[PT] "Mort" de Terry Pratchett



★ ★ ★ ☆ ☆

Mort
Terry Pratchett
Corgi Books, 317 páginas

A Morte faz a Mort* uma proposta que ele não pode recusar - especialmente porque, bem, estar morto nem é obrigatório. Como novo aprendiz da Morte, terá alojamento e refeições garantidas, direito a utilizar o cavalo da empresa, e nem terá de pedir dias de folga para os funerais da família. A posição é tudo o que Mort pensava que queria... até descobrir que este emprego perfeito pode muito bem ser fatal para a sua vida amorosa.

* Percebi logo que esta tradução não ia funcionar, damn it. **
** Juro por todos os santinhos que não me estou a armar em engraçadinha com os asteriscos, ok.

Suponho que a maioria de vocês esteja familiarizada com o livro de hoje, ou pelo menos, com o seu autor. De qualquer forma, e antes de mais nada, tenho de lhe dar os meus parabéns pelo título. É um trocadilho tão óbvio que nem devia ter piada, mas mesmo assim, consegue deixar-me bem-disposta quando olho para ele. Mort, huh. Pergunto-me porque é que o título do livro é em franc- oh ok, já percebi.

1. Plot
Não sei se Pratchett é o tipo de autor que as pessoas lêem pelo plot, mas duvido sinceramente. O enredo aqui é simples: rapaz perfeitamente normal é acolhido debaixo da asa da Morte como seu aprendiz, faz asneira, passa o resto do livro a tentar resolver a asneira, e sofre uns quantos BSODs. Entretanto, a Morte tira uns dias de folga, e decide investigar este conceito de "divertimento" que os humanos levam tão a sério.

É simples, é aceitável, mas não é o tipo de coisa que consiga aguentar um livro por si só - ou seja, se não tivesse sido Pratchett a escrever, eu não teria lido este livro. Incidentalmente, se não tivesse sido Pratchett a escrever, suponho que este livro não me teria sido aconselhado de qualquer forma, so... o resultado seria o mesmo.

Como nota, gostava só de dedicar duas linhas ao final - mais ou menos o mesmo espaço que Pratchett lhe dedicou no próprio livro. That wasn't good. Com todo o respeito ao autor, que claramente sabe fazer muitas coisas bem, e tentando não incluir aqui grandes spoilers... o final desiludiu. Quer dizer, a partir do momento em que estabelecemos determinado personagem como o protagonista, fico com expectativas de o ver a resolver o conflito, mas infelizmente, não é isso que acontece aqui. Pior, ainda tenho a ligeira impressão de que tudo aquilo que gostaria de ter visto aconteceu off-camera, algures entre a penúltima e a última cenas. Para um livro sobre a Morte, esperava um final melhor.

Ha.

2. Personagens
Comecemos pela Morte. A Morte é a melhor. A Morte é a melhor em quase todos os livros em que aparece (tirando aquele pequeno trainwreck chamado Death: A Life), e Pratchett escreve-a de forma brilhante. Quando lemos a Morte de Pratchett, não estamos a ler sobre o terrível Grim Reaper que vai entrar pelo nosso quarto a meio da noite e ceifar-nos a cabeça ao meio. Não me entendam mal, esta Morte também faz tudo isso (e muito mais!), mas consegue fazê-lo de forma quase... adorável? Sim, adorável. A Morte de Pratchett é um cachorrinho e quero abraçá-la sempre que a vejo.

Ou pelo menos, queria, quando li Maskerade, o que me leva a concluir que talvez a Morte seja mais agradável em pequenas doses. Não consigo explicar o porquê de me sentir assim relativamente a esta personagem neste livro, mas houve algo aqui que não resultou. Talvez tenha sido a constante oscilação entre a Morte fofinha e a Morte toda-poderosa, ou talvez tenha sido o facto de o livro se servir do conceito da Morte como "um sujeito dedicado a determinado trabalho que até o consome um bocadito mais do que devia". Percebo que essa forma de racionalizar as coisas seja necessária para criar conflito e dar ao protagonista uns quantos momentos dramáticos, mas... não sei, pareceu-me uma forma barata de dar importância ao rapazinho perfeitamente normal que, objectivamente falando, não tem qualquer interesse.

Porque Mort é um protagonista. That's it. Mort é um rapaz perfeitamente normal que recebe um chamamento para a aventura, da qual regressa mais sábio, supostamente mais atraente, e bastante mais comprometido. Whoohoo. Não é particularmente incompetente no seu trabalho, mas deita tudo a perder logo no início porque oh, sei lá, viu ali uma miúda e quer salvá-la. Em todo este livro, entre todos estes parágrafos que não fazem qualquer sentido... esse foi o momento que me levou as mãos à cabeça. A sério? O teu empregador é a Morte e arriscas-te a enraivecê-la por causa de uma princesa que nem sequer conheces? Onde é que estes rapazes andam, e como é que os podemos eliminar da literatura para todo o sempre?

Sinceramente, considerando o autor, isto pode muito bem ser parte da paródia - mas hey, enquanto modo de agir, continua a ser absurdo.

Estas são as nossas POV characters. Quanto às restantes, pareceram-me tão pouco desenvolvidas que não tenho praticamente nada a dizer sobre elas. Ysabell, a filha adoptiva da Morte (don't ask...), consegue ser divertida, mas acaba por cair em vários clichés que a desvalorizam. Inicialmente não se dá com o protagonista, check. Mostra-se competente e capaz de ajudar o protagonista ao longo da história, check. Apaixona-se pelo protagonista e acabam casados, check. Porque sinceramente, quais eram as probabilidades de ele acabar emparelhado com a princesa que salvou? Zero.

E falando da princesa, Keli... esqueçam os outros todos, ela é a melhor. Esta princesa foi salva, sure, mas não contem com ela pare se desfazer em lágrimas ou rastejar aos pés do seu salvador. Em vez disso, contem com ela para ser teimosa, mal-humorada, e sim, tão mimada quanto uma princesa deve ser. A+ 10/10 would rec.

3. Setting/worldbuilding
Não me peçam para descrever o Discworld, a sério, porque se há pessoas neste mundo com capacidade para o fazer, eu não sou uma delas. Portanto, digamos apenas que este livro se passa num mundo mágico que tem a forma de um disco, apoiado nas costas de quatro elefantes gigantes, que por sua vez se empoleiram numa tartaruga gigante (sim, fui à Wiki).

Ou, basicamente, o setting é o mundo encantado e absurdo de Terry Pratchett em que tudo é possível independentemente das leis da física ou do período histórico, e o autor faz tudo para que não nos esqueçamos disso. Posto isto, sinto-me completamente desadequada a tentar avaliar (ou sequer explicar) este mundo, porque com tanto livro a passar-se nele (tanto livro que eu ainda não li, e que provavelmente não vou ler), não posso sequer fingir que sei do que estou a falar.

Quando li o meu primeiro livro de Pratchett (again, Maskerade), achei este mundo extraordinário, só mesmo pelas potencialidade, pela quantidade de histórias fora de comum que se poderiam passar nele. Agora, vendo as coisas de um prisma ligeiramente mais informado, acho que não é algo que funcione para mim a longo prazo. É agradável ler algo deste género de vez em quando, digamos, para limpar o paladar entre livros mais pesados e menos divertidos, mas não me consigo imaginar a ler a série inteira.

4. Estilo de escrita
Ora, aqui está a razão pela qual eu leio Pratchett. Não é pelo plot, não é pelas personagens, não é pelo setting. É pelo estilo. O homem tem sentido de humor, e uma forma curiosa de o expressar - não é o tipo de livro no qual se posa fazer speed-reading se quisermos apanhar todas as piadas.

Ainda assim, este livro pareceu-me menos... gracioso do que os outros que já li (o que faz sentido, uma vez que os precede), e inclusive, houve momentos em que revirei os olhos e tive vontade de pousar uma mão na capa com a maior solenidade possível e dizer-lhe... ouve, eu sei que és divertido. Eu sei que toda a gente te diz que és divertido. Mas como diríamos na língua em que foste escrito, enough is enough, e às vezes só gostava que te calasses e voltasses à história. Ok? Ok, obrigada.

Posto tudo isto, conseguiu ser uma leitura divertida. O rating é que vai ser complicado, mas como dei quatro estrelas a Maskerade e Monstrous Regiment, e três a Good Omens... acho que vamos ficar-nos pelas três.

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[PT] "1Q84, Livro Um" de Haruki Murakami



★ ★ ★ ☆ ☆

1Q84
Haruki Murakami
Vintage Books, 1318 páginas

O ano é 1984 e a cidade é Tóquio. Uma jovem mulher, Aomame, segue a enigmática sugestão de um taxista, e começa a notar chocantes discrepâncias no mundo à sua volta. Acaba de entrar, conclui, numa existência paralela, a que dá o nome de 1Q84 - Q de "questão". Ao mesmo tempo, um aspirante a escritor, Tengo, inicia um complicado projecto de ghostwriting - e envolve-se tanto com a tarefa e com a sua estranha autora que a sua vida anteriormente plácida se começa a desmoronar. À medida que as narrativas de Aomame e Tengo convergem ao longo de um ano, o leitor descobre as profundas ligações entre as duas: uma adolescente disléxica com uma visão única; um misterioso culto religioso; uma viúva rica e reclusiva que dirige um abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica; e um guarda-costas discreto mas assustadoramente eficiente.

O livro de hoje, 1Q84, do aclamado Haruki Murakami, foi originalmente publicado em três volumes – os primeiros dois em 2009, e o terceiro em 2010. Algumas editoras têm mantido esta organização tripartida – como é o caso da portuguesa Casa das Letras –, enquanto outras – como a britânica Vintage Books – têm optado por publicar a trilogia completa num único volume.

Ora, estava eu na Fnac em Dezembro do ano passado quando me apeteceu dar uma vista de olhos a este livro... a intenção era a de comprar apenas o primeiro volume, porque não sou pessoa de mergulhar na série toda de uma vez, mas uma análise atenta dos preços levou-me à conclusão de que cada volume individual, em português, custava 18.80€. Tudo bem, mas hey... a trilogia completa, em inglês, custava 18.75€. Escusado será dizer que optei por esta última.

Ainda assim, e como já disse, gosto de levar as séries um volume cada vez, pelo que esta opinião diz respeito apenas ao primeiro livro da trilogia.

1. Plot
O livro começa com Aomame, uma jovem profissional que, com pressa, abandona o seu táxi na auto-estrada para descer por uma escada de emergência e ir a pé até ao seu destino. Algures entre estes dois pontos, o mundo à sua volta muda de forma quase indescritível, e se, ao início, as únicas coisas diferentes são os uniformes dos polícias, à medida que avançamos na leitura, Aomame informa-nos que não tem memória de vários eventos descritos nos meios de comunicação social, e que existem agora duas luas no céu. Tudo isto já daria pano para mangas, mas há mais, pois Aomame não é uma profissional qualquer. Não, esta mulher é uma assassina contratada, e os seus alvos são homens culpados de actos de violência doméstica. Novamente, tudo isto já daria pano para mangas, mas há mais, pois o próximo alvo de Aomame não é uma pessoa qualquer, mas sim o líder de um perigoso culto religioso.

E isto é apenas uma protagonista. Do lado de Tengo, temos um aspirante a escritor que alinha com o seu traiçoeiro editor num plano ligeiramente pouco ético – pegar numa obra enviada por uma adolescente de 17 anos para um concurso literário, reescrevê-la sem que a organização se aperceba, e esperar para a ver voar das estantes. Porquê? Não sei, porque a obra é boa, aparentemente, mas não o suficiente. Tudo corre muito bem, mas a autora impõe várias condições, and next thing you know, BAM, estão demasiadas pessoas envolvidas, e talvez a obra dela (sobre pessoas a sair de dentro de animais e afins...) seja mais auto-biográfica do que ao início se pensava.

Este é o esqueleto do plot, sem grandes spoilers, e na minha opinião, lê-se extremamente bem. O único “aviso” que posso fazer é que este livro se inclina BASTANTE para o território do realismo mágico. As coisas acontecem, nunca nos são explicadas, e Murakami nem sequer se esforça para as fazer parecer credíveis. Portanto, ou vêm para este livro com uma mente muito aberta e uma capacidade descomunal de lidar com o absurdo, ou vão querer atirá-lo pela janela.

2. Personagens
Aomame e Tengo são perfeitos em tanta coisa (inteligentes, em boa forma, atraentes, bons em mais do que um desporto, óptima performance sexual, whoohoo!) que parecem quase super-humanos, mas ainda assim, e por uma qualquer razão inexplicável, as suas vidas têm muito pouco de agradável.

Especificamente, Tengo é, perdoem-me, um ligeiro totó. Oh eu escrevo livros e sou um homem sensível e ético e o meu pai não era assim grande pai, mas pronto, sou bom em muita coisa, tenho uma namorada que é casada com outro homem mas não interessa, porque só nos encontramos para ter sexo, e... é isto a minha vida, WOE IS ME. É um protagonista que se arrasta um bocado pelo mundo, sem aquecer nem arrefecer, mas pronto, lidamos com ele porque a sua plotline até é razoavelmente interessante.

Aomame é a parte complicada deste duo. Ao início, simpatizei bastante com ela, e quase me engasguei quando percebi que, contra todas as expectativas, Murakami, que normalmente escreve homens, optou por escrever uma mulher que é, em todos os aspectos, feminista (embora ela o negue no próprio texto). Ora, porque é que simpatizei com Aomame? Porque é uma mulher competente, racional, forte (tanto física como psicologicamente), com iniciativa face à sua vida sexual (ao invés de ser apenas um objecto desejado pelas personagens masculinas), e mais importante do que tudo isto, uma mulher que é levada a sério no seu contexto, e que não é definida por nenhum homem.


Pensava eu. Afinal, go figure, a nossa protagonista não quer uma relação estável com nenhum homem porque... continua apaixonada pelo rapaz que lhe deu a mão quando tinham dez anos. Wow. De todas as justificações possíveis. De todos os plot twists possíveis. Murakami vai para o amor à primeira vista aos dez anos de idade. Ok.

E voltando à questão da iniciativa face à sua vida sexual. É verdade, quando Aomame decide que quer uma one-night stand, vai a um bar, e consegue uma one-night stand. Mas isto acontece várias vezes, e sem qualquer relevância para o plot. A certa altura, Aomame até arranja uma amiga com quem vai procurar one-night stands, e fingem ser lésbicas (literalmente, we played lesbians), porque, sei lá, os homens devem gostar disso. Relevância para o plot, zero. E hey, porque raio é que Murakami não escreve de uma vez que a mulher é bissexual? Ela tem interesse suficiente no seu próprio género, basta ler o livro. Mas não, fingir ser lésbica é melhor, porque é seguro para os homens envolvidos. Aomame pode gostar de beijar mulheres, mas não se preocupem, cavalheiros, é para vos agradar, porque do que ela gosta mesmo é de vocês. É tão óbvio que foi um homem a escrever isto, que até dói.

Convenientemente, o tipo ideal de Aomame também é um homem de meia-idade que está a começar a perder cabelo, por isso... se esta mulher não foi escrita, em grande parte, para agradar às fantasias do autor, I will eat my hat.

3. Setting/worldbuilding
O setting é Tóquio em 1984, com ligeiros detalhes quase... surrealistas. Não há muito a dizer sobre este ponto. A acção desenrola-se entre os apartamentos dos protagonistas e vários cafés e restaurantes, passando por transportes públicos e o ocasional hotel. Alguns cenários, como a casa da viúva mencionada na sinopse, são descritos com tanto detalhe que quase conseguimos cheirar as flores dentro da estufa, e isso ajuda definitivamente a cimentar a imagem mental do setting. Ainda assim, esta é uma obra maioritariamente focada nos personagens e nos seus infindáveis monólogos mentais, por isso não esperem grande worldbuilding.

4. Estilo de escrita
Pessoalmente, adoro o estilo de escrita de Murakami – nem sempre é elegante, mas é leve e directo ao assunto, sem grandes artifícios ou tentativas de purple prose. O autor perde-se de vez em quando, é verdade, mas com tempo e paciência, acho que ler 1318 páginas disto não seria grande sacrifício.

Mas há um problema. Haruki Murakami é... obcecado por seios. Não há outra forma de pôr isto – o homem não vê mais nada à frente. De cada vez que nos apresenta uma personagem feminina, contem com isso, também nos vai apresentar o seu peito - e depois vai aproveitar todas as oportunidades possíveis para nos reorientar na direcção dele (a sério, cliquem neste link e façam scroll até encontrarem as citações). Aqui temos o meu exemplo preferido, de um diálogo entre Tengo e o seu editor, que discutem a primeira conferência de imprensa dada pela adolescente de 17 anos:

“What was Fuka-Eri wearing?”
“What was she wearing? Just normal clothes. A tight sweater and jeans.”
“A sweater that showed off her boobs?”
“Yes, now that you mention it. Nice shape. They looked brand new, fresh from the oven.”

Como desumanizar uma personagem em quatro linhas de diálogo, cortesia de Haruki Murakami. Nem sei o que esperava de um homem que já admitiu que escreve mulheres como plot devices:

In my books and stories, women are mediums, in a sense; the function of the medium is to make something happen through herself. It’s a kind of system to be experienced. The protagonist is always led somewhere by the medium and the visions that he sees are shown to him by her.

Vai para casa, Murakami. Vai para casa pensar no que fizeste. Entretanto, eu vou ficar aqui, e baixar uma estrela na rating que tinha planeado dar a este livro. É bom, bom o suficiente para me pôr a ler a trilogia inteira, mas dispenso devaneios destes, e não consigo ler uma obra em que até o peito de uma miúda de 10 anos (sim, leram bem, DEZ) é escrutinado sem qualquer razão aparente, só porque o autor tem uma qualquer fixação que não consegue controlar.

Três estrelas, I'm not even sorry.
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[PT] "O Ano da Morte de Ricardo Reis" de José Saramago



★ ★ ☆ ☆ ☆

O Ano da Morte de Ricardo Reis
José Saramago
Caminho, 582 páginas

Um tempo múltiplo. Labiríntico. As histórias das sociedades humanas. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de Dezembro de 1935. Fica até Setembro de 1936. Uma personagem vinda de uma outra ficção, a da heteronímia de Fernando Pessoa. E as relações entre a vida e a morte. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de Dezembro e Fernando Pessoa morreu a 30 de Novembro. Ricardo Reis visita-o ao cemitério. Um tempo complexo. O fascismo consolida-se em Portugal.

Não me lembro de tudo o que me foi ensinado no Secundário, e especialmente não na disciplina de Português... mas posso dizer que mantive algumas noções básicas de Fernando Pessoa & Companhia. Para começar, o ortónimo tinha dores quando pensava. O Álvaro era o high-tech do grupo. O Caeiro passeava-se pelos campos, e o Ricardo Reis... era o outro, vocês sabem, aquele do carpe diem e dos classicismos. A verdade é que a minha imagem mental de Ricardo Reis sempre foi muito de encontro à de um novato pretensioso que não sabe muito bem como se apresentar ao mundo ou o que fazer de si mesmo, o que também não é problema, porque não tem muito para mostrar.

Lamento informar que este livro de Saramago apenas contribuiu para reforçar esta minha imagem mental, e vou já explicar-vos porquê.

1. Plot
O plot é fino como... nem sei, hóstia. Ricardo Reis volta do Brasil para Portugal, vive num hotel por algum tempo, lê jornais, almoça fora e janta no hotel, envolve-se com uma criada, deixa-se fascinar por uma hóspede com idade para ser sua filha, arranja casa própria, almoça e janta fora, faz umas consultas, vai a Fátima, deprime, e morre.

Porque é que isto é digno de ser escrito, publicado, e lido, nem me perguntem. Ok, a popularidade de Fernando Pessoa & Companhia ajudam... afinal, esta trupe é o orgulho de muitos de nós, e é provável que a mera menção dos seus nomes seja capaz de transformar qualquer livro em ouro, mas isto? Isto é a descrição em 600 páginas da vida de um personagem que pouco vale (a não ser pelo nome), mais ou menos embrulhada num conceito que já foi por muitos integrado na corrente de magical realism (a razão pela qual li o livro, para ser sincera), completamente ofuscada por toneladas de descrição que não interessam nem ao proverbial menino Jesus.

2. Personagens
Ricardo Reis, quase nos seus 50 anos, um homem que detesta a sua barba porque está a ficar branca, aparentemente tem medo de mulheres, e passa o livro inteiro a tentar... ler um livro (oh, como o compreendo). Ocasionalmente, também lê os já mencionados jornais, e há inclusive um episódio em que Saramago nos dá uma página inteira de anúncios publicitários lidos pelo Sr. Reis. Não é um personagem de que seja possível gostar, porque depois de tudo o que li, continuo a não saber nada sobre ele. Arrasta-se por Lisboa, queixa-se da chuva, vai a Fátima, queixa-se do sol, filosofa sobre o Adamastor, o Adão, a Eva, esquece-se de comprar fósforos, acha-se incapaz de enfiar uma almofada numa fronha sem ajuda de uma mulher. É este o nosso protagonista. Só dá vontade de lhe dar um par de estalos e um sermão, acorda para a vida, Reis, tens 50 anos e o teu ortónimo morreu, se há hora para brilhares, é mesmo esta.

Mas não, está a chover, e a Lídia deve estar aí a chegar.

Falando de Lídia, é uma mulher "simples" (sim, ela é uma criada e ele é um doutor, Saramago, nós sabemos, lemos isso vinte vezes nas últimas três páginas) mas sábia, que sabe sempre mais do que diz. Posso estar errada, porque li Memorial do Convento há bastante tempo, mas não é essencialmente este o tipo de mulher que Blimunda é? Não sei, sempre que lia passagens sobre Lídia lembrava-me de outro alguém, outra personagem, outra mulher dentro do género. É como se ela não fosse uma personagem, mas apenas um arquétipo, a mulher.

Quanto a Marcenda, o segundo love interest de Ricardo Reis, muito pouco nos é dito sobre ela. Também sabe mais do que diz, é rica, bem comportada, e tem um braço paralisado, sendo que este último ponto acaba por ser a razão pela qual Ricardo Reis ganha interesse nela. É quase um fetish, sinceramente, a forma como o autor a descreve, a mão esquerda como um "animalzinho" que ela afaga e coloca no bolso para que não se note... tudo em Marcenda é infantilizado pela narrativa, desde as descrições do seu braço à forma como vive atrás da vontade do pai. Se Lídia é a mulher, Marcenda é a menina.

Fernando Pessoa faz algumas aparições, mas gostaria que tivessem sido mais frequentes - adoro o conceito de que uma pessoa, depois de morta, tem direito a nove meses para vaguear pelo mundo antes de se ir de vez, tal como um bebé teve nove meses para se desenvolver antes de nascer. É brilhante, e é aquele tipo de coisa na qual gostava de ter pensado primeiro. Infelizmente, é mal aproveitada.

Existem outras personagens recorrentes - as vizinhas curiosas, os idosos desconfiados, o gerente hiper-competente, os pagens e empregados prestáveis... etc etc etc -, mas nenhuma digna de crítica (ou elogio). São personagens secundárias, e cumprem a função para a qual foram desenhadas. Como nota final (e bastante pessoal), gostaria de ter visto mais dos restantes heterónimos, mas não me parece que isso tivesse contribuído para melhorar o livro, de qualquer forma.

3. Setting/worldbuilding
O livro passa-se em Lisboa, ano de 1936, e muitos dizem ser este o foco principal da história. O fascismo espalha-se pela Europa, a Guerra Civil deflagra em Espanha, Salazar vai apertando o cerco às liberdades dos portugueses... e Ricardo Reis deprime, claro. Concordo com quem quer que me diga que este livro tem uma atmosfera cinzenta, opressiva, sombria... mas pelo menos no que tocou à minha leitura pessoal, isso deveu-se mais à personalidade (ou falta dela) do protagonista do que ao momento histórico em questão. O avançar da Segunda Guerra Mundial foi impossivelmente dramático, não o nego (hey, tive três anos de história e vejo documentários sobre o Holocausto sempre que posso, sei do que falo) mas quando contado através dos olhos de um personagem que vê a vida a cinza e cinzento... torna-se aborrecido, e faz-se saltar páginas.

Claro que não posso reclamar com o nosso Nobel por ter escrito um livro de magical realism tendo os regimes fascistas Europeus como backdrop... isso seria tomar um livro como um afronta pessoal, e enquanto leitora, não me parece que possa fazer isso. Portanto, limitar-me-ei a dizer que não gostei das passagens em que Saramago se perde em diálogos militaristas, mas quem escolheu ler este livro fui eu - e talvez o tivesse evitado se tivesse levado a sinopse mais a sério.

Como ponto positivo, vou só acrescentar que as descrições de Lisboa estão praticamente perfeitas - ler algumas passagens deste livro é bem capaz de ser a forma mais fácil de dar uma passeata pela capital sem sair de casa.

4. Estilo de escrita
Saramago escreve muito e pontua pouco, isso todos sabemos. Mas se há momentos em que se torna excessivo, também há momentos em que a escrita quase nos... embala, e isto é algo que notei em todos os livros que li dele, até hoje. O problema é mesmo a raridade com que encontro esses momentos, portanto, talvez eu não seja simplesmente o tipo de leitora certa para este autor. Amigas e amigos já me ouviram dizer várias vezes que desconfio sempre de livros grandes - "será que não dava mesmo para dizer a mesma coisa em metade das páginas?" -, apenas porque, na grande maioria das vezes, encontro padding em vez de plot. Passagens de descrição sem fim, devaneios sobre tudo desde a cor do céu à forma correcta de fazer chá, diálogos que não têm qualquer ligação com a história principal... é só dizer. Prefiro mil vezes ler um livro de duzentas páginas, action-packed por todos os lados, do que um tijolo de papel que ocupa essas mesmas duzentas páginas... a apresentar personagens.

Portanto, a minha opinião aqui é que dava, efectivamente, para dizer a mesma coisa em metade das páginas. Eu teria gostado muito mais do livro, Ricardo Reis teria passado menos tempo a deprimir, e no geral, toda a gente teria ficado feliz. Infelizmente, aí já não seria um livro de Saramago, pelo que terei de me resignar à realidade. Duas estrelas, e fico feliz por ter acabado.
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[PT] "Soulless" de Gail Carriger



★ ★ ★ ☆ ☆

Soulless
Gail Carriger
Ebook, aprox. 350 pages

Em primeiro lugar, ela não tem alma. Em segundo, é uma mulher solteira cujo pai era Italiano (e está morto). Em terceiro, foi recentemente atacada por um vampiro, quebrando todas as regras de etiqueta social. Daqui para a frente, as coisas vão de mal a pior, pois Alexia acaba por matar acidentalmente o vampiro - e depois, Lord Maccon (desleixado, lindo, e lobisomem) é enviado pela Rainha Victoria para investigar. Com vampiros a aparecer e desaparecer, toda a gente parece acreditar que Alexia é responsável. Conseguirá ela descobrir o que se está realmente a passar na alta sociedade londrina? Será que a sua capacidade de anular poderes sobrenaturais se provará útil ou apenas embaraçosa? E finalmente, quem é o verdadeiro inimigo, e será que têm tarte de melaço?

Na minha cruzada em busca de um livro steampunk a que possa chamar o meu Santo Graal, deixei para trás os sonhos de movimento perpétuo e optei por algo mais... bem, chamemos-lhe "seguro", e que já tinha inclusive alguma credibilidade no meu círculo social (adoro esta expressão, círculo social) pela qualidade da sua protagonista feminina. Vamos à review.

1. Plot
O enredo deste livro é simples, e não se alonga muito além do que é descrito na própria sinopse. Era uma vez uma donzela solteira (e sem alma, o que lhe dá a capacidade de neutralizar habilidades sobrenaturais com contacto físico) chamada Alexia Tarabotti, que se vê envolvida nos estranhos desaparecimentos e aparecimentos de vampiros na cidade de Londres. Sendo este um livro steampunk, é quase certo que mais cedo ou mais tarde nos vamos deparar com 1) cientistas, ou 2) inventores, mas não vou avançar muito mais ou acabo por desenrolar o enredo todo. Para pôr as pontos nos iii, é uma história simples, fácil de acompanhar, e duvido muito seriamente que alguém alguma vez tenha lido (ou aconselhado, for that matter) este livro pelo plot. Silly me.

2. Personagens
Efectivamente, este livro foi-me aconselhado por causa da protagonista, e devo admitir que Alexia Tarabotti tem muito que outras protagonistas dos dias de hoje não têm. Coisas como agência e iniciativa. Infelizmente, a coisa fica-se mais ou menos por aí, sendo que a donzela não possui grande personalidade ou qualidades (ou defeitos) para além desses - o que a safa (aka O Que A Torna Divertida De Ler) é que ter agência e iniciativa não era coisa a desejar numa solteirona Vitoriana. No fundo, não tenho grandes críticas ou elogios a tecer, e fico-me por dizer que Alexia me deixou bastante indiferente. (Sinceramente, dei por mim a encolher os ombros várias vezes ao longo desta review.)

Mas Alexia não vem sozinha, e se me tivesse apercebido disto mais cedo, talvez não tivesse lido o livro com tantas expectativas. Enter Lord Maccon, o interesse amoroso que consigo descrever de várias maneiras. A primeira é: basicamente, um animal. A segunda é: o estereótipo do brutamontes sem grandes maneiras ou talentos organizacionais numa posição de autoridade (lobisomem, Alfa), que as florzinhas de estufa Londrinas até curtem porque RAWRRR, ele cheira a prados verdejantes e traz consigo o ar bárbaro e selvagem da velha Escócia. Suponho que isso seja desejável? Ha. Haha. Haha. Ha-ha-haha... tirem-me este tipo da frente. Mencionei que é lobisomem? Ok.

As coisas começam a melhorar com Professor Lyall, o Beta do brutamontes. No que toca a personagens masculinas, este é claramente o meu tipo, o sidekick ultra competente, ultra bem vestido, ultra snarky, ultra discreto. O meu segundo tipo no que toca a personagens masculinas é personificado no ultra competente, ultra bem vestido, ultra snarky, mas NADA discreto Lord Akeldama, que posso descrever como um misto visual de Lestat (vocês sabem, o vampiro) e Visconde Druitt (vocês sabem, do manga Black Butler). Se houve alguma coisa a reter deste livro, é que estes dois dariam um casal fascinante.

Existem mais personagens, claro, mas não me vou alongar, porque nenhuma delas aquece ou arrefece grandemente o livro. O vilão é fraco, e todo o seu grupinho parece construído à pressão para nos dar um final mais ou menos de acção num livro que estava a descambar seriamente para o território dos romances Harlequin.

A minha menção honrosa vai para a inclusão no livro do americano Duncan MacDougall, uma pessoa mais do que real, que nos inícios do século XX decidiu dedicar o seu tempo a provar que a alma humana não só existia, como abandonava o corpo após a morte. Como é que ele fez isto? Pesando seis pacientes moribundos no exacto momento da sua morte, e chegando assim à conclusão de que a alma humana pesa, go figure, 21 gramas.

3. Setting/worldbuilding
Quanto a setting, vou fazer aqui um comentário que já fiz a um outro livro steampunk que li anteriormente. Podíamos tirar o steam, e não íamos perder nada. Não sei, pode ser só a minha voz inexperiente a falar, mas este é um setting 99% Vitoriano, com dirigíveis, umas engenhocas a vapor aqui e ali, e elementos sobrenaturais que ocupam a maior parte do worldbuilding. Again, nada de errado com isso, a autora tem todo o poder de criar o setting que bem lhe apetecer, mas no que toca a steampunk, ainda não é bem isto que procuro.

Ainda assim, leva pontos bónus pela forma como integrou os seres sobrenaturais na sociedade, com as suas próprias políticas e regras de etiqueta... quase como pequenas máfias. Se há razão para ler este livro, é bem capaz de ser essa.

4. Estilo de escrita
Neste ponto, não há muito a dizer. Gail Carriger é uma escritora competente, bastante sarcástica quando lhe convém, e dá-me muito pouco por onde me queixar. True, um bocadinho mais de descrição que não dissesse respeito a roupa ou comida não seria má de todo, mas não me vou alongar nisto. A escrita é leve, simples, e encaixa bem com o tom geral do livro.

Dito tudo isto, e julgando pelo número de vezes que encolhi os ombros, acho que a minha conclusão sobre este livro acaba por ser... não tem muito por onde se esprema. (Podemos até descrevê-lo como... sim, boa ideia... soulless.) É um livro, lê-se bem, entretém, mas não é propriamente algo que vá recomendar ou reler no futuro.
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[PT] Nanozine 9



★ ★ ★ ☆ ☆

O mais recente número da Nanozine, fanzine portuguesa composta por contos, entrevistas, etc etc etc, saiu em Julho, com equipa renovada e nova periodicidade, a partir de agora semestral.

E é ligeiramente vergonhoso notar que vou começar a rever a Nanozine pelo nono número, mas hey, tenho de começar por algum lado. Vamos aos contos, então, que é para isso que leio fanzines:

A Máquina do Tempo, Joel Puga
Com cerca de 500 palavras, um conto deste tamanho tem quase obrigatoriamente de confiar em exposição seguida de plot twist. Efectivamente, segue a regra, e fá-lo bem, embora não me pareça particularmente inovador ou memorável.

O Colapso, Michael Silva
Logo ao ler a primeira página, a palavra que me veio à mente foi “demasiado”. Há claramente alguma coisa (ou muita coisa, ou a maior parte da coisa) a escapar-me, e embora essa sensação não me costume incomodar quando há algo que a compense – um plot bem contruído ou personagens interessantes, por exemplo –, isso não acontece aqui. São só duas páginas, é verdade, pelo que dificilmente poderia pedir tudo isso, mas de qualquer forma, senti-me completamente perdida. Há worldbuilding, nota-se, e felicito o autor por isso, mas não me conseguiu cativar. Talvez num formato mais longo?

Roland’s, Carlos Silva
O primeiro parágrafo é bastante enigmático, e um começo forte para o conto. Não posso dizer que não tenha revirado os olhos quando a história em si se começou a... bem, revelar, mas acabei por desculpar ao chegar ao final – que é previsível, certo, mas ainda assim bem conseguido. Dos três contos, é sem dúvida o melhor.

Acta da reunião do júri do concurso literário "Palavras Nunca Lidas", João Ventura
Ah, se todas as actas fossem assim, o mundo seria um lugar melhor. O mesmo não pode ser dito do concurso literário em questão, que não me parece contribuir em nada para o bem da humanidade. Deixo ao critério do autor decidir se todos os concursos seguem este mesmo teor de utilidade social... já que estes não são temas que uma pessoa respeitável como eu deva discutir em público. Basicamente, adorei o texto, e conseguiu fazer-me sorrir. Em bom inglês, you is good job.

Micro-Contos, Humberto Ferreira
Eu huh... não aprecio micro-contos, em geral. Acho que é preciso ser muito, muito bom (talvez melhor do que o Hemingway) para conseguir escrevê-los, e feliz ou infelizmente, nem todos o somos. Dito isto, parece-me que os micro-contos em questão se lêem um pouco como anedotas, ou talvez até provérbios, com algum tipo de moral superior mas sem qualquer conteúdo que me leve efectivamente a procurar a história nas entrelinhas.

Relativamente ao resto da revista, peço desde já desculpa aos autores de poesia, mas recuso-me a opinar sobre os seus textos por via da minha já conhecida incapacidade de ler em verso. Não sei ler poesia, não sei retirar sentido de poesia, não sei apreciar poesia - e logo aí, já estaria a ser injusta com os autores. Quanto às entrevistas, ambas me pareceram competentes e bem conseguidas, embora as tenha lido um pouco na diagonal por não conhecer o trabalho dos autores. O artigo de João Campos, Onde está a Ficção Científica em Portugal, encontrou em mim a pior leitora possível, uma vez que não sou, de todo, pessoa de ficção científica - ainda assim, fiquei curiosa com alguns dos títulos mencionados. Acho relevante apontar, no entanto, que o título do artigo é enganador, levando-me a pensar que ia ler sobre autores portugueses de sci-fi (ou as razões pelas quais eles não existem), expectativa que acabou por sair gorada. A revista fecha com um artigo de recomendações, 8 Livros para Ler na Praia, que me pareceu, com toda a sinceridade, exibir uma selecção completamente random. Preferiria ter visto o mesmo conceito aplicado a "tipos" de leitores, por exemplo... sugestões para os amantes de fantasia urbana, sugestões para os fãs de não-ficção, sugestões para os que devoram romances paranormais, etc. Ou, se o objectivo era manter a variedade, talvez cada membro da equipa pudesse ter contribuído com uma sugestão?

Finalmente, ao nível gráfico, esta revista mostra-se bastante mais simples do que algumas das anteriores, inclusive ao nível da capa. Visualmente, não é o melhor número que a Nanozine alguma vez publicou, mas vamos dar tempo à nova equipa. No geral, dou à revista três estrelas... e desejos de boa sorte para os números futuros. :)
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[PT] "The Dream Of Perpetual Motion" de Dexter Palmer



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Dream Of Perpetual Motion
Dexter Palmer
Ebook, aprox. 350 páginas

Aprisionado para o resto da vida a bordo de um dirigível, o escritor de cartões Harold Winslow regista as suas memórias. Os seus únicos companheiros são a voz desencarnada de Miranda Taligent, a única mulher que alguma vez amou, e o corpo criogenicamente congelado do pai dela, Prospero, o génio e magnata que a levou à loucura. A história de vida de Harold é também a de uma realidade alternativa, onde os ricos têm homens mecânicos como servos, onde réplicas de ilhas desertas existem dentro de arranha-céus, e onde ele próprio participa, contra a sua vontade, na maior invenção de todos os tempos - a máquina de movimento perpétuo.

Está tudo muito bem, mas antes de mais nada, vamos discutir uma coisa muito séria. Traduzi e resumi a sinopse original, uma vez que... bem, este blog é em português. Mas, mesmo tendo sido cortada, há uma parte que merece uma menção honrosa:

Beautifully written, stunningly imagined, and wickedly funny, The Dream of Perpetual Motion is a heartfelt meditation on the place of love in a world dominated by technology.

Wickedly funny. Quem é que escreveu isto? Arriscaria dizer que foi provavelmente a mesma pessoa que descreveu The Book Of Human Skin como "funny, horrific, subversive", mas tal é pouco provável, uma vez que esta última citação se encontra na capa do livro, e assinada por Joanne Harris. A sério? Funny? Sinto-me numa realidade alternativa em que Vlad-O-Impalador é crítico literário. Funny. Deuses me ajudem, vamos mas é à minha crítica.

1. Plot
Well, well, well. Não fazia ideia quando comecei a ler o livro (porque os meus conhecimentos de Shakespeare se resumem à forma correcta de escrever o seu nome), mas é suposto isto ser uma retelling (ou talvez só uma adaptação muito, muito liberal) da peça The Tempest. Para que conste, não sei nada sobre esta peça - apenas que fizeram um filme em 2010 com um star-studded cast (Helen Mirren, Ben Whishaw, Djimon Hounsou, Alfred Molina, entre outros) e diálogos em Shakespeare!Speak, pelo que gostei muito do que vi, mas não percebi nada do que ouvi.



No entanto, uma vez que não sabia de nada disto quando li o livro, vou ignorar o source material (e o filme), e opinar apenas sobre o que tive à frente. Começando pelo plot, então. Era uma vez um rapaz perfeitamente normal (Harold) que entra na vida da rapariga não tão normal (Miranda) por intervenção exterior (Prospero). Beijam-se aos dez anos, são separados por intervenção exterior, reencontram-se aos vinte por intervenção exterior, ele está muito apaixonado por ela (e o que ela sente por ele é um mistério), são novamente separados por intervenção exterior, e quase se reencontram aos trinta por intervenção exterior. Meanwhile, o rapaz perfeitamente normal, que, coitadinho, não tem grandes sentimentos, alguém o ajude com a ManPain(TM), conta-nos toda esta história da sua prisão-dirigível, com todos os detalhes sórdidos (e machistas) que quase me fizeram atirar o livro pela janela.

Todo este conceito de herói passivo e intervenção exterior... não é mau. A ideia de que um homem manipulou a vida inteira do protagonista sem que ele se tenha (sempre) apercebido é bastante boa. A ideia de que um homem manipulou a vida inteira do protagonista sem que ele se tenha (sempre) apercebido porque lhe prometeu, quando o trouxe para a vida da sua filha, que o iria fazer até realizar o seu heart's desire, é brilhante. Infelizmente, este conceito acaba por ser abandonado a meio do livro, e recuperado a algumas páginas do fim para uma das conclusões mais mórbidas que alguma vez li. Contra todas as expectativas, um bom conceito e um final mórbido do not a book make, e especialmente não quando o final mórbido vem em consequência das falhas que vou enumerar a seguir.

2. Personagens
As personagens deste livro... falham, a todos os níveis. Harold Winslow, o nosso protagonista, é absolutamente detestável. Acompanhamo-lo ao longo da sua vida, mas a pouca empatia que lhe pode ser dedicada limita-se à sua infância. O que temos aqui é um homem que acha que nada importa, mas continua a viver... porque sim, suponho eu. Tudo bem, ele reitera várias vezes que não é um herói, mas continua a ser um dos protagonistas/narradores mais desagradáveis que já tive o desprazer de ler.

Prospero Taligent, o pai de Miranda, até parece boa pessoa (chega a ser quase... empático, em algumas partes?), até chegarmos aos bastidores dos seus milagres e invenções. Spoiler alert, o homem é um monstro. Ainda assim, é um monstro mal construído, porque não tenho qualquer noção de quem ele é, apenas das coisas que faz.

Miranda Taligent, descrita várias vezes ao longo do livro como "a donzela em apuros" (a sério?), é impossível de descrever. Objectivamente, não sabemos nada sobre ela - apenas que viveu a maior parte da sua vida fechada numa torre, fugiu uma vez ou outra, e depois sofreu um destino horrendo às mãos do próprio pai. Subjectivamente, temos uma ideia de quem ela é, porque o narrador não se inibe de nos dizer que está apaixonado por ela, que a vai salvar, etc etc etc. Para dizer as coisas de forma pura e dura, esta personagem é descrita como um objecto. Ela é a razão pela qual os homens deste livro fazem o que fazem, mas não tem qualquer agência ou personalidade. É uma tela em branco para as fantasias destes homens, que vêem nela uma pureza inigualável, imutável... até ao momento em que, whoa, ela afinal é capaz de mudar. É aí que all hell breaks loose, e é igualmente aí que eu começo a ter problemas com este livro. Esta obsessão com os conceitos de infância e pureza e virgindade (sempre aplicados ao género feminino, não esquecer) deixa-me doente. Miranda é perfeita até ao momento em que beija um rapaz, tem o seu primeiro período, atravessa a puberdade, tem a primeira relação sexual, and so on - a partir daí, passa a ser vista como uma mulher vil, ingrata, suja, que usurpa o lugar da menina sem a ele ter direito.

Emocionalmente, este tipo de narrativa mexe sempre comigo, e torna muito, muito difícil apreciar um livro. Sinto que estou basicamente a assistir, sem poder fazer nada, a um castigo bárbaro infligido a uma mulher por causa da sua sexualidade. Depois de trezentas páginas a ler este palavreado, não me consigo abstrair do género da pessoa que sofre no final - Miranda não sofreu por ser má pessoa, ou vilã, ou whatever. Sofreu por ser mulher, e isso anula todo o possível interesse do final mórbido (e só me dá vontade de atacar o autor com uma picareta).

No que toca a personagens femininas, só existem mais duas de relevo neste livro - Astrid, irmã de Harold, e Charmaine Saint Claire, amiga de Astrid (e um total estereótipo da feminista que ninguém suporta e que, por alguma razão, fala em itálicos). Nem me vou pronunciar relativamente a Charmaine, e sinto-me sinceramente envergonhada pelo autor, que achou que era boa ideia fazer uma paródia (bastante negra, diga-se) do movimento feminista num livro que já é, de si, problemático na forma como trata as suas mulheres. Quanto a Astrid, foi a minha personagem preferida, pela forma como lida com o seu passado, dedicando a sua vida à arte - no entanto, cada uma das peças que termina é indicadora de um maior e maior desespero (no qual ninguém repara), e será esta escalada que acabará por levar ao seu próprio destino horrendo. Hey, estão a ver aqui algum padrão, ou...?

Se há livro onde não é bom ser mulher, look no further, é mesmo este.

3. Setting/worldbuilding
O setting deste livro é... ligeiramente confuso. É difícil ter uma noção da época descrita, a nível visual, e o facto de saltarmos entre diferentes fases da vida de Harold não ajuda a "solidificar" o cenário - embora seja claro que nos encontramos numa versão alternativa do século XX. As secretárias de Prospero parecem ter saído directamente dos nossos anos 40, mas existem discotecas, mulheres de calças de ganga, carros normais (à falta de melhor termo) e carros voadores, e a cidade é descrita de forma assustadoramente contemporânea. E depois, claro, temos o dirigível - e o vilão a espalhar o terror com panfletos e ameaças de death rays. Não digo que estas coisas não possam fazer sentido em conjunto, mas pessoalmente, tive alguma dificuldade em visualizá-las num cenário coeso.

4. Estilo de escrita
Não há muito a dizer aqui. Dexter Palmer escreve bem que se farta, e vendia um braço... well, tendo lido este livro, talvez não, acho que vou ficar com todas as minhas partes... mas vendia definitivamente alguma coisa para conseguir escrever como ele. A forma como consegue transmitir uma imagem é absolutamente extraordinária - e não há muito autores que me consigam levar a uma reacção física, mas ele conseguiu. Neste ponto, leva cinco estrelas certinhas.

Infelizmente, no total, não vai levar mais de duas. Gostei muito da sua escrita, Sr. Palmer, mas é a única coisa verdadeiramente positiva que tenho a dizer sobre este trainwreck.
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