Opinião: Antologia 'Na Sombra das Palavras'



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'Na Sombra das Palavras'
Vários autores

Na Sombra das Palavras” reúne cinco contos de autores portugueses, combinando thriller e fantástico em histórias de amor, memórias esquecidas e encontros com a Morte e Deus. As palavras transportam o leitor para labirintos, panópticos, livrarias e memórias longínquas. Com contos da autoria de Ângelo Teodoro, David Camarinha, Fábio Ventura, João Ventura e Mário Seabra.

Boa noite, quase manhã, camaradas - estou atrasada, como de costume, mas vamos ignorar isso.

Hoje trago-vos o primeiro livro do catálogo da Editorial Divergência, uma nova editora centrada na ficção especulativa, que pretende apostar em exclusivo no mercado e escritores nacionais. Na Sombra das Palavras é uma antologia de thrillers e contos fantásticos, composta por cinco trabalhos, de cinco autores distintos. Foi publicada em formato físico e digital, com os preços altamente aceitáveis de 2.50€ e 1€, respectivamente. Ninguém pode dizer que a editora não está a cumprir com a sua intenção de vender edições acessíveis! Só comprei o ebook, mas acho que vou acabar por comprar a versão em papel - sempre é uma segurança para o futuro, já que todos os envolvidos nesta edição vão acabar famosos de uma forma ou de outra.

Vamos então falar dos contos.

O Livreiro, Fábio Ventura
A antologia abre com um conto que, à primeira vista, seria muito fácil de classificar como realismo mágico. Um livreiro conhece uma mulher de papel, e para citar Donna Tartt (naquela que será sempre a melhor descrição alguma vez feita de uma cena de sexo), matters progressed. Embora não me possa dizer fã do estilo do autor (é um tanto ou quanto repetitivo), o conto até me cativou, até perceber qual seria o plot twist final - que achei mais previsível do que surpreendente.

A Lista de Deus, João Ventura
Este conto pareceu-me um tanto ou quanto deslocado dos outros, para ser sincera. Talvez por uma questão de setting, mas também de escala - os restantes autores da antologia focam-se em histórias pessoais, mas aqui vem João Ventura com um apocalipse profetizado numa versão alternativa dos Génesis, e tive alguma dificuldade em conseguiu encaixar o seu trabalho com os restantes. No entanto, nada disto afecta a qualidade do conto. Está bem escrito, e razoavelmente bem estruturado - e digo "razoavelmente", note-se, porque me parece que este conto, tal como um outro na antologia, poderia ter beneficiado de mais algumas páginas para se desenvolver. Como está, o final chegou demasiado cedo, não dando ao leitor tempo de se preparar para as verdadeiras implicações do que estava a ler.

O Panóptico, David Camarinha


Desculpem, desculpem, mas andei toda a minha vida à procura de uma boa ocasião para usar esta imagem, e finalmente consegui. David Camarinha escreveu o meu conto favorito desta antologia, ou não fosse eu ligeiramente obcecada pelo Panóptico. (lembram-se do livro de Jenni Fagan que discutimos em Dezembro? pois, there you go) O Panóptico demonstra, basicamente, como utilizar um limite de 2k palavras para mostrar todo um mundo ao leitor. A escrita é super elaborada (alguns chamar-lhe-iam purple prose, por mim tudo bem), os personagens relevam-se apenas na medida do necessário (teria sido ainda melhor se tivessem sido mantidas todas anónimas), e o twist final...

Bem, o twist final merece um parágrafo próprio, porque é exactamente o mesmo twist usado por Fábio Ventura no conto inicial, com um efeito totalmente diferente. Também o adivinhei a tempo, mas em vez de sentir ah ok, fixe senti ah ok, fixe, MAS MEU DEUS O PANÓPTICO ACRESCENTA CERCA DE DEZ MIL NOVAS IMPLICAÇÕES A ISTO E ACHO QUE PRECISO DE ME SENTAR. Adorei, a 100%, melhor conto da antologia sem competição possível.

Labirinto de Papel, Ângelo Teodoro
O que mais me agradou neste conto foi, sem dúvida, a sua ambiência. O título, Labirinto de Papel, não poderia ser mais adequado, e as suas interpretações são múltiplas. Por outro lado, este conto também me pareceu o mais "clássico" de todos - tem uma estrutura princípio/meio/fim clara, bem estruturada, utiliza perfeitamente as suas personagens, e o mistério vai crescendo de forma gradual à medida que nos aproximamos do final. Adorei a forma como os personagens funcionaram quase como espelhos um do outro, com uma evolução semelhante nas suas reacções, e no geral, poucas críticas tenho a fazer. Até o estilo de escrita me deixou a sorrir. Segundo favorito, gostei bastante.

Tábula Rasa, Mário de Seabra Coelho
Lembram-se quando disse, acima, que havia um outro conto que poderia ter beneficiado de mais algum tempo (ou espaço?) de antena? Estava a falar deste. Tábula Rasa apresenta-nos o que me parece ser, acima de tudo, uma amostra de algo maior. O worldbuilding deste conto não cabe, nem de perto nem de longe, no espaço a que tem direito na antologia, e isso não funciona a seu favor - para quê dar-me nomes e backstory se não tenho tempo para criar empatia com os personagens? Ou para aprender a distingui-los, sequer?

Não achei o plot nada de especial, mas gostei da escrita e adorei o conceito. Espero sinceramente que haja aqui pano para mais mangas, seja noutros contos, ou num livro completo.

Agora, tendo feito este apanhado geral dos contos, acho que é ainda importante deixar uma palavrinha à editora. Para primeiro livro, achei que este foi um óptimo esforço - não adorei todos os contos, mas achei-os adequados ao tema, e mais do que capazes de inaugurar o mundo da Divergência. Quanto à capa, tenho as minhas reservas... não por ser uma má capa, mas porque nada nela me sugere propriamente thriller fantástico. Finalmente, só tenho uma crítica muito séria a fazer: o que é que aconteceu ao nome do pobre Mário, que passa de Mário Seabra na capa a Mário Coelho na biografia? Não é o erro mais grave do mundo, obviamente, mas chega para desorientar qualquer um.

Posto tudo isto, dou umas saudáveis três estrelas à antologia, com votos de boa sorte a todos os autores, e à equipa da Editorial Divergência. Mandem para cá mais livros!

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