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Review: 'The Undertaker's Daughter', Kate Mayfield



★ ★ ★ ★ ☆

The Undertaker's Daughter // Kate Mayfield
• Published January 13th 2015 by Gallery Books

What if the place you called home happened to be a funeral home? Kate Mayfield explores what it meant to be the daughter of a small-town undertaker in this fascinating memoir evocative of Six Feet Under and The Help, with a hint of Mary Roach's Stiff.

After Kate Mayfield was born, she was taken directly to a funeral home. Her father was an undertaker, and for thirteen years the family resided in a place nearly synonymous with death. A place where the living and the dead entered their house like a vapor. The place where Kate would spend the entirety of her childhood. In a memoir that reads like a Harper Lee novel, Mayfield draws the reader into a world of Southern mystique and ghosts.

Why did I read this book? It's about a girl who lives in a funeral home, it couldn't possibly be more up my alley.

Kate Mayfield's memoir, The Undertaker's Daughter, is real-life Southern Gothic. It tells the story of... you guessed it, Kate, as she spends her childhood among caskets and embalming fluid. Outside, the Civil Rights Movement pushes against the old ways of her very small, very segregated Kentucky hometown. Everybody's got secrets, but they're not often mentioned - and it's often down to the undertaker to bury them as discreetly as possible.

In telling her story, Kate Mayfield ended up telling the story of an entire cast of remarkable characters, from the ladies who gathered around her mother's table to play bridge, to the old rich woman who only ever wore red - her town's very own Miss Havisham. There was room to take this subject matter (small town funerals!) and build something sordid out of it, but this book seems to have come out into the world with nothing but respect. Perhaps even grace.

The author's voice toes the line between creepy and cute, and I felt a lot closer to her than I'd originally thought I would. I'm only a reader. I cannot tell you whether this book is honest, but I can tell you it feels honest. It also hit me quite close to home - that constant struggle between sticking to one's small town roots or spreading one's wings into the unknown is a very real, very authentic one. I connected with Kate's ideals. I was somewhat inspired by her take on life.

So let's just say it once and for all, I loved this book, and I'm going to order it as soon as I post this review. (it's going to look great on my shelf, right next to The American Way Of Death, where it belongs)


NOTE: This book was provided by the publisher, through NetGalley, in exchange for an honest review.
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Opinião: 'Mutants', Armand Marie Leroi



★ ★ ★ ★ ☆

Mutants: On the Form, Varieties and Errors of the Human Body // Armand Marie Leroi
• Publicado a 1 de Abril de 2010, pela Harper Perennial

Full of fascinating and bizarre cases of genetic mutation and irregularity, Mutants is an amazing exploration of the human form in all its beautiful and unique guises. Why are most of us born with one nose, two legs, ten fingers and twenty-four ribs – and some of us not? Why do most of us stop growing in our teens – while others just keep going? Why do some us have heads of red hair – and others no hair at all? The human genome, we are told, makes us what we are. But how? Armand Marie Leroi takes us to the extremes of human mutation -- from the grotesque to the beautiful, and often both at the same time -- to explain how we become what we are. Through the tales of long-lived Croatian dwarves, ostrich-footed Wadoma tribesmen, sex-changing French convent girls, and many more wonders of human development, Leroi has written a brilliant narrative account of our genetic grammar and people whose bodies have revealed it.

Por que é que li este livro? Boa pergunta. Provavelmente porque tenho tendência a adicionar livros à minha lista de futuras leituras no Goodreads só porque as capas me intrigam? Talvez por gostar de ignorar a minha total falta de bases (haha, bases) no que toca a genética e ler coisas ligeiramente acima do meu nível de compreensão? Yup, são essas as minhas explicações oficiais.

Mas deixem-me apresentar-vos esta besta. Leroi é professor de biologia evolutiva do desenvolvimento, e este seu livro aborda, permitam-me dizê-lo desta forma, o quão difícil é seguir o plano para o humano "perfeito".

Cada capítulo é iniciado com um caso real, e avança depois para a ciência por detrás da mutação em questão. O texto é acompanhada por fotografias e gravuras, e por momentos temi que o livro pudesse adoptar um tom desrespeitoso, ou até jocoso, face às pessoas cujas histórias de vida utiliza para ilustrar o seu palavreado genético... mas tal não aconteceu. Mutants consegue impedir-se de sujeitar o seu "elenco" ao ambiente de freakshow que os rodeou na vida real, o que me deixa particularmente satisfeita (e desiludiu outros tantos leitores por essa internet fora, mas é a vida).

Os capítulos, dez no total, abordam temas que vão desde o número de braços e pernas de cada ser humano até seu tom de pele, passando pelo tumor na hipófise que deu a Charles Byrne, o Gigante Irlandês, os seus famosos 2 metros e 30 de altura.


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A história de Charles Byrne foi, aliás, uma das que mais me marcou em todo o livro - pela forma como o seu corpo foi tratado após a sua morte. Byrne morreu aos 22 anos, depois de ter implorado que o seu corpo fosse atirado ao mar num caixão selado, para assim escapar aos anatomistas que o queriam dissecar. John Hunter, famoso pelas suas colecções de espécimes anatómicos e pela sua total falta de escrúpulos, subornou um amigo de Byrne e comprou-lhe o corpo por uma pequena fortuna. O corpo de Byrne foi assim dissecado, e o seu esqueleto fervido e colocado em exposição no Hunterian Museum em finais do século XVIII, onde se mantém até hoje. Em 2011, a opinião pública insurgiu-se contra o Museu, exigindo que Byrne fosse retirado de exposição, mas a questão ética acabou por ser, tal como em 1783, abafada pelo valor científico do esqueleto.

Byrne pôde ser visitado, durante anos, na companhia de Caroline Crachami, uma menina de 9 anos muitas vezes considerada a pessoa mais baixa alguma vez medida; actualmente, Byrne partilha o seu espaço com Mr. Jeffs, um senhor inadequadamente identificado que viveu algures no séc. XVIII com aquilo que hoje se sabe ser fibrodisplasia ossificante progressiva - uma patologia hereditária que se caracteriza por uma ossificação gradual do corpo. Trocando isto por miúdos, o corpo da pessoa afectada acaba por "solidificar", o que culmina normalmente em insuficiência respiratória (uma vez que os pulmões são incapazes de se expandir).

Podia ficar aqui o dia todo a citar passagens do livro e a mencionar todas os casos reais mencionadas, mas vou parar por aqui, e deixar apenas duas críticas. A principal reserva que tenho em relação ao livro é, como seria de esperar, o capítulo sobre género. Leroi faz uma confusão descomunal entre órgãos genitais, género, e atracção sexual, resultando num capítulo absurdamente simplista, já para não dizer ofensivo e heteronormativo. Numa linha semelhante, achei que Leroi se refugiou um pouco na sua bolha científica ao escrever o livro, desperdiçando com isso várias oportunidades de fazer uma análise mais social das situações que descreve (as experiências de Josef Mengele em Auschwitz, por exemplo).

Gostei bastante do livro, e vou sem dúvida relê-lo no futuro - merece, mesmo com as falhas mencionadas, umas sólidas quatro estrelas.
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Opinião: 'The American Way Of Death Revisited', Jessica Mitford



★ ★ ★ ★ ★

'The American Way Of Death Revisited'
Jessica Mitford

Only the scathing wit and searching intelligence of Jessica Mitford could turn an exposé of the American funeral industry into a book that is at once deadly serious and side-splittingly funny. When first published in 1963 this landmark of investigative journalism became a runaway bestseller and resulted in legislation to protect grieving families from the unscrupulous sales practices of those in "the dismal trade".

Aqui vai um segredo: quando o mundo da ficção me falha, leio não-ficção. A vida real pode ser, afinal, muito mais interessante do que a imaginação, com a vantagem de não me obrigar a questionar o quão plausível é - se aconteceu, aconteceu, e de nada me vale questionar.

Vamos falar deste livro, então. Este livro chama-se The American Way Of Death Revisited, e foi publicado em 1999, uma versão revista de The American Way Of Death, publicado originalmente em 1963.

Neste volume, Jessica Mitford apresenta um exposé DESCOMUNAL da indústria funerária dos EUA, que, na sua opinião, se aproveita do luto dos sobreviventes para impingir bens e serviços caríssimos, e em grande parte inúteis. Fiquei chocada, para vos ser sincera. Margens de lucro de 900% na venda de caixões? Módulos pré-fabricados de betão armado, enterrados com os caixões para os “proteger”? Caixões de aço e bronze? Tanatopraxia* para manter os cadáveres bonitinhos durante dias, para as pessoas poderem ir até à capela em procissão para os ver “como eram em vida”?

* Isto é aquilo que os não-iniciados poderão conhecer como “embalsamamento”. Vocês sabem, a substituição do sangue por fluidos preservantes e afins?


Leio muitos livros estranhos, para que conste. Só este ano, já li sobre fetos flutuantes, hipsters assassinos, e mártires que deixariam qualquer swagger contemporâneo de boa aberta. Mesmo assim, este foi o livro mais surreal de todos.

Quem me conhece sabe que sou totalmente fatalista. Vamos todos morrer, filhos, e não há razão nenhuma para esse facto ter de constituir a terceira maior despesa das nossas vidas (logo a seguir à casa e ao carro, garante Mitford). Acho o culto da morte hipócrita. Acho trágico que o mundo tenha chegado a um ponto em que os cuidados básicos de um ente querido falecido têm de ser pagos a um pseudo-profissional - como se os mortos fossem de alta manutenção, ou assim. Acho lamentável que se tenha de pagar para enterrar um ser humano. Gosto de cemitérios enquanto monumentos, feliz ou infelizmente, mas não os acho sustentáveis, ou sequer de bom gosto. Desde que sei o que é a cremação que a quero para mim mesma, e só não vou para a resomação (também conhecida como cremação líquida ou biocremação, em vocabulário mais ou menos comum; ou hidrólise alcalina, em sciencespeak), porque não me parece provável que venha a aparecer em Portugal num futuro próximo.

Mas entre ser queimada ou dissolvida, sei o que prefiro. Sempre fui pessoa de água, sabem.

A verdade é que este livro me chocou completamente, não pelo seu tema (acham mesmo?), mas pelas coisas que descreve. Já sabia que havia falta de ética na indústria funerária, mas isto é um nível tão incrível que tenho dificuldades em digerir a informação. Por outro lado, este livro foi escrito há 15 anos, e muito já mudou entretanto no panorama funerário Americano. Projectos como Undertaking L.A. estão a trabalhar numa espécie de regresso às origens, em que os sobreviventes se responsabilizam pelo serviço funerário sem terem de se expor a toda uma rede de profissionais que pouco mais querem do que usar o seu luto como trampolim para

Por outro lado, este livro fez-me pensar na realidade portuguesa. Se à primeira vista me pareceu que estamos mais ou menos safos destes abusos, uma pequena pesquisa bastou para me mostrar que as multinacionais já chegaram (alguém se lembra da polémica do Morteshopping, em 2004?), que os funerais planeados (e pagos) em vida são uma realidade cada vez mais comum, e que a tanatopraxia está a ganhar terreno “por razões de saúde e higiene”. Poupem-me.

Acreditem em mim, pessoal, já estive em duas salas de autópsia, e das duas vezes me foi garantido que, ali dentro, o único risco a que estava exposta era mesmo o de poder vir a perder o meu pequeno-almoço. Existem excepções, claro, como corpos em avançado estado de decomposição, mas se vamos ser sinceros, a esses não há tanatopraxia que os valha - só mesmo um caixão fechado.

A minha conclusão, meus caros, é que temos aqui um livrinho perfeito. Arrisco-me a dizer que devia ser leitura obrigatória para todos os que vêem alguma possibilidade de vir a morrer no futuro (não necessariamente no futuro próximo, claro, nada de pressas). O meu exemplar custou 3€ em segunda mão, mas pelo que me ensinou, vale dez vezes isso. Comprem, pessoal. Recomendo.

PS - Fui recolhendo referências que me pareceram interessantes ao longo do livro, por isso aqui fica, para mim mesma e para outros que tenham algum interesse no assunto, uma lista de leituras mencionadas por Jessica Mitford:

The High Cost Of Dying, Bill Davidson (1951, in Collier's Weekly)
Can You Afford To Die, Roul Tunley (1961, in Saturday Evening Post)
What Happens To Dead Bodies, Kenneth V. Iserson (1974)
Caring For Your Own Dead, Lisa Carlson (1987)
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Opinião: 'Clean: An Unsanitised History Of Washing', Katherine Ashenburg



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'Clean: An Unsanitised History Of Washing
Katherine Ashenburg

For the first-century Roman, being clean meant a public two-hour soak in baths of various temperatures, a scraping of the body with a miniature rake, and a final application of oil. For the seventeenth-century aristocratic Frenchman, it meant changing his shirt once a day, using perfume to obliterate both his own aroma and everyone else’s, but never immersing himself in – horrors! – water. By the early 1900s, an extraordinary idea took hold in North America – that frequent bathing, perhaps even a daily bath, was advisable. Not since the Roman Empire had people been so clean, and standards became even more extreme as the millennium approached. Now we live in a deodorized world where germophobes shake hands with their elbows and where sales of hand sanitizers, wipes and sprays are skyrocketing.

Juro que não hei-de morrer sem dedicar um ano inteiro da minha vida a ler não-ficção. Não há nada melhor do que mergulhar num tema novo e emergir, duas horas depois, com todo um catálogo de factos interessantes para partilhar com estranhos nas festas mais aborrecidas. Não que eu vá a festas, mas o sentimento mantém-se.

Clean é, tal como o nome indica, um livro sobre higiene - a história da mesma, para ser mais específica. Katherine Ashenburg divide o tema em nove capítulos, da Antiguidade Clássica aos dias de hoje, passando pelas frequentes mudas de camisa dos séculos XVI a XVIII e a obsessão com sabonete da primeira metade do século XX. É um livro divertido, embora não o deva totalmente ao estilo, pois o tema empresta-se bem a uma certa dose de sentido de humor.

Adorei a análise que a autora faz do tema, e a forma como consegue interligar o ideal higiénico de uma sociedade com as suas aspirações e valores morais. Quem pensaria que os mártires Cristãos não tomavam banho por considerar o acto hedonista? (bem, eu pensaria, seria de esperar de pessoal que se alimenta de vinagre e crostas... mas continua a ser um dado interessante)

A única falha que posso apontar ao livro é o facto de me parecer uma análise superficial - não sou nenhuma expert no tema, mas tenho a sensação de que este volume funciona melhor como uma introdução do que propriamente uma "bíblia". Por outro lado, tal acaba por ser uma vantagem para leitores casuais. Não é preciso qualquer conhecimento prévio sobre o assunto para poder apreciar esta viagem pelo mundo da limpeza - e da sujidade. Quatro estrelas, recomendado!
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Opinião: 'The Corset: A Cultural History', Valerie Steele



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The Corset: A Cultural History
Valerie Steele

An essential element of fashionable dress from the Renaissance into the 20th century, the corset has been viewed not only as an object of eroticism but also as an instrument of torture and subjugation. This is an exploration of the cultural history of the corset.

Continuando na minha vaga de leituras de não-ficção, motivada em grande parte pela experiência marcante (no melhor dos sentidos, acreditem) que foi ler The Secret History em dois ou três dias, o livro que hoje vos trago foca-se naquela que é, para muitos, a peça mais de roupa mais polémica da história da humanidade. Yup, é um livro sobre corpetes - ou espartilhos, se preferirem a palavra que soa mais dolorosa.

Valerie Steele é uma autora especializada em história da moda, e neste livro, dedica-se a uma análise contextualizada da história do corpete, desde as suas origens até aos nossos dias, passando pelo seu auge na época Vitoriana. Em seis capítulos, a autora explora a função original do corpete, visto como um instrumento auxiliar na construção do corpo aristocrático ideal; os movimentos sociais anti-corpete do século XIX, liderados tanto por grupos feministas como por médicos e "homens de ciência"; a forma como o corpete já era, nesta época, sexualizado e visto como um objecto de grande valor erótico; e finalmente, a utilização do corpete nos dias de hoje, associado a novos ideiais de beleza que pouco têm a ver com a aristocracia ideal descrita no início do livro.

É um livro ilustrado com fotografias e gravuras das várias épocas retratadas, o que acaba por compensar o seu tom aborrecido - é um pouco como ler um livro escolar, para ser sincera. Aprendi um par de coisas novas, mas no geral, achei o livro pouco interessante para alguém que já tenha algum conhecimento sobre o assunto. As suas 176 páginas poderiam ter sido melhor aproveitadas com outro tipo de informação.

Três estrelas, e assim continua a busca por um livro que me diga tudo o que preciso de saber sobre corpetes. Não é este. Nope.
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Opinião: 'The Empire Of Death' e 'Heavenly Bodies', Paul Koudounaris



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The Empire Of Death
Paul Koudounaris

In this tour de force of original cultural history, Paul Koudounaris takes the reader on an unprecedented international tour of macabre and devotional architectural masterpieces in nearly 20 countries. This is the first book to bring together the world's most important charnel sites, ranging from the crypts of the Capuchin monasteries in Italy and the skull-encrusted columns of the ossuary in Évora in Portugal, to the strange tomb of a 1960s wealthy Peruvian nobleman decorated with the exhumed skeletons of his Spanish ancestors. Illustrated with specially taken photographs of sites rarely open to the public and forgotten archive images of others long destroyed, this mesmerising, shocking and deeply moving book is an essential memento mori for our modern age.

Perturba-me muito, não saber se a palavra "tafofilia" existe em bom português. O blog Mort Safe diz que sim, e define a palavra como "a atracção (mórbida ou não, de acordo com o ponto de vista de cada um) por túmulos e cemitérios". Se é possível sofrer de tal coisa, eu sofro, e se é possível ter toda uma carreira tafófila... este senhor tem.

Paul Koudounaris é um autor e fotógrafo de Los Angeles, doutorado em História da Arte, que decidiu dedicar a sua vida literária ao campo dos ossuários e capelas dos ossos. Há quem o considere uma celebridade no campo da arte "macabra", e eu sinto-me inclinada a concordar. Hoje, vou rever os seus dois livros já publicados - juntos não só devido à temática, mas também por me parecer que são melhor apreciados quando lidos em conjunto.

O primeiro dos dois, The Empire Of Death, foi publicado em 2011, e inclui dezenas de fotografias, algumas delas inéditas, de ossuários localizados maioritariamente na Europa. Desde as Catacumbas de Paris ao famoso ossuário de Sedlec, os monumentos mais reconhecíveis estão todos incluídos, acompanhados por exemplos mais humildes como a nossa pequena capela de Campo Maior. Sabiam que, de acordo com Koudounaris, Portugal é o país da Europa com mais estruturas decoradas com ossos humanos? Da próxima vez que vos disserem que não valemos para nada, lembrem-se disso (sempre funciona como ameaça).

As fotografias de Koudounaris são acompanhadas por textos minuciosamente detalhados, que misturam factos históricos e relatos anedóticos do próprio autor. O texto acompanha as diversas fases artísticas da construção destes monumentos, começando pela Contra-Reforma do séc. XVI, e oferece contexto a praticamente todos os monumentos fotografados. Desde criptas onde era comum senhoras "adoptarem" um crânio, a um candelabro feito com pelo menos um exemplar de cada osso do corpo humano, há aqui mais do que informação para os tafófilos (palavra do dia!) interessados.

Relativamente à minha experiência com o livro, tenho de admitir que demorei... praticamente um ano a lê-lo. Em primeiro lugar, com imagens tão fabulosas, a tentação de ler apenas as legendas é muito grande; em segundo lugar, achei o texto talvez um tudo-nada demasiado académico. Ainda assim, este é um livro com pelo menos algumas pretensões académicas, pelo que não me parece justo acusá-lo de usar um tom errado. Simplesmente, não foi um que me desse vontade de "devorar" o livro. Mesmo assim, leva cinco estrelas, porque é o melhor livro que alguma vez li sobre o tema.

Vantagens de ser o único autor num dado campo de estudos, huh?



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Heavenly Bodies
Paul Koudounaris

Following on the success of his book The Empire of Death , which has attracted a global cult following, Paul Koudounaris brings the catacomb saints out of the darkness with this astonishing volume, which includes arresting images of more than seventy spectacular jeweled skeletons and the fascinating stories of dozens more, accompanied by rare archive material. This is the first time that some of these incredible relics both intriguing historical artifacts and masterpieces of artistic craftsmanship in their own right have appeared in a publication, with Koudounaris gaining unprecedented access to photograph in some of the most secretive religious establishments in Europe. This will be essential reading for goths, art historians and everyone in between.

Ora, a questão é que o problema do tom excessivamente académico é rectificado com o segundo livro do autor, Heavenly Bodies. Este é mais pequeno, mais prático de manusear, e pareceu-me, até mesmo pela encadernação (tem um dustjacket, coisa que ao primeiro falta), que foi publicado com a intenção de ser lido, ao invés do primeiro, que é um livro para ser "mostrado". Sabem aqueles livros da Taschen que toda a gente tem nas mesinhas de centro mas ninguém lê, efectivamente? Pois, refiro-me a isso.

Heavenly Bodies é, para mim, o melhor destes dois - e o seu tema empresta-se mais à comédia, diga-se de passagem. Este volume, publicado em 2013, conta a história praticamente esquecida de um grupo de esqueletos retirado das Catacumbas Romanas no século XVII, e posteriormente decorado lascivamente (se alguma vez houve contexto para esta palavra, é este) por equipas de freiras, com jóias e vestes do mais exuberante possível. Se isto soa a black comedy, esperem até vos ser dito que estes esqueletos, de origem humilde, foram erradamente identificados como mártires do início da Era Cristã, decorados como tal, e depois exportados para territórios de língua Alemã como uma estratégia de Contra-Reforma Cristã. A maioria foi destruída durante o Iluminismo, quando finalmente se ganhou consciência do ridículo de tal prática, mas Koudounaris conseguiu acesso aos exemplares sobreviventes (certo, sobreviventes...), e daí saiu este livro.

Aqui, o tom académico é colocado de lado para dar lugar a um tom mais informal, quase irónico em determinadas passagens. Dei por mim a rir à gargalhada várias vezes, com descrições do Papa a descer às Catacumbas e a apontar os esqueletos que, tinha ele a certeza, eram mártires, ou com a fase em que a criatividade para baptizar mártires começou a esgotar-se, dando azo a pérolas como Saint Anonymous, Saint Incognitus, and Saint Innominabilis.

Há algo, para mim, de muito trágico em toda esta história, mas também de... ingénuo. Adorei ler este livro, e merece cinco estrelas mais sólidas do que o primeiro. Quer dizer, quase chorei com a história de dois "santos" que foram retirados da sua igreja contra a vontade da população, e devolvidos 70 anos depois. Ha dias assim. A vida real consegue ser mais estranha do que a ficção.

Agora... tenho ouvido rumores de que Paul Koudounaris anda a investigar demónios sexuais e gatos possuídos por demónios. Para quando os livros?
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[ENG] "Witchcraft and Masculinities in Early Modern Europe" by Alison Rowlands



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Witchcraft and Masculinities in Early Modern Europe
Alison Rowlands (Editor)
Ebook, aprox. 270 pages

Men and masculinities are still inadequately incorporated into the historiography of early modern witch trials, despite the fact that 20-25% of all accused ‘witches’ were male. This book redresses this imbalance by making men the focus of the gender analysis and also covers the issue of regional variation in the gendering of witch persecution.

Some of you may have heard about that TV show, American Horror Story: Coven. You may have noticed the uprising of girls in their 20s who really identified with the show and its characters, and chose it as a good way to tell the world... you know what, when I was younger, I wanted to be a witch too.



Now, I am one of these girls. And Coven was particularly valuable to me, because it proved that witches are still very much relevant - when I was younger, I'd watch Bewitched on TV, religiously, every single night. I'd watch Sabrina The Teenage Witch. I'd watch Charmed too, but at the time I think it was a little too grown-up for me. There were lots of witches on TV (and movies!) in the 90s. Remember The Craft? Practical Magic? Willow, from Buffy The Vampire Slayer? I grew up with these girls, these women, these witches, but all of a sudden... they vanished. And then Coven brought them back.








My mind immediately jumped into writing mode. I wanted to write my own witch story, and I had very particular ideas about what I wanted it to be - namely, I wanted it to include boys, not as warlocks or wizards... but as witches. Witches mixing herbs in the kitchen, witches dancing naked in the moonlight, witches petting black cats while a storm roars outside. Because you see, when fictional men get magical powers, they don't do any of these things (think The Covenant), and I want them to. I want to invite them into these stories, and I want to see how they play by the rules already in place. Do they accept them? Do they fight them? Do they try to make these environments about them? What happens when you take the century-old archetype of the witch - a woman, usually ambitious, who doesn't fit in, a little asocial, perhaps even full on antisocial, - and get a man to play the role?



That was my question, and lo and behold, I discovered this book - actually a collection of academic articles -, the title of which seemed quite useful to help me answer it. The use of "witchcraft and masculinities" immediately made me think of a book that would take on, not only the sex of the people tried as witches, but their gender, and the social roles associated with that gender.

Right on the first few pages, though, I realised this book had a very clear agenda - present an alternative to the feminist perspective, which states witch hunts were, to put it simply, a misogynistic institution. I don't see a problem with this in theory, but in practise, what happened was I ended up subjecting myself to 270 pages of historians bending over backwards to come up with explanations based on, to point out the most egregious article of the bunch, one case of a tried man.

Some affirmations were so ridiculous that I had to take note. Here's my favorite:

Contrary to their alleged special hatred of women, however, the witch-finders were, as most men of their age, neither misogynists nor philogynists.

Well, clearly they weren't philogynists, but can you really say they weren't... misogynists? Because I can't even say that about 21st century men. In my eyes, there's no redemption for a book that tackles an issue as gendered as witchcraft, acknowledges that the great majority of the accused (and tried, and condemned) were women, without presenting a reasonable explanation as to why, and then states this sort of thing. I have actually summarized the book for all interested, here:

Listen we know this society was pretty sexist, and we know men made all the decisions, and we know women were more vulnerable to this kind of social persecution, and we know it was widely believed that women, being the weaker sex, would be the Devil's first choices when it came to corrupting innocent human souls, BUT THE FACT THAT WOMEN MADE UP THE MAJORITY OF THE ACCUSED HAS NOTHING TO DO WITH THIS.

Long story short, I was really disappointed with this volume. For once, it feels very scattered - the articles focus on different places and times, and there is no apparent connection between them (if we exclude "male witches" and "nope nope nope no feminism here"). The book keeps telling me that, in some parts of Europe, men made up the majority of the accused witches, but it didn't actually made me understand why - a major flaw, since this seems to be the book's main argument for the insufficiency of the feminist perspective. Last, but not least, I didn't like the tone of a few of the articles - calling a woman a "whore" in academic texts, really? How about "prostitute", or "sex worker"?

I still want to read a good, academic book about male witches. But I'd prefer one that doesn't disregard thousands of dead women across Europe to ask but what about the men. I'd prefer one that explores the cases of accused male witches inside the framework of feminist theory, instead of one that uses them as evidence that said theory is biased and insufficient. Surely, the world can do better than that.

This particularly snarky review has been brought to you by Pure Unadulterated Anger. You are welcome. Let's go rewatch Charmed.
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