Penny Dreadful: Opiniões a 3 Episódios do Final



Não sou muito de ver televisão, mas de vez quando o mundo sai-se com algo tão absolutamente brilhante que é impossível não ver, pelo menos, o primeiro episódio. American Horror Story: Coven foi a única série recente que vi do princípio ao fim, com looooongas crises de fangirling entre episódios, e quando acabou, fiquei sem saber o que fazer com o meu tempo.

Felizmente, fui informada da existência de Penny Dreadful umas semanas antes de estrear. Baptizada em honra dos periódicos vitorianos que aliciavam os leitores com os seus temas mórbidos e sensacionalistas, Penny Dreadful conta a história de uma liga de cavalheiros vagamente extraordinários em busca de uma mulher chamada Mina, que pode ou não ter sido raptada por vampiros. O grupo é encabeçado por uma misteriosa dupla: Sir Malcolm Murray, pai de Mina e ex-explorador de África, e Vanessa Ives, ex-melhor amiga de Mina e ocasional porta-voz dos muitos espíritos presentes em Londres. (às vezes vestem-se a combinar, mas nem sempre)



Um dos selling points da série, para mim, foi o facto de prometer um novo olhar sobre personagens que muitos de nós já consideram familiares - Victor Frankenstein, um jovem médico que instalou um workshop de construção de humanos na cave, e Dorian Gray, um jovem socialite que também instalou coisas na cave, mais particularmente um retrato de si mesmo. Por coincidência, ou talvez não, os personagens com base literária acabam por parecer os hipsters do grupo, mas isso é um detalhe que não deve ser mencionado fora dos círculos mais profundos da fandom. (ainda não se conhecem, mas prevejo um autêntico Battle Royale pelo título de Ultimate Dandy)




A equipa fica completa com Ethan Chandler, um Americano completamente normal com boa pontaria, Brona Croft, uma imigrante Irlandesa a morrer de tuberculose, e Sembene, o companheiro silencioso (mais ridiculamente competente, escrevam o que vos digo) de Sir Malcolm.





Não consigo não elogiar este elenco, sinceramente. Eva Green é absolutamente espectacular como Vanessa Ives - se esta série faz o favor de contrastar Vanessa e a desaparecida Mina como duas faces quase completamentares, uma sempre de negro, uma sempre de branco, então faz sentido ter Eva Green a representar o papel mais sombrio. Para mim, ela é a definição de Dark Feminine - complexa, segura de si mesma, e com muitos esqueletos no armário. E representa bem que se farta, como demonstrado por todos os episódios até agora, particularmente Séance e Closer Than Sisters. Vanessa é, quer se queira quer não, a protagonista da série, e a verdadeira essência de Penny Dreadful - violenta, sexual, inteligente, excessiva e controlada ao mesmo tempo, sempre com margem para uma ou outra piada bem colocada.



Tenho também de mencionar a minha completa obsessão por Harry Treadaway como Victor Frankenstein, porque nunca pensei que fosse possível pôr um poster boy da Burberry a fazer este papel. Adoro a vulnerabilidade que ele traz ao personagem, e acima de tudo, acho-o credível naquela corda bamba entre cientista punk (palavras do actor, não minhas) e poeta frustrado com perfeita noção de que o universo está contra ele, e com razão. Todo ele é um raio de sol.



Ainda numa de personagens, menção honrosa para as performances de Alex Price e Olly Alexander, nos episódios 1-2 e 3-4, respectivamente. Não ficam connosco muito tempo, mas empatizei mais com eles do que com muitos personagens principais noutras séries.




Em termos de plot, tenho visto críticas acusando a série de ser demasiado lenta para algo que se pretende terminar em oito episódios (embora tenha sido, entretanto, confirmada a segunda temporada). Pessoalmente, vejo Penny Dreadful como uma série acima de tudo character-driven, pelo que o desenrolar do enredo acaba por ficar em segundo lugar face ao desenvolvimento dos personagens - prefiro passar um episódio a ver Dorian Gray a falar apaixonadamente sobre orquídeas do que ver gente a caçar vampiros só porque sim.

Obviamente, é uma série que precisa urgentemente de mais mulheres, e mais pessoas de cor (Sembene tem menos de uma fala por episódio, o que é trágico, porque tudo o que quero na vida é ouvir Danny Sapani a narrar a história do universo), mas já leva alguns pontos bónus por não ter passado um paninho branco sobre a orientação sexual do menino de ouro de Oscar Wilde. É sempre hilariante ver audiências reagir à não-heterossexualidade de um personagem principal e anunciar que não tencionam ver nem mais um episódio - para citar uma conversa que ouvi sem querer num evento social, agora está na moda tornar toda a gente gay.


Acima, o Oscar e o Bosie mostram-se desiludidos com esta tendência moderna de aceitar pessoas pela sua sexualidade.

Ainda em matérias vagamente sexuais, pessoalmente, tenho sempre algum receio de ver séries de época, pelo facto de os criadores aproveitarem a "correcção histórica" para disfarçar a sua misoginia, fazer duas cenas de sexo irrelevantes por episódio, e despir todas as personagens femininas sempre que possível. (estou a olhar para ti, Da Vinci's Demons, estou sempre a olhar para ti) Penny Dreadful, para mim, tem feito um trabalho brilhante a desconstruir estes clichés - as cenas de sexo estão lá, mas acho-as ridiculamente bem filmadas, e a nudez não é um fenómeno que só afecta, por alguma razão, as mulheres do elenco. E já agora, este é um bom momento para confessar que, ontem, vi um reviewer a queixar-se que a nudez total do monstro de Frankenstein o deixava desconfortável. Eu compreendo. É lixado quando um personagem que tem todas as razões e mais algumas para estar nu aparece nu no background de uma cena, não é? (eu nem reparei) Nada que se compare à constante nudez de personagens femininas tantas vezes acompanhada de ângulos de câmara reminiscentes de um filme pornográfico, claro, porque isso já é tão comum que nem olhamos duas vezes. É assim que nos apercebemos da existência de um problema, caros amigos - uma mulher nua é "normal", um homem nu é "desconfortável". Azar o vosso, e lavo disto as minhas mãos.

Visualmente, a série é extraordinária. Tenho andado a ver os vídeos da produção no Youtube, e o cuidado dedicado à parte estética da coisa só aumenta o meu respeito por todo este trabalho - o visual dos vampiros é conseguido através de maquilhagem (pensei que era CGI, fiquei parva), e a equipa construiu um teatro inteiramente funcional para realizar a visão que John Logan tinha do seu Grand Guignol, uma adaptação Londrina de um teatro Parisiense conhecido pelo mesmo tipo de conteúdos que os penny dreadfuls da época.




A conclusão disto tudo é que Penny Dreadful tem tudo o que gosto de ver numa série - um ensemble cast de lobos (HAHA) em pele de cordeiro, toda aquela ambiência pseudo-Vitoriana que acerta o suficiente para ser credível (sim, refiro-me ao guarda-roupa) sem se preocupar com os detalhes irrelevantes, uma variedade absurda de referências que só serão, decerto, apanhadas por pessoas de leituras mais vastas que as minhas (só li The Picture Of Dorian Gray e Dracula, mas começo a pensar que talvez seja boa ideia ler Frankenstein durante o hiato, e talvez também The Tempest, The Phantom Of The Opera, e uns cinco volumes de poesia romântica), um respeito descomunal pelas obras que adapta, e nas palavras do próprio Sir Malcolm, um mundo onde a ciência e a superstição andam de mãos dadas.

Espero ansiosamente os três últimos episódios, e estou mais do que capaz de considerar esta uma das minhas séries favoritas... de todos os tempos. Quem já viu?

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