Sobre Snobismos, Livros A Sério, "Literatura", & Tolkien (sempre Tolkien)


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Aí há uns anos, cometi o erro de dizer que não gosto de Tolkien. Não me refiro com isto ao senhor, claro, que descanse em paz, mas aos três livros que li dele. Já passou muito tempo, e não me lembro exactamente do meu argumento, mas deve ter sido algo do género ele demora duzentas páginas a levar o pessoal do ponto A ao ponto B. O meu interlocutor não gostou da minha opinião, e tentou mostrar-me o meu erro, afirmando que "um escritor a sério" deve ser capaz de pintar uma cena com palavras, e é exactamente isso que Tolkien faz. Segundo ele, quanto mais complexo melhor.

Uns anos depois, escrevi uma opinião no Goodreads sobre um livro que não será nomeado, onde me queixava de um final mal engendrado, de um clímax resolvido por uma arma que, até aí, nunca fora mencionada. Conhecem a expressão Chekhov's Gun? Se a história me mostra uma arma, é bom que seja para a disparar? O reverso, para mim, é quase mais importante - se a história dispara uma arma, é bom que ma tenha mostrado antes.

A minha crítica referia-se exactamente ao este facto - um estranho na internet não gostou, e respondeu, curiosamente, de uma forma que também comparava livros a pinturas. Segundo este comentador, um livro é como um daqueles cadernos para colorir, e embora o leitor deva seguir as indicações gerais do autor, o resultado final está mais dependente da nossa imaginação do que das palavras que nos são dadas. Ou seja, o autor não precisa de mencionar a arma para a disparar - cabe-me a mim, quando ela surge, imaginar que ela sempre lá esteve, no bolso do protagonista, à espera de salvar o dia.

Esta duas pessoas têm, como podemos ver, ideias muito claras sobre aquilo que constitui literatura a sério. Falam-me de formas correctas de escrever e formas correctas de ler, e eu continuo aqui, a pestanejar inocentemente e a questionar-me sobre as razões que levam alguém a convencer-se de que a sua opinião é, na verdade, um facto incontornável.

Aqui entre nós, costumo atribuir a este pessoal a alcunha colectiva (e carinhosa, sempre carinhosa) de O Snob. Existem várias espécies de O Snob, claro. "A J.K. Rowling escreveu o Harry Potter, que eu adoro, e eu adoro-a, logo é a melhor escritora do mundo." "Só gosto de ficção científica, é um género superior que obriga as pessoas a pensar." "A fantasia não tem qualquer valor literário porque os elfos não existem." "YA é só para quem não tem capacidade para ler livros mais avançados." "Só lê esses livros com homens em tronco nu na capa quem precisa de apimentar a sua vida sexual." E por aí fora.

Ter preferências não é, note-se, automaticamente um sintoma de que nos estamos a tornar O Snob. Deixem-me falar-vos sobre mim. Eu não leio romance. Abro raras excepções para romance queer, mas é basicamente isso. Não leio erotica, nas mesmas condições. Leio YA quando os resumos prometem mais do que, vocês adivinharam, romance. Não leio fantasia medieval, porque a minha tolerância para reis e cavalos e cruzadas e casamentos políticos e possivelmente dragões e misoginia disfarçada com um manto de "correcção histórica" é tão reduzida que só pode ser correctamente representada como ZERO.

Estes são os meus gostos pessoais. Definem um campo claro em que me sinto confortável, e ajudam-me a filtrar os milhares de livros a que sou exposta todos os anos. A questão aqui é que um The Secret History ou um The Melancholy Of Anatomy, dois dos melhores livros que li este ano, não são em nada superiores a um The Fault In Our Stars ou a um 50 Shades Of Grey, objectivamente falando. É verdade que estes dois últimos são livros que nunca escolheria para a minha própria estante, por não se enquadrarem nos "filtros" que já mencionei. Também é verdade que, a lê-los, provavelmente iria bater com a cabeça nas paredes e dar-lhes um rating de duas estrelinhas a cada um.

Mas também é verdade que essas duas estrelas vos iriam dizer pouco sobre o livro, e muito sobre mim.

Não acredito em bons livros e maus livros. Acredito em livros, leitores, e magia negra quando se encontram. Muitas vezes, apercebo-me que as minhas ratings negativas estão directamente relacionadas com a minha posição relativamente ao público-alvo do livro. Eu não sou o público-alvo de Twilight, por exemplo. Posso lê-lo na mesma, e opinar na mesma, e dar estrelas na mesma (estrelas negativas, mas hey, azar, são as que correspondem à minha opinião), mas não posso esperar encontrar a perfeição num livro que não me é destinado.

Independentemente disso, a verdade é que milhares de pessoas encontraram a perfeição na série Twilight. Tal como milhares de pessoas encontraram a perfeição na série 50 Shades Of Grey. Porquê? Bem, porque o público-alvo tende a gostar dos livros que lhe são dirigidos, e estes livros têm públicos-alvo bastante vastos.

E é aqui que O Snob, que gosta de apontar para os números e afirmar a qualidade como uma coisa que apenas o seu restrito círculo social compreende, pode entrar e concordar "ah pois, porque o público-alvo são as massas incultas que lêem um livro por ano, só quando vão à praia". Tudo bem, mas se é essa a interpretação dada aos 100 milhões de cópias vendidas de 50 Shades Of Grey... pergunto-me se se mantém para os 150 milhões de The Lord Of The Rings.

Há uma citação de Murakami que ilustra perfeitamente a mentalidade que, me parece, está subjacente às acções d'O Snob: if you only read the books that everyone else is reading, you can only think what everyone else is thinking. Talvez seja uma pretensão de exclusividade que leva O Snob a virar costas àquilo que é popularizado pela sociedade em que se encontra. Talvez seja uma necessidade exacerbada de se mostrar original e misterioso - o quê, estás a ler isso? Por favor, deixa-me recomendar-te este livro muito melhor de que nunca ninguém ouviu falar. Só tem uma review no Goodreads porque ninguém é esperto o suficiente para o compreender. Ah, e sim, fui eu que escrevi.

Não compreendo, nem nunca compreendi, esta necessidade de valorar e policiar o acto de ler - porque aparentemente, ler todos lemos, mas uns Lêem melhor do que outros. Uns Lêem para alargar os seus horizontes ou polir o seu ego com as palavras de escritores mortos que pouco nos vale criticar, enquanto outros lêem para passar o tempo, ou para se apaixonar por pessoas que não existem e obter aí o que lhes falta na vida real. O primeiro leitor não é necessariamente melhor do que o segundo, mas ainda assim persiste a ideia de que faço melhor uso do meu tempo a ler clássicos do que romances Harlequin - pois O Snob parece ter dificuldade em compreender que o meu tempo livre me pertence, e que tenho capacidade plena para decidir o que fazer com ele.

Agradeço as recomendações para Ler Livros de Literatura, a sério, é uma honra, mas para ser sincera... prefiro ler só livros.

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