Opinião: 'The Secret History', Donna Tartt



★ ★ ★ ★ ☆

The Secret History (publicado como A História Secreta em PT)
Donna Tartt

Richard Papen arrived at Hampden College in New England and was quickly seduced by an elite group of five students, all Greek scholars, all worldly, self-assured, and, at first glance, all highly unapproachable. As Richard is drawn into their inner circle, he learns a terrifying secret that binds them to one another... a secret about an incident in the woods in the dead of night where an ancient rite was brought to brutal life... and led to a gruesome death. And that was just the beginning...

Por que é que li este livro?
Posso ser sincera? Gráficos bonitos no Tumblr. Essa foi a primeira gota. A última chegou há uns tempos, quando pedi ao meu Facebook que me sugerisse hangover books (vocês sabem... aqueles que nos deixam meios atordoados e incapazes de começar outro livro num futuro imediato) e uma amiga me sugeriu este livro. Pareceu-me que as estrelas se tinham finalmente alinhado.

Além disso, quem é que não quer acompanhar um protagonista desajeitado na sua busca pela atenção e amizade dos seus cinco senpais colegas de turma?

1. Plot
Já vi este livro descrito não como um whodunnit, mas um whydunnit. As primeiras páginas dão-nos a informação clara de quem um rapaz de nome Bunny foi morto pelo nosso protagonista & companhia, e a primeira metade do livro dedica-se principalmente à tarefa de reunir os personagens principais, dar-lhes um motivo, e colocá-los no local do crime. Todos sabemos que vai acontecer, mas ver toda a ginástica mental que é necessária por parte do grupo para efectivamente levar o seu plano avante acrescenta um novo nível de dor a esta leitura. A segunda metade do livro dedica-se à aftermath do crime - a investigação criminal, o aperto do cerco policial, a coragem necessária para ir ao funeral de um amigo que se assassinou. Nesta fase, acho que é legítimo dizer que o leitor já não está muito preocupado com o crime em si - é a lenta degradação das personagens, das suas relações e do seu carácter, que nos faz virar a página.

Este não é um livro rápido. Não é um page-turner. É, sim, o tipo de livro que sádicos como eu usam para entretenimento quando queremos ver seres humanos em espirais de auto-destruição, mas estamos demasiado doentes e fracos para os colocar lá. (confiem em mim, estava de cama quando li isto, sei do que falo)

2. Personagens
Richard Papen, o nosso protagonista, é um rapazito pretensioso. Muito se tem falado de protagonistas pretensiosos ultimamente, em grande parte devido ao sucesso estrondoso de livros como The Fault In Our Stars (shots fired), mas acho que Richard é bem capaz de levar a taça nesta categoria. Depois de uma infância aborrecida numa pequena cidade na Califórnia, Richard ingressa no Hampden College, Nova Inglaterra, onde aproveita para criar uma nova personalidade para si mesmo, uma que não destoe entre os seus novos e privilegiados colegas. A vida de Richard é um jogo de aparências, desde a forma como se veste à forma como trata as pessoas à sua volta - e não me venham dizer que frases como "apetecia-me agarrá-la, violá-la" não são um óptimo exemplo de um rapaz a tentar representar à força toda uma personalidade (super dominante, super hetero, super máscula) que nada tem a ver com a sua. Pessoalmente, acho Richard uma pessoa detestável, mas um óptimo narrador para este tipo de livro. Sejamos sinceros, muitos de nós também não hesitariam em mentir um bocadinho para impressionar uns quantos lobos em pele de cordeiro.

O grupo principal fica depois completo com Henry Winter, génio pouco emotivo e mastermind do grupo; Bunny Corcoran, racista, homofóbico, e em bom português, amigo da onça... também conhecido como Asshole Victim; Francis Abernathy, um misto de príncipe e Jack The Ripper (toda a gente adora esta citação, não olhem para mim); e Camilla e Charles Macaulay, os gémeos órfãos aparentemente funcionais. O mentor do grupo dá pelo nome de Julian Morrow, o professor de grego mais despótico que alguma vez li, e devo confessar, também a personagem que menos compreendi. Se a princípio pensei que isto ia dar numa de The Philosophers, com o professor a convencer os seus pupilos da beleza de um homicídio bem cometido... afinal Julian acaba por ficar mais traumatizado do que o leitor quando descobre os pequenos monstros a quem andou a ensinar filosofia. Oops.

Uma crítica que tive relativamente a este grupo, assim que acabei de ler o livro, foi o facto de incluir apenas uma rapariga, aliado ao facto de a sua inclusão parecer servir o único propósito de dar ao livro uns quantos subplots românticos. “Parecer” é, no entanto, a palavra-chave, ou não fossem as relações entre os rapazes do grupo um labirinto igualmente complexo de atracções mal resolvidas. Como diria esta citação nunca de facto presente no livro:

Fine, okay. I guess we’re not really family. It’s more complicated than that because unlike a real family there’s nothing to stop any one of us from looking at each other as sexual prospects.

Mas voltando a Camilla. Camilla é a única rapariga do grupo, e agora percebo porquê. Este livro é, muito basicamente, um estudo sobre o conceito de privilégio, e Camilla existe na posição em que existe para demonstrar isso mesmo - este é um mundo de homens, e não existem muitas formas aceitáveis de ser mulher nele, pelo que Camilla se debate constantemente entre a sua personalidade, e a personalidade adequada aos frágeis egos dos rapazes com quem se dá. Esta não é, de todo, a minha forma favorita de levar o feminismo para a ficção – já o disse muitas vezes, mostrar opressão não chega, é preciso que a personagem oprimida tenha uma oportunidade para combater essa opressão –, mas devo admitir que aqui... até funciona.

3. Setting/worldbuilding
Uma universidade Americana nos anos 80. Richard tem aulas de grego, partilha o seu dormitório com todo um exército de consumidores de substâncias várias, toda a gente bebe, toda a gente fuma, toda a gente adora excessos e drogas e rock n'roll.

E curiosamente, não foi isto que me ficou como imagem mental quando acabei este livro. Nope. O que ficou foi a floresta. E os lagos, e a casa de campo, e a ravina onde Bunny morreu, e a casa dos gémeos tão ridiculamente decorada com todos os tipos de oddities, e o cemitério, e o escritório de Julian que cheirava sempre a flores frescas e chá acabado de fazer. Ficaram as folhas que iam mudando de cor com as estações, e ficou a casa-de-banho ensanguentada depois da orgia (right, talvez já devesse ter mencionado isso, pessoal... há uma orgia, conhecida oficialmente por Bacanal).

Basicamente, ficaram os sentimentos e as imagens invocadas pelo setting, mas nenhum facto concreto sobre o setting em si. Não me vão ouvir a queixar, pois adoro quando isto acontece.

4. Estilo de escrita
Ooooooooh, boy. Donna Tartt escreve bem que se farta (se repararem, este é um elogio que reservo apenas aos escritores tão bons que até irritam), e não há página do livro que não se possa citar de forma pretensiosa para impressionar os nossos inimigos mais próximos. É possível que o estilo do livro seja demasiado purple para alguns, mas não o é para mim – afinal, eu sigo a escola de pensamento Angela Carter e os seus dois mandamentos. Escreve prosa bonita, e nunca peças desculpa por ela.

Em resumo...
Imaginem um prédio. Se o prédio cair, as críticas vão concentrar-se na sua estrutura, nas suas falhas, na forma como foi construído. Mas se o prédio não cair, que é o mínimo que se pode exigir dele... vamos elogiar a técnica que o construiu? Vamos dedicar centenas de palavras à forma como os responsáveis conseguiram colocar um tijolo em cima do outro e manter o edifício de pé? Nope. Vamos mencionar tudo isso, claro, mas depois vamos acabar por nos concentrar em coisas inúteis como "adoro aquela gárgula", ou "o corrimão da escada principal não serve para nada mas é bonito e eu gosto".

É por isto que sou tão má a opinar sobre livros que me agradam. É difícil manter-me concentrada, e é difícil manter-me séria, porque as coisas que gosto neles não estão em nada relacionadas com críticas objectivas que vos poderiam levar a lê-los. Senti-me em casa, com este livro. Senti que conhecia estas pessoas, e senti-me muito, muito investida nas vidas delas. É mais um daqueles casos em que as personagens e a escrita são tão boas que eu não me importaria se todo o livro fosse uma lista de compras.

Leiam The Secret History, pessoal. Jantar de cinco estrelas para dois, cogumelos, bilhetes para a América do Sul, revólver. É das melhores listas de compras que alguma vez li.

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