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Opinião: 'Boneshaker', Cherie Priest



★ ★ ☆ ☆ ☆

Boneshaker // Cherie Priest
• Publicado a 29 de Setembro de 2009, pela Tor Books

In the early days of the Civil War, rumors of gold in the frozen Klondike brought hordes of newcomers to the Pacific Northwest. Anxious to compete, Russian prospectors commissioned inventor Leviticus Blue to create a great machine that could mine through Alaska’s ice. Thus was Dr. Blue’s Incredible Bone-Shaking Drill Engine born.

But on its first test run the Boneshaker went terribly awry, destroying several blocks of downtown Seattle and unearthing a subterranean vein of blight gas that turned anyone who breathed it into the living dead.

Now it is sixteen years later, and a wall has been built to enclose the devastated and toxic city. Just beyond it lives Blue’s widow, Briar Wilkes. Life is hard with a ruined reputation and a teenaged boy to support, but she and Ezekiel are managing. Until Ezekiel undertakes a secret crusade to rewrite history.

His quest will take him under the wall and into a city teeming with ravenous undead, air pirates, criminal overlords, and heavily armed refugees. And only Briar can bring him out alive.

Por que é que li este livro? O meu círculo social mandou-me. Isto prova, essencialmente, que não posso confiar neles para nada.


Não, pronto, estou a abusar. Mas é verdade que a) peguei neste livro depois de ter lido as opiniões brilhantes de muitos dos meus camaradas mais próximos, e b) como sempre, o meu coração hipster não conseguiu alinhar com eles.

Falemos, então. Boneshaker é o primeiro volume do magnum opus steampunk de Cherie Priest, e começa logo com um ponto a favor - não se passa numa Inglaterra Vitoriana alternativa. Nope, a autora leva-nos até à sua versão de Seattle, no rescaldo de um desastre muito pouco natural que obrigou a população a selar a cidade para se escapar ao gás tóxico que transforma as pessoas em zombies. O livro inclui todos os tropes que estamos habituados a encontrar em steampunk, desde airship pirates a engenhocas com nomes espampanantes como Dr. Minnericht's Doozy Dazer, e no geral, não posso negar que a autora tenha colocado todos os ingredientes certos na picadora.

O problema, do meu ponto de vista, foi mesmo o resto do processo. Não basta juntar farinha e ovos (e coisas afins) para fazer um bolo, tal como não basta juntar um worldbuilding francamente awesome e uma série de clichés do género para escrever um livro capaz de me arrebatar.

Senti que me desentendi com Boneshaker em dois pontos principais: caracterização e enredo. Descrevi o livro a uns amigos como "duas batatas a correrem por túneis", e embora esse não seja o resumo mais refinado, foi o que me serviu na altura. Este livro conta com dois protagonistas, Briar e o seu filho Zeke, que vivem nos arredores da cidade murada. Um belo dia, Zeke lembra-se que quer ir descobrir a verdade sobre o seu pai, o cientista maléfico que pode ou não ter destruído as fundações da cidade com a sua broca gigante (o titular Boneshaker), e entra por ali adentro por um túnel que passa por baixo das muralhas. Briar, sentindo-se muito culpada por nunca ter contado a verdade ao seu filho, tenta segui-lo, mas o túnel desaba devido a um conveniente terramoto - FEAR NOT THOUGH, pois a nossa heroína não desanima. Como qualquer pessoa que tenha lido/visto Attack On Titan sabe, a melhor maneira de invadir uma cidade murada é por cima, pelo que lá vai ela pedir ajuda a uns airship pirates. Poucas horas depois está dentro da cidade, e aí começa o enredo que me deixou de joelhos a rezar pelo fim. Zeke encontra pessoas que o guiam através de túneis. Quando está à superfície, foge de zombies. Briar faz o mesmo. Depois de 300 páginas de correria, encontram-se lá para o final do livro, derrotam o vilão que é basicamente uma versão barata do construtor do Boneshaker, e fazem as pazes. All is well, mas eu sinto que fiz mais character development sem sair do meu sofá do que este pessoal numa Seattle caótica, murada, zombificada, enevoada por gases tóxicos, e praticamente desabitada - se excluirmos a mão-cheia de pessoas que nunca chegaram a sair durante as evacuações.

Voltamos aos ingredientes, pessoal. Este livro tinha tudo para me entusiasmar - zombies! piratas! sociedades alternativas organizadas por sobreviventes em tempos de crise! máquinas destruidoras de cidades! -, mas o resultado final não me agradou. Leva duas estrelas porque ia levar três, mas eu prometi que tirava uma se o Boneshaker não aparecesse de forma relevante (e funcional) na história. Não apareceu. Fiquei destroçada.


Portanto... fiquem bem, leiam Boneshaker independemente da minha opinião (é estatisticamente provável que o apreciem mais do que eu), e na volta recomendem-me o melhor livro steampunk que alguma vez leram. A casa agradece!
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Review: 'Alice Through Blood-Stained Glass', Dan Adams



★ ★ ☆ ☆ ☆

Alice Through Blood-Stained Glass // Dan Adams
• Published September 1st 2014 by Harper Collins

A fun, horror-style zombie retelling of Alice in Wonderland.

Alice is minding her younger sister when the Zombie apocalypse hits. She has to find safety but is thwarted at every turn - by a strange man, by two stoners. The world has gone made and she doesn't know who to trust.

Why did I read this book? Alice In Wonderland + zombies. I'm that easy.

I didn't quite get what I'd expected, though. Yes, the protagonist is named Alice and she does indeed fight zombies, as she roams a land so desolate that the rules of the world she's used to no longer apply, and she does meet a few folks with wonderfully suggestive names, such as Waistcoat or Hatter, and she does end up arousing the rage of a red Queen... but the book doesn't exactly feel like Alice In Wonderland. It doesn't even feel like a tribute, or a retelling - it feels like a coincidence. This survivalist with a handgun and a hair-trigger temper may be called Alice, but there's very little about her that feels familiar.

The book starts normally enough, with our protagonist minding her younger sister in a park when a stranger in a waistcoat runs past, informs her that all hell has broken loose in the shape of rabid zombies, and that she should, therefore, run. Alice runs. Her sister dies. She swears revenge, learns her way around guns, and the rest is your basic, run-of-the-mill post-apocalyptic survival story. There's nothing particularly creative about the zombies themselves (guess how they came to be...), or the way the plot is conducted throughout the book. Alice doesn't get much character development, and neither does anyone in the supporting cast - though that still didn't stop the resident Cheshire Cat from being a highly entertaining character.

The pacing is slightly awkward at first, putting Alice through a series of "levels" where she meets a character, fights along them for a while, and then carries on alone (either because her allies keep dying, or because she keeps leaving them). This issue is fixed around halfway through, where the structure changes radically to welcome some of the previously mentioned characters into Alice's clique.

Overall, we could say I found this book flawed, heavily so, but entertaining. It'll do more for the zombie lovers than the Alice lovers, with its no-holds-barred depiction of violence and its complete lack of whimsy, though, and for that I will give it two stars. It's campy, it's fun, it's morbid, it uses zombie toddlers as weaponry and I can't blame it, but its attempted association with Lewis Carroll's Alice may be doing it more harm than good.


NOTE: This book was provided by the publisher, through NetGalley, in exchange for an honest review.
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Opinião: 'The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman', Angela Carter



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman
Angela Carter

In this magical adventure Desiderio is stricken with love for Albertina, a woman he sees only in his dreams. He must also battle against Dr. Hoffman and his mysterious machines as they bend time and space to turn Desiderio's city into a nightmare of lust, insanity and crime. But the evil Doctor is also Albertina's father...

Por que é que li este livro?
Já vos falei da minha Maratona Angela Carter, em que leio todos os livros da senhora apenas para poder bater com os pés e queixar-me que estas feministas dos anos 60 têm muito que andar? Yup, foi por isso que li este livro.

Oh, e aviso à navegação: este livro inclui imensas violações, das quais irei falar ao longo deste post. Estou a dizer-vos já para ninguém ser apanhado de surpresa. Ok? Ok.

1. Plot
Antes de mais nada, sentem-se, que isto vai ficar confuso.

The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman conta a história de Desiderio, um rapaz/homem perfeitamente normal que trabalha para o chamado Minister of Determination de uma cidade atacada por ilusões. Confuso? Ok, vamos tentar outra vez.

Era uma vez um cientista de ética questionável, de nome Doctor Hoffman. O seu objectivo é, obviamente, dominar o mundo, através de uma série de truques e ilusões que desviam o mais comum dos mortais do seu pacato dia-a-dia. Isto tem implicações vagamente hilariantes, como ruas que mudam de sítio todos os dias e "fantasmas" que se parecem em tudo com pessoas reais. A nossa história passa-se então na cidade que Doctor Hoffman usa como campo de testes para as suas armas de ilusão maciça - uma cidade que decidiu dar luta, na pessoa do seu Ministro da Determinação. E o que faz um Ministro da Determinação, perguntam-se vocês? Ah bem, determina. Determina o que é real e o que é ilusório, e tenta governar com base nisso.

Desiderio é o braço direito do Ministro, e quando este último desaparece misteriosamente, é ele quem é enviado para o procurar. Pelo caminho, vai sonhando com uma rapariga/mulher chamada Albertina, por quem se apaixona porque sim (é Carter, nunca a vi escrever um romance que faça sentido, lidemos com isso), e atravessando diversas realidades surreais em que toda a gente é violada porque sim.


Digo-vos, se tivesse levado a sério o meu próprio Angela Carter Drinking Game (um shot por cada cena de violência sexual), estaria a escrever esta opinião sentadinha nas urgências.

2. Personagens
Esqueçam. Desiderio é o tipo de protagonista masculino que deixa os senhores autores de meia-idade satisfeitos. Está sozinho no mundo, e tudo lhe é indiferente. Nada o fascina, nada o confunde. As mulheres com quem dorme são apelidadas de "brinquedos". Ele é uma ilha de consistência num mundo que se se esforça, todo o santo dia, por quebrar as regras do espaço e do tempo.

Ou seja, ele é extremamente aborrecido.

Por outro lado, temos Albertina, cujas principais funções na história se resumem a 1) ser violada, e 2) ser a misteriosa filha de Doctor Hoffman, que pode ou não ter servido apenas de isco para levar Desiderio até ao seu covil do mal. Como acontece à grande maioria das mulheres de Carter, acaba por morrer.

Depois, temos uns quantos personagens "de passagem", que se mantêm com Desiderio apenas durante períodos da história - ou seja, cada nova realidade traz consigo personagens novas. Desiderio passa então uns tempos entre o povo do rio, uma espécie de tribo Nativa Americana que se dedica ao comércio e vive em pequenos barcos, em constante movimento. Integra-se facilmente na sua cultura, porque é meio Nativo Americano (e Carter não deixa de mencionar isso ao longo do livro, cerca de cinco mil vezes). A tribo oferece-lhe uma noiva de nove anos, seguem-se vários episódios sexuais, etc, não me obriguem a falar sobre isto.

Na realidade seguinte, Desiderio junta-se a uma espécie de feira popular, onde trabalha como ajudante. Obviamente, porque isto é Carter, é violado por uma trupe de acrobatas Marroquinos.

Na realidade seguinte, Desiderio junta-se a, adivinhem, Drácula, na sua fabulosa carruagem niilista a caminho da lado nenhum. Drácula tem um pequeno assistente, cuja cara está constantemente coberta de ligaduras por, supostamente, ter perdido o nariz para a sífilis. Obviamente, porque isto é Carter, Lafleur é frequentemente violado por Drácula.

Na realidade seguinte, depois de uma complicada travessia marítima, Desiderio é capturado por uma tribo Africana cujo exército é constituído, exclusivamente, por mulheres a quem o clítoris foi amputado. Por milagre, não há violações, mas Drácula é cozinhado vivo. Yay?

Na realidade seguinte, Desiderio e Lafleur, que afinal era Albertina sob disfarce, são acolhidos por uma sociedade de centauros. Sim, há violações. Acabou a conversa.


3. Setting/worldbuilding
Ora bem, o que escrevi até agora já vos dá alguma ideia do tipo de setting em que este livro se passa. As localizações, embora nunca tratadas pelo nome, são facilmente identificáveis, ao contrário do período temporal - saltitamos entre séculos sem grande aviso prévio, mas Carter consegue manter-nos mais ou menos orientados. Não temos de saber onde ou quando para poder apreciar uma história, e essa é uma máxima que se aplica a este livro na perfeição. (não que eu tenha, efectivamente, apreciado a história, mas o importante aqui é saber que não foram os saltos temporais que me impediram)

Houve aqui bastante potencial desperdiçado, diria eu, porque chegamos ao final e descobrimos que afinal a energia que move todas as armas de ilusão maciça (adoro esta expressão) é, nada mais nada menos, do que energia sexual - recolhida, acho eu, a partir dos fabulosos fluidos corporais de dezenas de casais trancados num laboratório, que pouco mais fazem do que, bem, sexo.


Não sei porque é que ainda tento. Bem-vindos ao mundo altamente feminista de Carter, onde tudo é sexo e... pois, é basicamente isso. Não há excepções. Yup. Sexo.

4. Estilo de escrita
Há duas coisas que me fazem continuar a ler Carter, mesmo tendo em conta a sua obsessão por violação (e vaginas) - uma é saber que a mulher que escreveu Shadow Dance e Love é bem capaz de ter outra obra-prima escondida na sua bibliografia; a outra é a sua escrita.

The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman é mais denso do que outros livros da autora, em grande parte devido à pseudo-ciência utilizada para dar alguma profundidade ao worldbuilding. Ainda assim, Carter consegue sair-se com coisas destas:

He was ready for any funeral and he carried a cane tipped with a silver ball that looked as if it could kill. His diabolical elegance could not have existed without his terrible emaciation; he wore his dandyism in his very bones, as if it was a colour that had seeped out of his essential skeleton to dye his clothes [...]

Estou fula por não escrito esta passagem primeiro. Também estou fula por isto não representar, de forma alguma, o tom geral do livro - afinal, ninguém é violado nesta passagem, como podem reparar.

Em resumo...
Esta foi uma semana muito triste no blog, porque consegui deitar abaixo duas das minhas autoras favoritas por razões completamente diferentes. A conclusão aqui, crianças, é que até os nossos favoritos fazem asneira.

E se nunca apanharam os vossos favoritos a fazer asneira, sugiro que passem a prestar mais atenção.

Mas voltando ao livro. The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman foi uma desilusão descomunal. A história poderia ter sido boa, mas dei por mim a revirar os olhos tantas vezes que perdi completamente o interesse. Não quero ler sobre centauros a violar mulheres. Não quero ler sobre ninguém a violar ninguém, ponto. Não quero ler sobre um mundo alimentado por energia sexual (...em que é que isso será diferente do mundo real, pergunto-me). Não quero ler sobre um protagonista apático que é meio Nativo Americano só porque a autora precisa de uma desculpa para parecer menos racista. Não quero, não quero, não quero.

É curioso observar que, há pouco menos de um ano, escrevi sobre outro livro sobre cientistas pouco éticos que atraem tipos perfeitamente normais às suas redes só porque sim, têm cidades inteiras aos seus pés só porque sim, e lixam as suas filhas no final só porque sim... o livro chamava-se The Dream Of Perpetual Motion, e levou, tal como este vai levar, duas estrelas. São bastante parecidos, na verdade - livros cheios de boas intenções, que, na sua tentativa de chamar a atenção para o machismo do mundo, acabam por ser, eles próprios, absurdamente machistas; livros sobre cientistas que o texto compara ao Prospero de Shakespeare (Perpetual Motion é uma retelling de The Tempest; Doctor Hoffman nunca se assume como tal, embora as semelhanças estejam lá); livros super bem escritos, mas que descuram as personagens, particularmente o protagonista; livros que dão grande protagonismo ao conceito de desejo, utilizando várias vezes a expressão heart's desire; livros que integram o ideal de movimento perpétuo na sua pseudo-ciência.

Doctor Hoffman foi publicado em 1986; Perpetual Motion em 2010. Estará o autor do segundo consciente do quão perto esteve de reescrever o primeiro?

Fica a questão.
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Opinião: 'Piratica', Tanith Lee



★ ★ ☆ ☆ ☆

Piratica: Being A Daring Tale Of A Singular Girl's Adventure Upon The High Seas
Tanith Lee

Artemesia Blastside is the daughter of a sea pirate, trapped in Angels Academy for Young Maidens. But more interested in the sea life, she escapes in search of her mother's old crew. As she sweeps the motley and unwilling crew into the treasure hunt of all time, will she be able to to win her mother's crown as the famous Piratica?

Por que é que li este livro?
Tanith Lee e uma jovem capitã pirata. É preciso dizer mais?

1. Plot
O enredo deste bicho é simples. Num mundo que é exactamente igual ao nosso, tirando os nomes mal disfarçados, uma jovem de nome Artemisia bate com a cabeça enquanto pratica a sua postura no colégio privado que frequenta. E claro, como em todas as boas obras de ficção, este potencial traumatismo despoleta nela uma torrente de memórias da sua infância, passada em alto mar com a falecida mãe, a capitã pirata mais famosa de todos os tempos. Inspirada por este flashback, Artemisia foge do colégio contra a vontade do pai (que a aprisionou lá, note-se) em busca da antiga tripulação do navio da sua mãe, muda de nome para Capitão Art Blastside, e lidera o seu bando de misfits em busca de um tesouro lendário.

Até aqui tudo bem - o problema é que Artemisia alucinou mais do que devia, porque as suas memórias do alto-mar se resumem a peças de teatro protagonizadas pela sua mãe e pelo grupo de actores que representava a sua "tripulação". Ou seja, noventa por cento dos personagens não estão aptos a navegar no que quer que seja - talvez nem num caiaque.

Ainda assim, eles lá vão e encontram o tesouro, derrotam a tripulação adversária num épico duelo, e escapam ao cadafalso sem um arranhão... porque isto é um livro para crianças/jovens e eu gosto de pensar que Tanith Lee sentiu necessidade de se simplificar em prol da sua audiência. Os seus piratas não matam, só roubam mercadores ridiculamente ricos que podem bem lidar com as perdas materiais... e no geral, para história de piratas, isto parece uma coisita assim meia deslavada.

Lee é muito melhor a escrever fantasias para adultos do que fantasias para crianças, e nota-se a léguas.

2. Personagens
Em poucas palavras, não gostei de nenhum dos pedaços de cartão com nomes e duas linhas de backstory que Tanith Lee me apresentou.

Artemisia sofre do mesmo síndrome da protagonista de A Face Like Glass, curiosamente - nada na sua personalidade nos leva a crer que ela seja capaz de fazer as deduções necessárias para avançar o enredo, mas isso não a impede de estar sempre um passo à frente do resto da humanidade.

Da sua tripulação, o único personagem que se destaca é Ebad, porque... bem, porque é negro, viveu parte da sua vida como escravo, e quase todas as suas aparições fazem questão de apontar estes dois factos, sugerindo ainda que talvez ele até seja descendente de Faraós. Os restantes marujos confundem-se uns com os outros, e quanto a nomes? Pois, não memorizei nenhum.

Posso ainda falar de Felix, o rapazinho misterioso e ligeiramente inútil que se junta à nossa caça ao tesouro por via de razões. É suposto eu acreditar que, a certa altura, ele se apaixona por Artemisia e vice-versa, mas para repetir opiniões já expostas neste blog sobre outros livros, acho este casal tão entusiasmante como um desenrolador de fita-cola.

Finalmente, temos Little Goldie Girl, uma personagem que, muito sinceramente, nunca pensei vir a ler num livro de Tanith Lee. Se há tal coisa como o estereótipo de mulher que só chegou ao poder pela sua beleza e posição na família, não procurem mais, esse estereótipo existe na pessoa de Goldie. Uma jovem capitã que se veste de forma impressionante e luta como uma besta desalmada, apenas para ser derrotada quando Artemisia lhe corta o cabelo e lhe marca o rosto com a sua espada? Por favor, Lee. Esperava muito mais de ti.

3. Setting/worldbuilding
Ok, então lembram-se de quando vos disse, no início, que este mundo era exactamente igual ao nosso? Estava a mentir, há uma diferença: Inglaterra é uma república.

Tirando isso, o worldbuilding deste livro resume-se a "o planeta Terra, tal como era em 1802, mas os sítios têm nomes diferentes" - ou seja, o rio Thames passa a ser o Thamis, e London passa a ser Lundon. Pergunto-me, será que isto era mesmo necessário? Não, porque não contribui em nada para o livro, e só me faz revirar os olhos face à verdadeira ingenuidade desta esquema.

Como nota de rodapé, é importante notar que Tanith Lee já fez isto antes, na série The Secret Books Of Paradys, escrita em 1988. Paradys é uma versão misteriosa e vagamente (ok, altamente) sobrenatural de Paris durante os séculos XVIII/XIX, mas a principal diferença face a esta Inglaterra republicana é que Paradys tem influência directa nas histórias que nela se passam. É worldbuilding com um propósito claro, ao contrário deste.

4. Estilo de escrita
Tanith Lee é conhecida pela sua escrita elaborada e elegante, e pelo seu talento nato para envolver o leitor nas suas palavras. Também aqui senti isso, mesmo sem me ter sentido particularmente atraída pela história.

Em resumo...
No geral, este livro desiludiu-me - mas é provável que isso se deva mais a um desajuste entre aquilo que normalmente espero da autora e aquilo que efectivamente ela tem margem para fazer num livro para crianças e adolescentes, do que propriamente à qualidade do mesmo. Por essa razão, este acaba por ser mais um daqueles casos em que não sou, de todo, a pessoa certa para avaliar a obra. Não gostei, mas talvez recomende a pessoas viradas para este tipo de narrativa. Duas estrelas!
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Opinião: 'The Clockwork Scarab', Colleen Gleason



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Clockwork Scarab
Colleen Gleason

Evaline Stoker and Mina Holmes never meant to get into the family business. But when you’re the sister of Bram and the niece of Sherlock, vampire hunting and mystery solving are in your blood. And when two society girls go missing, there’s no one more qualified to investigate.

Now fierce Evaline and logical Mina must resolve their rivalry, navigate the advances of not just one but three mysterious gentlemen, and solve murder with only one clue: a strange Egyptian scarab. The stakes are high. If Stoker and Holmes don’t unravel why the belles of London society are in such danger, they’ll become the next victims.

Por que é que li este livro?
A sobrinha de Sherlock Holmes e a irmã de Bram Stoker são contratadas por Irene Adler para combater o crime na capital Inglesa. Vagamente steampunk. Por que é que eu não havia de ler este livro?

1. Plot
Meninas da alta sociedade Londrina vão desaparecendo sem razão aparente, deixando para trás pequenos escaravelhos mecânicos. E obviamente que têm de ser escaravelhos, porque como sabes, Bob, a sociedade Vitoriana pouco mais inclui do que corpetes e artefactos egípcios. Mas passemos à frente. As nossas heroínas, que não se conhecem de lado nenhum (e que preferiam manter esse gracioso estado de coisas), são chamadas por Irene Adler a pedido da Princesa Alexandra para resolver este estranho caso, e obviamente que a princípio não se entendem. Infiltram-se, lêem muitos livros, fazem asneiras, o Big Bad pode ou não ser uma paródia do movimento feminista (se pretende ser uma representação fiel do mesmo, meus deuses, é terrível), e é basicamente isso. Há triângulos amorosos que em nada contribuem para a história, e as capacidades sobre-humanas das nossas protagonistas acabam por não passar de palavras bonitas no ecrã do meu Kobo. O Big Bad escapa. Há mais do que espaço para escrever uma sequela. Eu queixava-me desta manipulação desavergonhada do leitor, mas não estou suficientemente interessada.

Oh, e há viagens no tempo? Pois, mas nem isso interessa.

2. Personagens
Nem sei por onde começar. Por um lado, apetece-me dizer que nem Mina Holmes nem Evaline Stoker merecem carregar os apelidos dos seus populares parentes. Mas nem é isso que me incomoda. O que me incomoda é que estes apelidos arrastam consigo toda uma série de expectativas para o leitor, que saem completamente furadas neste livro. Mina Holmes é sobrinha de Sherlock Holmes, e tudo nela é exactamente como seria de esperar - inteligente, super inteligente, tão inteligente que detesta festas e a governanta tem medo de entrar no seu laboratório. Não sei bem o que é que a autora pretendia com isto - criar uma versão feminina de Sherlock Holmes? Bem, uma versão feminina de Sherlock Holmes não morreria de amores por um inspector qualquer só porque ele consegue acompanhar o seu raciocínio - e até antecipá-lo! Uma versão feminina de Sherlock Holmes seria, tal como o original, a pessoa mais inteligente em todas as salas onde Mycroft Holmes não está. Isto não acontece com Mina. Mina é uma versão genérica daquilo que uma versão feminina de Sherlock Holmes devia ser, sem qualquer personalidade própria, encaixada num livro que não sabe bem se pretende ser fantasia, mistério, ou romance.

Por outro lado, temos Evaline Stoker, cuja caracterização parece ter sido um pouco mais considerada - é uma caçadora de vampiros, tem super força (que nem uma Buffy Vitoriana, you go girl), e montes de poderes que lhe permitem caçar vampiros. O único problema é que já não existem vampiros em Londres, e Evaline quase desmaia ao ver sangue. Agora... isto poderia ser um plot interessante. O que acontece quando uma pessoa escolhida para determinada tarefa ancestral é completamente incapaz de cumprir com a mesma? Desastres acontecem, obviamente. Auto-estimas destroçadas, crises familiares, sessões constantes de second-guessing. Colleen Gleason não aborda nada disto. O seu pensamento parece ir mais numa linha de esta é a minha caçadora de vampiros mas não há vampiros e ela não gosta de ver sangue, TOMEM LÁ UM TRIÂNGULO AMOROSO.

Parece que a sinopse foi escrita por uma feminista do século vinte e um, e o livro por um médico ultra-conservador do século dezanove. A dissonância cognitiva é elevada o suficiente para me dar quebras de tensão.

Ah, e o melhor personagem de todos. Segurem-se aos vossos corpetes, donzelas, que isto está prestes a aquecer. Dylan Ekhert. Vem do futuro com uma t-shirt da Aéropostale, não tem qualquer relevância para o plot, e salva o dia com um iPhone. Percebem a minha dor?

3. Setting/worldbuilding
Vamos rebobinar ao Verão passado, quando disse, relativamente ao livro Soulless, de Gail Carriger, que "podíamos tirar o steam, e não íamos perder nada". O mesmo é aplicável a este livro, tirando que as invenções steampunk conseguem ser ainda mais irrelevantes para o desenvolvimento do setting.

Talvez isto se resuma tudo a uma tentativa de aproveitar a onda steampunk para vender livros que se passariam, de outra forma, numa era Vitoriana ligeiramente melhorada para as sensibilidades modernas, mas custa-me um pouco digerir este tipo de coisa. Ou talvez os puristas me estejam finalmente a afectar - o que seria irónico, considerando que nunca na vida li os livros recomendados por este pessoal, e o meu interesse por steampunk continua a ser quase puramente estético.

Ok, pronto, também tenho interesse nas senhoras de bloomers a pilotar aeronaves, mas uma guerra de cada vez.

O importante aqui é que o setting não vai muito além de Template Vitoriano #1 - temos opium dens, o museum britânico, mansões, um ou outro baile, e um par de tabernas vagamente mal frequentadas. O steam é um acessório, e não faz qualquer falta ao livro. Off with it!

4. Estilo de escrita
Meh? Nada de particularmente interessante a apontar. Acho que me aborreci tanto com a conteúdo que nem me preocupei particularmente com a forma. A única crítica objectiva que tenho refere-se à organização dos capítulos entre as duas protagonistas - Mina e Evaline têm cada uma o seu POV, mas são ambos em primeira pessoa e completamente impossíveis de distinguir. Para duas personagens que aparentam ser tão diferentes ("aparentam" sendo aqui, claro, a palavra-chave), soam extraordinariamente parecidas. Foi muito, muito difícil orientar-me nesta leitura.

Em resumo...
Este livro vai acabar, muito infelizmente, na estante de Boas Ideias Mal Executadas. Duas raparigas de alta sociedade, uma Holmes e uma Stoker, a investigar crimes? Boa ideia. Este livro? Má execução.

O problema principal deste livro (pronto, além do plot simplista e mal resolvido) é que se propõe ser uma fantasia pseudo libertadora para as mulheres Vitorianas, um pouco na linha da já mencionada série de Gail Carriger, mas nunca chega efectivamente a dar-me o que promete. A autora está constantemente a colocar as suas personagens femininas em situações em que precisam de ser salvas. Mina não é, nem de perto nem de longe, tão esperta quanto me querem fazer crer. A força e coragem de Evaline são virtualmente inúteis. Tudo bem, elas quebram uma outra regra, mas consigo resumir o livro todo com "olha nós a fazer coisas que as mulheres Vitorianas não devem fazer, E A FALHAR REDONDAMENTE". O setting não o salva, a escrita não o salva, e com muita pena minha, não posso recomendar este livro a ninguém.

A sequela, The Spiritglass Charade, sai a 7 de Outubro de 2014. Não tenciono lê-la, mas é bom saber, certo?
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Review: 'Angelopolis', Danielle Trussoni



★ ★ ☆ ☆ ☆

Angelopolis
Danielle Trussoni
Ebook, aprox. 320 pages

A decade has passed since Verlaine saw Evangeline alight from the Brooklyn Bridge, the sight of her new wings a betrayal that haunts him still. Now an elite angel hunter for the Society of Angelology, he pursues his mission with single-minded devotion: to capture, imprison, and eliminate her kind.

But when Evangeline suddenly appears on a twilit Paris street, Verlaine finds her nature to be unlike any of the other creatures he so mercilessly pursues, casting him into a spiral of doubt and confusion that only grows when she is abducted before his eyes by a creature who has topped the society’s most-wanted list for more than a century. The ensuing chase drives Verlaine and his fellow angelologists from the shadows of the Eiffel Tower to the palaces of St. Petersburg and deep into the provinces of Siberia and the Black Sea coast, where the truth of Evangeline’s origins — as well as forces that could restore or annihilate them all—lie in wait.

Why did I read this book?
I am a bit of an angel fangirl, I have my own angel books to publish one day (hopefully) and I read Angelology back when it came out in 2010. I was... disappointed, to say the least, but alas, I have a slightly masochistic streak that makes me want to give bad books a second chance.

So, Angelology had quite a few flaws - three different POVs in three different timelines, a terrible love story, and a final twist that caught exactly no one by surprise. I was hoping Angelopolis would correct some of these flaws, and while it did... it also created some new, equally bad ones. Let me walk you through them.

1. Plot
From what I gather, this book has one main plot point and that is... Verlaine, who is now an angel hunter, needs/wants to find Evangeline. Why? Well, let’s see if I can explain it. Professionally, he needs to find her so he can kill her, but personally, he spends half the book yapping about how important she is to him even though they haven’t seen each other or communicated in any way in over ten years. Besides, let me remind you all that Angelology ended with Evangeline perched on a bridge opening her plot twisty angel wings, and Verlaine looking at her from below, in complete despair because that meant the end of their love story, even though they’d known each other for 48 hours.

I have a very big problem with this. Evangeline was the main character in the first book, so why was she only given 2-3 pages of “screentime” in this one? Why did the author decide to transform her just-turned-Nephilim (that's a human/angel hybrid, for the uninitiated) main character into a plot device to fuel Verlaine’s manpain? I would rather have read about Evangeline’s transformation. How does this woman cope with life as a Nephilim when the events of the first book have taught her to fear them above all else? How does she cope with becoming a monster, every inch like the monsters responsible for the eradication of her family? How does she learn to use her new powers? Is he self-taught? Does she make friends among the old Nephilim families? How does this transformation change her, as opposed to how does this transformation change the guy who fell for her in the first book? Personally, I found the POV change rather unsuccessful, simply because it kept a curtain between me and the things I truly wanted to know.

About the plot development itself... it was weak. I’ve told you about Verlaine’s goal, but that goal is nothing but an excuse to unveil conspiracies and historical secrets related to Fabergé eggs (hence the cover), John Dee’s hypothetical talks with angels, a pre-diluvian seed bank, and a Panopticon for angels. I love alternate interpretations of Biblical texts and Christan mythology, I really do, but if your goal is to write entertaining fiction, sometimes you need to know where to hold back the history and focus on the actual story.

2. Characters
I’ve mentioned that Angelology, this book’s predecessor, commited the grave mistake of telling three different stories in three different timelines – two of those timelines were much more interesting than the others, and it just so happened that the least interesting of all was the contemporary timeline, the one where Evangeline and Verlaine meet. Why? Well, because the characters couldn’t keep me interested.

So let me tell you, if the characters were bad in Angelology, you don’t want to hear about Angelopolis. Here, characters are nothing but names and physical descriptions – they sit around, they talk, sometimes they act, but they never really feel, and the same goes for me. It’s hard for me to stay interested in a book if I can’t connect with at least one of the characters, and these people were nothing but walking, talking textbooks. Their motivations, when not strictly professional, were a mystery to me – and let’s be honest, even if we assume their motivations were all strictly professional, who wants to read a book about people robotically doing their jobs?

3. Setting/worldbuilding
Now, if there's one thing Danielle Trussoni is good at, is creating ambiance. From dark alleys in Paris to antique shops in St. Petersburg, from barren landscapes seen through the windows of the trans-siberian to greenhouses in Bulgaria filled with nothing but pre-diluvian plants... when Danielle Trussoni writes it, I can imagine myself there. The problem is... well, ambiance doesn't sell books unless you're Angela Carter (and your characters have a personality).

Apart from that, my biggest setting-related complaint goes to the way the author has chosen to frame her Nephilim. Back in 2010, I described this setting as "Nephilim are real and live undercover in their big-ass NYC penthouses" and "they're obnoxiously rich and throw parties round the clock and are responsible for all the evil in the world". This is all fine and dandy, more than fine and dandy, but the problem, I think, is that Danielle Trussoni doesn't know where to stop - if, in the first book, the Nephilim were connected to everyone from Adolf Hitler to Karl Marx, and I thought that was over the top, now they're also connected to the whole Romanov dynasty and Coco Chanel. Oh, and Jesus was a Nephilim too. We've gone from "interesting take on historical details" to full on conspiracy theory.


By now you all probably know I am a hardcore defender of the entertainment value of shows like Ancient Aliens, so... skip this book, go watch Giorgio A. Tsoukalos and his pyramid theories instead.

4. Writing style
I do remember liking, perhaps even loving the writing style in Angelology, but sadly, I didn’t feel that same wow factor in this book. While I have complimented the author’s ability to create ambiance and describe a setting to create a mood, the rest of the writing was definitely lackluster. The dialogues were wooden and unnatural - though perhaps we can consider that an unfortunate consequence of having only academic-type characters infodumping around coffee tables -, and the biggest chunk of writing was dedicated to exposition as opposed to character development and, you know, actual action.

Long story short...
Angelopolis is a disappointment. It doesn't live up to its already flawed predecessor, and it tries really hard to pave the way for a hypothetical third installment where, I assume, all hell will break loose and Evangeline and Verlaine will lead opposing factions into battle. It gets two stars from me, and before you ask... yes, yes, I'm pretty sure I'll still read the third one.

I have a slightly masochistic streak that makes me want to give bad books a third chance.
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[ENG] "Pacific Rim: The Official Movie Novelization" by Alex Irvine



★ ★ ☆ ☆ ☆

Pacific Rim: The Official Movie Novelization
Alex Irvine
Ebook, aprox. 270 pages

When legions of monstrous creatures, known as Kaiju, started rising from the sea, a war began that would take millions of lives and consume humanity's resources for years on end. To combat the giant Kaiju, a special type of weapon was devised: massive robots, called Jaegers, which are controlled simultaneously by two pilots whose minds are locked in a neural bridge. But even the Jaegers are proving nearly defenseless in the face of the relentless Kaiju.

On the verge of defeat, the forces defending mankind have no choice but to turn to two unlikely heroes-a washed up former pilot and an untested trainee - who are teamed to drive a legendary but seemingly obsolete Jaeger from the past. Together, they stand as mankind's last hope against the mounting apocalypse.

I know, I know, so many good books in the world and here I am reviewing a movie novelization, shame on me. Well, at least we all know who to blame.



And perhaps we should add Tacit Ronin to the list too, since it's my favorite Jaeger of all time. It's my inner bug enthusiast, I look at it and all I see is a massive praying mantis.



But anyway, to the book! I won't write an exhaustive review, because most of us have watched the movie and know all about the plot, the characters, and the worldbuilding - there's no use in repeating all of that! Now, I chose to read this novelization because Pacific Rim really did grow on me over the past year. If at first I was a little disappointed in the movie (not enough robots, I said over and over again, not enough robots), as soon as I rewatched it, I was dragged into the hype all over again. I just couldn't stop thinking about the nearly unlimited potential of this Jaeger/Kaiju concept. I might have read 90% of the Wiki in a couple of days. And then, because my thirst for knowledge and backstory was so strong, I decided to read the book. Aaaaaaand I was disappointed.

This book's main problem is the writing style. Raleigh Beckett acts as our POV character, and I'll be honest, he's quite entertaining and witty at first. There are lots of little side notes and in-jokes that make the book a lot of fun, even if you've just finished watching the movie. The problem is that... it doesn't last. After a few dozen pages, the book goes downhill, quickly turning into, to put it simply, a step-by-step description of the movie. I don't know what's the usual modus operandi for writing novelizations, but it seriously seems like the author sat in a movie theatre, watched Pacific Rim, and described everything he saw on the screen. Then, to make people pay for the book, he scattered about a few extra tidbits. Profit!

The implications of this are really bad. You see, I don't like using the old show/tell comparison, because I don't think it holds all the time, but I'll have to use it here - this book is nothing but tell. There's no emotion. The characters have no inner lives. There are no risks, no challenges, and there's no causality from one action to the other. Imagine Striker Eureka punching a Kaiju on screen. The book will say "Striker Eureka punched a Kaiju". It's just... not good enough. Oh, and there's no character development either.

The other big problem here is that the book has no structure. It doesn't even look like something that's been planned - the author jumps from major scene to major scene without bothering to set things up or pad the events. One minute two Jaegers have been lost, next minute we're running all the way to the Breach with a bomb strapped to Striker's back. About the aforementioned tidbits of extra information, I'd just like to say... I wanted to learn more about the side characters (Tendo Choi, the Wei triplets, the Kaidanovskys, maybe even Pentecost?), but the extra info I did get arrived in the shape of "official documents" and newspaper cut-outs. They were mostly worldbuilding extras, really - still interesting, but not quite what I had in mind.

Finally, I'd like to mention the ending. The ending was one of the best parts of Pacific Rim, for me. Why? Well, because the leads didn't kiss, of course! It was a welcome change, and I was really happy with it. Unfortunately, good things never last, and they actually did kiss in the book. I didn't deserve that.

So, let's conclude this. This novelization is not a good novelization, and I think it could have been. Pacific Rim is a movie that relies heavily on the visuals and little on the actual plot - Cherno Alpha taunting the enemy via banging its fists together, the boat sword, the way everyone in the theatre gasped when Otachi opened its wings.... these are moments you can't recreate half as effectively in a book, for obvious reasons, but that still doesn't mean there wasn't anything worth exploring in print. What about Raleigh's trauma after losing his brother, or Pentecost's health problems, or Mako's big damn moment where she finally got to pilot a Jaeger? How did these people feel, throughout the movie? The book could have delved deeper into the inner lives of the characters, instead of simply grazing the surface in a bland retelling of the movie. Besides, the extras really weren't worth it - so I'm giving this a two-star rating.

Now the question is... am I going to read the prequel comic? Probably. I'll most definitely buy the artbook, though.
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[ENG] "Witchcraft and Masculinities in Early Modern Europe" by Alison Rowlands



★ ★ ☆ ☆ ☆

Witchcraft and Masculinities in Early Modern Europe
Alison Rowlands (Editor)
Ebook, aprox. 270 pages

Men and masculinities are still inadequately incorporated into the historiography of early modern witch trials, despite the fact that 20-25% of all accused ‘witches’ were male. This book redresses this imbalance by making men the focus of the gender analysis and also covers the issue of regional variation in the gendering of witch persecution.

Some of you may have heard about that TV show, American Horror Story: Coven. You may have noticed the uprising of girls in their 20s who really identified with the show and its characters, and chose it as a good way to tell the world... you know what, when I was younger, I wanted to be a witch too.



Now, I am one of these girls. And Coven was particularly valuable to me, because it proved that witches are still very much relevant - when I was younger, I'd watch Bewitched on TV, religiously, every single night. I'd watch Sabrina The Teenage Witch. I'd watch Charmed too, but at the time I think it was a little too grown-up for me. There were lots of witches on TV (and movies!) in the 90s. Remember The Craft? Practical Magic? Willow, from Buffy The Vampire Slayer? I grew up with these girls, these women, these witches, but all of a sudden... they vanished. And then Coven brought them back.








My mind immediately jumped into writing mode. I wanted to write my own witch story, and I had very particular ideas about what I wanted it to be - namely, I wanted it to include boys, not as warlocks or wizards... but as witches. Witches mixing herbs in the kitchen, witches dancing naked in the moonlight, witches petting black cats while a storm roars outside. Because you see, when fictional men get magical powers, they don't do any of these things (think The Covenant), and I want them to. I want to invite them into these stories, and I want to see how they play by the rules already in place. Do they accept them? Do they fight them? Do they try to make these environments about them? What happens when you take the century-old archetype of the witch - a woman, usually ambitious, who doesn't fit in, a little asocial, perhaps even full on antisocial, - and get a man to play the role?



That was my question, and lo and behold, I discovered this book - actually a collection of academic articles -, the title of which seemed quite useful to help me answer it. The use of "witchcraft and masculinities" immediately made me think of a book that would take on, not only the sex of the people tried as witches, but their gender, and the social roles associated with that gender.

Right on the first few pages, though, I realised this book had a very clear agenda - present an alternative to the feminist perspective, which states witch hunts were, to put it simply, a misogynistic institution. I don't see a problem with this in theory, but in practise, what happened was I ended up subjecting myself to 270 pages of historians bending over backwards to come up with explanations based on, to point out the most egregious article of the bunch, one case of a tried man.

Some affirmations were so ridiculous that I had to take note. Here's my favorite:

Contrary to their alleged special hatred of women, however, the witch-finders were, as most men of their age, neither misogynists nor philogynists.

Well, clearly they weren't philogynists, but can you really say they weren't... misogynists? Because I can't even say that about 21st century men. In my eyes, there's no redemption for a book that tackles an issue as gendered as witchcraft, acknowledges that the great majority of the accused (and tried, and condemned) were women, without presenting a reasonable explanation as to why, and then states this sort of thing. I have actually summarized the book for all interested, here:

Listen we know this society was pretty sexist, and we know men made all the decisions, and we know women were more vulnerable to this kind of social persecution, and we know it was widely believed that women, being the weaker sex, would be the Devil's first choices when it came to corrupting innocent human souls, BUT THE FACT THAT WOMEN MADE UP THE MAJORITY OF THE ACCUSED HAS NOTHING TO DO WITH THIS.

Long story short, I was really disappointed with this volume. For once, it feels very scattered - the articles focus on different places and times, and there is no apparent connection between them (if we exclude "male witches" and "nope nope nope no feminism here"). The book keeps telling me that, in some parts of Europe, men made up the majority of the accused witches, but it didn't actually made me understand why - a major flaw, since this seems to be the book's main argument for the insufficiency of the feminist perspective. Last, but not least, I didn't like the tone of a few of the articles - calling a woman a "whore" in academic texts, really? How about "prostitute", or "sex worker"?

I still want to read a good, academic book about male witches. But I'd prefer one that doesn't disregard thousands of dead women across Europe to ask but what about the men. I'd prefer one that explores the cases of accused male witches inside the framework of feminist theory, instead of one that uses them as evidence that said theory is biased and insufficient. Surely, the world can do better than that.

This particularly snarky review has been brought to you by Pure Unadulterated Anger. You are welcome. Let's go rewatch Charmed.
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[ENG] "The Waking Engine" by David Edison

NOTE: This book was provided by the publisher, through NetGalley, in exchange for an honest review.



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Waking Engine
David Edison
Ebook, aprox. 400 pages

Contrary to popular wisdom, death is not the end, nor is it a passage to some transcendent afterlife. Those who die merely awake as themselves on one of a million worlds, where they are fated to live until they die again, and wake up somewhere new. All are born only once, but die many times... until they come at last to the City Unspoken, where the gateway to True Death can be found.

Wayfarers and pilgrims are drawn to the City, which is home to murderous aristocrats, disguised gods and goddesses, a sadistic faerie princess, immortal prostitutes and queens, a captive angel, gangs of feral Death Boys and Charnel Girls... and one very confused New Yorker.

Late of Manhattan, Cooper finds himself in a City that is not what it once was. The gateway to True Death is failing, so that the City is becoming overrun by the Dying, who clot its byzantine streets and alleys... and a spreading madness threatens to engulf the entire metaverse.

Happy 2014, everyone! Sure, I am a little late, posting my first review on January 28, but I assure you I can explain.

Today, I bring you David Edison’s debut novel, The Waking Engine. I found this book on NetGalley, possibly two days after signing up, and the blurb made me really, really curious. I mean, people who keep dying only to wake up again in a whole new universe? A City where everybody comes to die after they've finished their joyride? And of course... Death Boys and Charnel Girls? If you know me, you'll know that's when I decided to request the book.

1. Plot
Cooper is not your average book protagonist. He’s gay, he’s overweight, and he’s dead. (this is where I give David Edison a respectful high five because YAY PROTAGONISTS THAT BREAK THE MOLD!) When he wakes up in the City Unspoken, with no idea of how he got there, he is immediately adopted by a grey-skinned man and a pink-haired woman, who seem to believe he is the solution to the overpopulation problem that plagues the City because the dying can no longer die. Of course, you and I know where this is going. Cooper, is of course, the good old Chosen One. In the span of a few days, he develops totally rad powers, including sensing people's fear in verbal form and traveling through some sort of anachronic faerie-powered internet, and in the end, he does what Chosen Ones usually do. Meh.

This is the main plot – and it’s pretty bland, compared to the subplots. Look above. Look at the blurb. See the murderous aristocrats? Sure, I know we see nobles killing each other in 90% of fantasy books... but not while they’re locked inside a glass dome, not over something as fickle as wearing the same dress two days in a row, and definitely not when none of them can actually die (since their souls are bound to their bodies). It’s inside the dome that we meet Purity Kloo, a noble girl desperate to find a way out – so desperate, indeed, that she spends a week slitting her own throat only to come back every single time.

Sure, a story about murderous teenage nobles dressed in the metaverse's equivalent of Lolita fashion wouldn't have appealed to the target audience that The Waking Engine is trying to attract, I suspect... but I had a lot of fun with Purity's subplot, and would have switched it for Cooper’s without so much as a second thought.

Final words about the plot: it's convoluted. I love the idea of the City Unspoken, but a setting that is part our world part every other world in existence demands time, and Edison doesn't cut the reader any slack before overwhelming them with references to greek mythology (Omphale, right, well played), the AIDS epidemic of the 80s, Cleopatra’s historical relevance, the wise advice of a beluga whale, and the literal ins-and-ours of a cyborg Queen.

2. Characters
As far as protagonists go, Cooper sure breaks a couple of molds, but it takes more than that to write a good character. It’s not just that he’s uninteresting, he’s not even very coherent – he speaks like an angry New Yorker ready to break a few noses, but his inner monologue is equal parts disoriented, skeptic, and terrified, and his actions are reactive at best. Sometimes I felt as if I was reading three different characters. And then, of course, he meets attractive men and his brain goes into full shutdown, which is both amusing and exasperating. Focus, sir!

About Purity (our other protagonist, sort of), I found her to be just the right balance between... well, what her name suggests her to be, and someone I wouldn’t want to cross on a bad day. She’s smart, she’s competent, she’s a bit of a wildcard, and she’s sexual without being sexualised. I could see her leading a girl gang, really.

I won’t write about every character, so let me just wrap this section by saying this book achieved something really, really good with its female characters. Here, women move most of the plot, making this book something I’d like to show all those male writers who say “they can’t write women”. Listen, here’s the secret: write more than one-two, and give them a personality of their own. Thank you, David Edison.

3. Setting/worldbuilding
I’ve already written a bit about my love for the City Unspoken as a concept, but now I’d like to present a complaint about the way it was written. For a place where people of all universes come to die, the City was a little overpopulated by humans, no? Even the architecture of the place was awfully familiar – taverns, shady boarding houses, classy bordellos, sex workers on every street corner. If your City is a repository of culture for every universe, why does it look like every dark medieval-ish city I’ve ever read? Surely beings from other universes have priorities other than food-sleep-sex, no? If not, I call lazy writing. It takes more than supernatural powers and skin of an unnatural color to create a different species.

Now to the good points: I loved the Apostery, a temple for dead religions. (what an idea!) I also found the different types of “prostitutes” very interesting – I mean, it’s terribly morbid to have someone body-bound accepting their own murder every day in exchange for money, but it’s a good idea that fits perfectly with the bigger picture. I could have lived with a little less “whores” and “sluts” every two paragraphs, though.

4. Writing style
As a general rule, I don’t complain too much about elaborate writing styles, because I like them. Here, though, I found the “style” really overwhelming – there were sentences I had to read over and over again, just to extract some meaning from their structure and the excess of strange, possibly universe-relevant but plot-irrelevant words.

Conclusion: the ideas behind this book are all very good, but the execution left quite a bit to be desired. The main-main character, Cooper, is easily the least interesting character in the book. The setting wasn’t as exhaustively explored as it should have been – or, in any case, as I wish it could have been. The writing style was a little too much for me. It’s not bad, in any way, but I can’t lie – it took me a month to get through it, and that simply doesn’t happen with books I like. So, it shall receive a two-star rating, and I’ll keep my fingers crossed for David Edison’s next book.

The Waking Engine will be released on February 11th. You can pre-order it from the publisher here, or through Amazon here.
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[ENG] "Say It Ain't So" by J.C. Henderson



★ ★ ☆ ☆ ☆

Say It Ain't So
J.C. Henderson
Ebook, aprox. 160 pages

A party, hosted by the enigmatic young playboy Thomas, will affect the lives of the many partygoers- including Paul, who comes to the party looking for an escape from his misery and hopefully, never have to face a single person there. But instead, he meets the lively and seductive Abby, who will take him through the party in such a way that changes his life forever.

Say It Ain't So is a tale of debauchery, the mysteries of physical attraction, and how personal pain can be the very thing that pulls us together, or tear us apart.

NOTE: This book was provided by the author in exchange for an honest review.

With that out of the way, I’d like to add that I chose to read this book because the premise reminded me of the French movie Les Rencontres d'Après Minuit. I haven’t watched said movie yet, so forgive me if the comparison doesn’t stand (it probably doesn’t, since the movie is about an orgy) but still, now you know.

1. Plot
Paul, a young man struggling with the loss of his best friend, is invited to what I assume must be the local party central. His plan (The Plan, capitalised) is to get drunk beyond all means so he can forget his woes, but halfway through the party he meets Abby, and it all goes downhill from there. There are a handful of named characters, and 99% of the action takes place inside Thomas’s house. That’s it.

From my reading, what I understand is that the author wanted to write a character study above all else, by putting his protagonist in a unfamiliar scenario and then throwing all sorts of strange events in his direction. Now, I’m all up for loosely plotted character studies, assuming they have well-constructed and compelling characters to keep them afloat (part of the reason why I organise my reviews in four categories, so they can balance each other out), but this book didn’t really work for me.

I’ll explain why in the section below.

2. Characters
I’m always willing to excuse weak characters if the plot is strong; likewise, I’m always willing to excuse a weak plot if the characters are strong. I say this almost as a joke, but if the character is interesting enough, I will happily read their grocery list and give it a five-star rating – I’m easy like that.

What happened here, I believe, was that this book demanded a certain degree of empathy between the reader and the main character, and I... I couldn’t bring myself to feel anything for Paul. He’s a young man who likes to drink, but doesn’t exactly love the whole crowded party scene. He tries really hard to act “manly” in front of Abby, but he’s more than willing to be his usually emotional self around Thomas and Rick. He’s really not the kind of character I enjoy spending time with, and that definitely made this read a loss less enjoyable than it could have been.

The supporting cast is even messier. About Abby, I find it funny that the author himself states that she doesn’t look like a “hipster” – which is almost ironic considering that the girl he has, in fact, written is a well-known trope in “hipster” media, the Manic Pixie Dream Girl. As a character, Abby exists to be nonchalant about nudity, smoke thoughtful cigarettes, and ditch the main character for some other guy who’s “got more of what she’s looking for” (that’s a quote, by the way). What is she looking for? Who knows. She’s a Manic Pixie Dream Girl, it doesn’t matter. She’ll come and she’ll go, and the hero will feel heartbroken (our Paul here chose to call her a whore) but invigorated by the whole experience. It’s not new, it’s not surprising, it’s not even interesting anymore – and there was nothing I liked about this relationship.

Rick is another complicated case. He starts off as a nondescript bully, but by the end of the book he’s getting drunk with our main character and telling him about his past. Where does the change happen? Why does he grow into a different person in the span of a few hours? Who knows. I most certainly don’t.

Then Thomas. Thomas is described, in the blurb, as an “enigmatic young playboy”, and I won’t even pretend those three words weren’t responsible for much of my interest in this book. But then, lo and behold, Thomas isn’t that enigmatic after all. He’s yet another character we’ve seen before – the young, filthy rich kid who doesn’t quite know what to do with his life, so he spends his money on sex-drugs-and-rock-and-roll, hoping they’ll be enough to fill the void.

3. Setting/worldbuilding
Say It Ain’t So isn’t exactly varied in its settings. The story takes place inside Thomas’s mansion, and when the characters do step outside, it’s only for a couple of scenes (which would probably amount to minutes in-universe). Still, I like how the author has managed to portray the mansion as an entity, almost. There are hundreds of doors, some locked, some leading into futuristic bathrooms, some leading into dance halls, some leading into arcades and libraries. It’s vaguely disorienting, both for the main character and the reader, and I actually really enjoyed that.

4. Writing style
Let me just start by saying that I discovered this book in a Goodreads group, where it was listed as Literary Fiction. Now, I don’t know who decided to list it as such, but that’s beside the point. The point is that I started reading this with certain high expectations, no doubt reinforced by the cover (which is quite serious in tone) and the aforementioned categorization as Literary Fiction, so I wasn’t prepared to deal with... well, with what I actually found.

For starters, there are a few instances where the author momentarily forgets which tense he’s supposed to be using, resulting in passages written in half past, half present tense. Then, the way some of the sentences are structured feels extremely uncanny to me:

It was a luxurious bedroom if I’ve ever seen one; it had a television hanging from the ceiling that automatically came down when we entered the room, the entire ceiling was a mirror that reflected everything and the largest bed I’d ever seen in my life was in the far right corner.

And finally, I need to address the repetitions. Did we really need to read the word “ceiling” twice in the above passage? Probably not. But still I’d say the most obvious example was the repeated use of the expression “a bunch of” throughout the book. This isn’t something I’d usually notice, but it was simply too obvious – it’s not a pretty expression, it’s too casual, and it stands out every time it’s used.

So, time to wrap this up. I enjoyed the setting, had a few bones to pick with the writing, and thought the plot, being so thin, demanded stronger characters. All in all, it’s a solid two-star rating.
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[PT] "The Lovely Bones" de Alice Sebold



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Lovely Bones
Alice Sebold
Ebook, aprox. 320 páginas

Susie Salmon tem o olhar vivo e irrequieto dos seus catorze anos. Observa o desenrolar da vida: os colegas da escola, a família, o lento passar dos meses e das estações. Está tudo muito calmo, tudo parece muito acolhedor. Um único pormenor desmente tanta placidez: é que, de facto, Susie já morreu. Estranhamente, o céu parece-se muito com o recreio da escola, nem sequer faltam os baloiços. A pouco e pouco, Susie compreende que é o centro das atenções: os colegas comentam os rumores sobre o seu desaparecimento, a família ainda acredita que ela poderá ser encontrada, o assassino tenta esconder as pistas do seu crime...

Estou com pouco tempo e ainda menos paciência, pessoal, por isso perdoem-me, mas vamos saltar directamente para a opinião.

1. Plot
É ligeiramente complicado reduzir The Lovely Bones a um plot, porque no sentido “tradicional” da expressão, o livro não tem nenhum. A história acompanha Susie, uma jovem de 14 anos que chega ao céu depois de ter sido violada e assassinada. Lá de cima, ela observa a forma como o seu assassino se vai evadindo à polícia e como os seus amigos e familiares lidam com a sua ausência, e passa a adoptar uma posição de narradora – pois a verdadeira história continua a desenrolar-se cá em baixo, no nosso velhinho planeta Terra.

Portanto, para começar numa nota positiva, adorei esta pequena particularidade, em que a personagem “principal” é na verdade uma narradora não participante – os eventos descritos ocorrem devido à sua morte, mas ela não tem qualquer agência sobre eles durante 90% do livro. Foi uma boa ideia, e no geral, achei que foi bem conseguida. A autora desliza um pouco entre os pólos de omnisciência da personagem – em determinadas cenas sabe tudo o que as pessoas estão a pensar, noutras limita-se a imaginar sem fazer a menor ideia –, mas não é uma falha pela qual a vá massacrar, pois não influenciou minimamente a minha experiência de leitura.

O grande problema aqui é que de boas ideias está o inferno cheio, e Alice Sebold, para usar uma expressão tipicamente Portuguesa, teve mais olhos do que barriga. Na sua tentativa de explorar o luto de um bairro inteiro, acabou por introduzir demasiadas personagens, vendo-se depois obrigada a “fechar” todos os subplots um pouco apressadamente no final. A menos de 50 páginas do fim, lembro-me de ter comentado com a minha irmã “não consigo imaginar como é que ela vai resolver isto, não sei com que raio de final é que ela se vai sair”.

E perdoem-me os spoilers, mas por alguma razão, a autora achou que a melhor forma de terminar um livro sobre uma adolescente morta que dedica sete anos no céu a observar a família na Terra... é trazê-la de volta para fazer sexo com o rapaz que beijou quando tinha 14 anos. Só de si, isto já é absurdo, mas consegue ser pior – obviamente Susie, a nossa protagonista precisa de um corpo para poder dar largas à sua sexualidade, portanto o que é que faz? Possui o corpo de uma “amiga” que ela e o tal rapaz têm em comum, e usa o corpo dela. E deixem-me só mencionar que esta segunda rapariga é lésbica, e não tem grandes amigos além do rapaz em questão.

Portanto, imaginem comigo este belo momento. Susie usa o corpo da tal rapariga para fazer sexo, corre tudo muito bem e é um momento muito romântico, ou disso nos tenta convencer a autora... mas imaginem o lado da segunda rapariga, Ruth. Durante o período em que Susie ocupa o corpo dela, Ruth está no céu (como se tivesse sido feita uma troca entre as duas), não faz a mais pequena ideia do que está a acontecer ao seu corpo, e não tem forma de comunicar com Susie. Esta troca dura algumas horas, no fim das quais Susie regressa ao céu e Ruth regressa ao seu corpo. Ora, onde é que está o corpo de Ruth? Numa cama estranha, numa casa estranha, meio despido, enquanto um rapaz (já mencionei que era o seu único amigo?) toma banho na divisão ao lado. Momentos depois, ele sai, também meio despido, e informa-a de que acabaram de fazer sexo, várias vezes, até foi porreiro – e obviamente, Ruth não se lembra de nada.

Tirem um segundo para imaginar o horror desta situação, e depois olhem-me nos olhos e digam-me que isto não é uma violação. Nem quero ouvir-vos. É. Portanto... bom trabalho senhora Sebold, conseguiu começar com uma violação e acabar com outra. Só é mesmo pena a narrativa não reconhecer esta segunda por aquilo que efectivamente é.

2. Personagens
Já tenho lido várias opiniões em contrário, mas gostei bastante das personagens neste livro. É verdade que, em certa medida, são personagens-tipo e não primam pela originalidade, mas as suas reacções aos eventos descritos pareceram-me sempre realistas e “honestas”.

A minha personagem favorita foi sem dúvida Ruth, a rapariga mencionada acima, e embora também ela tenha sofrido um pouco às mãos dos estereótipos da autora (lésbica, feminista, lê Sylvia Plath, queixa-se alto e bom som que se sente oprimida pelo facto de a sociedade valorizar tanto a depilação), pareceu-me uma personagem com boas histórias para contar.

E só uma nota em relação ao meu comentário sobre estereótipos – não há nada de errado em ser lésbica, ser feminista, ler Sylvia Plath, ou ter umas quantas contas a ajustar com esta sociedade que gosta que tudo o que é mulher depile as pernas. Todas essas coisas são válidas. Só gostava de que não tivessem sido todas usadas na mesma personagem para a caracterizar como a rapariga silenciosa e associal que é “diferente” em todos os aspectos.

Além de Ruth, gostava também de ter acompanhado um pouco melhor o responsável pela violação/homicídio da nossa protagonista, só mesmo para compreender as suas motivações – o personagem continua a parecer realista na medida em que é um estereótipo de pedófilo/assassino que os leitores já conhecem, mas poderia ter sido mais aproveitado.

3. Setting/worldbuilding
O livro passa-se, na sua maioria, num típico bairro suburbano, e é fácil ter uma imagem mental do local a partir das descrições da autora. No que toca ao mundo “real”, não há muito a dizer; no que toca às secções do livro que se passam no céu, aí sim, acho que a autora perdeu algumas boas oportunidades de explorar um setting totalmente novo e que, para todos efeitos, não é comum noutros livros.

4. Estilo de escrita
Se vos disser que o livro parece escrito por uma adolescente de 14 anos com uma tendência para usar palavras grandes, vão ter perfeita noção do que estou a falar, não vão? Perfeito, porque é exactamente isso. Alice Sebold escreve num estilo adequado à história que está a contar, e embora as suas descrições tenham alguns momentos menos felizes, o livro não está de todo mal escrito.

Resumindo, estrutura interessante, personagens adequadas ao contexto, estilo e setting razoáveis, plot apressado com um final absolutamente desastroso. Ia dar três estrelas, mas com um final destes, não posso dar mais de duas.
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[PT] "The Surrogate" de Ann Somerville



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Surrogate
Ann Somerville
Ebook, aprox. 370 páginas

The Surrogate conta a história de Nikolas à medida que se envolve num mundo sombrio de abuso e escravatura, onde pode ser a única esperança daqueles aprisionados numa vida dedicada a servir os caprichos de um deus maligno. A história inclui descrições gráficas de violação e tortura. Definitivamente não aconselhada aos leitores mais sensíveis.

E porque já falámos de pornografia gay no post anterior, hoje... não vamos falar de pornografia gay. Juro que estava perfeitamente convencida que era isso que ia encontrar neste livro, mas não, enganei-me. (e se vamos consider isso bom ou mau, deixo ao vosso critério)

Ora bem, o volume que vamos discutir hoje, The Surrogate, inclui na verdade dois livros, o titular The Surrogate e a sua sequela Reincarnate. Chamou-me a atenção por causa da capa, comprei-o na loja Kobo para receber diamantes no Nun Attack (não perguntem), e embora estivesse ligeiramente reticente quando às menções de violação, avancei de queixo erguido.

Aha.

1. Plot
O plot deste livro segue Nikolas, um ferreiro/joalheiro/algo do género, bissexual, que é convidado a trabalhar uns meses num templo. Infelizmente para ele, a sua função consiste em pouco mais do que fazer sexo com um tipo chamado Jaime que não parece muito interessado no acto, em frente a um suposto deus que também lá está contrafeito, e a um pequeno exército de monges.

Com uma introdução destas, temos reunidas todas as condições para as coisas piorarem – há violações e tortura, tanto física como psicológica, mas contra todas as minhas piores expectativas, graças aos deuses, nenhuma dessas situações é romantizada ou “embelezada”. São actos atrozes, são descritos como tal, e têm consequências traumáticas (e a longo prazo) nos personagens envolvidos. A autora merece crédito por isto, e ainda por deixar bem claro que sim, o conceito de violação também inclui as situações em que um homem é forçado a fazer sexo com uma mulher. Obrigada, Ann Somerville.

Isto é o primeiro livro, se acrescentarmos que os personagens se fartam do seu dia-a-dia dentro do templo e acabam por engendrar o resgate do suposto deus, seguido de uma fuga – que, diga-se de passagem, foi ridiculamente fácil e muito pouco credível.

O segundo livro trata exclusivamente da convalescença dos personagens depois de terem abandonado o templo – os seus traumas, pesadelos, e vícios. Há uma diferença descomunal entre os dois livros, no que toca às expectativas do leitor. Durante o primeiro, temos um objectivo claro em mente, sabemos o que está em jogo, e não queremos, por nada, que os nosso heróis falhem. No segundo, toda esta tensão vai por água abaixo, e passamos a ter três tipos numa casa a tentar resolver as suas vidas sexuais e amorosas e a discutir as mesmas coisas de cinco em cinco páginas. Respeito a admiro a intenção da autora de abordar as consequências das atrocidades que descreveu no primeiro livro, mas o facto de esse ser o único foco do segundo torna a leitura repetitiva e pouco intrigante.

Ou seja, basicamente, a maior falha deste volume é incluir dois livros em vez de um. É um ebook, estamos com ele na mão, é quase certo que vamos terminar o primeiro livro e virar a página directamente para o segundo, e não me parece que isto seja benéfico para a leitora – o abismo entre os dois livros é demasiado grande, e as falhas do segundo livro são fortes o suficiente para arrastar o primeiro para o fundo.

2. Personagens
Não posso dizer que tenha sentido qualquer tipo de resposta emocional às personagens deste livro – embora Jaime me tenha deixado muito próxima da antipatia. Existem, cumprem a sua função enquanto “actores” da história, mas não são, de forma alguma, marcantes. O character development, quando existe, é repentino e pouco fundado. Quem me conhece sabe que, acima do “show don’t tell”, acima do “kill your darlings”, a minha regra literária favorita tem a ver com foreshadowing. Preciso de conseguir estabelecer relações e causalidades enquanto leio, e neste livro, isso não me foi possível. Oh mas eu amo não-sei-quem, diz o João. Apresenta-me indicações disso no corpo do texto nas últimas cem páginas , digo eu. *blink blink*, diz ele.

3. Setting/worldbuilding
Imaginem um setting de fantasia medieval. Pronto, é isso, não posso dar grandes pontos pela originalidade.

O meu principal problema com o setting foi quão “conveniente” ele me pareceu. Era uma vez um templo, um templo bastante grande, diria eu, onde são cometidas todas as atrocidades do universo debaixo do nariz do rei. Ninguém sabe, ninguém suspeita, as vítimas são silenciadas, e Nikolas não se abstém de dizer várias vezes o quão perfeito e inteligente o sistema é. Mas visto de fora, não, não é perfeito nem inteligente, é conveniente. O sistema é convenientemente perfeito e inteligente enquanto a autora precisa dos personagens aprisionados no tempo... apenas para passar a ser convenientemente imperfeito quando ela precisa de os libertar. Cheirou-me a facilitismo.

4. Estilo de escrita
Ora bem... estamos a chegar ao fim do ano, e o meu palato já vem marcado por autênticos mestres estilísticos (Tanith Lee, Haruki Murakami, Michelle Lovric, Dexter Palmer... e por aí fora), o que torna ligeiramente complicado opinar sobre os escritores mais medianos. Ann Somerville não é má escritora, mas pouco nela se destaca.

E posto isto tudo, o lógico seria dar três estrelas ao conjunto, mas o segundo livro baixa bastante a desejar, pelo que comparando às restantes ratings que dei este ano, terei de ir para as duas. Não recomendo - não por ser mau, mas por não apresentar nada de novo.
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[PT] "The Ground Beneath Her Feet" de Salman Rushdie



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Ground Beneath Her Feet
Salman Rushdie
Ebook, aprox. 580 páginas

O chão move-se repetidamente sob os pés do leitor durante o decorrer do sexto romance de Salman Rushdie, uma adaptação do mito de Orfeu e Eurídice ao mundo do rock & roll. O protagonisa de Rushdie é Ormus Cama, nascido em Bombaim e fundador da banda mais popular do mundo. A sua Eurídice (e vocalista principal) é Vina Apsara, filha de uma mulher Greco-Americana e de um pai Indiano que abandonou a família. O que estes dois partilham, para além de um extraordinário talento musical, é uma vida familiar decididamente fora de série: o irmão gémeo de Ormus morreu no parto mas comunica com ele "do outro lado", e dos seus irmãos mais velhos, também gémeos, um tem lesões cebrebrais e outro é um serial killer. Vina, por ser lado, cresceu no interior rural dos Estados Unidos, onde, um dia, regressou a casa para encontrar o padrasto e as irmãs alvejados, e a mãe enforcada no celeiro. Não admira que estes dois acreditem que foram feitos um para o outro...

Não sei como é que isto funciona para o resto do mundo, mas eu decido se gosto de um livro nas primeiras 50 páginas. Certo, alguns acabam por me surpreender, mas no geral - nos livros tal como nas pessoas -, a minha primeira impressão costuma estar correcta. Ora, comecei este livro com expectativas altíssimas, porque embora não tivesse nenhuma experiência pessoal com a escrita do senhor Rushdie, já ouvira dizer muito bem dela, e a sinopse era no mínimo intrigante.

Na página 141 decidi que queria desistir, e a ideia manteve-se até ao fim ("porque raio é que estou a desperdiçar tempo com isto, assim é que não vou mesmo conseguir ler 50 livros este ano..."), mas armei-me em teimosa e fui até ao fim. Quer dizer, eu leio mas também escrevo, e há sempre uma pequena parte de mim que tenta respeitar o autor fazendo-lhe o obséquio de ler a obra até ao fim. Embora, numa de sinceridade total, não me parece que todos os autores tenham respeito pelos seus leitores, porque há coisas que não se apresentam a ninguém...

1. Plot
Sim, eu sei que fui eu quem fez esta estrutura, mas... que plot? Este livro é sobre um rapaz e uma rapariga, ou dois bebés, ou um homem e uma mulher, dependendo da parte do livro a que me referir, que se conhecem, apaixonam à primeira vista (a sério? amor à primeira vista? a sério? mais preguiçoso do que isto é impossível), são separados por um destino cruel, reunidos por um destino menos cruel não-sei-quantos anos depois... e assim ficam até morrerem. Entretanto criam a banda de rock mais popular do mundo, escrevem muitas canções fabulosas que o sr. Rushdie faz o favor de transcrever para o texto, têm toneladas de amantes, e basicamente vivem as vidas estereotipadas de duas estrelas rock.

Imaginem tudo isto narrado pelo amigo fotógrafo que se apaixonou por Vina em criança mas depressa percebeu que o homem da vida dela era mesmo Ormus, acrescentem umas pitadas de realismo mágico (mundos paralelos, succubi que visitam os nossos protagonistas a meio da noite, gémeos que comunicam mesmo quando um deles nunca chegou a nascer, etc), e acabei de vos espremer o livro para as mãos.

A essência da coisa até é interessante, mas o autor decidiu que uma mão-cheia de personagens durante um período da tempo limitado não chegava, e em vez disso, optou por contar a história de vida inteira dos protagonistas, mais umas quantas secções da vida de praticamente todas os personagens secundários. Ou seja, estas 580 páginas são na verdade umas... 150-200, se cortarmos toda a palha que não interessa. Que perda de tempo descomunal, huh.

Como nota positiva, vou só acrescentar que do ponto de vista do mito de Orfeu e Eurídice, o livro é extremamente competente - especialmente na parte final, equivalente ao momento em que Orfeu se apercebe que não vai poder regressar com Eurídice ao mundo dos vivos. A forma como o autor conseguiu adaptar o mito original a um cenário contemporâneo e razoavelmente realista ganhou-lhe uns quantos pontos na minha consideração.

2. Personagens
O narrador, Rai, não conseguiu um mínimo da minha empatia, mas isso é mesmo porque estou farta destes tipos de meia-idade cheios de nostalgia pela sua juventude e todas as coisas que não fizeram e todas as oportunidades que perderam e todas as palavras que não disseram. Em The Perks Of Being A Wallflower, Charlie queixava-se de sempre ter sido um espectador na sua própria vida, mas ouçam, Charlie tinha 15 anos - consigo lidar com os devaneios existenciais de um adolescente que ainda não apanhou bem o seu lugar no mundo, mas um adulto com suposta fama mundial e mais do que recursos suficientes para mudar praticamente tudo na sua vida se o quisesse mesmo? Não, não consigo ter empatia com ele, desculpem.

Quanto aos protagonistas, Ormus e Vina, eram ambos interessantes enquanto pessoas, mas não me pareceram bem construídos enquanto personagens. Isso deve-se mais à estrutura do livro do que outra coisa, diria eu, porque tendo um narrador participante, só vamos obter uma versão dos factos, parcial, incompleta e superficial. Quanto Rai me diz que eles se conheceram em determinado local em determinadas circunstâncias, eu consigo ver a situação, mas não consigo saber o que é que Ormus pensou de Vina quando a conheceu, ou o que é que Vina pensou de Ormus quando o conheceu - apenas sei aquilo que o narrador pensa que eles pensaram, e não me pareceu suficiente.

A personagem mais interessante de todas, no entanto, apareceu durante umas dezenas de páginas no final, uma "substituta" de Vina após a sua morte. Obviamente que não posso exigir que se fale mais de uma personagem secundária só porque gosto dela, mas destacou-se definitivamente do resto do elenco - pela sua coragem, pelo seu talento, e pela forma perfeitamente realista como perdeu a paciência com Ormus e lhe pôs os pontos nos iis. Sim, por favor, sim, dêem-me personagens com os pés na terra, obrigada!

3. Setting/worldbuilding
Salman Rushdie está apaixonado por Bombaim - não sei se por ter nascido lá, não sei se por qualquer outra razão - e isso faz com que as cenas passadas na Índia sejam infinitamente melhores do que as cenas passadas em Inglaterra e nos EUA. Existe uma certa atmosfera, nas ruas, nas lojas, nas casas dos personagens, que torna todo o cenário bastante envolvente, acolhedor, quase.

E adorei, repito, adorei a exploração das questões relacionadas com a cor de pele dos personagens nos vários países que atravessam ao longo da história. Se na Índia o seu tom de pele raramente é mencionado, no Ocidente torna-se subitamente relevante para a narrativa, e se gostei de ver esse pequeno ajuste, gostei ainda mais de o ver feito por um autor Indiano que parece saber exactamente do que está a falar.

Tirando isso, o livro passa-se no mundo... bem, real, e tem menções suficientes de eventos históricos (talvez até demasiadas) para o fazer parecer autêntico. Nada mais há a acrescentar.

4. Estilo de escrita
Ora bem, este é o momento em que vos digo que o senhor Rushdie escreve muito, muito bem. Devaneia um bocado (ok, bastante), mas sabe juntar palavras em frases bonitas, e é isso que interessa neste último ponto. O problema é que nem só de boa escrita se faz um livro, e este caso particular é um exercício em... Gestaltismo invertido.

Se algumas coisas são mais do que a soma das suas partes, outras são menos, e se as partes que compõem este livro nem são más, a combinação delas... não resulta. O facto de ter adormecido várias vezes ao longo desta leitura (e ter feito speed reading do último terço) é prova suficiente. Foi uma cruzada muito, muito desagradável, e não a recomendo a ninguém. Ainda assim, leva duas estrelas, porque reservo a minha rating mais baixa para livros absolutamente incompetentes - tipo, oh, não sei, The Hollow People -, e este não é de todo o caso.

Oh, mas esperem, mencionei que Ormus entra em coma, e só sai dele quando Vina se senta ao lado dele e o chama? Estou aqui com um ligeiro déjà vu, acho que até já disse isto hoje, mas... mais preguiçoso do que isto é mesmo impossível.
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[PT] "O Ano da Morte de Ricardo Reis" de José Saramago



★ ★ ☆ ☆ ☆

O Ano da Morte de Ricardo Reis
José Saramago
Caminho, 582 páginas

Um tempo múltiplo. Labiríntico. As histórias das sociedades humanas. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de Dezembro de 1935. Fica até Setembro de 1936. Uma personagem vinda de uma outra ficção, a da heteronímia de Fernando Pessoa. E as relações entre a vida e a morte. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de Dezembro e Fernando Pessoa morreu a 30 de Novembro. Ricardo Reis visita-o ao cemitério. Um tempo complexo. O fascismo consolida-se em Portugal.

Não me lembro de tudo o que me foi ensinado no Secundário, e especialmente não na disciplina de Português... mas posso dizer que mantive algumas noções básicas de Fernando Pessoa & Companhia. Para começar, o ortónimo tinha dores quando pensava. O Álvaro era o high-tech do grupo. O Caeiro passeava-se pelos campos, e o Ricardo Reis... era o outro, vocês sabem, aquele do carpe diem e dos classicismos. A verdade é que a minha imagem mental de Ricardo Reis sempre foi muito de encontro à de um novato pretensioso que não sabe muito bem como se apresentar ao mundo ou o que fazer de si mesmo, o que também não é problema, porque não tem muito para mostrar.

Lamento informar que este livro de Saramago apenas contribuiu para reforçar esta minha imagem mental, e vou já explicar-vos porquê.

1. Plot
O plot é fino como... nem sei, hóstia. Ricardo Reis volta do Brasil para Portugal, vive num hotel por algum tempo, lê jornais, almoça fora e janta no hotel, envolve-se com uma criada, deixa-se fascinar por uma hóspede com idade para ser sua filha, arranja casa própria, almoça e janta fora, faz umas consultas, vai a Fátima, deprime, e morre.

Porque é que isto é digno de ser escrito, publicado, e lido, nem me perguntem. Ok, a popularidade de Fernando Pessoa & Companhia ajudam... afinal, esta trupe é o orgulho de muitos de nós, e é provável que a mera menção dos seus nomes seja capaz de transformar qualquer livro em ouro, mas isto? Isto é a descrição em 600 páginas da vida de um personagem que pouco vale (a não ser pelo nome), mais ou menos embrulhada num conceito que já foi por muitos integrado na corrente de magical realism (a razão pela qual li o livro, para ser sincera), completamente ofuscada por toneladas de descrição que não interessam nem ao proverbial menino Jesus.

2. Personagens
Ricardo Reis, quase nos seus 50 anos, um homem que detesta a sua barba porque está a ficar branca, aparentemente tem medo de mulheres, e passa o livro inteiro a tentar... ler um livro (oh, como o compreendo). Ocasionalmente, também lê os já mencionados jornais, e há inclusive um episódio em que Saramago nos dá uma página inteira de anúncios publicitários lidos pelo Sr. Reis. Não é um personagem de que seja possível gostar, porque depois de tudo o que li, continuo a não saber nada sobre ele. Arrasta-se por Lisboa, queixa-se da chuva, vai a Fátima, queixa-se do sol, filosofa sobre o Adamastor, o Adão, a Eva, esquece-se de comprar fósforos, acha-se incapaz de enfiar uma almofada numa fronha sem ajuda de uma mulher. É este o nosso protagonista. Só dá vontade de lhe dar um par de estalos e um sermão, acorda para a vida, Reis, tens 50 anos e o teu ortónimo morreu, se há hora para brilhares, é mesmo esta.

Mas não, está a chover, e a Lídia deve estar aí a chegar.

Falando de Lídia, é uma mulher "simples" (sim, ela é uma criada e ele é um doutor, Saramago, nós sabemos, lemos isso vinte vezes nas últimas três páginas) mas sábia, que sabe sempre mais do que diz. Posso estar errada, porque li Memorial do Convento há bastante tempo, mas não é essencialmente este o tipo de mulher que Blimunda é? Não sei, sempre que lia passagens sobre Lídia lembrava-me de outro alguém, outra personagem, outra mulher dentro do género. É como se ela não fosse uma personagem, mas apenas um arquétipo, a mulher.

Quanto a Marcenda, o segundo love interest de Ricardo Reis, muito pouco nos é dito sobre ela. Também sabe mais do que diz, é rica, bem comportada, e tem um braço paralisado, sendo que este último ponto acaba por ser a razão pela qual Ricardo Reis ganha interesse nela. É quase um fetish, sinceramente, a forma como o autor a descreve, a mão esquerda como um "animalzinho" que ela afaga e coloca no bolso para que não se note... tudo em Marcenda é infantilizado pela narrativa, desde as descrições do seu braço à forma como vive atrás da vontade do pai. Se Lídia é a mulher, Marcenda é a menina.

Fernando Pessoa faz algumas aparições, mas gostaria que tivessem sido mais frequentes - adoro o conceito de que uma pessoa, depois de morta, tem direito a nove meses para vaguear pelo mundo antes de se ir de vez, tal como um bebé teve nove meses para se desenvolver antes de nascer. É brilhante, e é aquele tipo de coisa na qual gostava de ter pensado primeiro. Infelizmente, é mal aproveitada.

Existem outras personagens recorrentes - as vizinhas curiosas, os idosos desconfiados, o gerente hiper-competente, os pagens e empregados prestáveis... etc etc etc -, mas nenhuma digna de crítica (ou elogio). São personagens secundárias, e cumprem a função para a qual foram desenhadas. Como nota final (e bastante pessoal), gostaria de ter visto mais dos restantes heterónimos, mas não me parece que isso tivesse contribuído para melhorar o livro, de qualquer forma.

3. Setting/worldbuilding
O livro passa-se em Lisboa, ano de 1936, e muitos dizem ser este o foco principal da história. O fascismo espalha-se pela Europa, a Guerra Civil deflagra em Espanha, Salazar vai apertando o cerco às liberdades dos portugueses... e Ricardo Reis deprime, claro. Concordo com quem quer que me diga que este livro tem uma atmosfera cinzenta, opressiva, sombria... mas pelo menos no que tocou à minha leitura pessoal, isso deveu-se mais à personalidade (ou falta dela) do protagonista do que ao momento histórico em questão. O avançar da Segunda Guerra Mundial foi impossivelmente dramático, não o nego (hey, tive três anos de história e vejo documentários sobre o Holocausto sempre que posso, sei do que falo) mas quando contado através dos olhos de um personagem que vê a vida a cinza e cinzento... torna-se aborrecido, e faz-se saltar páginas.

Claro que não posso reclamar com o nosso Nobel por ter escrito um livro de magical realism tendo os regimes fascistas Europeus como backdrop... isso seria tomar um livro como um afronta pessoal, e enquanto leitora, não me parece que possa fazer isso. Portanto, limitar-me-ei a dizer que não gostei das passagens em que Saramago se perde em diálogos militaristas, mas quem escolheu ler este livro fui eu - e talvez o tivesse evitado se tivesse levado a sinopse mais a sério.

Como ponto positivo, vou só acrescentar que as descrições de Lisboa estão praticamente perfeitas - ler algumas passagens deste livro é bem capaz de ser a forma mais fácil de dar uma passeata pela capital sem sair de casa.

4. Estilo de escrita
Saramago escreve muito e pontua pouco, isso todos sabemos. Mas se há momentos em que se torna excessivo, também há momentos em que a escrita quase nos... embala, e isto é algo que notei em todos os livros que li dele, até hoje. O problema é mesmo a raridade com que encontro esses momentos, portanto, talvez eu não seja simplesmente o tipo de leitora certa para este autor. Amigas e amigos já me ouviram dizer várias vezes que desconfio sempre de livros grandes - "será que não dava mesmo para dizer a mesma coisa em metade das páginas?" -, apenas porque, na grande maioria das vezes, encontro padding em vez de plot. Passagens de descrição sem fim, devaneios sobre tudo desde a cor do céu à forma correcta de fazer chá, diálogos que não têm qualquer ligação com a história principal... é só dizer. Prefiro mil vezes ler um livro de duzentas páginas, action-packed por todos os lados, do que um tijolo de papel que ocupa essas mesmas duzentas páginas... a apresentar personagens.

Portanto, a minha opinião aqui é que dava, efectivamente, para dizer a mesma coisa em metade das páginas. Eu teria gostado muito mais do livro, Ricardo Reis teria passado menos tempo a deprimir, e no geral, toda a gente teria ficado feliz. Infelizmente, aí já não seria um livro de Saramago, pelo que terei de me resignar à realidade. Duas estrelas, e fico feliz por ter acabado.
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