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Quando Os Autores São Roubados, e Nós Deixamos


Perdoem o post às 2 da manhã, meus caros, mas valores mais altos se levantam.

Há poucas horas, assinei o primeiro contrato de direitos autorais da minha vida. Uma coisa séria, duas páginas, em que declaro que Editora X tem direito a publicar uma história minha, por período limitado, publicação essa pela qual receberei um pagamento. Em dinheiro. Porque sou autora, e isso dá-me direito a... imagine-se, direitos de autor.

Mas deixemos de falar de mim. Falemos, em vez disso, da Editora Livros de Ontem, um projecto editorial que surgiu recentemente nos radares desta vossa blogger com a entrevista que o seu editor-chefe, João Batista, deu ao blog Bran Morrighan.

João Batista apresenta-se como, “acima de tudo [...] escritor”, e as suas motivações para a criação da Livros de Ontem parecem-me, em tudo, louváveis. João Batista menciona “o estado do mercado editorial e livreiro, a inércia completa das editoras existentes”, e eu concordo em tudo com o que diz. O mundo editorial Português não está convidativo para aqueles de nós que não chegam aos calcanhares de popularidade de um José Saramago ou de uma Margarida Rebelo Pinto, e se os últimos anos têm assistido a uma inovação notável por parte de autores, editores, e demais empreendedores das letras, nem sempre esses esforços se têm traduzido num contacto com o público mais vasto. Para colmatar essa falha, esta editora distingue-se pela sua estratégia de “crowdpublishing” (basicamente crowdfunding com um nome diferente), e embora tenha as minhas questões relativamente a esse ponto, não é para isso que aqui estamos hoje.

Estamos aqui, irmãos e irmãs, para discutir o conceito de “Guest Bloguer”, uma categoria particular a esta editora que me tem causado, a mim e aos meus, algum pasmo. João Batista menciona, na sua entrevista, a sua desilusão face à imprensa nacional e à sua relutância em divulgar novos projectos literários, apontando como alternativa clara os blogs. Nas suas palavras, “fico absolutamente fascinado como alguém consegue fazer tanto pelos livros com tão poucos ou nenhuns recursos. São passatempos, entrevistas, notícias, divulgações, tudo. Os blogues literários assumiram, literalmente, o papel dos media tradicionais na divulgação editorial.”

Mas nem tudo são rosas, e João Batista aponta, logo a seguir, as falhas que encontra no modelo nacional de blog literário: “alguma falta de qualidade que inegavelmente existe em alguns blogues, o que se deve ao seu amadorismo, e a insustentabilidade do modelo [...] devido à falta de capacidade de monetização”. Este é, efectivamente, um problema grave na área, e um que impede que determinados blogs se desenvolvam para além do seu nível actual. Afinal, nem sempre é possível criar e promover conteúdo de qualidade gratuitamente, quando existem milhares de outras preocupações da vida real que se apresentam como prioritárias (preocupações como, sei lá, empregos).

A parte positiva disto tudo é que a Livros de Ontem tem uma solução, que passa pelo programa “Guest Bloguer”. Que programa é este, perguntam vocês? Simples, e para o explicar citarei uma vez mais a entrevista:

uma série de livros que serão lançados pela editora em conjunto com os seus blogues parceiros em que o bloguer convidado desempenhará o papel de editor, escolhendo o autor a publicar e seleccionando o seu original. A editora fará todo o trabalho inerente como a revisão, paginação, capa, divulgação, venda, etc., e os direitos de autor são pagos ao bloguer e não ao autor que é também convidado a ajudar este canal que tanto faz pelas suas obras e carreiras.

Vamos parar já aqui, e rebobinar até àquele pedacinho ali quase no fim – “os direitos de autor são pagos ao bloguer e não ao autor”. Não há uma única coisa que faça sentido nesta frase.

Adoro o facto de a Livros de Ontem mostrar apreço pelos blogs literários. Adoro a intenção de os monetizar e profissionalizar. Não adoro a intenção de o fazer à custa dos parcos rendimentos a que os autores têm direito. Deixem-me ir até mais longe – acho-a deplorável.

João Batista reitera, ao longo da sua entrevista, que um livro não é um “produto de supermercado”, optando ao invés por enfatizar o valor cultural e intelectual de uma obra. Isto é tudo muito bonito, sem dúvida, mas é exactamente o tipo de discurso que leva os autores a desvalorizar, monetariamente, o seu próprio trabalho.

Um livro é um produto. Se é de supermercado ou boutique, não me compete a mim decidir, mas é um produto, e o autor é o seu produtor. O autor passou horas intermináveis a melhorar o seu produto, até ao momento em que finalmente o considerou próprio para consumo, e nada nem ninguém o deve convencer a ceder esse produto gratuitamente.

E pior do que ceder o produto? É ceder os seus direitos de autor. E pior do que ceder os seus direitos de autor? É ceder os seus direitos de autor para que um blogger possa receber os dividendos dos mesmos, limpinhos, no seu bolso.

Uma editora que respeita os seus autores não lhes propõe esquemas deste género. Uma editora que respeita os seus autores não lhes relembra de forma passivo-agressiva que constitui um “canal que tanto faz pelas suas obras e carreiras”, e que portanto, lhes devem ceder os seus direitos de autor sem qualquer contrapartida financeira. Uma editora que respeita os seus autores não lhes rouba, pois o termo é mesmo esse, o pouco que ainda conseguem ganhar com a sua escrita em Portugal.

E mais. Qualquer blog que apoie este programa não está mais do que a contribuir abertamente para o empobrecimento dos autores que tanto diz respeitar.

Mas é como diz João Batista, editor-chefe da editora que nos acaba de propor este esquema... "os autores andam demasiado preocupados em tentar agarrar uma editora que vá lançando os seus trabalhos, seja a que custo for". Dá que pensar, não dá?

Adenda

Este post não foi o único, nem mesmo o primeiro, texto escrito por um autor português a contestar o programa Guest Bloguer da Editora Livros de Ontem. Foi, no entanto, o mais extenso, e o mais partilhado, pelo que me parece importante aproveitar essa onda para deixar aqui uma nota quanto a tudo o que aconteceu depois da sua publicação.

• A polémica começou na noite de sexta-feira, dia 12 de Setembro, quando vários autores e bloggers portugueses demonstraram a sua indignação com o programa nas suas páginas de Facebook pessoais. O tema alastrou a diversos grupos, e foram, inclusive, deixados comentários na página de Facebook da Editora Livros de Ontem, e na entrevista dada por João Batista ao blog Bran Morrighan. O meu próprio post foi publicado por volta das duas da manhã de sábado, dia 13 de Setembro, estando firmemente integrado nesta primeira vaga de críticas.

• Às 11 da manhã de sábado, estava a Editora Livros de Ontem a responder, na página da entrevista no blog Bran Morrighan, com o comunicado oficial que seria depois utilizado para diversos fins ao longo do dia. O mesmo comunicado poderá ser visto a) em resposta ao comentário deixado na página de Facebook, e b) neste mesmo post, se quiserem descer a página até aos comentários.

• O mesmo comunicado foi depois publicado, como post independente, na página de Facebook da Editora, onde foi recebido com uma segunda vaga de críticas - e o contrário não poderia ser esperado, pois fazem parte do comunicado afirmações tão condescendentes como "trata-se de um conto de cerca de 5 páginas e não um romance de uma vida" e "qualquer tipo de remuneração resultaria numa quantia irrisória para cada um" -, publicadas no final da manhã e início da tarde.

• Às duas da tarde de sábado, o blog Bran Morrighan publicou o seu próprio comunicado. Neste texto, a blogger Sofia Teixeira menciona pela primeira vez uma redistribuição dos direitos de autor entre blogger e autores, acrescentando ainda que a sua fatia dos lucros seria doada, acção que poderia ser partilhada pelos autores que assim o desejassem.

Como tal, eu e o João estivemos a falar e haverá uma reformalização do programa Guest Bloguer – os direitos de autor serão distribuídos para o bloguer e para os autores, 10% a cada parte. Os 10% para os autores incluem o ilustrador, neste caso. Mais, os 10% que me couberem a mim, serão doados e não utilizados para proveito próprio. Também os autores o poderão doar, caso tenham esse desejo, sendo que os autores convidados já expressaram essa vontade.

• Às três da tarde, a Editora Livros de Ontem deixou novo comunicado na sua página de Facebook, onde anunciava "uma reformulação do regulamento da iniciativa Guest Bloguer" - reformulação que oficializava o comunicado anterior do blog Bran Morrighan, afirmando que todos os direitos de todos os intervenientes seriam doados a uma instituição de caridade a decidir.

• Há, no entanto, uma parte do comunicado que tenho de contestar:

Agradecemos a todos os leitores o feedback que nos enviaram e apelamos a que futuras opiniões sejam primeiro submetidas à editora para esclarecimento e conversa. Estamos todos aqui pelo mesmo e queremos contribuir para o bom funcionamento do sistema editorial. Declaramos a nossa abertura para debater estas e outras situações com leitores e bloguers desde que o debate seja civilizado e com possibilidade de demonstração das várias opiniões.

É curioso concluir que este meu blog foi acusado de desrespeitar o direito ao contraditório (como, num blog em que os comentários são públicos e nem requerem aprovação prévia?) e de "publicar um artigo de carácter parcial e eminentemente influenciado por opiniões externas à iniciativa", quando no panorama geral das coisas, não sou eu quem está a apelar a um diálogo privado e "civilizado". Não acredito em discutir atropelos éticos de forma privada, tal como não acredito em pedir aos indignados que baixem o seu tom. A mobilização que se gerou em redor deste tema só mostra que não sou a única detentora desta opinião.

• Às cinco e meia da tarde, foi publicado, no site da Editora, o regulamento actualizado do concurso. O post em questão inclui esta citação:

Os direitos de autor serão doado a uma instituição a designar pelo grupo de autores, sendo repartidos da seguinte forma: 10% direitos de autor, 10% direitos do blogue e 10% doação da editora.

E a versão PDF do regulamento inclui esta:

A editora irá doar a uma instituição a designar 30% das vendas, correspondendo a 10% (direitos de autor), 10% (direitos do blogue) e 10% (contribuição da editora).

Portanto, no final de contas, a questão dos direitos de autor pagos à pessoa errada foi resolvida com... um donativo dos direitos de toda a gente a uma instituição de caridade. Uma forma diplomática de fechar a polémica a sete chaves, sem dúvida, mas que acaba por evitar os pontos-chave da questão - nem os autores recebem direitos de autor, nem o blogger recebe qualquer recompensa monetária pelos seus esforços de divulgação, tornando o programa Guest Bloguer efectivamente obsoleto.
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Vamos de Férias! (com estes livros na mala)


1 / 2 / 3

Meus caros! O último post já foi há uns tempos, mas tem sido complicado organizar-me por estes lados - o Verão tem destas coisas. Assim, estou a tirar o dia de hoje para vos informar que... vou de férias! Não vou estar fora muito tempo, mas decidi alongar a pausa, e usar o resto do mês de Agosto para me organizar.

Em primeiro lugar, preparem-se para algumas mudanças aqui pelo blog - o formato das opiniões e o tipo de posts que por aqui vêem vai mudar ligeiramente. Parece-me importante, agora mais do que nunca, opinar menos sobre bestsellers, e mais sobre as obras, por vezes semi-obscuras, de autores que estão a dar os primeiros passos. Os grandes já são grandes que chegue sem mim, mas os "pequenos" - não em tamanho ou talento, para que conste, mas em visibilidade - podem bem beneficiar desta minha mania de ser uma pessoa com opiniões.

Por outro lado, também quero aproveitar esta pausa para organizar a minha presença online enquanto autora. Mas o que é que esta escreve além de opiniões mal encaradas e comentários feministas nos grupos do Facebook?, perguntam-se vocês num coro horrorizado. Bem, escrevo ficção, e o final deste ano será muito importante para mim em termos de publicações no estrangeiro. Não vou revelar demasiado, que não acredito em deitar foguetes antes da festa, mas... aguardem novidades num futuro próximo.

Finalmente, vamos então falar de livros! Estou muito atrasada no meu desafio de leitura anual, por isso vou tentar compensar nestes dias. As primeiras leituras de férias serão um trio acabadinho de chegar do NetGalley, cujas capas e links podem ver acima desta wall o'text. Depois, seguirei para um trio de livros emprestados por dois dos meus camaradas de serviço, Cláudia Silva aka Lady Entropy, e Rui Leite.


4 / 5 / 6

A primeira coisa a dizer sobre estes três livros é que pouco tenho a dizer sobre o primeiro, porque nunca na vida lhe teria pegado por iniciativa própria, e estou imensamente curiosa. A segunda coisa a dizer sobre os dois livros que restam é que estou absolutamente aterrorizada por voltar a pegar na série Johannes Cabal. Devorei o primeiro livro, dei-lhe cinco estrelas, e sei que vou sofrer por comparação ao ler estes dois. Mas pronto, noblesse oblige, e se quero ser uma mulher séria e ler o quarto livro da série (sai a 30 de Setembro!) com olhos de ler, é conveniente ler estes primeiro.

A mini-maratona de leitura continuará com Hemlock Grove, pois comecei a ver a série mas o pacing da coisa irritou-me o suficiente para me fazer virar costas ao rosto marmóreo (oh, Meyer, às vezes tenho saudades tuas) de Bill Skarsgård. Depois disso, é provável que respire fundo e ataque The Book Of The Beast, o segundo volume de uma série fantástica que se desenrola numa versão alternativa (e absurdamente decadente) da cidade de Paris. A série foi escrita pela inigualável Tanith Lee, claro, daí a necessidade de respirar fundo antes de iniciar a leitura. Finalmente, e para terminar em beleza, tenciono ler Mutants, um livro de não-ficção que comprei por impulso com o meu último haul literário. É sobre variações genéticas, portanto é provável que me agrade.


7 / 8 / 9

Posto tudo isto, despeço-me então por duas semanitas. Vemo-nos em Setembro!
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Autores vs Os Seus Livros: Uma Reflexão Sobre Marion Zimmer Bradley


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Estive horas à volta da melhor maneira de começar este post, e acabei por decidir ir directa ao assunto - Marion Zimmer Bradley foi recentemente acusada de abuso sexual de menores, pela filha, Moira Greyland. Num email, partilhado com permissão no blog de Deirdre Saoirse Moen, Greyland afirmou que a mãe a abusou até aos doze anos, e que não foi a única vítima. Acrescenta ainda informações relativamente ao pai, Walter H. Breen, acusado e condenado a dez anos de prisão por abuso sexual de menores em 1992.

O meu primeiro pensamento foi para Moira Greyland, e para a coragem que demonstrou ao fazer estas acusações - espero sinceramente que daqui não resulte ainda mais sofrimento. É fácil compreender, ao ler as palavras de Greyland, o porquê de apenas ter falado sobre isto agora, e é particularmente fácil compreender o seu receio face às reacções dos fãs da sua mãe.

Marion Zimmer Bradley é, efectivamente, um nome sonante no mundo da fantasia e ficção científica. Escreveu mais livros do que consigo contar, entre eles o hiper-popular The Mists Of Avalon, preocupou-se sempre em dar um cunho feminino (e acima de tudo, feminista) às suas obras, e para ajudar à festa, escrevia bem que se fartava. Aprendi muito com os seus livros, e sempre invejei a sua linguagem, elegante e equilibrada, nunca se sobrepondo às histórias que contava. Não me considero uma fã, não li o suficiente para o ser, mas considero-me... talvez uma admiradora casual, para quem esta notícia levantou uma importante questão.

Como é que me sinto relativamente a Marion Zimmer Bradley agora?

Não fui a única a questionar-me, claramente. A internet está cheia de posts inflamados de leitores outrora fiéis que se recusam a voltar a pegar nos livros desta autora, e de respostas ligeiramente menos emotivas de quem se recusa, isso sim, a confundir um autor com a sua obra. É uma boa pergunta. Onde é que começa a escrita, e acaba o escritor? Será justo julgar a primeira à luz de uma opinião pessoal sobre o segundo?

Pessoalmente, não me vejo a pegar em qualquer livro de Marion Zimmer Bradley num futuro próximo. Em primeiro lugar, porque ainda estou a lidar com a desilusão de descobrir esta faceta de uma autora que sempre admirei; em segundo lugar, porque tenho quase a certeza que ler qualquer episódio sexual num livro de Marion Zimmer Bradley me dará flashbacks imediatos para o depoimento de Moira Greyland, e não quero ter de me sujeitar a isso.

Se a autora ainda estivesse viva, tudo isto seria de fácil solução - não voltaria a comprar livros dela, dado não ter qualquer interesse em apoiar quem comete aquele que, para mim, é bem capaz de ser o pior crime à face da terra. Não preciso de investir o meu dinheiro na carreira de pessoas que, pelo menos em parte, me repulsam. Cada vez mais, enquanto leitora e escritora, vejo os meus investimentos como uma espécie de mecenato em pequena escala. Não sou milionária, nem famosa, mas não quero investir o meu dinheiro, nem o meu tempo, nem a pouca exposição que posso proporcionar a um autor, em pessoas que não aprovo a nível pessoal. Mas Rafaela, isso quer dizer que preferes promover uma obra má de uma boa pessoa a uma obra boa de uma má pessoa? Não exactamente, caro leitor - apenas quer dizer que estou automaticamente mais inclinada a investir em alguém que admiro a nível pessoal. Posso não o fazer, pela razão já mencionada de considerar a sua obra um notável desastre, por exemplo, mas a propensão vai continuar lá, de uma maneira ou de outra.

De qualquer forma, a verdade é que Marion Zimmer Bradley faleceu em 1999, e duvido que alguém receba royalties no Além, pelo que a questão do investimento deixa de se colocar. Ou não. Jani Lee Simner, uma autora entre vários que participaram nas antologias Darkover de Marion Zimmer Bradley, já afirmou que doará a sua fatia dos lucros a uma instituição de solidariedade; numa linha similar, Victor Gollancz Ltd, editores de vários ebooks de Bradley, afirmaram igualmente que doarão os lucros das vendas dos mesmos à instituição Save The Children. Nada do que aconteceu é culpa destes indivíduos, mas fico feliz por ver que, de todo um leque de opções possíveis, incluindo a sempre confortável opção de ficar calado e não fazer nada, optaram por ser nobres.

Marion Zimmer Bradley pode estar morta, mas as suas vítimas vivem, e se há algo que me parece crucial fazer neste momento, mais do que decidir o que fazer quanto aos livros desta escritora, é utilizar esta situação como uma oportunidade para quebrar o silêncio e ter uma conversa sincera sobre o tabu que ainda é, para muitos, a violência sexual. A comunidade literária está a desempenhar o seu papel admiravelmente, se querem a minha opinião. Todo este assunto poderia ter sido abafado, enterrado bem fundo numa qualquer acção de relações públicas motivada pela preservação da memória da falecida autora, mas tal não aconteceu. As pessoas estão a falar, e estão a falar alto. Passaram-se mais de quinze anos, mas o mundo não mudou tanto que pessoas como Marion Zimmer Bradley já não existam - elas continuam aqui, por vezes nas ruas que frequentamos todos os dias, por vezes em posições de poder e prestígio, por vezes por detrás de obras de ficção que nos inspiram e motivam. Não me compete a mim dizer a alguém o que fazer relativamente às obras desta escritora, mas compete-me, enquanto leitora, admiradora, blogger, feminista, e talvez até ser humano, falar sobre isto. Compete-me denunciar a violência sexual pelo que é, independentemente de quem a perpetra, e compete-me agir em conformidade com tudo o que tenho dito e escrito neste blog sobre violência sexual.

A violência sexual não tem lugar no mundo em que quero viver - nem na ficção, nem na realidade.

E, por associação, esta velha admiração por Marion Zimmer Bradley não tem lugar no mundo em que quero viver. Já eliminei pessoas dos meus panteões pessoais por menos. Será que ainda posso admirar a sua escrita, num vácuo? Não, nem pensar, porque não acredito em vácuos ideológicos - mas vamos fingir, por um momento, que sim. Aí a resposta passa a talvez. Talvez seja possível admirar e apreciar a escrita de Marion Zimmer Bradley sem atentar aos seus crimes, mas isso leva-nos novamente à questão inicial, e à minha resposta final - não sei onde começa a escrita e acaba a escritora. Talvez a escritora não acabe, sequer. O nome dela continua na capa*, e já dizia Federico Fellini que toda a arte é autobiografia. Se tal for verdade... em que é que ficamos?

Bem, eu fico num estado de insegurança constante. Fico com medo de pegar num livro e pegar também, acidentalmente, num portal para uma mente que já não quero visitar. Não consigo ser mais sincera do que isto, caros leitores. Não me vejo a pegar em qualquer livro de Marion Zimmer Bradley num futuro próximo. Talvez nem num futuro longínquo, pois a poeira tende sempre a assentar sobre uma versão de mim ligeiramente mais implacável do que a anterior.

Talvez esta relação tenha verdadeiramente chegado ao fim - e curiosamente, isso nem me incomoda tanto quanto pensei. O que dizem vocês?

* Deixemos a polémica dos ghost writers para outro dia, ok?
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Sobre Snobismos, Livros A Sério, "Literatura", & Tolkien (sempre Tolkien)


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Aí há uns anos, cometi o erro de dizer que não gosto de Tolkien. Não me refiro com isto ao senhor, claro, que descanse em paz, mas aos três livros que li dele. Já passou muito tempo, e não me lembro exactamente do meu argumento, mas deve ter sido algo do género ele demora duzentas páginas a levar o pessoal do ponto A ao ponto B. O meu interlocutor não gostou da minha opinião, e tentou mostrar-me o meu erro, afirmando que "um escritor a sério" deve ser capaz de pintar uma cena com palavras, e é exactamente isso que Tolkien faz. Segundo ele, quanto mais complexo melhor.

Uns anos depois, escrevi uma opinião no Goodreads sobre um livro que não será nomeado, onde me queixava de um final mal engendrado, de um clímax resolvido por uma arma que, até aí, nunca fora mencionada. Conhecem a expressão Chekhov's Gun? Se a história me mostra uma arma, é bom que seja para a disparar? O reverso, para mim, é quase mais importante - se a história dispara uma arma, é bom que ma tenha mostrado antes.

A minha crítica referia-se exactamente ao este facto - um estranho na internet não gostou, e respondeu, curiosamente, de uma forma que também comparava livros a pinturas. Segundo este comentador, um livro é como um daqueles cadernos para colorir, e embora o leitor deva seguir as indicações gerais do autor, o resultado final está mais dependente da nossa imaginação do que das palavras que nos são dadas. Ou seja, o autor não precisa de mencionar a arma para a disparar - cabe-me a mim, quando ela surge, imaginar que ela sempre lá esteve, no bolso do protagonista, à espera de salvar o dia.

Esta duas pessoas têm, como podemos ver, ideias muito claras sobre aquilo que constitui literatura a sério. Falam-me de formas correctas de escrever e formas correctas de ler, e eu continuo aqui, a pestanejar inocentemente e a questionar-me sobre as razões que levam alguém a convencer-se de que a sua opinião é, na verdade, um facto incontornável.

Aqui entre nós, costumo atribuir a este pessoal a alcunha colectiva (e carinhosa, sempre carinhosa) de O Snob. Existem várias espécies de O Snob, claro. "A J.K. Rowling escreveu o Harry Potter, que eu adoro, e eu adoro-a, logo é a melhor escritora do mundo." "Só gosto de ficção científica, é um género superior que obriga as pessoas a pensar." "A fantasia não tem qualquer valor literário porque os elfos não existem." "YA é só para quem não tem capacidade para ler livros mais avançados." "Só lê esses livros com homens em tronco nu na capa quem precisa de apimentar a sua vida sexual." E por aí fora.

Ter preferências não é, note-se, automaticamente um sintoma de que nos estamos a tornar O Snob. Deixem-me falar-vos sobre mim. Eu não leio romance. Abro raras excepções para romance queer, mas é basicamente isso. Não leio erotica, nas mesmas condições. Leio YA quando os resumos prometem mais do que, vocês adivinharam, romance. Não leio fantasia medieval, porque a minha tolerância para reis e cavalos e cruzadas e casamentos políticos e possivelmente dragões e misoginia disfarçada com um manto de "correcção histórica" é tão reduzida que só pode ser correctamente representada como ZERO.

Estes são os meus gostos pessoais. Definem um campo claro em que me sinto confortável, e ajudam-me a filtrar os milhares de livros a que sou exposta todos os anos. A questão aqui é que um The Secret History ou um The Melancholy Of Anatomy, dois dos melhores livros que li este ano, não são em nada superiores a um The Fault In Our Stars ou a um 50 Shades Of Grey, objectivamente falando. É verdade que estes dois últimos são livros que nunca escolheria para a minha própria estante, por não se enquadrarem nos "filtros" que já mencionei. Também é verdade que, a lê-los, provavelmente iria bater com a cabeça nas paredes e dar-lhes um rating de duas estrelinhas a cada um.

Mas também é verdade que essas duas estrelas vos iriam dizer pouco sobre o livro, e muito sobre mim.

Não acredito em bons livros e maus livros. Acredito em livros, leitores, e magia negra quando se encontram. Muitas vezes, apercebo-me que as minhas ratings negativas estão directamente relacionadas com a minha posição relativamente ao público-alvo do livro. Eu não sou o público-alvo de Twilight, por exemplo. Posso lê-lo na mesma, e opinar na mesma, e dar estrelas na mesma (estrelas negativas, mas hey, azar, são as que correspondem à minha opinião), mas não posso esperar encontrar a perfeição num livro que não me é destinado.

Independentemente disso, a verdade é que milhares de pessoas encontraram a perfeição na série Twilight. Tal como milhares de pessoas encontraram a perfeição na série 50 Shades Of Grey. Porquê? Bem, porque o público-alvo tende a gostar dos livros que lhe são dirigidos, e estes livros têm públicos-alvo bastante vastos.

E é aqui que O Snob, que gosta de apontar para os números e afirmar a qualidade como uma coisa que apenas o seu restrito círculo social compreende, pode entrar e concordar "ah pois, porque o público-alvo são as massas incultas que lêem um livro por ano, só quando vão à praia". Tudo bem, mas se é essa a interpretação dada aos 100 milhões de cópias vendidas de 50 Shades Of Grey... pergunto-me se se mantém para os 150 milhões de The Lord Of The Rings.

Há uma citação de Murakami que ilustra perfeitamente a mentalidade que, me parece, está subjacente às acções d'O Snob: if you only read the books that everyone else is reading, you can only think what everyone else is thinking. Talvez seja uma pretensão de exclusividade que leva O Snob a virar costas àquilo que é popularizado pela sociedade em que se encontra. Talvez seja uma necessidade exacerbada de se mostrar original e misterioso - o quê, estás a ler isso? Por favor, deixa-me recomendar-te este livro muito melhor de que nunca ninguém ouviu falar. Só tem uma review no Goodreads porque ninguém é esperto o suficiente para o compreender. Ah, e sim, fui eu que escrevi.

Não compreendo, nem nunca compreendi, esta necessidade de valorar e policiar o acto de ler - porque aparentemente, ler todos lemos, mas uns Lêem melhor do que outros. Uns Lêem para alargar os seus horizontes ou polir o seu ego com as palavras de escritores mortos que pouco nos vale criticar, enquanto outros lêem para passar o tempo, ou para se apaixonar por pessoas que não existem e obter aí o que lhes falta na vida real. O primeiro leitor não é necessariamente melhor do que o segundo, mas ainda assim persiste a ideia de que faço melhor uso do meu tempo a ler clássicos do que romances Harlequin - pois O Snob parece ter dificuldade em compreender que o meu tempo livre me pertence, e que tenho capacidade plena para decidir o que fazer com ele.

Agradeço as recomendações para Ler Livros de Literatura, a sério, é uma honra, mas para ser sincera... prefiro ler só livros.
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