Opinião: 'The Clockwork Scarab', Colleen Gleason



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Clockwork Scarab
Colleen Gleason

Evaline Stoker and Mina Holmes never meant to get into the family business. But when you’re the sister of Bram and the niece of Sherlock, vampire hunting and mystery solving are in your blood. And when two society girls go missing, there’s no one more qualified to investigate.

Now fierce Evaline and logical Mina must resolve their rivalry, navigate the advances of not just one but three mysterious gentlemen, and solve murder with only one clue: a strange Egyptian scarab. The stakes are high. If Stoker and Holmes don’t unravel why the belles of London society are in such danger, they’ll become the next victims.

Por que é que li este livro?
A sobrinha de Sherlock Holmes e a irmã de Bram Stoker são contratadas por Irene Adler para combater o crime na capital Inglesa. Vagamente steampunk. Por que é que eu não havia de ler este livro?

1. Plot
Meninas da alta sociedade Londrina vão desaparecendo sem razão aparente, deixando para trás pequenos escaravelhos mecânicos. E obviamente que têm de ser escaravelhos, porque como sabes, Bob, a sociedade Vitoriana pouco mais inclui do que corpetes e artefactos egípcios. Mas passemos à frente. As nossas heroínas, que não se conhecem de lado nenhum (e que preferiam manter esse gracioso estado de coisas), são chamadas por Irene Adler a pedido da Princesa Alexandra para resolver este estranho caso, e obviamente que a princípio não se entendem. Infiltram-se, lêem muitos livros, fazem asneiras, o Big Bad pode ou não ser uma paródia do movimento feminista (se pretende ser uma representação fiel do mesmo, meus deuses, é terrível), e é basicamente isso. Há triângulos amorosos que em nada contribuem para a história, e as capacidades sobre-humanas das nossas protagonistas acabam por não passar de palavras bonitas no ecrã do meu Kobo. O Big Bad escapa. Há mais do que espaço para escrever uma sequela. Eu queixava-me desta manipulação desavergonhada do leitor, mas não estou suficientemente interessada.

Oh, e há viagens no tempo? Pois, mas nem isso interessa.

2. Personagens
Nem sei por onde começar. Por um lado, apetece-me dizer que nem Mina Holmes nem Evaline Stoker merecem carregar os apelidos dos seus populares parentes. Mas nem é isso que me incomoda. O que me incomoda é que estes apelidos arrastam consigo toda uma série de expectativas para o leitor, que saem completamente furadas neste livro. Mina Holmes é sobrinha de Sherlock Holmes, e tudo nela é exactamente como seria de esperar - inteligente, super inteligente, tão inteligente que detesta festas e a governanta tem medo de entrar no seu laboratório. Não sei bem o que é que a autora pretendia com isto - criar uma versão feminina de Sherlock Holmes? Bem, uma versão feminina de Sherlock Holmes não morreria de amores por um inspector qualquer só porque ele consegue acompanhar o seu raciocínio - e até antecipá-lo! Uma versão feminina de Sherlock Holmes seria, tal como o original, a pessoa mais inteligente em todas as salas onde Mycroft Holmes não está. Isto não acontece com Mina. Mina é uma versão genérica daquilo que uma versão feminina de Sherlock Holmes devia ser, sem qualquer personalidade própria, encaixada num livro que não sabe bem se pretende ser fantasia, mistério, ou romance.

Por outro lado, temos Evaline Stoker, cuja caracterização parece ter sido um pouco mais considerada - é uma caçadora de vampiros, tem super força (que nem uma Buffy Vitoriana, you go girl), e montes de poderes que lhe permitem caçar vampiros. O único problema é que já não existem vampiros em Londres, e Evaline quase desmaia ao ver sangue. Agora... isto poderia ser um plot interessante. O que acontece quando uma pessoa escolhida para determinada tarefa ancestral é completamente incapaz de cumprir com a mesma? Desastres acontecem, obviamente. Auto-estimas destroçadas, crises familiares, sessões constantes de second-guessing. Colleen Gleason não aborda nada disto. O seu pensamento parece ir mais numa linha de esta é a minha caçadora de vampiros mas não há vampiros e ela não gosta de ver sangue, TOMEM LÁ UM TRIÂNGULO AMOROSO.

Parece que a sinopse foi escrita por uma feminista do século vinte e um, e o livro por um médico ultra-conservador do século dezanove. A dissonância cognitiva é elevada o suficiente para me dar quebras de tensão.

Ah, e o melhor personagem de todos. Segurem-se aos vossos corpetes, donzelas, que isto está prestes a aquecer. Dylan Ekhert. Vem do futuro com uma t-shirt da Aéropostale, não tem qualquer relevância para o plot, e salva o dia com um iPhone. Percebem a minha dor?

3. Setting/worldbuilding
Vamos rebobinar ao Verão passado, quando disse, relativamente ao livro Soulless, de Gail Carriger, que "podíamos tirar o steam, e não íamos perder nada". O mesmo é aplicável a este livro, tirando que as invenções steampunk conseguem ser ainda mais irrelevantes para o desenvolvimento do setting.

Talvez isto se resuma tudo a uma tentativa de aproveitar a onda steampunk para vender livros que se passariam, de outra forma, numa era Vitoriana ligeiramente melhorada para as sensibilidades modernas, mas custa-me um pouco digerir este tipo de coisa. Ou talvez os puristas me estejam finalmente a afectar - o que seria irónico, considerando que nunca na vida li os livros recomendados por este pessoal, e o meu interesse por steampunk continua a ser quase puramente estético.

Ok, pronto, também tenho interesse nas senhoras de bloomers a pilotar aeronaves, mas uma guerra de cada vez.

O importante aqui é que o setting não vai muito além de Template Vitoriano #1 - temos opium dens, o museum britânico, mansões, um ou outro baile, e um par de tabernas vagamente mal frequentadas. O steam é um acessório, e não faz qualquer falta ao livro. Off with it!

4. Estilo de escrita
Meh? Nada de particularmente interessante a apontar. Acho que me aborreci tanto com a conteúdo que nem me preocupei particularmente com a forma. A única crítica objectiva que tenho refere-se à organização dos capítulos entre as duas protagonistas - Mina e Evaline têm cada uma o seu POV, mas são ambos em primeira pessoa e completamente impossíveis de distinguir. Para duas personagens que aparentam ser tão diferentes ("aparentam" sendo aqui, claro, a palavra-chave), soam extraordinariamente parecidas. Foi muito, muito difícil orientar-me nesta leitura.

Em resumo...
Este livro vai acabar, muito infelizmente, na estante de Boas Ideias Mal Executadas. Duas raparigas de alta sociedade, uma Holmes e uma Stoker, a investigar crimes? Boa ideia. Este livro? Má execução.

O problema principal deste livro (pronto, além do plot simplista e mal resolvido) é que se propõe ser uma fantasia pseudo libertadora para as mulheres Vitorianas, um pouco na linha da já mencionada série de Gail Carriger, mas nunca chega efectivamente a dar-me o que promete. A autora está constantemente a colocar as suas personagens femininas em situações em que precisam de ser salvas. Mina não é, nem de perto nem de longe, tão esperta quanto me querem fazer crer. A força e coragem de Evaline são virtualmente inúteis. Tudo bem, elas quebram uma outra regra, mas consigo resumir o livro todo com "olha nós a fazer coisas que as mulheres Vitorianas não devem fazer, E A FALHAR REDONDAMENTE". O setting não o salva, a escrita não o salva, e com muita pena minha, não posso recomendar este livro a ninguém.

A sequela, The Spiritglass Charade, sai a 7 de Outubro de 2014. Não tenciono lê-la, mas é bom saber, certo?

0 comentários:

Enviar um comentário