Opinião: 'The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman', Angela Carter



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The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman
Angela Carter

In this magical adventure Desiderio is stricken with love for Albertina, a woman he sees only in his dreams. He must also battle against Dr. Hoffman and his mysterious machines as they bend time and space to turn Desiderio's city into a nightmare of lust, insanity and crime. But the evil Doctor is also Albertina's father...

Por que é que li este livro?
Já vos falei da minha Maratona Angela Carter, em que leio todos os livros da senhora apenas para poder bater com os pés e queixar-me que estas feministas dos anos 60 têm muito que andar? Yup, foi por isso que li este livro.

Oh, e aviso à navegação: este livro inclui imensas violações, das quais irei falar ao longo deste post. Estou a dizer-vos já para ninguém ser apanhado de surpresa. Ok? Ok.

1. Plot
Antes de mais nada, sentem-se, que isto vai ficar confuso.

The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman conta a história de Desiderio, um rapaz/homem perfeitamente normal que trabalha para o chamado Minister of Determination de uma cidade atacada por ilusões. Confuso? Ok, vamos tentar outra vez.

Era uma vez um cientista de ética questionável, de nome Doctor Hoffman. O seu objectivo é, obviamente, dominar o mundo, através de uma série de truques e ilusões que desviam o mais comum dos mortais do seu pacato dia-a-dia. Isto tem implicações vagamente hilariantes, como ruas que mudam de sítio todos os dias e "fantasmas" que se parecem em tudo com pessoas reais. A nossa história passa-se então na cidade que Doctor Hoffman usa como campo de testes para as suas armas de ilusão maciça - uma cidade que decidiu dar luta, na pessoa do seu Ministro da Determinação. E o que faz um Ministro da Determinação, perguntam-se vocês? Ah bem, determina. Determina o que é real e o que é ilusório, e tenta governar com base nisso.

Desiderio é o braço direito do Ministro, e quando este último desaparece misteriosamente, é ele quem é enviado para o procurar. Pelo caminho, vai sonhando com uma rapariga/mulher chamada Albertina, por quem se apaixona porque sim (é Carter, nunca a vi escrever um romance que faça sentido, lidemos com isso), e atravessando diversas realidades surreais em que toda a gente é violada porque sim.


Digo-vos, se tivesse levado a sério o meu próprio Angela Carter Drinking Game (um shot por cada cena de violência sexual), estaria a escrever esta opinião sentadinha nas urgências.

2. Personagens
Esqueçam. Desiderio é o tipo de protagonista masculino que deixa os senhores autores de meia-idade satisfeitos. Está sozinho no mundo, e tudo lhe é indiferente. Nada o fascina, nada o confunde. As mulheres com quem dorme são apelidadas de "brinquedos". Ele é uma ilha de consistência num mundo que se se esforça, todo o santo dia, por quebrar as regras do espaço e do tempo.

Ou seja, ele é extremamente aborrecido.

Por outro lado, temos Albertina, cujas principais funções na história se resumem a 1) ser violada, e 2) ser a misteriosa filha de Doctor Hoffman, que pode ou não ter servido apenas de isco para levar Desiderio até ao seu covil do mal. Como acontece à grande maioria das mulheres de Carter, acaba por morrer.

Depois, temos uns quantos personagens "de passagem", que se mantêm com Desiderio apenas durante períodos da história - ou seja, cada nova realidade traz consigo personagens novas. Desiderio passa então uns tempos entre o povo do rio, uma espécie de tribo Nativa Americana que se dedica ao comércio e vive em pequenos barcos, em constante movimento. Integra-se facilmente na sua cultura, porque é meio Nativo Americano (e Carter não deixa de mencionar isso ao longo do livro, cerca de cinco mil vezes). A tribo oferece-lhe uma noiva de nove anos, seguem-se vários episódios sexuais, etc, não me obriguem a falar sobre isto.

Na realidade seguinte, Desiderio junta-se a uma espécie de feira popular, onde trabalha como ajudante. Obviamente, porque isto é Carter, é violado por uma trupe de acrobatas Marroquinos.

Na realidade seguinte, Desiderio junta-se a, adivinhem, Drácula, na sua fabulosa carruagem niilista a caminho da lado nenhum. Drácula tem um pequeno assistente, cuja cara está constantemente coberta de ligaduras por, supostamente, ter perdido o nariz para a sífilis. Obviamente, porque isto é Carter, Lafleur é frequentemente violado por Drácula.

Na realidade seguinte, depois de uma complicada travessia marítima, Desiderio é capturado por uma tribo Africana cujo exército é constituído, exclusivamente, por mulheres a quem o clítoris foi amputado. Por milagre, não há violações, mas Drácula é cozinhado vivo. Yay?

Na realidade seguinte, Desiderio e Lafleur, que afinal era Albertina sob disfarce, são acolhidos por uma sociedade de centauros. Sim, há violações. Acabou a conversa.


3. Setting/worldbuilding
Ora bem, o que escrevi até agora já vos dá alguma ideia do tipo de setting em que este livro se passa. As localizações, embora nunca tratadas pelo nome, são facilmente identificáveis, ao contrário do período temporal - saltitamos entre séculos sem grande aviso prévio, mas Carter consegue manter-nos mais ou menos orientados. Não temos de saber onde ou quando para poder apreciar uma história, e essa é uma máxima que se aplica a este livro na perfeição. (não que eu tenha, efectivamente, apreciado a história, mas o importante aqui é saber que não foram os saltos temporais que me impediram)

Houve aqui bastante potencial desperdiçado, diria eu, porque chegamos ao final e descobrimos que afinal a energia que move todas as armas de ilusão maciça (adoro esta expressão) é, nada mais nada menos, do que energia sexual - recolhida, acho eu, a partir dos fabulosos fluidos corporais de dezenas de casais trancados num laboratório, que pouco mais fazem do que, bem, sexo.


Não sei porque é que ainda tento. Bem-vindos ao mundo altamente feminista de Carter, onde tudo é sexo e... pois, é basicamente isso. Não há excepções. Yup. Sexo.

4. Estilo de escrita
Há duas coisas que me fazem continuar a ler Carter, mesmo tendo em conta a sua obsessão por violação (e vaginas) - uma é saber que a mulher que escreveu Shadow Dance e Love é bem capaz de ter outra obra-prima escondida na sua bibliografia; a outra é a sua escrita.

The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman é mais denso do que outros livros da autora, em grande parte devido à pseudo-ciência utilizada para dar alguma profundidade ao worldbuilding. Ainda assim, Carter consegue sair-se com coisas destas:

He was ready for any funeral and he carried a cane tipped with a silver ball that looked as if it could kill. His diabolical elegance could not have existed without his terrible emaciation; he wore his dandyism in his very bones, as if it was a colour that had seeped out of his essential skeleton to dye his clothes [...]

Estou fula por não escrito esta passagem primeiro. Também estou fula por isto não representar, de forma alguma, o tom geral do livro - afinal, ninguém é violado nesta passagem, como podem reparar.

Em resumo...
Esta foi uma semana muito triste no blog, porque consegui deitar abaixo duas das minhas autoras favoritas por razões completamente diferentes. A conclusão aqui, crianças, é que até os nossos favoritos fazem asneira.

E se nunca apanharam os vossos favoritos a fazer asneira, sugiro que passem a prestar mais atenção.

Mas voltando ao livro. The Infernal Desire Machines Of Doctor Hoffman foi uma desilusão descomunal. A história poderia ter sido boa, mas dei por mim a revirar os olhos tantas vezes que perdi completamente o interesse. Não quero ler sobre centauros a violar mulheres. Não quero ler sobre ninguém a violar ninguém, ponto. Não quero ler sobre um mundo alimentado por energia sexual (...em que é que isso será diferente do mundo real, pergunto-me). Não quero ler sobre um protagonista apático que é meio Nativo Americano só porque a autora precisa de uma desculpa para parecer menos racista. Não quero, não quero, não quero.

É curioso observar que, há pouco menos de um ano, escrevi sobre outro livro sobre cientistas pouco éticos que atraem tipos perfeitamente normais às suas redes só porque sim, têm cidades inteiras aos seus pés só porque sim, e lixam as suas filhas no final só porque sim... o livro chamava-se The Dream Of Perpetual Motion, e levou, tal como este vai levar, duas estrelas. São bastante parecidos, na verdade - livros cheios de boas intenções, que, na sua tentativa de chamar a atenção para o machismo do mundo, acabam por ser, eles próprios, absurdamente machistas; livros sobre cientistas que o texto compara ao Prospero de Shakespeare (Perpetual Motion é uma retelling de The Tempest; Doctor Hoffman nunca se assume como tal, embora as semelhanças estejam lá); livros super bem escritos, mas que descuram as personagens, particularmente o protagonista; livros que dão grande protagonismo ao conceito de desejo, utilizando várias vezes a expressão heart's desire; livros que integram o ideal de movimento perpétuo na sua pseudo-ciência.

Doctor Hoffman foi publicado em 1986; Perpetual Motion em 2010. Estará o autor do segundo consciente do quão perto esteve de reescrever o primeiro?

Fica a questão.

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