[PT] "The Surrogate" de Ann Somerville



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Surrogate
Ann Somerville
Ebook, aprox. 370 páginas

The Surrogate conta a história de Nikolas à medida que se envolve num mundo sombrio de abuso e escravatura, onde pode ser a única esperança daqueles aprisionados numa vida dedicada a servir os caprichos de um deus maligno. A história inclui descrições gráficas de violação e tortura. Definitivamente não aconselhada aos leitores mais sensíveis.

E porque já falámos de pornografia gay no post anterior, hoje... não vamos falar de pornografia gay. Juro que estava perfeitamente convencida que era isso que ia encontrar neste livro, mas não, enganei-me. (e se vamos consider isso bom ou mau, deixo ao vosso critério)

Ora bem, o volume que vamos discutir hoje, The Surrogate, inclui na verdade dois livros, o titular The Surrogate e a sua sequela Reincarnate. Chamou-me a atenção por causa da capa, comprei-o na loja Kobo para receber diamantes no Nun Attack (não perguntem), e embora estivesse ligeiramente reticente quando às menções de violação, avancei de queixo erguido.

Aha.

1. Plot
O plot deste livro segue Nikolas, um ferreiro/joalheiro/algo do género, bissexual, que é convidado a trabalhar uns meses num templo. Infelizmente para ele, a sua função consiste em pouco mais do que fazer sexo com um tipo chamado Jaime que não parece muito interessado no acto, em frente a um suposto deus que também lá está contrafeito, e a um pequeno exército de monges.

Com uma introdução destas, temos reunidas todas as condições para as coisas piorarem – há violações e tortura, tanto física como psicológica, mas contra todas as minhas piores expectativas, graças aos deuses, nenhuma dessas situações é romantizada ou “embelezada”. São actos atrozes, são descritos como tal, e têm consequências traumáticas (e a longo prazo) nos personagens envolvidos. A autora merece crédito por isto, e ainda por deixar bem claro que sim, o conceito de violação também inclui as situações em que um homem é forçado a fazer sexo com uma mulher. Obrigada, Ann Somerville.

Isto é o primeiro livro, se acrescentarmos que os personagens se fartam do seu dia-a-dia dentro do templo e acabam por engendrar o resgate do suposto deus, seguido de uma fuga – que, diga-se de passagem, foi ridiculamente fácil e muito pouco credível.

O segundo livro trata exclusivamente da convalescença dos personagens depois de terem abandonado o templo – os seus traumas, pesadelos, e vícios. Há uma diferença descomunal entre os dois livros, no que toca às expectativas do leitor. Durante o primeiro, temos um objectivo claro em mente, sabemos o que está em jogo, e não queremos, por nada, que os nosso heróis falhem. No segundo, toda esta tensão vai por água abaixo, e passamos a ter três tipos numa casa a tentar resolver as suas vidas sexuais e amorosas e a discutir as mesmas coisas de cinco em cinco páginas. Respeito a admiro a intenção da autora de abordar as consequências das atrocidades que descreveu no primeiro livro, mas o facto de esse ser o único foco do segundo torna a leitura repetitiva e pouco intrigante.

Ou seja, basicamente, a maior falha deste volume é incluir dois livros em vez de um. É um ebook, estamos com ele na mão, é quase certo que vamos terminar o primeiro livro e virar a página directamente para o segundo, e não me parece que isto seja benéfico para a leitora – o abismo entre os dois livros é demasiado grande, e as falhas do segundo livro são fortes o suficiente para arrastar o primeiro para o fundo.

2. Personagens
Não posso dizer que tenha sentido qualquer tipo de resposta emocional às personagens deste livro – embora Jaime me tenha deixado muito próxima da antipatia. Existem, cumprem a sua função enquanto “actores” da história, mas não são, de forma alguma, marcantes. O character development, quando existe, é repentino e pouco fundado. Quem me conhece sabe que, acima do “show don’t tell”, acima do “kill your darlings”, a minha regra literária favorita tem a ver com foreshadowing. Preciso de conseguir estabelecer relações e causalidades enquanto leio, e neste livro, isso não me foi possível. Oh mas eu amo não-sei-quem, diz o João. Apresenta-me indicações disso no corpo do texto nas últimas cem páginas , digo eu. *blink blink*, diz ele.

3. Setting/worldbuilding
Imaginem um setting de fantasia medieval. Pronto, é isso, não posso dar grandes pontos pela originalidade.

O meu principal problema com o setting foi quão “conveniente” ele me pareceu. Era uma vez um templo, um templo bastante grande, diria eu, onde são cometidas todas as atrocidades do universo debaixo do nariz do rei. Ninguém sabe, ninguém suspeita, as vítimas são silenciadas, e Nikolas não se abstém de dizer várias vezes o quão perfeito e inteligente o sistema é. Mas visto de fora, não, não é perfeito nem inteligente, é conveniente. O sistema é convenientemente perfeito e inteligente enquanto a autora precisa dos personagens aprisionados no tempo... apenas para passar a ser convenientemente imperfeito quando ela precisa de os libertar. Cheirou-me a facilitismo.

4. Estilo de escrita
Ora bem... estamos a chegar ao fim do ano, e o meu palato já vem marcado por autênticos mestres estilísticos (Tanith Lee, Haruki Murakami, Michelle Lovric, Dexter Palmer... e por aí fora), o que torna ligeiramente complicado opinar sobre os escritores mais medianos. Ann Somerville não é má escritora, mas pouco nela se destaca.

E posto isto tudo, o lógico seria dar três estrelas ao conjunto, mas o segundo livro baixa bastante a desejar, pelo que comparando às restantes ratings que dei este ano, terei de ir para as duas. Não recomendo - não por ser mau, mas por não apresentar nada de novo.

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