[PT] "The Lovely Bones" de Alice Sebold



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Lovely Bones
Alice Sebold
Ebook, aprox. 320 páginas

Susie Salmon tem o olhar vivo e irrequieto dos seus catorze anos. Observa o desenrolar da vida: os colegas da escola, a família, o lento passar dos meses e das estações. Está tudo muito calmo, tudo parece muito acolhedor. Um único pormenor desmente tanta placidez: é que, de facto, Susie já morreu. Estranhamente, o céu parece-se muito com o recreio da escola, nem sequer faltam os baloiços. A pouco e pouco, Susie compreende que é o centro das atenções: os colegas comentam os rumores sobre o seu desaparecimento, a família ainda acredita que ela poderá ser encontrada, o assassino tenta esconder as pistas do seu crime...

Estou com pouco tempo e ainda menos paciência, pessoal, por isso perdoem-me, mas vamos saltar directamente para a opinião.

1. Plot
É ligeiramente complicado reduzir The Lovely Bones a um plot, porque no sentido “tradicional” da expressão, o livro não tem nenhum. A história acompanha Susie, uma jovem de 14 anos que chega ao céu depois de ter sido violada e assassinada. Lá de cima, ela observa a forma como o seu assassino se vai evadindo à polícia e como os seus amigos e familiares lidam com a sua ausência, e passa a adoptar uma posição de narradora – pois a verdadeira história continua a desenrolar-se cá em baixo, no nosso velhinho planeta Terra.

Portanto, para começar numa nota positiva, adorei esta pequena particularidade, em que a personagem “principal” é na verdade uma narradora não participante – os eventos descritos ocorrem devido à sua morte, mas ela não tem qualquer agência sobre eles durante 90% do livro. Foi uma boa ideia, e no geral, achei que foi bem conseguida. A autora desliza um pouco entre os pólos de omnisciência da personagem – em determinadas cenas sabe tudo o que as pessoas estão a pensar, noutras limita-se a imaginar sem fazer a menor ideia –, mas não é uma falha pela qual a vá massacrar, pois não influenciou minimamente a minha experiência de leitura.

O grande problema aqui é que de boas ideias está o inferno cheio, e Alice Sebold, para usar uma expressão tipicamente Portuguesa, teve mais olhos do que barriga. Na sua tentativa de explorar o luto de um bairro inteiro, acabou por introduzir demasiadas personagens, vendo-se depois obrigada a “fechar” todos os subplots um pouco apressadamente no final. A menos de 50 páginas do fim, lembro-me de ter comentado com a minha irmã “não consigo imaginar como é que ela vai resolver isto, não sei com que raio de final é que ela se vai sair”.

E perdoem-me os spoilers, mas por alguma razão, a autora achou que a melhor forma de terminar um livro sobre uma adolescente morta que dedica sete anos no céu a observar a família na Terra... é trazê-la de volta para fazer sexo com o rapaz que beijou quando tinha 14 anos. Só de si, isto já é absurdo, mas consegue ser pior – obviamente Susie, a nossa protagonista precisa de um corpo para poder dar largas à sua sexualidade, portanto o que é que faz? Possui o corpo de uma “amiga” que ela e o tal rapaz têm em comum, e usa o corpo dela. E deixem-me só mencionar que esta segunda rapariga é lésbica, e não tem grandes amigos além do rapaz em questão.

Portanto, imaginem comigo este belo momento. Susie usa o corpo da tal rapariga para fazer sexo, corre tudo muito bem e é um momento muito romântico, ou disso nos tenta convencer a autora... mas imaginem o lado da segunda rapariga, Ruth. Durante o período em que Susie ocupa o corpo dela, Ruth está no céu (como se tivesse sido feita uma troca entre as duas), não faz a mais pequena ideia do que está a acontecer ao seu corpo, e não tem forma de comunicar com Susie. Esta troca dura algumas horas, no fim das quais Susie regressa ao céu e Ruth regressa ao seu corpo. Ora, onde é que está o corpo de Ruth? Numa cama estranha, numa casa estranha, meio despido, enquanto um rapaz (já mencionei que era o seu único amigo?) toma banho na divisão ao lado. Momentos depois, ele sai, também meio despido, e informa-a de que acabaram de fazer sexo, várias vezes, até foi porreiro – e obviamente, Ruth não se lembra de nada.

Tirem um segundo para imaginar o horror desta situação, e depois olhem-me nos olhos e digam-me que isto não é uma violação. Nem quero ouvir-vos. É. Portanto... bom trabalho senhora Sebold, conseguiu começar com uma violação e acabar com outra. Só é mesmo pena a narrativa não reconhecer esta segunda por aquilo que efectivamente é.

2. Personagens
Já tenho lido várias opiniões em contrário, mas gostei bastante das personagens neste livro. É verdade que, em certa medida, são personagens-tipo e não primam pela originalidade, mas as suas reacções aos eventos descritos pareceram-me sempre realistas e “honestas”.

A minha personagem favorita foi sem dúvida Ruth, a rapariga mencionada acima, e embora também ela tenha sofrido um pouco às mãos dos estereótipos da autora (lésbica, feminista, lê Sylvia Plath, queixa-se alto e bom som que se sente oprimida pelo facto de a sociedade valorizar tanto a depilação), pareceu-me uma personagem com boas histórias para contar.

E só uma nota em relação ao meu comentário sobre estereótipos – não há nada de errado em ser lésbica, ser feminista, ler Sylvia Plath, ou ter umas quantas contas a ajustar com esta sociedade que gosta que tudo o que é mulher depile as pernas. Todas essas coisas são válidas. Só gostava de que não tivessem sido todas usadas na mesma personagem para a caracterizar como a rapariga silenciosa e associal que é “diferente” em todos os aspectos.

Além de Ruth, gostava também de ter acompanhado um pouco melhor o responsável pela violação/homicídio da nossa protagonista, só mesmo para compreender as suas motivações – o personagem continua a parecer realista na medida em que é um estereótipo de pedófilo/assassino que os leitores já conhecem, mas poderia ter sido mais aproveitado.

3. Setting/worldbuilding
O livro passa-se, na sua maioria, num típico bairro suburbano, e é fácil ter uma imagem mental do local a partir das descrições da autora. No que toca ao mundo “real”, não há muito a dizer; no que toca às secções do livro que se passam no céu, aí sim, acho que a autora perdeu algumas boas oportunidades de explorar um setting totalmente novo e que, para todos efeitos, não é comum noutros livros.

4. Estilo de escrita
Se vos disser que o livro parece escrito por uma adolescente de 14 anos com uma tendência para usar palavras grandes, vão ter perfeita noção do que estou a falar, não vão? Perfeito, porque é exactamente isso. Alice Sebold escreve num estilo adequado à história que está a contar, e embora as suas descrições tenham alguns momentos menos felizes, o livro não está de todo mal escrito.

Resumindo, estrutura interessante, personagens adequadas ao contexto, estilo e setting razoáveis, plot apressado com um final absolutamente desastroso. Ia dar três estrelas, mas com um final destes, não posso dar mais de duas.

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