Opinião: 'Piratica', Tanith Lee



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Piratica: Being A Daring Tale Of A Singular Girl's Adventure Upon The High Seas
Tanith Lee

Artemesia Blastside is the daughter of a sea pirate, trapped in Angels Academy for Young Maidens. But more interested in the sea life, she escapes in search of her mother's old crew. As she sweeps the motley and unwilling crew into the treasure hunt of all time, will she be able to to win her mother's crown as the famous Piratica?

Por que é que li este livro?
Tanith Lee e uma jovem capitã pirata. É preciso dizer mais?

1. Plot
O enredo deste bicho é simples. Num mundo que é exactamente igual ao nosso, tirando os nomes mal disfarçados, uma jovem de nome Artemisia bate com a cabeça enquanto pratica a sua postura no colégio privado que frequenta. E claro, como em todas as boas obras de ficção, este potencial traumatismo despoleta nela uma torrente de memórias da sua infância, passada em alto mar com a falecida mãe, a capitã pirata mais famosa de todos os tempos. Inspirada por este flashback, Artemisia foge do colégio contra a vontade do pai (que a aprisionou lá, note-se) em busca da antiga tripulação do navio da sua mãe, muda de nome para Capitão Art Blastside, e lidera o seu bando de misfits em busca de um tesouro lendário.

Até aqui tudo bem - o problema é que Artemisia alucinou mais do que devia, porque as suas memórias do alto-mar se resumem a peças de teatro protagonizadas pela sua mãe e pelo grupo de actores que representava a sua "tripulação". Ou seja, noventa por cento dos personagens não estão aptos a navegar no que quer que seja - talvez nem num caiaque.

Ainda assim, eles lá vão e encontram o tesouro, derrotam a tripulação adversária num épico duelo, e escapam ao cadafalso sem um arranhão... porque isto é um livro para crianças/jovens e eu gosto de pensar que Tanith Lee sentiu necessidade de se simplificar em prol da sua audiência. Os seus piratas não matam, só roubam mercadores ridiculamente ricos que podem bem lidar com as perdas materiais... e no geral, para história de piratas, isto parece uma coisita assim meia deslavada.

Lee é muito melhor a escrever fantasias para adultos do que fantasias para crianças, e nota-se a léguas.

2. Personagens
Em poucas palavras, não gostei de nenhum dos pedaços de cartão com nomes e duas linhas de backstory que Tanith Lee me apresentou.

Artemisia sofre do mesmo síndrome da protagonista de A Face Like Glass, curiosamente - nada na sua personalidade nos leva a crer que ela seja capaz de fazer as deduções necessárias para avançar o enredo, mas isso não a impede de estar sempre um passo à frente do resto da humanidade.

Da sua tripulação, o único personagem que se destaca é Ebad, porque... bem, porque é negro, viveu parte da sua vida como escravo, e quase todas as suas aparições fazem questão de apontar estes dois factos, sugerindo ainda que talvez ele até seja descendente de Faraós. Os restantes marujos confundem-se uns com os outros, e quanto a nomes? Pois, não memorizei nenhum.

Posso ainda falar de Felix, o rapazinho misterioso e ligeiramente inútil que se junta à nossa caça ao tesouro por via de razões. É suposto eu acreditar que, a certa altura, ele se apaixona por Artemisia e vice-versa, mas para repetir opiniões já expostas neste blog sobre outros livros, acho este casal tão entusiasmante como um desenrolador de fita-cola.

Finalmente, temos Little Goldie Girl, uma personagem que, muito sinceramente, nunca pensei vir a ler num livro de Tanith Lee. Se há tal coisa como o estereótipo de mulher que só chegou ao poder pela sua beleza e posição na família, não procurem mais, esse estereótipo existe na pessoa de Goldie. Uma jovem capitã que se veste de forma impressionante e luta como uma besta desalmada, apenas para ser derrotada quando Artemisia lhe corta o cabelo e lhe marca o rosto com a sua espada? Por favor, Lee. Esperava muito mais de ti.

3. Setting/worldbuilding
Ok, então lembram-se de quando vos disse, no início, que este mundo era exactamente igual ao nosso? Estava a mentir, há uma diferença: Inglaterra é uma república.

Tirando isso, o worldbuilding deste livro resume-se a "o planeta Terra, tal como era em 1802, mas os sítios têm nomes diferentes" - ou seja, o rio Thames passa a ser o Thamis, e London passa a ser Lundon. Pergunto-me, será que isto era mesmo necessário? Não, porque não contribui em nada para o livro, e só me faz revirar os olhos face à verdadeira ingenuidade desta esquema.

Como nota de rodapé, é importante notar que Tanith Lee já fez isto antes, na série The Secret Books Of Paradys, escrita em 1988. Paradys é uma versão misteriosa e vagamente (ok, altamente) sobrenatural de Paris durante os séculos XVIII/XIX, mas a principal diferença face a esta Inglaterra republicana é que Paradys tem influência directa nas histórias que nela se passam. É worldbuilding com um propósito claro, ao contrário deste.

4. Estilo de escrita
Tanith Lee é conhecida pela sua escrita elaborada e elegante, e pelo seu talento nato para envolver o leitor nas suas palavras. Também aqui senti isso, mesmo sem me ter sentido particularmente atraída pela história.

Em resumo...
No geral, este livro desiludiu-me - mas é provável que isso se deva mais a um desajuste entre aquilo que normalmente espero da autora e aquilo que efectivamente ela tem margem para fazer num livro para crianças e adolescentes, do que propriamente à qualidade do mesmo. Por essa razão, este acaba por ser mais um daqueles casos em que não sou, de todo, a pessoa certa para avaliar a obra. Não gostei, mas talvez recomende a pessoas viradas para este tipo de narrativa. Duas estrelas!

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