[PT] "Mort" de Terry Pratchett



★ ★ ★ ☆ ☆

Mort
Terry Pratchett
Corgi Books, 317 páginas

A Morte faz a Mort* uma proposta que ele não pode recusar - especialmente porque, bem, estar morto nem é obrigatório. Como novo aprendiz da Morte, terá alojamento e refeições garantidas, direito a utilizar o cavalo da empresa, e nem terá de pedir dias de folga para os funerais da família. A posição é tudo o que Mort pensava que queria... até descobrir que este emprego perfeito pode muito bem ser fatal para a sua vida amorosa.

* Percebi logo que esta tradução não ia funcionar, damn it. **
** Juro por todos os santinhos que não me estou a armar em engraçadinha com os asteriscos, ok.

Suponho que a maioria de vocês esteja familiarizada com o livro de hoje, ou pelo menos, com o seu autor. De qualquer forma, e antes de mais nada, tenho de lhe dar os meus parabéns pelo título. É um trocadilho tão óbvio que nem devia ter piada, mas mesmo assim, consegue deixar-me bem-disposta quando olho para ele. Mort, huh. Pergunto-me porque é que o título do livro é em franc- oh ok, já percebi.

1. Plot
Não sei se Pratchett é o tipo de autor que as pessoas lêem pelo plot, mas duvido sinceramente. O enredo aqui é simples: rapaz perfeitamente normal é acolhido debaixo da asa da Morte como seu aprendiz, faz asneira, passa o resto do livro a tentar resolver a asneira, e sofre uns quantos BSODs. Entretanto, a Morte tira uns dias de folga, e decide investigar este conceito de "divertimento" que os humanos levam tão a sério.

É simples, é aceitável, mas não é o tipo de coisa que consiga aguentar um livro por si só - ou seja, se não tivesse sido Pratchett a escrever, eu não teria lido este livro. Incidentalmente, se não tivesse sido Pratchett a escrever, suponho que este livro não me teria sido aconselhado de qualquer forma, so... o resultado seria o mesmo.

Como nota, gostava só de dedicar duas linhas ao final - mais ou menos o mesmo espaço que Pratchett lhe dedicou no próprio livro. That wasn't good. Com todo o respeito ao autor, que claramente sabe fazer muitas coisas bem, e tentando não incluir aqui grandes spoilers... o final desiludiu. Quer dizer, a partir do momento em que estabelecemos determinado personagem como o protagonista, fico com expectativas de o ver a resolver o conflito, mas infelizmente, não é isso que acontece aqui. Pior, ainda tenho a ligeira impressão de que tudo aquilo que gostaria de ter visto aconteceu off-camera, algures entre a penúltima e a última cenas. Para um livro sobre a Morte, esperava um final melhor.

Ha.

2. Personagens
Comecemos pela Morte. A Morte é a melhor. A Morte é a melhor em quase todos os livros em que aparece (tirando aquele pequeno trainwreck chamado Death: A Life), e Pratchett escreve-a de forma brilhante. Quando lemos a Morte de Pratchett, não estamos a ler sobre o terrível Grim Reaper que vai entrar pelo nosso quarto a meio da noite e ceifar-nos a cabeça ao meio. Não me entendam mal, esta Morte também faz tudo isso (e muito mais!), mas consegue fazê-lo de forma quase... adorável? Sim, adorável. A Morte de Pratchett é um cachorrinho e quero abraçá-la sempre que a vejo.

Ou pelo menos, queria, quando li Maskerade, o que me leva a concluir que talvez a Morte seja mais agradável em pequenas doses. Não consigo explicar o porquê de me sentir assim relativamente a esta personagem neste livro, mas houve algo aqui que não resultou. Talvez tenha sido a constante oscilação entre a Morte fofinha e a Morte toda-poderosa, ou talvez tenha sido o facto de o livro se servir do conceito da Morte como "um sujeito dedicado a determinado trabalho que até o consome um bocadito mais do que devia". Percebo que essa forma de racionalizar as coisas seja necessária para criar conflito e dar ao protagonista uns quantos momentos dramáticos, mas... não sei, pareceu-me uma forma barata de dar importância ao rapazinho perfeitamente normal que, objectivamente falando, não tem qualquer interesse.

Porque Mort é um protagonista. That's it. Mort é um rapaz perfeitamente normal que recebe um chamamento para a aventura, da qual regressa mais sábio, supostamente mais atraente, e bastante mais comprometido. Whoohoo. Não é particularmente incompetente no seu trabalho, mas deita tudo a perder logo no início porque oh, sei lá, viu ali uma miúda e quer salvá-la. Em todo este livro, entre todos estes parágrafos que não fazem qualquer sentido... esse foi o momento que me levou as mãos à cabeça. A sério? O teu empregador é a Morte e arriscas-te a enraivecê-la por causa de uma princesa que nem sequer conheces? Onde é que estes rapazes andam, e como é que os podemos eliminar da literatura para todo o sempre?

Sinceramente, considerando o autor, isto pode muito bem ser parte da paródia - mas hey, enquanto modo de agir, continua a ser absurdo.

Estas são as nossas POV characters. Quanto às restantes, pareceram-me tão pouco desenvolvidas que não tenho praticamente nada a dizer sobre elas. Ysabell, a filha adoptiva da Morte (don't ask...), consegue ser divertida, mas acaba por cair em vários clichés que a desvalorizam. Inicialmente não se dá com o protagonista, check. Mostra-se competente e capaz de ajudar o protagonista ao longo da história, check. Apaixona-se pelo protagonista e acabam casados, check. Porque sinceramente, quais eram as probabilidades de ele acabar emparelhado com a princesa que salvou? Zero.

E falando da princesa, Keli... esqueçam os outros todos, ela é a melhor. Esta princesa foi salva, sure, mas não contem com ela pare se desfazer em lágrimas ou rastejar aos pés do seu salvador. Em vez disso, contem com ela para ser teimosa, mal-humorada, e sim, tão mimada quanto uma princesa deve ser. A+ 10/10 would rec.

3. Setting/worldbuilding
Não me peçam para descrever o Discworld, a sério, porque se há pessoas neste mundo com capacidade para o fazer, eu não sou uma delas. Portanto, digamos apenas que este livro se passa num mundo mágico que tem a forma de um disco, apoiado nas costas de quatro elefantes gigantes, que por sua vez se empoleiram numa tartaruga gigante (sim, fui à Wiki).

Ou, basicamente, o setting é o mundo encantado e absurdo de Terry Pratchett em que tudo é possível independentemente das leis da física ou do período histórico, e o autor faz tudo para que não nos esqueçamos disso. Posto isto, sinto-me completamente desadequada a tentar avaliar (ou sequer explicar) este mundo, porque com tanto livro a passar-se nele (tanto livro que eu ainda não li, e que provavelmente não vou ler), não posso sequer fingir que sei do que estou a falar.

Quando li o meu primeiro livro de Pratchett (again, Maskerade), achei este mundo extraordinário, só mesmo pelas potencialidade, pela quantidade de histórias fora de comum que se poderiam passar nele. Agora, vendo as coisas de um prisma ligeiramente mais informado, acho que não é algo que funcione para mim a longo prazo. É agradável ler algo deste género de vez em quando, digamos, para limpar o paladar entre livros mais pesados e menos divertidos, mas não me consigo imaginar a ler a série inteira.

4. Estilo de escrita
Ora, aqui está a razão pela qual eu leio Pratchett. Não é pelo plot, não é pelas personagens, não é pelo setting. É pelo estilo. O homem tem sentido de humor, e uma forma curiosa de o expressar - não é o tipo de livro no qual se posa fazer speed-reading se quisermos apanhar todas as piadas.

Ainda assim, este livro pareceu-me menos... gracioso do que os outros que já li (o que faz sentido, uma vez que os precede), e inclusive, houve momentos em que revirei os olhos e tive vontade de pousar uma mão na capa com a maior solenidade possível e dizer-lhe... ouve, eu sei que és divertido. Eu sei que toda a gente te diz que és divertido. Mas como diríamos na língua em que foste escrito, enough is enough, e às vezes só gostava que te calasses e voltasses à história. Ok? Ok, obrigada.

Posto tudo isto, conseguiu ser uma leitura divertida. O rating é que vai ser complicado, mas como dei quatro estrelas a Maskerade e Monstrous Regiment, e três a Good Omens... acho que vamos ficar-nos pelas três.

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