia, conhecida oficialmente por Bacanal).

Basicamente, ficaram os sentimentos e as imagens invocadas pelo setting, mas nenhum facto concreto sobre o setting em si. Não me vão ouvir a queixar, pois adoro quando isto acontece.

4. Estilo de escrita
Ooooooooh, boy. Donna Tartt escreve bem que se farta (se repararem, este é um elogio que reservo apenas aos escritores tão bons que até irritam), e não há página do livro que não se possa citar de forma pretensiosa para impressionar os nossos inimigos mais próximos. É possível que o estilo do livro seja demasiado purple para alguns, mas não o é para mim – afinal, eu sigo a escola de pensamento Angela Carter e os seus dois mandamentos. Escreve prosa bonita, e nunca peças desculpa por ela.

Em resumo...
Imaginem um prédio. Se o prédio cair, as críticas vão concentrar-se na sua estrutura, nas suas falhas, na forma como foi construído. Mas se o prédio não cair, que é o mínimo que se pode exigir dele... vamos elogiar a técnica que o construiu? Vamos dedicar centenas de palavras à forma como os responsáveis conseguiram colocar um tijolo em cima do outro e manter o edifício de pé? Nope. Vamos mencionar tudo isso, claro, mas depois vamos acabar por nos concentrar em coisas inúteis como "adoro aquela gárgula", ou "o corrimão da escada principal não serve para nada mas é bonito e eu gosto".

É por isto que sou tão má a opinar sobre livros que me agradam. É difícil manter-me concentrada, e é difícil manter-me séria, porque as coisas que gosto neles não estão em nada relacionadas com críticas objectivas que vos poderiam levar a lê-los. Senti-me em casa, com este livro. Senti que conhecia estas pessoas, e senti-me muito, muito investida nas vidas delas. É mais um daqueles casos em que as personagens e a escrita são tão boas que eu não me importaria se todo o livro fosse uma lista de compras.

Leiam The Secret History, pessoal. Jantar de cinco estrelas para dois, cogumelos, bilhetes para a América do Sul, revólver. É das melhores listas de compras que alguma vez li.
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