Mostrar mensagens com a etiqueta a. João Ventura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a. João Ventura. Mostrar todas as mensagens

Opinião: Antologia 'Na Sombra das Palavras'



★ ★ ★ ☆ ☆

'Na Sombra das Palavras'
Vários autores

Na Sombra das Palavras” reúne cinco contos de autores portugueses, combinando thriller e fantástico em histórias de amor, memórias esquecidas e encontros com a Morte e Deus. As palavras transportam o leitor para labirintos, panópticos, livrarias e memórias longínquas. Com contos da autoria de Ângelo Teodoro, David Camarinha, Fábio Ventura, João Ventura e Mário Seabra.

Boa noite, quase manhã, camaradas - estou atrasada, como de costume, mas vamos ignorar isso.

Hoje trago-vos o primeiro livro do catálogo da Editorial Divergência, uma nova editora centrada na ficção especulativa, que pretende apostar em exclusivo no mercado e escritores nacionais. Na Sombra das Palavras é uma antologia de thrillers e contos fantásticos, composta por cinco trabalhos, de cinco autores distintos. Foi publicada em formato físico e digital, com os preços altamente aceitáveis de 2.50€ e 1€, respectivamente. Ninguém pode dizer que a editora não está a cumprir com a sua intenção de vender edições acessíveis! Só comprei o ebook, mas acho que vou acabar por comprar a versão em papel - sempre é uma segurança para o futuro, já que todos os envolvidos nesta edição vão acabar famosos de uma forma ou de outra.

Vamos então falar dos contos.

O Livreiro, Fábio Ventura
A antologia abre com um conto que, à primeira vista, seria muito fácil de classificar como realismo mágico. Um livreiro conhece uma mulher de papel, e para citar Donna Tartt (naquela que será sempre a melhor descrição alguma vez feita de uma cena de sexo), matters progressed. Embora não me possa dizer fã do estilo do autor (é um tanto ou quanto repetitivo), o conto até me cativou, até perceber qual seria o plot twist final - que achei mais previsível do que surpreendente.

A Lista de Deus, João Ventura
Este conto pareceu-me um tanto ou quanto deslocado dos outros, para ser sincera. Talvez por uma questão de setting, mas também de escala - os restantes autores da antologia focam-se em histórias pessoais, mas aqui vem João Ventura com um apocalipse profetizado numa versão alternativa dos Génesis, e tive alguma dificuldade em conseguiu encaixar o seu trabalho com os restantes. No entanto, nada disto afecta a qualidade do conto. Está bem escrito, e razoavelmente bem estruturado - e digo "razoavelmente", note-se, porque me parece que este conto, tal como um outro na antologia, poderia ter beneficiado de mais algumas páginas para se desenvolver. Como está, o final chegou demasiado cedo, não dando ao leitor tempo de se preparar para as verdadeiras implicações do que estava a ler.

O Panóptico, David Camarinha


Desculpem, desculpem, mas andei toda a minha vida à procura de uma boa ocasião para usar esta imagem, e finalmente consegui. David Camarinha escreveu o meu conto favorito desta antologia, ou não fosse eu ligeiramente obcecada pelo Panóptico. (lembram-se do livro de Jenni Fagan que discutimos em Dezembro? pois, there you go) O Panóptico demonstra, basicamente, como utilizar um limite de 2k palavras para mostrar todo um mundo ao leitor. A escrita é super elaborada (alguns chamar-lhe-iam purple prose, por mim tudo bem), os personagens relevam-se apenas na medida do necessário (teria sido ainda melhor se tivessem sido mantidas todas anónimas), e o twist final...

Bem, o twist final merece um parágrafo próprio, porque é exactamente o mesmo twist usado por Fábio Ventura no conto inicial, com um efeito totalmente diferente. Também o adivinhei a tempo, mas em vez de sentir ah ok, fixe senti ah ok, fixe, MAS MEU DEUS O PANÓPTICO ACRESCENTA CERCA DE DEZ MIL NOVAS IMPLICAÇÕES A ISTO E ACHO QUE PRECISO DE ME SENTAR. Adorei, a 100%, melhor conto da antologia sem competição possível.

Labirinto de Papel, Ângelo Teodoro
O que mais me agradou neste conto foi, sem dúvida, a sua ambiência. O título, Labirinto de Papel, não poderia ser mais adequado, e as suas interpretações são múltiplas. Por outro lado, este conto também me pareceu o mais "clássico" de todos - tem uma estrutura princípio/meio/fim clara, bem estruturada, utiliza perfeitamente as suas personagens, e o mistério vai crescendo de forma gradual à medida que nos aproximamos do final. Adorei a forma como os personagens funcionaram quase como espelhos um do outro, com uma evolução semelhante nas suas reacções, e no geral, poucas críticas tenho a fazer. Até o estilo de escrita me deixou a sorrir. Segundo favorito, gostei bastante.

Tábula Rasa, Mário de Seabra Coelho
Lembram-se quando disse, acima, que havia um outro conto que poderia ter beneficiado de mais algum tempo (ou espaço?) de antena? Estava a falar deste. Tábula Rasa apresenta-nos o que me parece ser, acima de tudo, uma amostra de algo maior. O worldbuilding deste conto não cabe, nem de perto nem de longe, no espaço a que tem direito na antologia, e isso não funciona a seu favor - para quê dar-me nomes e backstory se não tenho tempo para criar empatia com os personagens? Ou para aprender a distingui-los, sequer?

Não achei o plot nada de especial, mas gostei da escrita e adorei o conceito. Espero sinceramente que haja aqui pano para mais mangas, seja noutros contos, ou num livro completo.

Agora, tendo feito este apanhado geral dos contos, acho que é ainda importante deixar uma palavrinha à editora. Para primeiro livro, achei que este foi um óptimo esforço - não adorei todos os contos, mas achei-os adequados ao tema, e mais do que capazes de inaugurar o mundo da Divergência. Quanto à capa, tenho as minhas reservas... não por ser uma má capa, mas porque nada nela me sugere propriamente thriller fantástico. Finalmente, só tenho uma crítica muito séria a fazer: o que é que aconteceu ao nome do pobre Mário, que passa de Mário Seabra na capa a Mário Coelho na biografia? Não é o erro mais grave do mundo, obviamente, mas chega para desorientar qualquer um.

Posto tudo isto, dou umas saudáveis três estrelas à antologia, com votos de boa sorte a todos os autores, e à equipa da Editorial Divergência. Mandem para cá mais livros!
Read more >

[PT] Nanozine 9



★ ★ ★ ☆ ☆

O mais recente número da Nanozine, fanzine portuguesa composta por contos, entrevistas, etc etc etc, saiu em Julho, com equipa renovada e nova periodicidade, a partir de agora semestral.

E é ligeiramente vergonhoso notar que vou começar a rever a Nanozine pelo nono número, mas hey, tenho de começar por algum lado. Vamos aos contos, então, que é para isso que leio fanzines:

A Máquina do Tempo, Joel Puga
Com cerca de 500 palavras, um conto deste tamanho tem quase obrigatoriamente de confiar em exposição seguida de plot twist. Efectivamente, segue a regra, e fá-lo bem, embora não me pareça particularmente inovador ou memorável.

O Colapso, Michael Silva
Logo ao ler a primeira página, a palavra que me veio à mente foi “demasiado”. Há claramente alguma coisa (ou muita coisa, ou a maior parte da coisa) a escapar-me, e embora essa sensação não me costume incomodar quando há algo que a compense – um plot bem contruído ou personagens interessantes, por exemplo –, isso não acontece aqui. São só duas páginas, é verdade, pelo que dificilmente poderia pedir tudo isso, mas de qualquer forma, senti-me completamente perdida. Há worldbuilding, nota-se, e felicito o autor por isso, mas não me conseguiu cativar. Talvez num formato mais longo?

Roland’s, Carlos Silva
O primeiro parágrafo é bastante enigmático, e um começo forte para o conto. Não posso dizer que não tenha revirado os olhos quando a história em si se começou a... bem, revelar, mas acabei por desculpar ao chegar ao final – que é previsível, certo, mas ainda assim bem conseguido. Dos três contos, é sem dúvida o melhor.

Acta da reunião do júri do concurso literário "Palavras Nunca Lidas", João Ventura
Ah, se todas as actas fossem assim, o mundo seria um lugar melhor. O mesmo não pode ser dito do concurso literário em questão, que não me parece contribuir em nada para o bem da humanidade. Deixo ao critério do autor decidir se todos os concursos seguem este mesmo teor de utilidade social... já que estes não são temas que uma pessoa respeitável como eu deva discutir em público. Basicamente, adorei o texto, e conseguiu fazer-me sorrir. Em bom inglês, you is good job.

Micro-Contos, Humberto Ferreira
Eu huh... não aprecio micro-contos, em geral. Acho que é preciso ser muito, muito bom (talvez melhor do que o Hemingway) para conseguir escrevê-los, e feliz ou infelizmente, nem todos o somos. Dito isto, parece-me que os micro-contos em questão se lêem um pouco como anedotas, ou talvez até provérbios, com algum tipo de moral superior mas sem qualquer conteúdo que me leve efectivamente a procurar a história nas entrelinhas.

Relativamente ao resto da revista, peço desde já desculpa aos autores de poesia, mas recuso-me a opinar sobre os seus textos por via da minha já conhecida incapacidade de ler em verso. Não sei ler poesia, não sei retirar sentido de poesia, não sei apreciar poesia - e logo aí, já estaria a ser injusta com os autores. Quanto às entrevistas, ambas me pareceram competentes e bem conseguidas, embora as tenha lido um pouco na diagonal por não conhecer o trabalho dos autores. O artigo de João Campos, Onde está a Ficção Científica em Portugal, encontrou em mim a pior leitora possível, uma vez que não sou, de todo, pessoa de ficção científica - ainda assim, fiquei curiosa com alguns dos títulos mencionados. Acho relevante apontar, no entanto, que o título do artigo é enganador, levando-me a pensar que ia ler sobre autores portugueses de sci-fi (ou as razões pelas quais eles não existem), expectativa que acabou por sair gorada. A revista fecha com um artigo de recomendações, 8 Livros para Ler na Praia, que me pareceu, com toda a sinceridade, exibir uma selecção completamente random. Preferiria ter visto o mesmo conceito aplicado a "tipos" de leitores, por exemplo... sugestões para os amantes de fantasia urbana, sugestões para os fãs de não-ficção, sugestões para os que devoram romances paranormais, etc. Ou, se o objectivo era manter a variedade, talvez cada membro da equipa pudesse ter contribuído com uma sugestão?

Finalmente, ao nível gráfico, esta revista mostra-se bastante mais simples do que algumas das anteriores, inclusive ao nível da capa. Visualmente, não é o melhor número que a Nanozine alguma vez publicou, mas vamos dar tempo à nova equipa. No geral, dou à revista três estrelas... e desejos de boa sorte para os números futuros. :)
Read more >