Mostrar mensagens com a etiqueta [PT]. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta [PT]. Mostrar todas as mensagens

Opinião: 'Boneshaker', Cherie Priest



★ ★ ☆ ☆ ☆

Boneshaker // Cherie Priest
• Publicado a 29 de Setembro de 2009, pela Tor Books

In the early days of the Civil War, rumors of gold in the frozen Klondike brought hordes of newcomers to the Pacific Northwest. Anxious to compete, Russian prospectors commissioned inventor Leviticus Blue to create a great machine that could mine through Alaska’s ice. Thus was Dr. Blue’s Incredible Bone-Shaking Drill Engine born.

But on its first test run the Boneshaker went terribly awry, destroying several blocks of downtown Seattle and unearthing a subterranean vein of blight gas that turned anyone who breathed it into the living dead.

Now it is sixteen years later, and a wall has been built to enclose the devastated and toxic city. Just beyond it lives Blue’s widow, Briar Wilkes. Life is hard with a ruined reputation and a teenaged boy to support, but she and Ezekiel are managing. Until Ezekiel undertakes a secret crusade to rewrite history.

His quest will take him under the wall and into a city teeming with ravenous undead, air pirates, criminal overlords, and heavily armed refugees. And only Briar can bring him out alive.

Por que é que li este livro? O meu círculo social mandou-me. Isto prova, essencialmente, que não posso confiar neles para nada.


Não, pronto, estou a abusar. Mas é verdade que a) peguei neste livro depois de ter lido as opiniões brilhantes de muitos dos meus camaradas mais próximos, e b) como sempre, o meu coração hipster não conseguiu alinhar com eles.

Falemos, então. Boneshaker é o primeiro volume do magnum opus steampunk de Cherie Priest, e começa logo com um ponto a favor - não se passa numa Inglaterra Vitoriana alternativa. Nope, a autora leva-nos até à sua versão de Seattle, no rescaldo de um desastre muito pouco natural que obrigou a população a selar a cidade para se escapar ao gás tóxico que transforma as pessoas em zombies. O livro inclui todos os tropes que estamos habituados a encontrar em steampunk, desde airship pirates a engenhocas com nomes espampanantes como Dr. Minnericht's Doozy Dazer, e no geral, não posso negar que a autora tenha colocado todos os ingredientes certos na picadora.

O problema, do meu ponto de vista, foi mesmo o resto do processo. Não basta juntar farinha e ovos (e coisas afins) para fazer um bolo, tal como não basta juntar um worldbuilding francamente awesome e uma série de clichés do género para escrever um livro capaz de me arrebatar.

Senti que me desentendi com Boneshaker em dois pontos principais: caracterização e enredo. Descrevi o livro a uns amigos como "duas batatas a correrem por túneis", e embora esse não seja o resumo mais refinado, foi o que me serviu na altura. Este livro conta com dois protagonistas, Briar e o seu filho Zeke, que vivem nos arredores da cidade murada. Um belo dia, Zeke lembra-se que quer ir descobrir a verdade sobre o seu pai, o cientista maléfico que pode ou não ter destruído as fundações da cidade com a sua broca gigante (o titular Boneshaker), e entra por ali adentro por um túnel que passa por baixo das muralhas. Briar, sentindo-se muito culpada por nunca ter contado a verdade ao seu filho, tenta segui-lo, mas o túnel desaba devido a um conveniente terramoto - FEAR NOT THOUGH, pois a nossa heroína não desanima. Como qualquer pessoa que tenha lido/visto Attack On Titan sabe, a melhor maneira de invadir uma cidade murada é por cima, pelo que lá vai ela pedir ajuda a uns airship pirates. Poucas horas depois está dentro da cidade, e aí começa o enredo que me deixou de joelhos a rezar pelo fim. Zeke encontra pessoas que o guiam através de túneis. Quando está à superfície, foge de zombies. Briar faz o mesmo. Depois de 300 páginas de correria, encontram-se lá para o final do livro, derrotam o vilão que é basicamente uma versão barata do construtor do Boneshaker, e fazem as pazes. All is well, mas eu sinto que fiz mais character development sem sair do meu sofá do que este pessoal numa Seattle caótica, murada, zombificada, enevoada por gases tóxicos, e praticamente desabitada - se excluirmos a mão-cheia de pessoas que nunca chegaram a sair durante as evacuações.

Voltamos aos ingredientes, pessoal. Este livro tinha tudo para me entusiasmar - zombies! piratas! sociedades alternativas organizadas por sobreviventes em tempos de crise! máquinas destruidoras de cidades! -, mas o resultado final não me agradou. Leva duas estrelas porque ia levar três, mas eu prometi que tirava uma se o Boneshaker não aparecesse de forma relevante (e funcional) na história. Não apareceu. Fiquei destroçada.


Portanto... fiquem bem, leiam Boneshaker independemente da minha opinião (é estatisticamente provável que o apreciem mais do que eu), e na volta recomendem-me o melhor livro steampunk que alguma vez leram. A casa agradece!
Read more >

Opinião: 'Mutants', Armand Marie Leroi



★ ★ ★ ★ ☆

Mutants: On the Form, Varieties and Errors of the Human Body // Armand Marie Leroi
• Publicado a 1 de Abril de 2010, pela Harper Perennial

Full of fascinating and bizarre cases of genetic mutation and irregularity, Mutants is an amazing exploration of the human form in all its beautiful and unique guises. Why are most of us born with one nose, two legs, ten fingers and twenty-four ribs – and some of us not? Why do most of us stop growing in our teens – while others just keep going? Why do some us have heads of red hair – and others no hair at all? The human genome, we are told, makes us what we are. But how? Armand Marie Leroi takes us to the extremes of human mutation -- from the grotesque to the beautiful, and often both at the same time -- to explain how we become what we are. Through the tales of long-lived Croatian dwarves, ostrich-footed Wadoma tribesmen, sex-changing French convent girls, and many more wonders of human development, Leroi has written a brilliant narrative account of our genetic grammar and people whose bodies have revealed it.

Por que é que li este livro? Boa pergunta. Provavelmente porque tenho tendência a adicionar livros à minha lista de futuras leituras no Goodreads só porque as capas me intrigam? Talvez por gostar de ignorar a minha total falta de bases (haha, bases) no que toca a genética e ler coisas ligeiramente acima do meu nível de compreensão? Yup, são essas as minhas explicações oficiais.

Mas deixem-me apresentar-vos esta besta. Leroi é professor de biologia evolutiva do desenvolvimento, e este seu livro aborda, permitam-me dizê-lo desta forma, o quão difícil é seguir o plano para o humano "perfeito".

Cada capítulo é iniciado com um caso real, e avança depois para a ciência por detrás da mutação em questão. O texto é acompanhada por fotografias e gravuras, e por momentos temi que o livro pudesse adoptar um tom desrespeitoso, ou até jocoso, face às pessoas cujas histórias de vida utiliza para ilustrar o seu palavreado genético... mas tal não aconteceu. Mutants consegue impedir-se de sujeitar o seu "elenco" ao ambiente de freakshow que os rodeou na vida real, o que me deixa particularmente satisfeita (e desiludiu outros tantos leitores por essa internet fora, mas é a vida).

Os capítulos, dez no total, abordam temas que vão desde o número de braços e pernas de cada ser humano até seu tom de pele, passando pelo tumor na hipófise que deu a Charles Byrne, o Gigante Irlandês, os seus famosos 2 metros e 30 de altura.


1 / 2

A história de Charles Byrne foi, aliás, uma das que mais me marcou em todo o livro - pela forma como o seu corpo foi tratado após a sua morte. Byrne morreu aos 22 anos, depois de ter implorado que o seu corpo fosse atirado ao mar num caixão selado, para assim escapar aos anatomistas que o queriam dissecar. John Hunter, famoso pelas suas colecções de espécimes anatómicos e pela sua total falta de escrúpulos, subornou um amigo de Byrne e comprou-lhe o corpo por uma pequena fortuna. O corpo de Byrne foi assim dissecado, e o seu esqueleto fervido e colocado em exposição no Hunterian Museum em finais do século XVIII, onde se mantém até hoje. Em 2011, a opinião pública insurgiu-se contra o Museu, exigindo que Byrne fosse retirado de exposição, mas a questão ética acabou por ser, tal como em 1783, abafada pelo valor científico do esqueleto.

Byrne pôde ser visitado, durante anos, na companhia de Caroline Crachami, uma menina de 9 anos muitas vezes considerada a pessoa mais baixa alguma vez medida; actualmente, Byrne partilha o seu espaço com Mr. Jeffs, um senhor inadequadamente identificado que viveu algures no séc. XVIII com aquilo que hoje se sabe ser fibrodisplasia ossificante progressiva - uma patologia hereditária que se caracteriza por uma ossificação gradual do corpo. Trocando isto por miúdos, o corpo da pessoa afectada acaba por "solidificar", o que culmina normalmente em insuficiência respiratória (uma vez que os pulmões são incapazes de se expandir).

Podia ficar aqui o dia todo a citar passagens do livro e a mencionar todas os casos reais mencionadas, mas vou parar por aqui, e deixar apenas duas críticas. A principal reserva que tenho em relação ao livro é, como seria de esperar, o capítulo sobre género. Leroi faz uma confusão descomunal entre órgãos genitais, género, e atracção sexual, resultando num capítulo absurdamente simplista, já para não dizer ofensivo e heteronormativo. Numa linha semelhante, achei que Leroi se refugiou um pouco na sua bolha científica ao escrever o livro, desperdiçando com isso várias oportunidades de fazer uma análise mais social das situações que descreve (as experiências de Josef Mengele em Auschwitz, por exemplo).

Gostei bastante do livro, e vou sem dúvida relê-lo no futuro - merece, mesmo com as falhas mencionadas, umas sólidas quatro estrelas.
Read more >

Opinião: 'Lulu Dark Can See Through Walls', Bennett Madison



★ ★ ★ ☆ ☆

Lulu Dark Can See Through Walls // Bennett Madison
• Publicado a 18 de Maio de 2006, pela Razorbill

Lulu Dark is the anti-Nancy - a chic, tough-talking city girl who never meant to get involved in a mystery.

But when her favorite purse is stolen during a Many Handsomes concert, Lulu knows she has to get it back. After all, it was one of a kind—and the lead singer's phone number was stashed inside! Lulu dives deep into the fray along with her friends Daisy and Charlie, and discovers a twisted mystery involving a rock star, a rich socialite, a loony landlord, and a serious case of mistaken identity.

Por que é que li este livro? Basicamente, porque a minha querida Lady Entropy mo recomendou, argumentando inclusive que a única coisa que me distinguia da protagonista era o comprimento do cabelo. A pura das verdades é que nem gosto particularmente de girl detectives... mas quando uma amiga recomenda, a gente tenta.

Ora vamos lá então. Lulu Dark Can See Through Walls segue as aventuras de Lulu Dark, uma rapariga perfeitamente normal que vê a sua vida virada do avesso quando a sua mala é roubada num concerto da sua nova banda favorita, levando no seu interior o número de telefone do vocalista. Decidida a recuperar o que lhe pertence e a iniciar a sua nova vida como namorada de uma estrela rock (digo eu...), Lulu deita mãos à obra em busca do responsável pelo crime - e acaba por revelar um drama muito maior do que aquele que a envolve. O enredo é complexo, em teoria, mas não propriamente impressionante ou imprevisível. Admito que não estava à espera que a grande revelação fosse tão... deprimente, digamos assim, mas serviu para me pôr a pensar.

Este livro é, acima de tudo, divertido. É leve, é descontraído, não se leva muito a sério, e às vezes é só isso que exijo da minha literatura. A narrativa diverte-se com descrições de roupas e cocktails, mas, paralelamente, há toda uma série de questões mais profundas que o livro não se abstém de focar. A configuração familiar de Lulu, especialmente, pareceu-me um ponto a favor - uma mãe que fugiu para ser actriz + um pai que passou dessa relação para um namorado hipster? Estou a ouvir.

O detalhe que mais me impressionou neste livro foi, no entanto, o género do autor. Ali estava eu, toda entretida, a ler um livro escrito da perspectiva de uma adolescente, quando me lembrei de investigar o autor e... pasmei-me, era um homem. Nunca na vida me passara pela cabeça que tal fosse possível, porque nunca na vida vira um homem a escrever de um ponto de vista feminino com esta autenticidade e desenvoltura. Só prova que é possível, por isso, queridos autores... sigam o exemplo de Bennett Madison, e aprendam a escrever mulheres. O mundo agradece.

Entretanto, eu fico-me por aqui. Três estrelas, e só não dou quatro por achar que falta aqui algum... je ne sais quoi mais memorável. Gostei do livro, ainda assim, e tenciono ler a sequela.
Read more >

Opinião: 'The Museum Of Extraordinary Things', Alice Hoffman



★ ★ ★ ☆ ☆

The Museum Of Extraordinary Things // Alice Hoffman
• Publicado a 18 de Fevereiro de 2014, pela Scribner

Coralie Sardie is the daughter of the sinister impresario behind The Museum of Extraordinary Things, a Coney Island boardwalk freak show that thrills the masses. An exceptional swimmer, Coralie appears as the Mermaid in her father's "museum" alongside performers like the Wolfman, the Butterfly Girl, and a one-hundred-year-old turtle. One night Coralie stumbles upon a striking young man taking pictures of moonlit trees in the woods off the Hudson River.

The dashing photographer is Eddie Cohen, a Russian immigrant who has run away from his father's Lower East Side Orthodox community and his job as a tailor's apprentice. When Eddie photographs the devastation on the streets of New York following the infamous Triangle Shirtwaist Factory fire, he becomes embroiled in the suspicious mystery behind a young woman's disappearance and ignites the heart of Coralie.

Por que é que li este livro? É difícil explicar tendo em conta o resumo, mas o meu processo mental foi mais ou menos este: "hmm, lembro-me daquele filme, Practical Magic, pergunto-me se terá sido baseado num livro... oh, aqui está, baseado num livro de Alice Hoffman, hmm, pergunto-me se ela terá escrito mais alguma coisa assim interessante... oh, aqui está este livro sobre freakshows, podemos começar já por aqui".

The Museum of Extraordinary Things é um livro, digamos, ambicioso. Para começar, o seu setting é extremamente rico, com Nova Iorque em inícios do século XX a trazer-nos toda uma série de questões sociais - imigração, activismo pelos direitos dos trabalhadores, e claro, a primeira vaga do movimento feminista. Acrescentemos a isto o destino de férias predilecto para os veraneantes de Manhattan, Coney Island e a sazonalidade que a caracteriza (e o que isso implica para as pessoas já marginalizadas que trabalham nos seus freakshows), e temos tudo para me manter interessada. Alice Hoffman faz um trabalho maravilhoso no que toca ao aproveitamento do seu setting, decorado com uma prosa elegante e delicada, e num toque particularmente inteligente, toda a sua narrativa é estruturada por dois elementos: o fogo e a água.


[source]

A vida de Eddie é orientada pelo fogo - o incêndio que destrói a sua aldeia, o incêndio na Triangle Shirtwaist Factory (acima, um evento real, e ainda considerado o desastre industrial mais mortífero da história de Nova Iorque), o incêndio que ele próprio inicia no meio da floresta, e finalmente o incêndio no parque de diversões Dreamland (abaixo, um evento igualmente real, e igualmente destrutivo, que culminou na destruição total e definitiva do parque).


[source]

Por outro lado, a vida de Coralie é dominada pela água - a sua malformação de nascença, membranas que unem os seus dedos como que para facilitar o seu movimento debaixo de água, as longas horas passadas no Hudson, o papel de sereia que representa no freakshow do pai, o aquário que acaba por lhe salvar a vida.

Alice Hoffman é uma força da natureza no que toca a entrelaçar simbologia neste livro - aliás, toda a história de Coralie é uma ode ao simbolismo dos monstros no feminino, algo que não vejo muitas vezes (e gostava de ver).

Infelizmente, nem só de simbologia vive um livro, e este não se aguenta de pé sem ela. A estrutura é ligeiramente complicada, alternando quatro pontos de vista diferentes - Coralie em primeira pessoa, Coralie em terceira pessoa, Eddie em primeira pessoa, e Eddie em terceira pessoa. Enquanto lia, só me conseguia perguntar... mas que falha estrutural é que te levou a escrever isto assim, Hoffman? Não faz grande sentido, e é pouco natural.

O outro grande problema deste livro é o romance. Deuses, o romance. Nunca pensei que fosse possível, em 2014, alguém escrever amor à primeira vista não ironicamente, mas Alice Hoffman fê-lo - e cito, "he fell in love with her in that instant". Só não desisti do livro logo aí porque a) tenho uma política de terminar todos os livros que começo, e b) estava MESMO investida no setting. Não compreendo como é que este romance, em toda a sua glória forçada e desenxabida, se tornou a pedra basilar do livro, numa obra que tinha tantos outros pontos a seu favor. Sim, tudo bem, eu sei que esta opinião está directamente relacionada com o meu ódio de estimação por amores à primeira vista, mas pensemos assim: se o leitor consegue perceber que o romance é forçado e artificial, para que é que o romance efectivamente serve?

Neste caso, serviu para me alienar da história, e para lhe baixar a pontuação final. Três estrelas, mas faço total intenção de ler mais livros da autora.
Read more >

Opinião: Antologia 'Na Sombra das Palavras'



★ ★ ★ ☆ ☆

'Na Sombra das Palavras'
Vários autores

Na Sombra das Palavras” reúne cinco contos de autores portugueses, combinando thriller e fantástico em histórias de amor, memórias esquecidas e encontros com a Morte e Deus. As palavras transportam o leitor para labirintos, panópticos, livrarias e memórias longínquas. Com contos da autoria de Ângelo Teodoro, David Camarinha, Fábio Ventura, João Ventura e Mário Seabra.

Boa noite, quase manhã, camaradas - estou atrasada, como de costume, mas vamos ignorar isso.

Hoje trago-vos o primeiro livro do catálogo da Editorial Divergência, uma nova editora centrada na ficção especulativa, que pretende apostar em exclusivo no mercado e escritores nacionais. Na Sombra das Palavras é uma antologia de thrillers e contos fantásticos, composta por cinco trabalhos, de cinco autores distintos. Foi publicada em formato físico e digital, com os preços altamente aceitáveis de 2.50€ e 1€, respectivamente. Ninguém pode dizer que a editora não está a cumprir com a sua intenção de vender edições acessíveis! Só comprei o ebook, mas acho que vou acabar por comprar a versão em papel - sempre é uma segurança para o futuro, já que todos os envolvidos nesta edição vão acabar famosos de uma forma ou de outra.

Vamos então falar dos contos.

O Livreiro, Fábio Ventura
A antologia abre com um conto que, à primeira vista, seria muito fácil de classificar como realismo mágico. Um livreiro conhece uma mulher de papel, e para citar Donna Tartt (naquela que será sempre a melhor descrição alguma vez feita de uma cena de sexo), matters progressed. Embora não me possa dizer fã do estilo do autor (é um tanto ou quanto repetitivo), o conto até me cativou, até perceber qual seria o plot twist final - que achei mais previsível do que surpreendente.

A Lista de Deus, João Ventura
Este conto pareceu-me um tanto ou quanto deslocado dos outros, para ser sincera. Talvez por uma questão de setting, mas também de escala - os restantes autores da antologia focam-se em histórias pessoais, mas aqui vem João Ventura com um apocalipse profetizado numa versão alternativa dos Génesis, e tive alguma dificuldade em conseguiu encaixar o seu trabalho com os restantes. No entanto, nada disto afecta a qualidade do conto. Está bem escrito, e razoavelmente bem estruturado - e digo "razoavelmente", note-se, porque me parece que este conto, tal como um outro na antologia, poderia ter beneficiado de mais algumas páginas para se desenvolver. Como está, o final chegou demasiado cedo, não dando ao leitor tempo de se preparar para as verdadeiras implicações do que estava a ler.

O Panóptico, David Camarinha


Desculpem, desculpem, mas andei toda a minha vida à procura de uma boa ocasião para usar esta imagem, e finalmente consegui. David Camarinha escreveu o meu conto favorito desta antologia, ou não fosse eu ligeiramente obcecada pelo Panóptico. (lembram-se do livro de Jenni Fagan que discutimos em Dezembro? pois, there you go) O Panóptico demonstra, basicamente, como utilizar um limite de 2k palavras para mostrar todo um mundo ao leitor. A escrita é super elaborada (alguns chamar-lhe-iam purple prose, por mim tudo bem), os personagens relevam-se apenas na medida do necessário (teria sido ainda melhor se tivessem sido mantidas todas anónimas), e o twist final...

Bem, o twist final merece um parágrafo próprio, porque é exactamente o mesmo twist usado por Fábio Ventura no conto inicial, com um efeito totalmente diferente. Também o adivinhei a tempo, mas em vez de sentir ah ok, fixe senti ah ok, fixe, MAS MEU DEUS O PANÓPTICO ACRESCENTA CERCA DE DEZ MIL NOVAS IMPLICAÇÕES A ISTO E ACHO QUE PRECISO DE ME SENTAR. Adorei, a 100%, melhor conto da antologia sem competição possível.

Labirinto de Papel, Ângelo Teodoro
O que mais me agradou neste conto foi, sem dúvida, a sua ambiência. O título, Labirinto de Papel, não poderia ser mais adequado, e as suas interpretações são múltiplas. Por outro lado, este conto também me pareceu o mais "clássico" de todos - tem uma estrutura princípio/meio/fim clara, bem estruturada, utiliza perfeitamente as suas personagens, e o mistério vai crescendo de forma gradual à medida que nos aproximamos do final. Adorei a forma como os personagens funcionaram quase como espelhos um do outro, com uma evolução semelhante nas suas reacções, e no geral, poucas críticas tenho a fazer. Até o estilo de escrita me deixou a sorrir. Segundo favorito, gostei bastante.

Tábula Rasa, Mário de Seabra Coelho
Lembram-se quando disse, acima, que havia um outro conto que poderia ter beneficiado de mais algum tempo (ou espaço?) de antena? Estava a falar deste. Tábula Rasa apresenta-nos o que me parece ser, acima de tudo, uma amostra de algo maior. O worldbuilding deste conto não cabe, nem de perto nem de longe, no espaço a que tem direito na antologia, e isso não funciona a seu favor - para quê dar-me nomes e backstory se não tenho tempo para criar empatia com os personagens? Ou para aprender a distingui-los, sequer?

Não achei o plot nada de especial, mas gostei da escrita e adorei o conceito. Espero sinceramente que haja aqui pano para mais mangas, seja noutros contos, ou num livro completo.

Agora, tendo feito este apanhado geral dos contos, acho que é ainda importante deixar uma palavrinha à editora. Para primeiro livro, achei que este foi um óptimo esforço - não adorei todos os contos, mas achei-os adequados ao tema, e mais do que capazes de inaugurar o mundo da Divergência. Quanto à capa, tenho as minhas reservas... não por ser uma má capa, mas porque nada nela me sugere propriamente thriller fantástico. Finalmente, só tenho uma crítica muito séria a fazer: o que é que aconteceu ao nome do pobre Mário, que passa de Mário Seabra na capa a Mário Coelho na biografia? Não é o erro mais grave do mundo, obviamente, mas chega para desorientar qualquer um.

Posto tudo isto, dou umas saudáveis três estrelas à antologia, com votos de boa sorte a todos os autores, e à equipa da Editorial Divergência. Mandem para cá mais livros!
Read more >

Opinião: 'The American Way Of Death Revisited', Jessica Mitford



★ ★ ★ ★ ★

'The American Way Of Death Revisited'
Jessica Mitford

Only the scathing wit and searching intelligence of Jessica Mitford could turn an exposé of the American funeral industry into a book that is at once deadly serious and side-splittingly funny. When first published in 1963 this landmark of investigative journalism became a runaway bestseller and resulted in legislation to protect grieving families from the unscrupulous sales practices of those in "the dismal trade".

Aqui vai um segredo: quando o mundo da ficção me falha, leio não-ficção. A vida real pode ser, afinal, muito mais interessante do que a imaginação, com a vantagem de não me obrigar a questionar o quão plausível é - se aconteceu, aconteceu, e de nada me vale questionar.

Vamos falar deste livro, então. Este livro chama-se The American Way Of Death Revisited, e foi publicado em 1999, uma versão revista de The American Way Of Death, publicado originalmente em 1963.

Neste volume, Jessica Mitford apresenta um exposé DESCOMUNAL da indústria funerária dos EUA, que, na sua opinião, se aproveita do luto dos sobreviventes para impingir bens e serviços caríssimos, e em grande parte inúteis. Fiquei chocada, para vos ser sincera. Margens de lucro de 900% na venda de caixões? Módulos pré-fabricados de betão armado, enterrados com os caixões para os “proteger”? Caixões de aço e bronze? Tanatopraxia* para manter os cadáveres bonitinhos durante dias, para as pessoas poderem ir até à capela em procissão para os ver “como eram em vida”?

* Isto é aquilo que os não-iniciados poderão conhecer como “embalsamamento”. Vocês sabem, a substituição do sangue por fluidos preservantes e afins?


Leio muitos livros estranhos, para que conste. Só este ano, já li sobre fetos flutuantes, hipsters assassinos, e mártires que deixariam qualquer swagger contemporâneo de boa aberta. Mesmo assim, este foi o livro mais surreal de todos.

Quem me conhece sabe que sou totalmente fatalista. Vamos todos morrer, filhos, e não há razão nenhuma para esse facto ter de constituir a terceira maior despesa das nossas vidas (logo a seguir à casa e ao carro, garante Mitford). Acho o culto da morte hipócrita. Acho trágico que o mundo tenha chegado a um ponto em que os cuidados básicos de um ente querido falecido têm de ser pagos a um pseudo-profissional - como se os mortos fossem de alta manutenção, ou assim. Acho lamentável que se tenha de pagar para enterrar um ser humano. Gosto de cemitérios enquanto monumentos, feliz ou infelizmente, mas não os acho sustentáveis, ou sequer de bom gosto. Desde que sei o que é a cremação que a quero para mim mesma, e só não vou para a resomação (também conhecida como cremação líquida ou biocremação, em vocabulário mais ou menos comum; ou hidrólise alcalina, em sciencespeak), porque não me parece provável que venha a aparecer em Portugal num futuro próximo.

Mas entre ser queimada ou dissolvida, sei o que prefiro. Sempre fui pessoa de água, sabem.

A verdade é que este livro me chocou completamente, não pelo seu tema (acham mesmo?), mas pelas coisas que descreve. Já sabia que havia falta de ética na indústria funerária, mas isto é um nível tão incrível que tenho dificuldades em digerir a informação. Por outro lado, este livro foi escrito há 15 anos, e muito já mudou entretanto no panorama funerário Americano. Projectos como Undertaking L.A. estão a trabalhar numa espécie de regresso às origens, em que os sobreviventes se responsabilizam pelo serviço funerário sem terem de se expor a toda uma rede de profissionais que pouco mais querem do que usar o seu luto como trampolim para

Por outro lado, este livro fez-me pensar na realidade portuguesa. Se à primeira vista me pareceu que estamos mais ou menos safos destes abusos, uma pequena pesquisa bastou para me mostrar que as multinacionais já chegaram (alguém se lembra da polémica do Morteshopping, em 2004?), que os funerais planeados (e pagos) em vida são uma realidade cada vez mais comum, e que a tanatopraxia está a ganhar terreno “por razões de saúde e higiene”. Poupem-me.

Acreditem em mim, pessoal, já estive em duas salas de autópsia, e das duas vezes me foi garantido que, ali dentro, o único risco a que estava exposta era mesmo o de poder vir a perder o meu pequeno-almoço. Existem excepções, claro, como corpos em avançado estado de decomposição, mas se vamos ser sinceros, a esses não há tanatopraxia que os valha - só mesmo um caixão fechado.

A minha conclusão, meus caros, é que temos aqui um livrinho perfeito. Arrisco-me a dizer que devia ser leitura obrigatória para todos os que vêem alguma possibilidade de vir a morrer no futuro (não necessariamente no futuro próximo, claro, nada de pressas). O meu exemplar custou 3€ em segunda mão, mas pelo que me ensinou, vale dez vezes isso. Comprem, pessoal. Recomendo.

PS - Fui recolhendo referências que me pareceram interessantes ao longo do livro, por isso aqui fica, para mim mesma e para outros que tenham algum interesse no assunto, uma lista de leituras mencionadas por Jessica Mitford:

The High Cost Of Dying, Bill Davidson (1951, in Collier's Weekly)
Can You Afford To Die, Roul Tunley (1961, in Saturday Evening Post)
What Happens To Dead Bodies, Kenneth V. Iserson (1974)
Caring For Your Own Dead, Lisa Carlson (1987)
Read more >

Opinião: 'The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman', Angela Carter



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman
Angela Carter

In this magical adventure Desiderio is stricken with love for Albertina, a woman he sees only in his dreams. He must also battle against Dr. Hoffman and his mysterious machines as they bend time and space to turn Desiderio's city into a nightmare of lust, insanity and crime. But the evil Doctor is also Albertina's father...

Por que é que li este livro?
Já vos falei da minha Maratona Angela Carter, em que leio todos os livros da senhora apenas para poder bater com os pés e queixar-me que estas feministas dos anos 60 têm muito que andar? Yup, foi por isso que li este livro.

Oh, e aviso à navegação: este livro inclui imensas violações, das quais irei falar ao longo deste post. Estou a dizer-vos já para ninguém ser apanhado de surpresa. Ok? Ok.

1. Plot
Antes de mais nada, sentem-se, que isto vai ficar confuso.

The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman conta a história de Desiderio, um rapaz/homem perfeitamente normal que trabalha para o chamado Minister of Determination de uma cidade atacada por ilusões. Confuso? Ok, vamos tentar outra vez.

Era uma vez um cientista de ética questionável, de nome Doctor Hoffman. O seu objectivo é, obviamente, dominar o mundo, através de uma série de truques e ilusões que desviam o mais comum dos mortais do seu pacato dia-a-dia. Isto tem implicações vagamente hilariantes, como ruas que mudam de sítio todos os dias e "fantasmas" que se parecem em tudo com pessoas reais. A nossa história passa-se então na cidade que Doctor Hoffman usa como campo de testes para as suas armas de ilusão maciça - uma cidade que decidiu dar luta, na pessoa do seu Ministro da Determinação. E o que faz um Ministro da Determinação, perguntam-se vocês? Ah bem, determina. Determina o que é real e o que é ilusório, e tenta governar com base nisso.

Desiderio é o braço direito do Ministro, e quando este último desaparece misteriosamente, é ele quem é enviado para o procurar. Pelo caminho, vai sonhando com uma rapariga/mulher chamada Albertina, por quem se apaixona porque sim (é Carter, nunca a vi escrever um romance que faça sentido, lidemos com isso), e atravessando diversas realidades surreais em que toda a gente é violada porque sim.


Digo-vos, se tivesse levado a sério o meu próprio Angela Carter Drinking Game (um shot por cada cena de violência sexual), estaria a escrever esta opinião sentadinha nas urgências.

2. Personagens
Esqueçam. Desiderio é o tipo de protagonista masculino que deixa os senhores autores de meia-idade satisfeitos. Está sozinho no mundo, e tudo lhe é indiferente. Nada o fascina, nada o confunde. As mulheres com quem dorme são apelidadas de "brinquedos". Ele é uma ilha de consistência num mundo que se se esforça, todo o santo dia, por quebrar as regras do espaço e do tempo.

Ou seja, ele é extremamente aborrecido.

Por outro lado, temos Albertina, cujas principais funções na história se resumem a 1) ser violada, e 2) ser a misteriosa filha de Doctor Hoffman, que pode ou não ter servido apenas de isco para levar Desiderio até ao seu covil do mal. Como acontece à grande maioria das mulheres de Carter, acaba por morrer.

Depois, temos uns quantos personagens "de passagem", que se mantêm com Desiderio apenas durante períodos da história - ou seja, cada nova realidade traz consigo personagens novas. Desiderio passa então uns tempos entre o povo do rio, uma espécie de tribo Nativa Americana que se dedica ao comércio e vive em pequenos barcos, em constante movimento. Integra-se facilmente na sua cultura, porque é meio Nativo Americano (e Carter não deixa de mencionar isso ao longo do livro, cerca de cinco mil vezes). A tribo oferece-lhe uma noiva de nove anos, seguem-se vários episódios sexuais, etc, não me obriguem a falar sobre isto.

Na realidade seguinte, Desiderio junta-se a uma espécie de feira popular, onde trabalha como ajudante. Obviamente, porque isto é Carter, é violado por uma trupe de acrobatas Marroquinos.

Na realidade seguinte, Desiderio junta-se a, adivinhem, Drácula, na sua fabulosa carruagem niilista a caminho da lado nenhum. Drácula tem um pequeno assistente, cuja cara está constantemente coberta de ligaduras por, supostamente, ter perdido o nariz para a sífilis. Obviamente, porque isto é Carter, Lafleur é frequentemente violado por Drácula.

Na realidade seguinte, depois de uma complicada travessia marítima, Desiderio é capturado por uma tribo Africana cujo exército é constituído, exclusivamente, por mulheres a quem o clítoris foi amputado. Por milagre, não há violações, mas Drácula é cozinhado vivo. Yay?

Na realidade seguinte, Desiderio e Lafleur, que afinal era Albertina sob disfarce, são acolhidos por uma sociedade de centauros. Sim, há violações. Acabou a conversa.


3. Setting/worldbuilding
Ora bem, o que escrevi até agora já vos dá alguma ideia do tipo de setting em que este livro se passa. As localizações, embora nunca tratadas pelo nome, são facilmente identificáveis, ao contrário do período temporal - saltitamos entre séculos sem grande aviso prévio, mas Carter consegue manter-nos mais ou menos orientados. Não temos de saber onde ou quando para poder apreciar uma história, e essa é uma máxima que se aplica a este livro na perfeição. (não que eu tenha, efectivamente, apreciado a história, mas o importante aqui é saber que não foram os saltos temporais que me impediram)

Houve aqui bastante potencial desperdiçado, diria eu, porque chegamos ao final e descobrimos que afinal a energia que move todas as armas de ilusão maciça (adoro esta expressão) é, nada mais nada menos, do que energia sexual - recolhida, acho eu, a partir dos fabulosos fluidos corporais de dezenas de casais trancados num laboratório, que pouco mais fazem do que, bem, sexo.


Não sei porque é que ainda tento. Bem-vindos ao mundo altamente feminista de Carter, onde tudo é sexo e... pois, é basicamente isso. Não há excepções. Yup. Sexo.

4. Estilo de escrita
Há duas coisas que me fazem continuar a ler Carter, mesmo tendo em conta a sua obsessão por violação (e vaginas) - uma é saber que a mulher que escreveu Shadow Dance e Love é bem capaz de ter outra obra-prima escondida na sua bibliografia; a outra é a sua escrita.

The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman é mais denso do que outros livros da autora, em grande parte devido à pseudo-ciência utilizada para dar alguma profundidade ao worldbuilding. Ainda assim, Carter consegue sair-se com coisas destas:

He was ready for any funeral and he carried a cane tipped with a silver ball that looked as if it could kill. His diabolical elegance could not have existed without his terrible emaciation; he wore his dandyism in his very bones, as if it was a colour that had seeped out of his essential skeleton to dye his clothes [...]

Estou fula por não escrito esta passagem primeiro. Também estou fula por isto não representar, de forma alguma, o tom geral do livro - afinal, ninguém é violado nesta passagem, como podem reparar.

Em resumo...
Esta foi uma semana muito triste no blog, porque consegui deitar abaixo duas das minhas autoras favoritas por razões completamente diferentes. A conclusão aqui, crianças, é que até os nossos favoritos fazem asneira.

E se nunca apanharam os vossos favoritos a fazer asneira, sugiro que passem a prestar mais atenção.

Mas voltando ao livro. The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman foi uma desilusão descomunal. A história poderia ter sido boa, mas dei por mim a revirar os olhos tantas vezes que perdi completamente o interesse. Não quero ler sobre centauros a violar mulheres. Não quero ler sobre ninguém a violar ninguém, ponto. Não quero ler sobre um mundo alimentado por energia sexual (...em que é que isso será diferente do mundo real, pergunto-me). Não quero ler sobre um protagonista apático que é meio Nativo Americano só porque a autora precisa de uma desculpa para parecer menos racista. Não quero, não quero, não quero.

É curioso observar que, há pouco menos de um ano, escrevi sobre outro livro sobre cientistas pouco éticos que atraem tipos perfeitamente normais às suas redes só porque sim, têm cidades inteiras aos seus pés só porque sim, e lixam as suas filhas no final só porque sim... o livro chamava-se The Dream Of Perpetual Motion, e levou, tal como este vai levar, duas estrelas. São bastante parecidos, na verdade - livros cheios de boas intenções, que, na sua tentativa de chamar a atenção para o machismo do mundo, acabam por ser, eles próprios, absurdamente machistas; livros sobre cientistas que o texto compara ao Prospero de Shakespeare (Perpetual Motion é uma retelling de The Tempest; Doctor Hoffman nunca se assume como tal, embora as semelhanças estejam lá); livros super bem escritos, mas que descuram as personagens, particularmente o protagonista; livros que dão grande protagonismo ao conceito de desejo, utilizando várias vezes a expressão heart's desire; livros que integram o ideal de movimento perpétuo na sua pseudo-ciência.

Doctor Hoffman foi publicado em 1986; Perpetual Motion em 2010. Estará o autor do segundo consciente do quão perto esteve de reescrever o primeiro?

Fica a questão.
Read more >

Opinião: 'Piratica', Tanith Lee



★ ★ ☆ ☆ ☆

Piratica: Being A Daring Tale Of A Singular Girl's Adventure Upon The High Seas
Tanith Lee

Artemesia Blastside is the daughter of a sea pirate, trapped in Angels Academy for Young Maidens. But more interested in the sea life, she escapes in search of her mother's old crew. As she sweeps the motley and unwilling crew into the treasure hunt of all time, will she be able to to win her mother's crown as the famous Piratica?

Por que é que li este livro?
Tanith Lee e uma jovem capitã pirata. É preciso dizer mais?

1. Plot
O enredo deste bicho é simples. Num mundo que é exactamente igual ao nosso, tirando os nomes mal disfarçados, uma jovem de nome Artemisia bate com a cabeça enquanto pratica a sua postura no colégio privado que frequenta. E claro, como em todas as boas obras de ficção, este potencial traumatismo despoleta nela uma torrente de memórias da sua infância, passada em alto mar com a falecida mãe, a capitã pirata mais famosa de todos os tempos. Inspirada por este flashback, Artemisia foge do colégio contra a vontade do pai (que a aprisionou lá, note-se) em busca da antiga tripulação do navio da sua mãe, muda de nome para Capitão Art Blastside, e lidera o seu bando de misfits em busca de um tesouro lendário.

Até aqui tudo bem - o problema é que Artemisia alucinou mais do que devia, porque as suas memórias do alto-mar se resumem a peças de teatro protagonizadas pela sua mãe e pelo grupo de actores que representava a sua "tripulação". Ou seja, noventa por cento dos personagens não estão aptos a navegar no que quer que seja - talvez nem num caiaque.

Ainda assim, eles lá vão e encontram o tesouro, derrotam a tripulação adversária num épico duelo, e escapam ao cadafalso sem um arranhão... porque isto é um livro para crianças/jovens e eu gosto de pensar que Tanith Lee sentiu necessidade de se simplificar em prol da sua audiência. Os seus piratas não matam, só roubam mercadores ridiculamente ricos que podem bem lidar com as perdas materiais... e no geral, para história de piratas, isto parece uma coisita assim meia deslavada.

Lee é muito melhor a escrever fantasias para adultos do que fantasias para crianças, e nota-se a léguas.

2. Personagens
Em poucas palavras, não gostei de nenhum dos pedaços de cartão com nomes e duas linhas de backstory que Tanith Lee me apresentou.

Artemisia sofre do mesmo síndrome da protagonista de A Face Like Glass, curiosamente - nada na sua personalidade nos leva a crer que ela seja capaz de fazer as deduções necessárias para avançar o enredo, mas isso não a impede de estar sempre um passo à frente do resto da humanidade.

Da sua tripulação, o único personagem que se destaca é Ebad, porque... bem, porque é negro, viveu parte da sua vida como escravo, e quase todas as suas aparições fazem questão de apontar estes dois factos, sugerindo ainda que talvez ele até seja descendente de Faraós. Os restantes marujos confundem-se uns com os outros, e quanto a nomes? Pois, não memorizei nenhum.

Posso ainda falar de Felix, o rapazinho misterioso e ligeiramente inútil que se junta à nossa caça ao tesouro por via de razões. É suposto eu acreditar que, a certa altura, ele se apaixona por Artemisia e vice-versa, mas para repetir opiniões já expostas neste blog sobre outros livros, acho este casal tão entusiasmante como um desenrolador de fita-cola.

Finalmente, temos Little Goldie Girl, uma personagem que, muito sinceramente, nunca pensei vir a ler num livro de Tanith Lee. Se há tal coisa como o estereótipo de mulher que só chegou ao poder pela sua beleza e posição na família, não procurem mais, esse estereótipo existe na pessoa de Goldie. Uma jovem capitã que se veste de forma impressionante e luta como uma besta desalmada, apenas para ser derrotada quando Artemisia lhe corta o cabelo e lhe marca o rosto com a sua espada? Por favor, Lee. Esperava muito mais de ti.

3. Setting/worldbuilding
Ok, então lembram-se de quando vos disse, no início, que este mundo era exactamente igual ao nosso? Estava a mentir, há uma diferença: Inglaterra é uma república.

Tirando isso, o worldbuilding deste livro resume-se a "o planeta Terra, tal como era em 1802, mas os sítios têm nomes diferentes" - ou seja, o rio Thames passa a ser o Thamis, e London passa a ser Lundon. Pergunto-me, será que isto era mesmo necessário? Não, porque não contribui em nada para o livro, e só me faz revirar os olhos face à verdadeira ingenuidade desta esquema.

Como nota de rodapé, é importante notar que Tanith Lee já fez isto antes, na série The Secret Books Of Paradys, escrita em 1988. Paradys é uma versão misteriosa e vagamente (ok, altamente) sobrenatural de Paris durante os séculos XVIII/XIX, mas a principal diferença face a esta Inglaterra republicana é que Paradys tem influência directa nas histórias que nela se passam. É worldbuilding com um propósito claro, ao contrário deste.

4. Estilo de escrita
Tanith Lee é conhecida pela sua escrita elaborada e elegante, e pelo seu talento nato para envolver o leitor nas suas palavras. Também aqui senti isso, mesmo sem me ter sentido particularmente atraída pela história.

Em resumo...
No geral, este livro desiludiu-me - mas é provável que isso se deva mais a um desajuste entre aquilo que normalmente espero da autora e aquilo que efectivamente ela tem margem para fazer num livro para crianças e adolescentes, do que propriamente à qualidade do mesmo. Por essa razão, este acaba por ser mais um daqueles casos em que não sou, de todo, a pessoa certa para avaliar a obra. Não gostei, mas talvez recomende a pessoas viradas para este tipo de narrativa. Duas estrelas!
Read more >

Opinião: 'Clean: An Unsanitised History Of Washing', Katherine Ashenburg



★ ★ ★ ★ ☆

'Clean: An Unsanitised History Of Washing
Katherine Ashenburg

For the first-century Roman, being clean meant a public two-hour soak in baths of various temperatures, a scraping of the body with a miniature rake, and a final application of oil. For the seventeenth-century aristocratic Frenchman, it meant changing his shirt once a day, using perfume to obliterate both his own aroma and everyone else’s, but never immersing himself in – horrors! – water. By the early 1900s, an extraordinary idea took hold in North America – that frequent bathing, perhaps even a daily bath, was advisable. Not since the Roman Empire had people been so clean, and standards became even more extreme as the millennium approached. Now we live in a deodorized world where germophobes shake hands with their elbows and where sales of hand sanitizers, wipes and sprays are skyrocketing.

Juro que não hei-de morrer sem dedicar um ano inteiro da minha vida a ler não-ficção. Não há nada melhor do que mergulhar num tema novo e emergir, duas horas depois, com todo um catálogo de factos interessantes para partilhar com estranhos nas festas mais aborrecidas. Não que eu vá a festas, mas o sentimento mantém-se.

Clean é, tal como o nome indica, um livro sobre higiene - a história da mesma, para ser mais específica. Katherine Ashenburg divide o tema em nove capítulos, da Antiguidade Clássica aos dias de hoje, passando pelas frequentes mudas de camisa dos séculos XVI a XVIII e a obsessão com sabonete da primeira metade do século XX. É um livro divertido, embora não o deva totalmente ao estilo, pois o tema empresta-se bem a uma certa dose de sentido de humor.

Adorei a análise que a autora faz do tema, e a forma como consegue interligar o ideal higiénico de uma sociedade com as suas aspirações e valores morais. Quem pensaria que os mártires Cristãos não tomavam banho por considerar o acto hedonista? (bem, eu pensaria, seria de esperar de pessoal que se alimenta de vinagre e crostas... mas continua a ser um dado interessante)

A única falha que posso apontar ao livro é o facto de me parecer uma análise superficial - não sou nenhuma expert no tema, mas tenho a sensação de que este volume funciona melhor como uma introdução do que propriamente uma "bíblia". Por outro lado, tal acaba por ser uma vantagem para leitores casuais. Não é preciso qualquer conhecimento prévio sobre o assunto para poder apreciar esta viagem pelo mundo da limpeza - e da sujidade. Quatro estrelas, recomendado!
Read more >

Opinião: 'The Clockwork Scarab', Colleen Gleason



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Clockwork Scarab
Colleen Gleason

Evaline Stoker and Mina Holmes never meant to get into the family business. But when you’re the sister of Bram and the niece of Sherlock, vampire hunting and mystery solving are in your blood. And when two society girls go missing, there’s no one more qualified to investigate.

Now fierce Evaline and logical Mina must resolve their rivalry, navigate the advances of not just one but three mysterious gentlemen, and solve murder with only one clue: a strange Egyptian scarab. The stakes are high. If Stoker and Holmes don’t unravel why the belles of London society are in such danger, they’ll become the next victims.

Por que é que li este livro?
A sobrinha de Sherlock Holmes e a irmã de Bram Stoker são contratadas por Irene Adler para combater o crime na capital Inglesa. Vagamente steampunk. Por que é que eu não havia de ler este livro?

1. Plot
Meninas da alta sociedade Londrina vão desaparecendo sem razão aparente, deixando para trás pequenos escaravelhos mecânicos. E obviamente que têm de ser escaravelhos, porque como sabes, Bob, a sociedade Vitoriana pouco mais inclui do que corpetes e artefactos egípcios. Mas passemos à frente. As nossas heroínas, que não se conhecem de lado nenhum (e que preferiam manter esse gracioso estado de coisas), são chamadas por Irene Adler a pedido da Princesa Alexandra para resolver este estranho caso, e obviamente que a princípio não se entendem. Infiltram-se, lêem muitos livros, fazem asneiras, o Big Bad pode ou não ser uma paródia do movimento feminista (se pretende ser uma representação fiel do mesmo, meus deuses, é terrível), e é basicamente isso. Há triângulos amorosos que em nada contribuem para a história, e as capacidades sobre-humanas das nossas protagonistas acabam por não passar de palavras bonitas no ecrã do meu Kobo. O Big Bad escapa. Há mais do que espaço para escrever uma sequela. Eu queixava-me desta manipulação desavergonhada do leitor, mas não estou suficientemente interessada.

Oh, e há viagens no tempo? Pois, mas nem isso interessa.

2. Personagens
Nem sei por onde começar. Por um lado, apetece-me dizer que nem Mina Holmes nem Evaline Stoker merecem carregar os apelidos dos seus populares parentes. Mas nem é isso que me incomoda. O que me incomoda é que estes apelidos arrastam consigo toda uma série de expectativas para o leitor, que saem completamente furadas neste livro. Mina Holmes é sobrinha de Sherlock Holmes, e tudo nela é exactamente como seria de esperar - inteligente, super inteligente, tão inteligente que detesta festas e a governanta tem medo de entrar no seu laboratório. Não sei bem o que é que a autora pretendia com isto - criar uma versão feminina de Sherlock Holmes? Bem, uma versão feminina de Sherlock Holmes não morreria de amores por um inspector qualquer só porque ele consegue acompanhar o seu raciocínio - e até antecipá-lo! Uma versão feminina de Sherlock Holmes seria, tal como o original, a pessoa mais inteligente em todas as salas onde Mycroft Holmes não está. Isto não acontece com Mina. Mina é uma versão genérica daquilo que uma versão feminina de Sherlock Holmes devia ser, sem qualquer personalidade própria, encaixada num livro que não sabe bem se pretende ser fantasia, mistério, ou romance.

Por outro lado, temos Evaline Stoker, cuja caracterização parece ter sido um pouco mais considerada - é uma caçadora de vampiros, tem super força (que nem uma Buffy Vitoriana, you go girl), e montes de poderes que lhe permitem caçar vampiros. O único problema é que já não existem vampiros em Londres, e Evaline quase desmaia ao ver sangue. Agora... isto poderia ser um plot interessante. O que acontece quando uma pessoa escolhida para determinada tarefa ancestral é completamente incapaz de cumprir com a mesma? Desastres acontecem, obviamente. Auto-estimas destroçadas, crises familiares, sessões constantes de second-guessing. Colleen Gleason não aborda nada disto. O seu pensamento parece ir mais numa linha de esta é a minha caçadora de vampiros mas não há vampiros e ela não gosta de ver sangue, TOMEM LÁ UM TRIÂNGULO AMOROSO.

Parece que a sinopse foi escrita por uma feminista do século vinte e um, e o livro por um médico ultra-conservador do século dezanove. A dissonância cognitiva é elevada o suficiente para me dar quebras de tensão.

Ah, e o melhor personagem de todos. Segurem-se aos vossos corpetes, donzelas, que isto está prestes a aquecer. Dylan Ekhert. Vem do futuro com uma t-shirt da Aéropostale, não tem qualquer relevância para o plot, e salva o dia com um iPhone. Percebem a minha dor?

3. Setting/worldbuilding
Vamos rebobinar ao Verão passado, quando disse, relativamente ao livro Soulless, de Gail Carriger, que "podíamos tirar o steam, e não íamos perder nada". O mesmo é aplicável a este livro, tirando que as invenções steampunk conseguem ser ainda mais irrelevantes para o desenvolvimento do setting.

Talvez isto se resuma tudo a uma tentativa de aproveitar a onda steampunk para vender livros que se passariam, de outra forma, numa era Vitoriana ligeiramente melhorada para as sensibilidades modernas, mas custa-me um pouco digerir este tipo de coisa. Ou talvez os puristas me estejam finalmente a afectar - o que seria irónico, considerando que nunca na vida li os livros recomendados por este pessoal, e o meu interesse por steampunk continua a ser quase puramente estético.

Ok, pronto, também tenho interesse nas senhoras de bloomers a pilotar aeronaves, mas uma guerra de cada vez.

O importante aqui é que o setting não vai muito além de Template Vitoriano #1 - temos opium dens, o museum britânico, mansões, um ou outro baile, e um par de tabernas vagamente mal frequentadas. O steam é um acessório, e não faz qualquer falta ao livro. Off with it!

4. Estilo de escrita
Meh? Nada de particularmente interessante a apontar. Acho que me aborreci tanto com a conteúdo que nem me preocupei particularmente com a forma. A única crítica objectiva que tenho refere-se à organização dos capítulos entre as duas protagonistas - Mina e Evaline têm cada uma o seu POV, mas são ambos em primeira pessoa e completamente impossíveis de distinguir. Para duas personagens que aparentam ser tão diferentes ("aparentam" sendo aqui, claro, a palavra-chave), soam extraordinariamente parecidas. Foi muito, muito difícil orientar-me nesta leitura.

Em resumo...
Este livro vai acabar, muito infelizmente, na estante de Boas Ideias Mal Executadas. Duas raparigas de alta sociedade, uma Holmes e uma Stoker, a investigar crimes? Boa ideia. Este livro? Má execução.

O problema principal deste livro (pronto, além do plot simplista e mal resolvido) é que se propõe ser uma fantasia pseudo libertadora para as mulheres Vitorianas, um pouco na linha da já mencionada série de Gail Carriger, mas nunca chega efectivamente a dar-me o que promete. A autora está constantemente a colocar as suas personagens femininas em situações em que precisam de ser salvas. Mina não é, nem de perto nem de longe, tão esperta quanto me querem fazer crer. A força e coragem de Evaline são virtualmente inúteis. Tudo bem, elas quebram uma outra regra, mas consigo resumir o livro todo com "olha nós a fazer coisas que as mulheres Vitorianas não devem fazer, E A FALHAR REDONDAMENTE". O setting não o salva, a escrita não o salva, e com muita pena minha, não posso recomendar este livro a ninguém.

A sequela, The Spiritglass Charade, sai a 7 de Outubro de 2014. Não tenciono lê-la, mas é bom saber, certo?
Read more >

Penny Dreadful: Opiniões a 3 Episódios do Final



Não sou muito de ver televisão, mas de vez quando o mundo sai-se com algo tão absolutamente brilhante que é impossível não ver, pelo menos, o primeiro episódio. American Horror Story: Coven foi a única série recente que vi do princípio ao fim, com looooongas crises de fangirling entre episódios, e quando acabou, fiquei sem saber o que fazer com o meu tempo.

Felizmente, fui informada da existência de Penny Dreadful umas semanas antes de estrear. Baptizada em honra dos periódicos vitorianos que aliciavam os leitores com os seus temas mórbidos e sensacionalistas, Penny Dreadful conta a história de uma liga de cavalheiros vagamente extraordinários em busca de uma mulher chamada Mina, que pode ou não ter sido raptada por vampiros. O grupo é encabeçado por uma misteriosa dupla: Sir Malcolm Murray, pai de Mina e ex-explorador de África, e Vanessa Ives, ex-melhor amiga de Mina e ocasional porta-voz dos muitos espíritos presentes em Londres. (às vezes vestem-se a combinar, mas nem sempre)



Um dos selling points da série, para mim, foi o facto de prometer um novo olhar sobre personagens que muitos de nós já consideram familiares - Victor Frankenstein, um jovem médico que instalou um workshop de construção de humanos na cave, e Dorian Gray, um jovem socialite que também instalou coisas na cave, mais particularmente um retrato de si mesmo. Por coincidência, ou talvez não, os personagens com base literária acabam por parecer os hipsters do grupo, mas isso é um detalhe que não deve ser mencionado fora dos círculos mais profundos da fandom. (ainda não se conhecem, mas prevejo um autêntico Battle Royale pelo título de Ultimate Dandy)




A equipa fica completa com Ethan Chandler, um Americano completamente normal com boa pontaria, Brona Croft, uma imigrante Irlandesa a morrer de tuberculose, e Sembene, o companheiro silencioso (mais ridiculamente competente, escrevam o que vos digo) de Sir Malcolm.





Não consigo não elogiar este elenco, sinceramente. Eva Green é absolutamente espectacular como Vanessa Ives - se esta série faz o favor de contrastar Vanessa e a desaparecida Mina como duas faces quase completamentares, uma sempre de negro, uma sempre de branco, então faz sentido ter Eva Green a representar o papel mais sombrio. Para mim, ela é a definição de Dark Feminine - complexa, segura de si mesma, e com muitos esqueletos no armário. E representa bem que se farta, como demonstrado por todos os episódios até agora, particularmente Séance e Closer Than Sisters. Vanessa é, quer se queira quer não, a protagonista da série, e a verdadeira essência de Penny Dreadful - violenta, sexual, inteligente, excessiva e controlada ao mesmo tempo, sempre com margem para uma ou outra piada bem colocada.



Tenho também de mencionar a minha completa obsessão por Harry Treadaway como Victor Frankenstein, porque nunca pensei que fosse possível pôr um poster boy da Burberry a fazer este papel. Adoro a vulnerabilidade que ele traz ao personagem, e acima de tudo, acho-o credível naquela corda bamba entre cientista punk (palavras do actor, não minhas) e poeta frustrado com perfeita noção de que o universo está contra ele, e com razão. Todo ele é um raio de sol.



Ainda numa de personagens, menção honrosa para as performances de Alex Price e Olly Alexander, nos episódios 1-2 e 3-4, respectivamente. Não ficam connosco muito tempo, mas empatizei mais com eles do que com muitos personagens principais noutras séries.




Em termos de plot, tenho visto críticas acusando a série de ser demasiado lenta para algo que se pretende terminar em oito episódios (embora tenha sido, entretanto, confirmada a segunda temporada). Pessoalmente, vejo Penny Dreadful como uma série acima de tudo character-driven, pelo que o desenrolar do enredo acaba por ficar em segundo lugar face ao desenvolvimento dos personagens - prefiro passar um episódio a ver Dorian Gray a falar apaixonadamente sobre orquídeas do que ver gente a caçar vampiros só porque sim.

Obviamente, é uma série que precisa urgentemente de mais mulheres, e mais pessoas de cor (Sembene tem menos de uma fala por episódio, o que é trágico, porque tudo o que quero na vida é ouvir Danny Sapani a narrar a história do universo), mas já leva alguns pontos bónus por não ter passado um paninho branco sobre a orientação sexual do menino de ouro de Oscar Wilde. É sempre hilariante ver audiências reagir à não-heterossexualidade de um personagem principal e anunciar que não tencionam ver nem mais um episódio - para citar uma conversa que ouvi sem querer num evento social, agora está na moda tornar toda a gente gay.


Acima, o Oscar e o Bosie mostram-se desiludidos com esta tendência moderna de aceitar pessoas pela sua sexualidade.

Ainda em matérias vagamente sexuais, pessoalmente, tenho sempre algum receio de ver séries de época, pelo facto de os criadores aproveitarem a "correcção histórica" para disfarçar a sua misoginia, fazer duas cenas de sexo irrelevantes por episódio, e despir todas as personagens femininas sempre que possível. (estou a olhar para ti, Da Vinci's Demons, estou sempre a olhar para ti) Penny Dreadful, para mim, tem feito um trabalho brilhante a desconstruir estes clichés - as cenas de sexo estão lá, mas acho-as ridiculamente bem filmadas, e a nudez não é um fenómeno que só afecta, por alguma razão, as mulheres do elenco. E já agora, este é um bom momento para confessar que, ontem, vi um reviewer a queixar-se que a nudez total do monstro de Frankenstein o deixava desconfortável. Eu compreendo. É lixado quando um personagem que tem todas as razões e mais algumas para estar nu aparece nu no background de uma cena, não é? (eu nem reparei) Nada que se compare à constante nudez de personagens femininas tantas vezes acompanhada de ângulos de câmara reminiscentes de um filme pornográfico, claro, porque isso já é tão comum que nem olhamos duas vezes. É assim que nos apercebemos da existência de um problema, caros amigos - uma mulher nua é "normal", um homem nu é "desconfortável". Azar o vosso, e lavo disto as minhas mãos.

Visualmente, a série é extraordinária. Tenho andado a ver os vídeos da produção no Youtube, e o cuidado dedicado à parte estética da coisa só aumenta o meu respeito por todo este trabalho - o visual dos vampiros é conseguido através de maquilhagem (pensei que era CGI, fiquei parva), e a equipa construiu um teatro inteiramente funcional para realizar a visão que John Logan tinha do seu Grand Guignol, uma adaptação Londrina de um teatro Parisiense conhecido pelo mesmo tipo de conteúdos que os penny dreadfuls da época.




A conclusão disto tudo é que Penny Dreadful tem tudo o que gosto de ver numa série - um ensemble cast de lobos (HAHA) em pele de cordeiro, toda aquela ambiência pseudo-Vitoriana que acerta o suficiente para ser credível (sim, refiro-me ao guarda-roupa) sem se preocupar com os detalhes irrelevantes, uma variedade absurda de referências que só serão, decerto, apanhadas por pessoas de leituras mais vastas que as minhas (só li The Picture Of Dorian Gray e Dracula, mas começo a pensar que talvez seja boa ideia ler Frankenstein durante o hiato, e talvez também The Tempest, The Phantom Of The Opera, e uns cinco volumes de poesia romântica), um respeito descomunal pelas obras que adapta, e nas palavras do próprio Sir Malcolm, um mundo onde a ciência e a superstição andam de mãos dadas.

Espero ansiosamente os três últimos episódios, e estou mais do que capaz de considerar esta uma das minhas séries favoritas... de todos os tempos. Quem já viu?
Read more >

Opinião: 'The Corset: A Cultural History', Valerie Steele



★ ★ ★ ☆ ☆

The Corset: A Cultural History
Valerie Steele

An essential element of fashionable dress from the Renaissance into the 20th century, the corset has been viewed not only as an object of eroticism but also as an instrument of torture and subjugation. This is an exploration of the cultural history of the corset.

Continuando na minha vaga de leituras de não-ficção, motivada em grande parte pela experiência marcante (no melhor dos sentidos, acreditem) que foi ler The Secret History em dois ou três dias, o livro que hoje vos trago foca-se naquela que é, para muitos, a peça mais de roupa mais polémica da história da humanidade. Yup, é um livro sobre corpetes - ou espartilhos, se preferirem a palavra que soa mais dolorosa.

Valerie Steele é uma autora especializada em história da moda, e neste livro, dedica-se a uma análise contextualizada da história do corpete, desde as suas origens até aos nossos dias, passando pelo seu auge na época Vitoriana. Em seis capítulos, a autora explora a função original do corpete, visto como um instrumento auxiliar na construção do corpo aristocrático ideal; os movimentos sociais anti-corpete do século XIX, liderados tanto por grupos feministas como por médicos e "homens de ciência"; a forma como o corpete já era, nesta época, sexualizado e visto como um objecto de grande valor erótico; e finalmente, a utilização do corpete nos dias de hoje, associado a novos ideiais de beleza que pouco têm a ver com a aristocracia ideal descrita no início do livro.

É um livro ilustrado com fotografias e gravuras das várias épocas retratadas, o que acaba por compensar o seu tom aborrecido - é um pouco como ler um livro escolar, para ser sincera. Aprendi um par de coisas novas, mas no geral, achei o livro pouco interessante para alguém que já tenha algum conhecimento sobre o assunto. As suas 176 páginas poderiam ter sido melhor aproveitadas com outro tipo de informação.

Três estrelas, e assim continua a busca por um livro que me diga tudo o que preciso de saber sobre corpetes. Não é este. Nope.
Read more >

Opinião: 'The Empire Of Death' e 'Heavenly Bodies', Paul Koudounaris



★ ★ ★ ★ ★

The Empire Of Death
Paul Koudounaris

In this tour de force of original cultural history, Paul Koudounaris takes the reader on an unprecedented international tour of macabre and devotional architectural masterpieces in nearly 20 countries. This is the first book to bring together the world's most important charnel sites, ranging from the crypts of the Capuchin monasteries in Italy and the skull-encrusted columns of the ossuary in Évora in Portugal, to the strange tomb of a 1960s wealthy Peruvian nobleman decorated with the exhumed skeletons of his Spanish ancestors. Illustrated with specially taken photographs of sites rarely open to the public and forgotten archive images of others long destroyed, this mesmerising, shocking and deeply moving book is an essential memento mori for our modern age.

Perturba-me muito, não saber se a palavra "tafofilia" existe em bom português. O blog Mort Safe diz que sim, e define a palavra como "a atracção (mórbida ou não, de acordo com o ponto de vista de cada um) por túmulos e cemitérios". Se é possível sofrer de tal coisa, eu sofro, e se é possível ter toda uma carreira tafófila... este senhor tem.

Paul Koudounaris é um autor e fotógrafo de Los Angeles, doutorado em História da Arte, que decidiu dedicar a sua vida literária ao campo dos ossuários e capelas dos ossos. Há quem o considere uma celebridade no campo da arte "macabra", e eu sinto-me inclinada a concordar. Hoje, vou rever os seus dois livros já publicados - juntos não só devido à temática, mas também por me parecer que são melhor apreciados quando lidos em conjunto.

O primeiro dos dois, The Empire Of Death, foi publicado em 2011, e inclui dezenas de fotografias, algumas delas inéditas, de ossuários localizados maioritariamente na Europa. Desde as Catacumbas de Paris ao famoso ossuário de Sedlec, os monumentos mais reconhecíveis estão todos incluídos, acompanhados por exemplos mais humildes como a nossa pequena capela de Campo Maior. Sabiam que, de acordo com Koudounaris, Portugal é o país da Europa com mais estruturas decoradas com ossos humanos? Da próxima vez que vos disserem que não valemos para nada, lembrem-se disso (sempre funciona como ameaça).

As fotografias de Koudounaris são acompanhadas por textos minuciosamente detalhados, que misturam factos históricos e relatos anedóticos do próprio autor. O texto acompanha as diversas fases artísticas da construção destes monumentos, começando pela Contra-Reforma do séc. XVI, e oferece contexto a praticamente todos os monumentos fotografados. Desde criptas onde era comum senhoras "adoptarem" um crânio, a um candelabro feito com pelo menos um exemplar de cada osso do corpo humano, há aqui mais do que informação para os tafófilos (palavra do dia!) interessados.

Relativamente à minha experiência com o livro, tenho de admitir que demorei... praticamente um ano a lê-lo. Em primeiro lugar, com imagens tão fabulosas, a tentação de ler apenas as legendas é muito grande; em segundo lugar, achei o texto talvez um tudo-nada demasiado académico. Ainda assim, este é um livro com pelo menos algumas pretensões académicas, pelo que não me parece justo acusá-lo de usar um tom errado. Simplesmente, não foi um que me desse vontade de "devorar" o livro. Mesmo assim, leva cinco estrelas, porque é o melhor livro que alguma vez li sobre o tema.

Vantagens de ser o único autor num dado campo de estudos, huh?



★ ★ ★ ★ ★

Heavenly Bodies
Paul Koudounaris

Following on the success of his book The Empire of Death , which has attracted a global cult following, Paul Koudounaris brings the catacomb saints out of the darkness with this astonishing volume, which includes arresting images of more than seventy spectacular jeweled skeletons and the fascinating stories of dozens more, accompanied by rare archive material. This is the first time that some of these incredible relics both intriguing historical artifacts and masterpieces of artistic craftsmanship in their own right have appeared in a publication, with Koudounaris gaining unprecedented access to photograph in some of the most secretive religious establishments in Europe. This will be essential reading for goths, art historians and everyone in between.

Ora, a questão é que o problema do tom excessivamente académico é rectificado com o segundo livro do autor, Heavenly Bodies. Este é mais pequeno, mais prático de manusear, e pareceu-me, até mesmo pela encadernação (tem um dustjacket, coisa que ao primeiro falta), que foi publicado com a intenção de ser lido, ao invés do primeiro, que é um livro para ser "mostrado". Sabem aqueles livros da Taschen que toda a gente tem nas mesinhas de centro mas ninguém lê, efectivamente? Pois, refiro-me a isso.

Heavenly Bodies é, para mim, o melhor destes dois - e o seu tema empresta-se mais à comédia, diga-se de passagem. Este volume, publicado em 2013, conta a história praticamente esquecida de um grupo de esqueletos retirado das Catacumbas Romanas no século XVII, e posteriormente decorado lascivamente (se alguma vez houve contexto para esta palavra, é este) por equipas de freiras, com jóias e vestes do mais exuberante possível. Se isto soa a black comedy, esperem até vos ser dito que estes esqueletos, de origem humilde, foram erradamente identificados como mártires do início da Era Cristã, decorados como tal, e depois exportados para territórios de língua Alemã como uma estratégia de Contra-Reforma Cristã. A maioria foi destruída durante o Iluminismo, quando finalmente se ganhou consciência do ridículo de tal prática, mas Koudounaris conseguiu acesso aos exemplares sobreviventes (certo, sobreviventes...), e daí saiu este livro.

Aqui, o tom académico é colocado de lado para dar lugar a um tom mais informal, quase irónico em determinadas passagens. Dei por mim a rir à gargalhada várias vezes, com descrições do Papa a descer às Catacumbas e a apontar os esqueletos que, tinha ele a certeza, eram mártires, ou com a fase em que a criatividade para baptizar mártires começou a esgotar-se, dando azo a pérolas como Saint Anonymous, Saint Incognitus, and Saint Innominabilis.

Há algo, para mim, de muito trágico em toda esta história, mas também de... ingénuo. Adorei ler este livro, e merece cinco estrelas mais sólidas do que o primeiro. Quer dizer, quase chorei com a história de dois "santos" que foram retirados da sua igreja contra a vontade da população, e devolvidos 70 anos depois. Ha dias assim. A vida real consegue ser mais estranha do que a ficção.

Agora... tenho ouvido rumores de que Paul Koudounaris anda a investigar demónios sexuais e gatos possuídos por demónios. Para quando os livros?
Read more >

Opinião: 'The Secret History', Donna Tartt



★ ★ ★ ★ ☆

The Secret History (publicado como A História Secreta em PT)
Donna Tartt

Richard Papen arrived at Hampden College in New England and was quickly seduced by an elite group of five students, all Greek scholars, all worldly, self-assured, and, at first glance, all highly unapproachable. As Richard is drawn into their inner circle, he learns a terrifying secret that binds them to one another... a secret about an incident in the woods in the dead of night where an ancient rite was brought to brutal life... and led to a gruesome death. And that was just the beginning...

Por que é que li este livro?
Posso ser sincera? Gráficos bonitos no Tumblr. Essa foi a primeira gota. A última chegou há uns tempos, quando pedi ao meu Facebook que me sugerisse hangover books (vocês sabem... aqueles que nos deixam meios atordoados e incapazes de começar outro livro num futuro imediato) e uma amiga me sugeriu este livro. Pareceu-me que as estrelas se tinham finalmente alinhado.

Além disso, quem é que não quer acompanhar um protagonista desajeitado na sua busca pela atenção e amizade dos seus cinco senpais colegas de turma?

1. Plot
Já vi este livro descrito não como um whodunnit, mas um whydunnit. As primeiras páginas dão-nos a informação clara de quem um rapaz de nome Bunny foi morto pelo nosso protagonista & companhia, e a primeira metade do livro dedica-se principalmente à tarefa de reunir os personagens principais, dar-lhes um motivo, e colocá-los no local do crime. Todos sabemos que vai acontecer, mas ver toda a ginástica mental que é necessária por parte do grupo para efectivamente levar o seu plano avante acrescenta um novo nível de dor a esta leitura. A segunda metade do livro dedica-se à aftermath do crime - a investigação criminal, o aperto do cerco policial, a coragem necessária para ir ao funeral de um amigo que se assassinou. Nesta fase, acho que é legítimo dizer que o leitor já não está muito preocupado com o crime em si - é a lenta degradação das personagens, das suas relações e do seu carácter, que nos faz virar a página.

Este não é um livro rápido. Não é um page-turner. É, sim, o tipo de livro que sádicos como eu usam para entretenimento quando queremos ver seres humanos em espirais de auto-destruição, mas estamos demasiado doentes e fracos para os colocar lá. (confiem em mim, estava de cama quando li isto, sei do que falo)

2. Personagens
Richard Papen, o nosso protagonista, é um rapazito pretensioso. Muito se tem falado de protagonistas pretensiosos ultimamente, em grande parte devido ao sucesso estrondoso de livros como The Fault In Our Stars (shots fired), mas acho que Richard é bem capaz de levar a taça nesta categoria. Depois de uma infância aborrecida numa pequena cidade na Califórnia, Richard ingressa no Hampden College, Nova Inglaterra, onde aproveita para criar uma nova personalidade para si mesmo, uma que não destoe entre os seus novos e privilegiados colegas. A vida de Richard é um jogo de aparências, desde a forma como se veste à forma como trata as pessoas à sua volta - e não me venham dizer que frases como "apetecia-me agarrá-la, violá-la" não são um óptimo exemplo de um rapaz a tentar representar à força toda uma personalidade (super dominante, super hetero, super máscula) que nada tem a ver com a sua. Pessoalmente, acho Richard uma pessoa detestável, mas um óptimo narrador para este tipo de livro. Sejamos sinceros, muitos de nós também não hesitariam em mentir um bocadinho para impressionar uns quantos lobos em pele de cordeiro.

O grupo principal fica depois completo com Henry Winter, génio pouco emotivo e mastermind do grupo; Bunny Corcoran, racista, homofóbico, e em bom português, amigo da onça... também conhecido como Asshole Victim; Francis Abernathy, um misto de príncipe e Jack The Ripper (toda a gente adora esta citação, não olhem para mim); e Camilla e Charles Macaulay, os gémeos órfãos aparentemente funcionais. O mentor do grupo dá pelo nome de Julian Morrow, o professor de grego mais despótico que alguma vez li, e devo confessar, também a personagem que menos compreendi. Se a princípio pensei que isto ia dar numa de The Philosophers, com o professor a convencer os seus pupilos da beleza de um homicídio bem cometido... afinal Julian acaba por ficar mais traumatizado do que o leitor quando descobre os pequenos monstros a quem andou a ensinar filosofia. Oops.

Uma crítica que tive relativamente a este grupo, assim que acabei de ler o livro, foi o facto de incluir apenas uma rapariga, aliado ao facto de a sua inclusão parecer servir o único propósito de dar ao livro uns quantos subplots românticos. “Parecer” é, no entanto, a palavra-chave, ou não fossem as relações entre os rapazes do grupo um labirinto igualmente complexo de atracções mal resolvidas. Como diria esta citação nunca de facto presente no livro:

Fine, okay. I guess we’re not really family. It’s more complicated than that because unlike a real family there’s nothing to stop any one of us from looking at each other as sexual prospects.

Mas voltando a Camilla. Camilla é a única rapariga do grupo, e agora percebo porquê. Este livro é, muito basicamente, um estudo sobre o conceito de privilégio, e Camilla existe na posição em que existe para demonstrar isso mesmo - este é um mundo de homens, e não existem muitas formas aceitáveis de ser mulher nele, pelo que Camilla se debate constantemente entre a sua personalidade, e a personalidade adequada aos frágeis egos dos rapazes com quem se dá. Esta não é, de todo, a minha forma favorita de levar o feminismo para a ficção – já o disse muitas vezes, mostrar opressão não chega, é preciso que a personagem oprimida tenha uma oportunidade para combater essa opressão –, mas devo admitir que aqui... até funciona.

3. Setting/worldbuilding
Uma universidade Americana nos anos 80. Richard tem aulas de grego, partilha o seu dormitório com todo um exército de consumidores de substâncias várias, toda a gente bebe, toda a gente fuma, toda a gente adora excessos e drogas e rock n'roll.

E curiosamente, não foi isto que me ficou como imagem mental quando acabei este livro. Nope. O que ficou foi a floresta. E os lagos, e a casa de campo, e a ravina onde Bunny morreu, e a casa dos gémeos tão ridiculamente decorada com todos os tipos de oddities, e o cemitério, e o escritório de Julian que cheirava sempre a flores frescas e chá acabado de fazer. Ficaram as folhas que iam mudando de cor com as estações, e ficou a casa-de-banho ensanguentada depois da orgia (right, talvez já devesse ter mencionado isso, pessoal... há uma orgia, conhecida oficialmente por Bacanal).

Basicamente, ficaram os sentimentos e as imagens invocadas pelo setting, mas nenhum facto concreto sobre o setting em si. Não me vão ouvir a queixar, pois adoro quando isto acontece.

4. Estilo de escrita
Ooooooooh, boy. Donna Tartt escreve bem que se farta (se repararem, este é um elogio que reservo apenas aos escritores tão bons que até irritam), e não há página do livro que não se possa citar de forma pretensiosa para impressionar os nossos inimigos mais próximos. É possível que o estilo do livro seja demasiado purple para alguns, mas não o é para mim – afinal, eu sigo a escola de pensamento Angela Carter e os seus dois mandamentos. Escreve prosa bonita, e nunca peças desculpa por ela.

Em resumo...
Imaginem um prédio. Se o prédio cair, as críticas vão concentrar-se na sua estrutura, nas suas falhas, na forma como foi construído. Mas se o prédio não cair, que é o mínimo que se pode exigir dele... vamos elogiar a técnica que o construiu? Vamos dedicar centenas de palavras à forma como os responsáveis conseguiram colocar um tijolo em cima do outro e manter o edifício de pé? Nope. Vamos mencionar tudo isso, claro, mas depois vamos acabar por nos concentrar em coisas inúteis como "adoro aquela gárgula", ou "o corrimão da escada principal não serve para nada mas é bonito e eu gosto".

É por isto que sou tão má a opinar sobre livros que me agradam. É difícil manter-me concentrada, e é difícil manter-me séria, porque as coisas que gosto neles não estão em nada relacionadas com críticas objectivas que vos poderiam levar a lê-los. Senti-me em casa, com este livro. Senti que conhecia estas pessoas, e senti-me muito, muito investida nas vidas delas. É mais um daqueles casos em que as personagens e a escrita são tão boas que eu não me importaria se todo o livro fosse uma lista de compras.

Leiam The Secret History, pessoal. Jantar de cinco estrelas para dois, cogumelos, bilhetes para a América do Sul, revólver. É das melhores listas de compras que alguma vez li.
Read more >

[PT] "Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar" de Thomas Cathcart & Daniel Klein



★ ★ ★ ☆ ☆

Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar
Thomas Cathcart, Daniel Klein
Dom Quixote, aprox. 240 páginas

Platão e Um Ornitorrinco Entram Num Bar...é um livro para todos aqueles que não querem levar demasiado a sério as coisas sérias. Não precisa de saber muito de filosofia para desfrutar em pleno deste livro, pois está escrito ao estilo de Marx (Groucho, não Karl). Os autores, ambos licenciados em Filosofia por Harvard, tiveram o cuidado de não deixar nada de fora e, como tal, através deste divertido livro qualquer leitor compreenderá as grandes ideias da filosofia ocidental e fará uso delas da melhor forma possível: com humor. O livro provoca o riso, mas também deixa o leitor a pensar. É um autêntico curso intensivo em que se explica a filosofia através de uma série de anedotas e histórias cómicas

Este livro promove-se como um "divertido [...] curso intensivo", e ... bem, é exactamente isso. Do Existencialismo ao Feminismo, passando pela Epistemologia e pela Fenomenologia, há filosofia para todos, geralmente ilustrada com aquele tipo de piada que não se conta a ninguém cuja opinião se tenha em elevada consideração (quer dizer... a não ser que a intenção seja fazer um inimigo para a vida).

No geral, este livro foi um passeio bem-disposto pela arte de pensar (sobre pensar), e embora tivesse preferido que algumas secções fossem mais aprofundadas, sei que não posso exigir isso de um auto-denominado "curso intensivo". Assim, é um óptimo livro para filósofos principiantes, ou para aqueles que queiram revisitar o ensino secundário.

Ah, e finalmente, pontos de bónus para a apresentação do livro em si - da capa dura ao design interior das páginas, está mesmo, mesmo bonito.
Read more >

[PT] "Encontro Magick seguido de A Boca do Inferno" de Miguel Roza



★ ★ ★ ☆ ☆

Encontro Magick seguido de A Boca do Inferno
Miguel Roza
Assírio e Alvim, aprox. 570 páginas

Uma novela policial de Fernando Pessoa e toda a correspondência que lhe deu origem, com o "mago", poeta e pintor inglês Aleister Crowley, além de outras personalidades do mundo esotérico tão caro a Fernando Pessoa. Compilações de rara iconografia da época, fac-símiles e notas elucidativas existentes no dossier Crowley-Pessoa, organizadas por um seu sobrinho.

O meu interesse por Fernando Pessoa é acidental, na melhor das hipóteses, e o mesmo se pode dizer para Aleister Crowley, mas a sua associação - por muito breve que tenha sido, e tendo culminado no falso suicídio de Crowley na Boca do Inferno - sempre que pareceu curiosa.

Ora bem, encontrei este livro na Bertrand há uns tempos, e ataquei. O livro está estruturado em duas partes: uma selecção de correspondência entre Pessoa e Crowley; e o rascunho da novela que Pessoa começou (mas nunca terminou) relativamente aos eventos passados na Boca do Inferno.

Os acontecimentos retratados, em si, são interessantes (é divertido ver o outro lado de Pessoa, com um ligeiro sentido de humor, e uma dose saudável de oportunismo), mas da parte de Miguel Roza, o autor, acho que faltou uma conclusão, algo que pontuasse o final do livro para que o leitor não virasse a página no fim da novela de Pessoa para encontrar apenas o índice. Da forma como o livro foi estruturado, sem essa hipotética conclusão, pareceu-me claro que o autor estava muito mais interessado no lado de Pessoa do que no lado de Crowley - e se é verdade que o fim da associação de ambos é o momento lógico para terminar o livro, também me pareceu que ficava tudo um pouco no ar. O que aconteceu a Crowley depois do seu falso suicídio? Quando é que ele reapareceu em público? Quais foram as consequências do embuste? Houve mais artigos jornalísticos sobre o assunto, tanto em Portugal como no estrangeiro?

Teria sido interessante obter essas informações - como o livro está, parece incompleto, já para não dizer ligeiramente "preguiçoso".
Read more >

[PT] "The Lovely Bones" de Alice Sebold



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Lovely Bones
Alice Sebold
Ebook, aprox. 320 páginas

Susie Salmon tem o olhar vivo e irrequieto dos seus catorze anos. Observa o desenrolar da vida: os colegas da escola, a família, o lento passar dos meses e das estações. Está tudo muito calmo, tudo parece muito acolhedor. Um único pormenor desmente tanta placidez: é que, de facto, Susie já morreu. Estranhamente, o céu parece-se muito com o recreio da escola, nem sequer faltam os baloiços. A pouco e pouco, Susie compreende que é o centro das atenções: os colegas comentam os rumores sobre o seu desaparecimento, a família ainda acredita que ela poderá ser encontrada, o assassino tenta esconder as pistas do seu crime...

Estou com pouco tempo e ainda menos paciência, pessoal, por isso perdoem-me, mas vamos saltar directamente para a opinião.

1. Plot
É ligeiramente complicado reduzir The Lovely Bones a um plot, porque no sentido “tradicional” da expressão, o livro não tem nenhum. A história acompanha Susie, uma jovem de 14 anos que chega ao céu depois de ter sido violada e assassinada. Lá de cima, ela observa a forma como o seu assassino se vai evadindo à polícia e como os seus amigos e familiares lidam com a sua ausência, e passa a adoptar uma posição de narradora – pois a verdadeira história continua a desenrolar-se cá em baixo, no nosso velhinho planeta Terra.

Portanto, para começar numa nota positiva, adorei esta pequena particularidade, em que a personagem “principal” é na verdade uma narradora não participante – os eventos descritos ocorrem devido à sua morte, mas ela não tem qualquer agência sobre eles durante 90% do livro. Foi uma boa ideia, e no geral, achei que foi bem conseguida. A autora desliza um pouco entre os pólos de omnisciência da personagem – em determinadas cenas sabe tudo o que as pessoas estão a pensar, noutras limita-se a imaginar sem fazer a menor ideia –, mas não é uma falha pela qual a vá massacrar, pois não influenciou minimamente a minha experiência de leitura.

O grande problema aqui é que de boas ideias está o inferno cheio, e Alice Sebold, para usar uma expressão tipicamente Portuguesa, teve mais olhos do que barriga. Na sua tentativa de explorar o luto de um bairro inteiro, acabou por introduzir demasiadas personagens, vendo-se depois obrigada a “fechar” todos os subplots um pouco apressadamente no final. A menos de 50 páginas do fim, lembro-me de ter comentado com a minha irmã “não consigo imaginar como é que ela vai resolver isto, não sei com que raio de final é que ela se vai sair”.

E perdoem-me os spoilers, mas por alguma razão, a autora achou que a melhor forma de terminar um livro sobre uma adolescente morta que dedica sete anos no céu a observar a família na Terra... é trazê-la de volta para fazer sexo com o rapaz que beijou quando tinha 14 anos. Só de si, isto já é absurdo, mas consegue ser pior – obviamente Susie, a nossa protagonista precisa de um corpo para poder dar largas à sua sexualidade, portanto o que é que faz? Possui o corpo de uma “amiga” que ela e o tal rapaz têm em comum, e usa o corpo dela. E deixem-me só mencionar que esta segunda rapariga é lésbica, e não tem grandes amigos além do rapaz em questão.

Portanto, imaginem comigo este belo momento. Susie usa o corpo da tal rapariga para fazer sexo, corre tudo muito bem e é um momento muito romântico, ou disso nos tenta convencer a autora... mas imaginem o lado da segunda rapariga, Ruth. Durante o período em que Susie ocupa o corpo dela, Ruth está no céu (como se tivesse sido feita uma troca entre as duas), não faz a mais pequena ideia do que está a acontecer ao seu corpo, e não tem forma de comunicar com Susie. Esta troca dura algumas horas, no fim das quais Susie regressa ao céu e Ruth regressa ao seu corpo. Ora, onde é que está o corpo de Ruth? Numa cama estranha, numa casa estranha, meio despido, enquanto um rapaz (já mencionei que era o seu único amigo?) toma banho na divisão ao lado. Momentos depois, ele sai, também meio despido, e informa-a de que acabaram de fazer sexo, várias vezes, até foi porreiro – e obviamente, Ruth não se lembra de nada.

Tirem um segundo para imaginar o horror desta situação, e depois olhem-me nos olhos e digam-me que isto não é uma violação. Nem quero ouvir-vos. É. Portanto... bom trabalho senhora Sebold, conseguiu começar com uma violação e acabar com outra. Só é mesmo pena a narrativa não reconhecer esta segunda por aquilo que efectivamente é.

2. Personagens
Já tenho lido várias opiniões em contrário, mas gostei bastante das personagens neste livro. É verdade que, em certa medida, são personagens-tipo e não primam pela originalidade, mas as suas reacções aos eventos descritos pareceram-me sempre realistas e “honestas”.

A minha personagem favorita foi sem dúvida Ruth, a rapariga mencionada acima, e embora também ela tenha sofrido um pouco às mãos dos estereótipos da autora (lésbica, feminista, lê Sylvia Plath, queixa-se alto e bom som que se sente oprimida pelo facto de a sociedade valorizar tanto a depilação), pareceu-me uma personagem com boas histórias para contar.

E só uma nota em relação ao meu comentário sobre estereótipos – não há nada de errado em ser lésbica, ser feminista, ler Sylvia Plath, ou ter umas quantas contas a ajustar com esta sociedade que gosta que tudo o que é mulher depile as pernas. Todas essas coisas são válidas. Só gostava de que não tivessem sido todas usadas na mesma personagem para a caracterizar como a rapariga silenciosa e associal que é “diferente” em todos os aspectos.

Além de Ruth, gostava também de ter acompanhado um pouco melhor o responsável pela violação/homicídio da nossa protagonista, só mesmo para compreender as suas motivações – o personagem continua a parecer realista na medida em que é um estereótipo de pedófilo/assassino que os leitores já conhecem, mas poderia ter sido mais aproveitado.

3. Setting/worldbuilding
O livro passa-se, na sua maioria, num típico bairro suburbano, e é fácil ter uma imagem mental do local a partir das descrições da autora. No que toca ao mundo “real”, não há muito a dizer; no que toca às secções do livro que se passam no céu, aí sim, acho que a autora perdeu algumas boas oportunidades de explorar um setting totalmente novo e que, para todos efeitos, não é comum noutros livros.

4. Estilo de escrita
Se vos disser que o livro parece escrito por uma adolescente de 14 anos com uma tendência para usar palavras grandes, vão ter perfeita noção do que estou a falar, não vão? Perfeito, porque é exactamente isso. Alice Sebold escreve num estilo adequado à história que está a contar, e embora as suas descrições tenham alguns momentos menos felizes, o livro não está de todo mal escrito.

Resumindo, estrutura interessante, personagens adequadas ao contexto, estilo e setting razoáveis, plot apressado com um final absolutamente desastroso. Ia dar três estrelas, mas com um final destes, não posso dar mais de duas.
Read more >