Mostrar mensagens com a etiqueta a. Maggie Stiefvater. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a. Maggie Stiefvater. Mostrar todas as mensagens

Opinião: 'The Dream Thieves', Maggie Stiefvater



★ ★ ★ ☆ ☆

The Dream Thieves
Maggie Stiefvater

Now that the ley lines around Cabeswater have been woken, nothing for Ronan, Gansey, Blue, and Adam will be the same.

Ronan, for one, is falling more and more deeply into his dreams, and his dreams are intruding more and more into waking life.

Meanwhile, some very sinister people are looking for some of the same pieces of the Cabeswater puzzle that Gansey is after...

O tema de hoje é “coisas que podiam ter sido muito boas, mas não foram” - ou seja, yup, chegámos ao volume dois do tão promissor The Raven Cycle.

Por que é que li este livro?
Porque li o primeiro e adorei, tão simples quanto isso. É por isso que as pessoas lêem sequelas, não é?

1. Plot


The Dream Thieves não prima por um plot exaustivamente bem organizado, ou sequer... lógico. Apresenta pelo menos cinquenta plot holes, quase todos concentrados nas últimas cem páginas (que raio de final foi aquele?), e todas as pessoas com quem discuti este livro concordam num ponto - tem cenas muito boas, é divertido de se ler, mas não existe tal coisa como um enredo sólido que o unifique.

Ora bem. Este livro pega no grande plot twist de última linha do anterior, e leva-o ao extremo. Os que leram saberão que Ronan Lynch, o membro rebelde do ensemble cast, tem agora a capacidade ligeiramente imprevisível de retirar coisas dos seus sonhos. Coisas como canetas, ou o seu corvo de estimação, Chainsaw.

O plot apresenta-nos então a Kavinsky, o rival favorito do nosso protagonista (por via de simplificar as coisas, vamos assumir que o protagonista deste livro é Ronan), que a) é Russo, ou assim, b) conduz um Mitsubishi branco, c) deixa as mãos do nosso protagonista a suar. Oh, honey. Kavinsky inferniza a vida de Ronan, não só com a sua superior performance no mundo do street racing, mas também com a sua língua afiada que insinua, três vezes por página, que Ronan e Gansey têm, como eu costumo dizer, uma cena. Não têm. Gansey está caído pela nossa protagonista Blue, como todos sabemos, e embora Ronan esteja firmemente caído pelo seu próprio género (obrigada, Maggie!), Gansey não é de todo o seu tipo ideal.

Portanto, este livro conta a história de como Ronan se aproximou de Kavinsky, descobriu que também ele era um dream thief, se aproveitou dele para aprender tudo o que precisava, e depois voltou aos seus Raven Boys. Entretanto, aprendemos que o pai de Ronan também era um dream thief que tirou não só uma fortuna dos seus sonhos, mas também todos os animais que tinha na sua quinta, e a sua esposa. Estando ele morto, tudo isto ficou “adormecido” sem a sua presença – e isso inclui a mãe de Ronan, que passa 99% do livro em estado basicamente vegetativo. No final, levam-na à floresta mágica, ela acorda, sorri muito feliz, e fica tudo bem.

Estão a gozar comigo? Quer dizer, um dos pontos cruciais da história é como Kavinsky é Uma Pessoa Muito Má, porque usa e abusa dos seus poderes e retira tudo e mais alguma coisa dos sonhos, coisas como centenas de Mitsubishis brancos e uma réplica do seu pai para encobrir o facto de o ter assassinado. A narrativa deixa claro que não devemos idolizar ou simpatizar com Kavinsky, mas o pai de Ronan sai de tudo isto impune. Por que é que sonhar carros é mais grave do que sonhar dinheiro? Por que é que sonhar um pai novo é mais grave do que sonhar uma mulher? Para citar Calla, a única pessoa com dois dedos de testa neste livro todo... não há mulheres que cheguem no mundo? Não posso apoiar uma narrativa que praticamente idoliza um destes personagens e condena outro. E não só! Esta mulher, que está efectivamente inconsciente durante a maioria do livro, é tratada como um objecto. Ela existe, literalmente, para servir os caprichos dos homens do livro – o pai de Ronan trá-la para o mundo real porque não consegue viver solteiro, suponho eu, e Ronan trá-la de volta porque não consegue viver sem mãe. Ronan não tem grande culpa, eu faria o mesmo, mas toda esta narrativa é absurda. E depois trazem-na de volta em duas ou três linhas, e fica tudo bem? Eh pá... não.

E tudo isto sobre a plotline de Ronan, que ocupa francamente a maior parte do livro. O restante é dedicado a Adam – que desde o livro anterior, não esqueçamos, saiu de casa dos seus pais abusivos, vendeu a alma a uma floresta, e matou um homem. O primeiro livro torna fácil torcer por Adam, pelo seu sucesso, pela sua relação com Blue, mas o segundo livro assiste à sua total transformação no tipo de rapaz que não suporto. Continuem a ler para perceber porquê.

2. Personagens
Maltratado pelo pai em frente a uma mãe que nunca o defendeu, Adam chega a limites absurdos para recusar a bondade daqueles que o rodeiam, e tudo isso é orgulho – ele quer ter sucesso sozinho, e eu respeito isso, mas ter sucesso sozinho não implica recusar ajuda quando ela é precisa, ou afastar pessoas só porque têm mais sucesso do que nós, ou descarregar a nossa raiva esmurrando paredes enquanto a nossa namorada tenta ter uma conversa séria connosco. Compreendo, e aceito, que pessoas reais reajam a situações de abuso desta forma, mas a forma como a narrativa representa Adam continua a ser problemática – a narrativa quer à força toda que eu simpatize com ele e valide as suas desculpas, mas infelizmente eu sou anti-desculpabilização de comportamentos anti-sociais e nada disto pega comigo. Boa tentativa.

As verdadeiras estrelas do livro são, no entanto, Ronan e Kavinsky. A narrativa é bastante mais imparcial no que lhes toca, e não há qualquer tentativa de os representar como “heróis” ou “boas pessoas”. Kavinsky é uma arma de destruição maciça, e Ronan só lhe fica atrás por ter Gansey como moral compass.

E falando de Gansey, este continua a ser a personagem mais estável do livro; Noah, que, como todos sabemos nesta altura do campeonato, é um fantasma, tem uns quantos momentos para brilhar; e Blue é criminalmente ignorada. É óbvio que os livros não são sobre ela, e continuo fula por me terem tentado convencer que sim.

Há uma grande diferença entre este livro e o primeiro, no entanto – se excluirmos o facto de se dedicar em 80% à relação mutualmente destrutiva de Ronan e Kavinsky. A “maldição” que impede Blue de beijar o amor da sua vida passa para primeiro plano, e temos duas cenas pseudo-românticas com beijos incluídos (e que cenas, a autora merece um prémio por elas). O plot aproveita-se do lento deteriorar da personagem de Adam para se começar a focar em Gansey/Blue, e se havia dúvidas de que este é O Casal Oficial, elas dissipam-se totalmente neste livro.

Infelizmente, e para citar a minha reacção inicial, acho este casal tão entusiasmante como um desenrolador de fita-cola. Oops.

3. Setting/worldbuilding
Tudo o que disse sobre o primeiro livro continua a ser verdade relativamente a este. Cidade pequena, número limitado de cenários, etc. A única coisa que muda é a magnitude daquilo que é “permitido” em termos de magia. Se no primeiro livro pouco mais havia do que videntes e florestas surrealistas, agora temos dragões e monstros retirados directamente dos pesadelos dos nossos protagonistas. É isso. Next!

4. Estilo de escrita
O facto de seguir principalmente Ronan torna o estilo deste livro ligeiramente mais “colorido” do que o anterior. Há insultos que cheguem para manter qualquer um entretido, e referências sexuais de duas em duas páginas. Os diálogos continuam a ser bons, mas uma vez mais, não posso dizer que tenha ficado fascinada com a escrita da autora.

Em resumo...
Adorei The Raven Boys, o primeiro livro desta série. Não adorei The Dream Thieves, e não consigo de forma nenhuma dar-lhe as mesmas quatro estrelas. É um livro que entretém bastante, não me entendam mal, mas só entretém se o leitor já estiver emocionalmente investido nas personagens – caso contrário, suspeito que os plot holes sejam suficiente para demover até os mais corajosos.

Três estrelas, e começa assim a espera pelo terceiro livro da série, Blue Lily, Lily Blue. Esperemos que recupere a qualidade do primeiro!
Read more >

Opinião: 'The Raven Boys', Maggie Stiefvater



★ ★ ★ ★ ☆

The Raven Boys
Maggie Stiefvater

Every year, Blue Sargent stands next to her clairvoyant mother as the soon-to-be dead walk past. Blue never sees them--until this year, when a boy emerges from the dark and speaks to her.

His name is Gansey, a rich student at Aglionby, the local private school. Blue has a policy of staying away from Aglionby boys. Known as Raven Boys, they can only mean trouble.

But Blue is drawn to Gansey, in a way she can't entirely explain. He is on a quest that has encompassed three other Raven Boys: Adam, the scholarship student who resents the privilege around him; Ronan, the fierce soul whose emotions range from anger to despair; and Noah, the taciturn watcher who notices many things but says very little.

For as long as she can remember, Blue has been warned that she will cause her true love to die. She doesn't believe in true love, and never thought this would be a problem. But as her life becomes caught up in the strange and sinister world of the Raven Boys, she's not so sure anymore.

Por que é que li este livro?
Porque fiquei traumatizada quando acabei The Secret History, e nada me parecia bom o suficiente para aligeirar a transição dessa real obra de arte para a restante ficção plebeia à minha disposição. Mais uma vez, o Tumblr salvou-me, e sugeriu esta série – ensemble cast, jovens vagamente pretensiosos obcecados com tempos há muito passados, e talvez até homicídio. Não soa perfeito?

1. Plot
Ora bem. Estão a ver aquele blurb? Esqueçam. A secção de marketing esforça-se muito por vender The Raven Boys como um trágico romance YA entre um rapaz quase morto e uma rapariga que está destinada a matar o seu verdadeiro amor com um beijo, mas na vida real... aquilo que o livro efectivamente oferece nada tem a ver com isso. Alinhem comigo num suspiro de alívio colectivo.

The Raven Boys, por muito que queira dar protagonismo a Blue na sinopse e no primeiro capítulo, é a história de um grupo de rapazes cuja relação precede, em muito, o surgimento de Blue nas suas vidas. Gansey, um menino rico de um colégio privado, passa os seus dias armado com medidores EMF e demais instrumentos de investigação paranormal. O seu objectivo é identificar a ley line que, segundo ele, passa perto do seu colégio, e depois encontrar o rei Galês que se encontra sepultado algures sobre (ou sob, depende da perspectiva) essa linha.

Blue, por outro lado, tem os pés bem assentes na terra, se exceptuarmos o facto de ser a única pessoa sem grande aptidão paranormal na sua casa habitada exclusivamente por mulheres médiums (a sua mãe, a sua tia, sua prima, uma amiga da mãe, outra amiga da mãe... e por aí fora). Blue tem, no entanto, o poder de amplificar manifestações paranormais para aqueles que as conseguem sentir. Uma noite, Blue acompanha a sua tia ao evento paranormal do ano, onde é possível ver as almas das pessoas que vão morrer nos doze mese seguintes. O objectivo da médium é recolher os nomes destas pessoas, para as poder avisar em tempo útil –se elas lhe pagarem para o saber, claro. Blue apercebe-se da presença da alma de um rapaz da sua idade, a quem pergunta o nome. Ele chama-se Gansey, e o resto, como podem imaginar, é história.

...ou será que é? Talvez seja uma consequência da “maldição” que se abate sobre Blue, mas não existe um único beijo neste livro, e os subplots românticos nunca se sobrepõem à busca do grupo pelo rei Galês. Blue mostra algum interesse, correspondido, por um dos membros do grupo, mas a) não é Gansey, a b) a relação de ambos prima-se por uma inocência e um respeito mútuo que não tem igual em todos os livros YA que já li. Hooray!

2. Personagens
Estes livros têm, mais coisa menos coisa, cinco personagens principais. Em primeiro lugar, os titulares Raven Boys, assim chamados devido ao emblema do colégio que frequentam: Gansey, o protagonista e líder da cruzada paranormal, Ronan, o melhor amigo rebelde que tem um corvo de estimação e uma certa propensão para o street racing, Adam, o outro melhor amigo, oriundo de uma família abusiva e sem o estatuto económico dos seus colegas, e Noah, o grande mistério do grupo, também conhecido como “the smudgy one” . Em quinto lugar, temos Blue, a protagonista idealista, sem paciência para falsidades, e com um ligeiro complexo de inferioridade face à sua falta de poderes psíquicos.

A diferentes níveis e de diferentes formas, diria que as personagens estão bem construídas – parecem pessoas reais, e esse é o maior elogio que posso dar a um livro de ficção. As suas emoções são genuínas, ou parecem-no, e não tomam decisões que não se coadunam com as suas personalidades. São consistentes, lógicas, e é fácil compreendê-las.

Pessoalmente, identifiquei-me mais com Gansey (o menino rico com objectivos de vida absurdos, um coração de ouro, e sem grande filtro entre aquilo que pensa e aquilo que diz, yup, é o meu tipo) e Adam, e quis muito identificar-me com Blue – mas infelizmente, para quem é a narradora do primeiro capítulo do livro, e a pessoa de quem todas as sinopses falam, ela acaba por não ter tanto protagonismo quanto seria desejável. Uma crítica que tenho visto, e com a qual concordo, é que Blue é, de certa forma, uma assistente nas histórias deoutras pessoas. Tendo em conta que esse é o seu poder psíquico, faz sentido que esse seja também o grande tema da história pessoal da Blue – pelo que talvez seja de esperar que ela consiga finalmente promover-se de assistente a protagonista num futuro próximo?

Considerando que o terceiro livro da série (olhem ali na barra direita) usa o palavra "Blue" duas vezes no seu título... acho que devo ter razão.

3. Setting/worldbuilding
Este livro desenrola-se numa pequena cidade na Virginia, num conjunto limitado de cenários, todos eles com algum tipo de significado para o plot em geral: a casa de Blue (e sabemos que médiums são sempre plot-relevant), a fábrica renovada em que Gansey vive com Ronan e Noah, a floresta surreal sobre a ley line, e vagamente, a casa de Adam. Todos estes locais evocam um sentimento diferente no leitor, muito devido à forma como são descritos – as cores, o ambiente, os acontecimentos que lá se desenrolam. A magia que marca a floresta tem regras, o leitor tem perfeita noção delas, e embora o verdadeiro carácter dos talentos psíquicos da família de Blue não seja sempre claro (são só muito observadoras? têm poderes? estão sempre certas? Gansey vai mesmo morrer?), tal não é algo que me tenha incomodado. A parte da mitologia é sem dúvida interessante, e uma base firme para o leitor se orientar na caça ao tesouro.

Basicamente, ninguém vai ler este livro pelo setting, mas em comparação com outros YAs passados no mundo “real”, não há qualquer queixa a fazer. É um setting. Acontecem coisas. Voltem acima e leiam os pontos 1 e 2, que são os que me efectivamente me permitem vender-vos este livro.

4. Estilo de escrita
Devo dizer que me passou ligeiramente ao lado, e que não tenho qualquer comentário bonitinho a fazer sobre a escrita de Maggie Stiefvater. Adorei os diálogos, mas o resto da escrita, para mim, foi invisível. Na prática, o que isto quer dizer é que a escrita deste livro cumpre a sua função, mas não se eleva àquele ponto em que passa a ter um peso próprio no desenvolvimento da história – não como a escrita de Angela Carter ou de Tanith Lee, por exemplo.

Leva, no entanto, pontos bónus pelo plot twist de última linha. Adoro plot twists de última linha.

Em resumo...
Adorei The Raven Boys. Certo, o plot é a clássica caça ao tesouro (que não é resolvida neste livro, para que conste), mas as personagens são extraordinárias, e as relações entre elas... bem, dão pano para mangas. Não tem elementos excessivamente problemáticos – sim, porque estou sempre aqui com o meu feminismo à mão para criticar literatura –, a escrita é competente, o worldbuilding é competente, e não me parece que se possa pedir muito mais de um YA. Quatro estrelas, recomendado.

O mesmo não se poderá dizer do segundo, infelizmente. Amanhã há mais!
Read more >