[PT] "The Ground Beneath Her Feet" de Salman Rushdie



★ ★ ☆ ☆ ☆

The Ground Beneath Her Feet
Salman Rushdie
Ebook, aprox. 580 páginas

O chão move-se repetidamente sob os pés do leitor durante o decorrer do sexto romance de Salman Rushdie, uma adaptação do mito de Orfeu e Eurídice ao mundo do rock & roll. O protagonisa de Rushdie é Ormus Cama, nascido em Bombaim e fundador da banda mais popular do mundo. A sua Eurídice (e vocalista principal) é Vina Apsara, filha de uma mulher Greco-Americana e de um pai Indiano que abandonou a família. O que estes dois partilham, para além de um extraordinário talento musical, é uma vida familiar decididamente fora de série: o irmão gémeo de Ormus morreu no parto mas comunica com ele "do outro lado", e dos seus irmãos mais velhos, também gémeos, um tem lesões cebrebrais e outro é um serial killer. Vina, por ser lado, cresceu no interior rural dos Estados Unidos, onde, um dia, regressou a casa para encontrar o padrasto e as irmãs alvejados, e a mãe enforcada no celeiro. Não admira que estes dois acreditem que foram feitos um para o outro...

Não sei como é que isto funciona para o resto do mundo, mas eu decido se gosto de um livro nas primeiras 50 páginas. Certo, alguns acabam por me surpreender, mas no geral - nos livros tal como nas pessoas -, a minha primeira impressão costuma estar correcta. Ora, comecei este livro com expectativas altíssimas, porque embora não tivesse nenhuma experiência pessoal com a escrita do senhor Rushdie, já ouvira dizer muito bem dela, e a sinopse era no mínimo intrigante.

Na página 141 decidi que queria desistir, e a ideia manteve-se até ao fim ("porque raio é que estou a desperdiçar tempo com isto, assim é que não vou mesmo conseguir ler 50 livros este ano..."), mas armei-me em teimosa e fui até ao fim. Quer dizer, eu leio mas também escrevo, e há sempre uma pequena parte de mim que tenta respeitar o autor fazendo-lhe o obséquio de ler a obra até ao fim. Embora, numa de sinceridade total, não me parece que todos os autores tenham respeito pelos seus leitores, porque há coisas que não se apresentam a ninguém...

1. Plot
Sim, eu sei que fui eu quem fez esta estrutura, mas... que plot? Este livro é sobre um rapaz e uma rapariga, ou dois bebés, ou um homem e uma mulher, dependendo da parte do livro a que me referir, que se conhecem, apaixonam à primeira vista (a sério? amor à primeira vista? a sério? mais preguiçoso do que isto é impossível), são separados por um destino cruel, reunidos por um destino menos cruel não-sei-quantos anos depois... e assim ficam até morrerem. Entretanto criam a banda de rock mais popular do mundo, escrevem muitas canções fabulosas que o sr. Rushdie faz o favor de transcrever para o texto, têm toneladas de amantes, e basicamente vivem as vidas estereotipadas de duas estrelas rock.

Imaginem tudo isto narrado pelo amigo fotógrafo que se apaixonou por Vina em criança mas depressa percebeu que o homem da vida dela era mesmo Ormus, acrescentem umas pitadas de realismo mágico (mundos paralelos, succubi que visitam os nossos protagonistas a meio da noite, gémeos que comunicam mesmo quando um deles nunca chegou a nascer, etc), e acabei de vos espremer o livro para as mãos.

A essência da coisa até é interessante, mas o autor decidiu que uma mão-cheia de personagens durante um período da tempo limitado não chegava, e em vez disso, optou por contar a história de vida inteira dos protagonistas, mais umas quantas secções da vida de praticamente todas os personagens secundários. Ou seja, estas 580 páginas são na verdade umas... 150-200, se cortarmos toda a palha que não interessa. Que perda de tempo descomunal, huh.

Como nota positiva, vou só acrescentar que do ponto de vista do mito de Orfeu e Eurídice, o livro é extremamente competente - especialmente na parte final, equivalente ao momento em que Orfeu se apercebe que não vai poder regressar com Eurídice ao mundo dos vivos. A forma como o autor conseguiu adaptar o mito original a um cenário contemporâneo e razoavelmente realista ganhou-lhe uns quantos pontos na minha consideração.

2. Personagens
O narrador, Rai, não conseguiu um mínimo da minha empatia, mas isso é mesmo porque estou farta destes tipos de meia-idade cheios de nostalgia pela sua juventude e todas as coisas que não fizeram e todas as oportunidades que perderam e todas as palavras que não disseram. Em The Perks Of Being A Wallflower, Charlie queixava-se de sempre ter sido um espectador na sua própria vida, mas ouçam, Charlie tinha 15 anos - consigo lidar com os devaneios existenciais de um adolescente que ainda não apanhou bem o seu lugar no mundo, mas um adulto com suposta fama mundial e mais do que recursos suficientes para mudar praticamente tudo na sua vida se o quisesse mesmo? Não, não consigo ter empatia com ele, desculpem.

Quanto aos protagonistas, Ormus e Vina, eram ambos interessantes enquanto pessoas, mas não me pareceram bem construídos enquanto personagens. Isso deve-se mais à estrutura do livro do que outra coisa, diria eu, porque tendo um narrador participante, só vamos obter uma versão dos factos, parcial, incompleta e superficial. Quanto Rai me diz que eles se conheceram em determinado local em determinadas circunstâncias, eu consigo ver a situação, mas não consigo saber o que é que Ormus pensou de Vina quando a conheceu, ou o que é que Vina pensou de Ormus quando o conheceu - apenas sei aquilo que o narrador pensa que eles pensaram, e não me pareceu suficiente.

A personagem mais interessante de todas, no entanto, apareceu durante umas dezenas de páginas no final, uma "substituta" de Vina após a sua morte. Obviamente que não posso exigir que se fale mais de uma personagem secundária só porque gosto dela, mas destacou-se definitivamente do resto do elenco - pela sua coragem, pelo seu talento, e pela forma perfeitamente realista como perdeu a paciência com Ormus e lhe pôs os pontos nos iis. Sim, por favor, sim, dêem-me personagens com os pés na terra, obrigada!

3. Setting/worldbuilding
Salman Rushdie está apaixonado por Bombaim - não sei se por ter nascido lá, não sei se por qualquer outra razão - e isso faz com que as cenas passadas na Índia sejam infinitamente melhores do que as cenas passadas em Inglaterra e nos EUA. Existe uma certa atmosfera, nas ruas, nas lojas, nas casas dos personagens, que torna todo o cenário bastante envolvente, acolhedor, quase.

E adorei, repito, adorei a exploração das questões relacionadas com a cor de pele dos personagens nos vários países que atravessam ao longo da história. Se na Índia o seu tom de pele raramente é mencionado, no Ocidente torna-se subitamente relevante para a narrativa, e se gostei de ver esse pequeno ajuste, gostei ainda mais de o ver feito por um autor Indiano que parece saber exactamente do que está a falar.

Tirando isso, o livro passa-se no mundo... bem, real, e tem menções suficientes de eventos históricos (talvez até demasiadas) para o fazer parecer autêntico. Nada mais há a acrescentar.

4. Estilo de escrita
Ora bem, este é o momento em que vos digo que o senhor Rushdie escreve muito, muito bem. Devaneia um bocado (ok, bastante), mas sabe juntar palavras em frases bonitas, e é isso que interessa neste último ponto. O problema é que nem só de boa escrita se faz um livro, e este caso particular é um exercício em... Gestaltismo invertido.

Se algumas coisas são mais do que a soma das suas partes, outras são menos, e se as partes que compõem este livro nem são más, a combinação delas... não resulta. O facto de ter adormecido várias vezes ao longo desta leitura (e ter feito speed reading do último terço) é prova suficiente. Foi uma cruzada muito, muito desagradável, e não a recomendo a ninguém. Ainda assim, leva duas estrelas, porque reservo a minha rating mais baixa para livros absolutamente incompetentes - tipo, oh, não sei, The Hollow People -, e este não é de todo o caso.

Oh, mas esperem, mencionei que Ormus entra em coma, e só sai dele quando Vina se senta ao lado dele e o chama? Estou aqui com um ligeiro déjà vu, acho que até já disse isto hoje, mas... mais preguiçoso do que isto é mesmo impossível.

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