Opinião: 'The Raven Boys', Maggie Stiefvater



★ ★ ★ ★ ☆

The Raven Boys
Maggie Stiefvater

Every year, Blue Sargent stands next to her clairvoyant mother as the soon-to-be dead walk past. Blue never sees them--until this year, when a boy emerges from the dark and speaks to her.

His name is Gansey, a rich student at Aglionby, the local private school. Blue has a policy of staying away from Aglionby boys. Known as Raven Boys, they can only mean trouble.

But Blue is drawn to Gansey, in a way she can't entirely explain. He is on a quest that has encompassed three other Raven Boys: Adam, the scholarship student who resents the privilege around him; Ronan, the fierce soul whose emotions range from anger to despair; and Noah, the taciturn watcher who notices many things but says very little.

For as long as she can remember, Blue has been warned that she will cause her true love to die. She doesn't believe in true love, and never thought this would be a problem. But as her life becomes caught up in the strange and sinister world of the Raven Boys, she's not so sure anymore.

Por que é que li este livro?
Porque fiquei traumatizada quando acabei The Secret History, e nada me parecia bom o suficiente para aligeirar a transição dessa real obra de arte para a restante ficção plebeia à minha disposição. Mais uma vez, o Tumblr salvou-me, e sugeriu esta série – ensemble cast, jovens vagamente pretensiosos obcecados com tempos há muito passados, e talvez até homicídio. Não soa perfeito?

1. Plot
Ora bem. Estão a ver aquele blurb? Esqueçam. A secção de marketing esforça-se muito por vender The Raven Boys como um trágico romance YA entre um rapaz quase morto e uma rapariga que está destinada a matar o seu verdadeiro amor com um beijo, mas na vida real... aquilo que o livro efectivamente oferece nada tem a ver com isso. Alinhem comigo num suspiro de alívio colectivo.

The Raven Boys, por muito que queira dar protagonismo a Blue na sinopse e no primeiro capítulo, é a história de um grupo de rapazes cuja relação precede, em muito, o surgimento de Blue nas suas vidas. Gansey, um menino rico de um colégio privado, passa os seus dias armado com medidores EMF e demais instrumentos de investigação paranormal. O seu objectivo é identificar a ley line que, segundo ele, passa perto do seu colégio, e depois encontrar o rei Galês que se encontra sepultado algures sobre (ou sob, depende da perspectiva) essa linha.

Blue, por outro lado, tem os pés bem assentes na terra, se exceptuarmos o facto de ser a única pessoa sem grande aptidão paranormal na sua casa habitada exclusivamente por mulheres médiums (a sua mãe, a sua tia, sua prima, uma amiga da mãe, outra amiga da mãe... e por aí fora). Blue tem, no entanto, o poder de amplificar manifestações paranormais para aqueles que as conseguem sentir. Uma noite, Blue acompanha a sua tia ao evento paranormal do ano, onde é possível ver as almas das pessoas que vão morrer nos doze mese seguintes. O objectivo da médium é recolher os nomes destas pessoas, para as poder avisar em tempo útil –se elas lhe pagarem para o saber, claro. Blue apercebe-se da presença da alma de um rapaz da sua idade, a quem pergunta o nome. Ele chama-se Gansey, e o resto, como podem imaginar, é história.

...ou será que é? Talvez seja uma consequência da “maldição” que se abate sobre Blue, mas não existe um único beijo neste livro, e os subplots românticos nunca se sobrepõem à busca do grupo pelo rei Galês. Blue mostra algum interesse, correspondido, por um dos membros do grupo, mas a) não é Gansey, a b) a relação de ambos prima-se por uma inocência e um respeito mútuo que não tem igual em todos os livros YA que já li. Hooray!

2. Personagens
Estes livros têm, mais coisa menos coisa, cinco personagens principais. Em primeiro lugar, os titulares Raven Boys, assim chamados devido ao emblema do colégio que frequentam: Gansey, o protagonista e líder da cruzada paranormal, Ronan, o melhor amigo rebelde que tem um corvo de estimação e uma certa propensão para o street racing, Adam, o outro melhor amigo, oriundo de uma família abusiva e sem o estatuto económico dos seus colegas, e Noah, o grande mistério do grupo, também conhecido como “the smudgy one” . Em quinto lugar, temos Blue, a protagonista idealista, sem paciência para falsidades, e com um ligeiro complexo de inferioridade face à sua falta de poderes psíquicos.

A diferentes níveis e de diferentes formas, diria que as personagens estão bem construídas – parecem pessoas reais, e esse é o maior elogio que posso dar a um livro de ficção. As suas emoções são genuínas, ou parecem-no, e não tomam decisões que não se coadunam com as suas personalidades. São consistentes, lógicas, e é fácil compreendê-las.

Pessoalmente, identifiquei-me mais com Gansey (o menino rico com objectivos de vida absurdos, um coração de ouro, e sem grande filtro entre aquilo que pensa e aquilo que diz, yup, é o meu tipo) e Adam, e quis muito identificar-me com Blue – mas infelizmente, para quem é a narradora do primeiro capítulo do livro, e a pessoa de quem todas as sinopses falam, ela acaba por não ter tanto protagonismo quanto seria desejável. Uma crítica que tenho visto, e com a qual concordo, é que Blue é, de certa forma, uma assistente nas histórias deoutras pessoas. Tendo em conta que esse é o seu poder psíquico, faz sentido que esse seja também o grande tema da história pessoal da Blue – pelo que talvez seja de esperar que ela consiga finalmente promover-se de assistente a protagonista num futuro próximo?

Considerando que o terceiro livro da série (olhem ali na barra direita) usa o palavra "Blue" duas vezes no seu título... acho que devo ter razão.

3. Setting/worldbuilding
Este livro desenrola-se numa pequena cidade na Virginia, num conjunto limitado de cenários, todos eles com algum tipo de significado para o plot em geral: a casa de Blue (e sabemos que médiums são sempre plot-relevant), a fábrica renovada em que Gansey vive com Ronan e Noah, a floresta surreal sobre a ley line, e vagamente, a casa de Adam. Todos estes locais evocam um sentimento diferente no leitor, muito devido à forma como são descritos – as cores, o ambiente, os acontecimentos que lá se desenrolam. A magia que marca a floresta tem regras, o leitor tem perfeita noção delas, e embora o verdadeiro carácter dos talentos psíquicos da família de Blue não seja sempre claro (são só muito observadoras? têm poderes? estão sempre certas? Gansey vai mesmo morrer?), tal não é algo que me tenha incomodado. A parte da mitologia é sem dúvida interessante, e uma base firme para o leitor se orientar na caça ao tesouro.

Basicamente, ninguém vai ler este livro pelo setting, mas em comparação com outros YAs passados no mundo “real”, não há qualquer queixa a fazer. É um setting. Acontecem coisas. Voltem acima e leiam os pontos 1 e 2, que são os que me efectivamente me permitem vender-vos este livro.

4. Estilo de escrita
Devo dizer que me passou ligeiramente ao lado, e que não tenho qualquer comentário bonitinho a fazer sobre a escrita de Maggie Stiefvater. Adorei os diálogos, mas o resto da escrita, para mim, foi invisível. Na prática, o que isto quer dizer é que a escrita deste livro cumpre a sua função, mas não se eleva àquele ponto em que passa a ter um peso próprio no desenvolvimento da história – não como a escrita de Angela Carter ou de Tanith Lee, por exemplo.

Leva, no entanto, pontos bónus pelo plot twist de última linha. Adoro plot twists de última linha.

Em resumo...
Adorei The Raven Boys. Certo, o plot é a clássica caça ao tesouro (que não é resolvida neste livro, para que conste), mas as personagens são extraordinárias, e as relações entre elas... bem, dão pano para mangas. Não tem elementos excessivamente problemáticos – sim, porque estou sempre aqui com o meu feminismo à mão para criticar literatura –, a escrita é competente, o worldbuilding é competente, e não me parece que se possa pedir muito mais de um YA. Quatro estrelas, recomendado.

O mesmo não se poderá dizer do segundo, infelizmente. Amanhã há mais!

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