[PT] "The Fire's Stone" de Tanya Huff



★ ★ ★ ☆ ☆

The Fire's Stone
Tanya Huff
Ebook, aprox. 280 páginas

Três estranhos são enviados numa missão aparentemente impossível para recuperar o talismã que impede que a cidade de Ischia seja engolida pelo vulcão em redor do qual foi construída. Aaron, o ladrão, tem mais a esconder do que jóias roubadas. Chandra, a feiticeira, está em fuga de um casamento político. E Darvish, o príncipe com quem ela se iria casar, e a pessoa de quem Aaron tem escondido mais do que o costume... precisa mesmo de uma bebida.

Aí há umas semanas, encontrei uma lista de personagens assexuais em obras de ficção. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o seu tamanho diminuto (15 títulos em fantasia/sci-fi? vá lá, mundo, nós conseguimos melhor do que isto). A segunda foi o facto de não incluir um único livro que eu já tivesse lido.

Decidida a resolver a questão, comecei pelo que me pareceu mais interessante. Este.

1. Plot
Suponho que já estejam todos fartinhos de me ouvir dizer que os livros têm plots simplistas, mas... este livro tem um plot simplista. Era uma vez uma cidade empoleirada num vulcão, até ao dia em que o calhau mágico que mantém as erupções sob controlo é roubado – vendo-se em maus lençóis, mas sem querer espalhar o pânico aos seus súbditos, o reino decide então enviar uma mini comitiva para o recuperar, comitiva esta constituída pelo princípe mais Casanova de todos (terceiro filho do rei, vocês sabem como é...), o ladrão que lhe caiu na varanda a meio da noite, e a princesa-feiticeira que lhe foi prometida em casamento.

É muito provavelmente o plot de fantasia mais batido de sempre, e embora alguns leitores tenham dado os parabéns à Sra. Huff pela criatividade na sua execução, não me apetece concordar com eles. Da minha perspectiva, este livro lê-se um bocado como um daqueles joguinhos de unir os pontos... não há qualquer expectativa na leitura, porque está bastante claro que os nossos heróis vão ser bem-sucedidos no final. E, pior do que isso, não existe nada em jogo. Ok, porreiro, a cidade vai acabar queimada, mas talvez devessem ter pensado nisso antes de a contruírem em cima de um vulcão, gente!

Outro ponto negativo é o pacing do livro... não verifiquei se isto é apenas percepção minha ou se a história está efectivamente mal distribuída pelas páginas, mas a ideia é que tenho é que o início demora uma eternidade a estabelecer o enredo, o que corta imenso o meio da história e acaba por “antecipar” o final. A certa altura, dei por mim a olhar para o número de páginas tipo... espera, já é esta a batalha final? Porque é que não passei as últimas páginas a antecipar isto?

Porque o livro está mal estruturado, that’s why.

2. Personagens
Esta é sempre a minha categoria preferida, e neste livro... acreditem em mim, vale a pena ignorar todos os defeitos que já apontei (e que ainda vou apontar) só mesmo pelas personagens.

A parte da “tensão homoerótica” que incluí no título refere-se, muito obviamente, a Darvish e Aaron. O primeiro, oriundo de um reino em que as relações dentro do mesmo género são mais do que aceites (três vivas, hooray!), é descontraidamente bissexual. O segundo, oriundo de um reino em que as relações dentro do mesmo género são... well, pecado capital, também é bissexual, embora os seus demónios interiores tenham muito a dizer sobre o assunto. A relação entre os dois começa quando Aaron cai (a sério, que ladrão competente...) em cheio na varanda do príncipe, quase perde a cabeça à custa de uns golpes de espada ligeiramente alcoolizados, e acaba estendido na câmara de tortura do palácio. Daí para a frente, preparem-se para duzentas páginas de Will They Or Won’t They, pontuadas por um ou outro plot development ridiculamente conveniente (tipo elos mágicos entre almas e afins...).

Quanto a Chandra, ela é a personagem assexual a quem a lista já mencionada se referia, e se a princípio me senti um pouco reticente em relação à forma como a sua sexualidade seria explorada – tudo menos virginity-based magic, tudo menos virginity-based magic, POR FAVOR –, posso dizer que saio deste leitura bastante satisfeita. Efectivamente, é-nos dito que a magia deste mundo requer algum tipo de poder interior que pode ser desperdiçado com coisas tipo casamentos e sexo... mas não é algo em que a escrita se alongue, pelo que não achei muito problemático. Além disso, Chandra é uma personagem sinceramente fabulosa. A única rapariga do trio, mais nova do que os outros dias mas bastante mais madura, focada a 100% na sua busca por conhecimento e poder, e suficientemente proactiva para decidir que hey, se o pai não lhe vai cancelar o casamento, então ela vai tratar do assunto pelas próprias mãos.

Resumindo, achei os personagens bem construídos – especialmente Aaron –, e embora não sejam super interessantes por si só, a relação que a autora conseguiu criar entre eles eleva este livro acima de... possivelmente todos os que li este ano? Há algo muito descontraído, positivo, e diria até saudável na relação que nos é exposta nesta história – há várias formas de gostar de alguém, nem todas entram em conflito umas com as outras, e não é preciso emparelhar toda a gente de forma romântica para atingir um final satisfatório para os personagens. Ora aí está uma boa lição para alguns autores de YA.

Mas nem tudo são rosas, senhores, nem tudo, e se o trio principal é praticamente perfeito, o vilão é uma piada, e as personagens secundárias têm muito pouco que se lhe diga. Mas voltando aos pontos positivos, só queria fazer uma nota final para a preocupação que a autora teve em incluir tanto homens como mulheres nos papéis “figurantes” - guardas, marinheiros, feiticeiros, mercadores, líderes religiosos, conselheiros -, algo que não é muito comum em obras deste género, e que acaba por se destacar (muito) pela positiva.

3. Setting/worldbuilding
Setting genérico, medievalesco, com as típicas viagens entre cidades e reinos e afins – nota-se um esforço em distinguir a arquitectura dos diferentes locais, mas acaba por ser pouco significativo para o livro. Não tenho mais nada a dizer. É um mundo once coisas acontecem, mas não vejo ninguém a pegar neste título pelo worldbuilding.

Aquilo de que efectivamente gostei... foi o sistema de magia utilizado.

As divindades deste livro são dez, descritas como a One Below, e os Nine Above, sendo que a One é a progenitora dos Nove, e cada um dos Nove tem capacidades específicas – tempestades, tremores de terra, algo relacionado com cadáveres que confesso não ter compreendido... e por aí fora. Os feiticeiros que existem são assim categorizados de acordo com as suas capacidades, tornando-se Wizards Of The First, Wizards Of The Second, Wizards Of The Third, etc. Depois, temos feiticeiros ultra-poderosos, denominados Wizards Of The Nine (sim, de todos), que não exibem quaisquer limitações em termos daquilo que conseguem ou não fazer – têm mais poder que os outros todos juntos, and then some.

Normalmente, salto tudo o que é apêndice em livros de fantasia, mas tenho de confessar que aqui, senti alguma falta de uma lista completa das divindades e seus poderes, só mesmo para matar a curiosidade.

4. Estilo de escrita
Este livro tenta, é um facto. Tenta, e embora tenha uns laivos assim para o purple de Tanith Lee (no criticism here, adoro a Sra. Lee), não lhe chega nem aos calcanhares. Se me permitem o informalismo... este livro está verde. É perfeitamente legível e nada incomodativo, mas tem algo de muito imaturo na escrita, e não consigo explicá-lo. Precisava de mais revisão. Ou talvez de mais... não sei. Mais mais.

O grande, grande problema... está no head-hopping. Não é o exemplo mais incomodativo que alguma vez li, mas por amor de Deus, autores, se vão mudar de personagem de POV a cada cena, avisem-me. Avisem-me com um asterisco (o ebook não tinha qualquer indicação gráfica de mudança de cena), ou iniciem um capítulo novo, ou se tudo isto parecer demasiado complexo, tornem verbalmente claro que mudámos de personagem. Por exemplo, se quiserem escrever uma cena do POV do João, comecem com “o João pensa que”; quando quiserem mudar para a Maria, comecem com “a Maria pensa que”.

Infelizmente, este livro passava do João para a Maria sem indicações gráficas, sem mudanças de capítulos... e sem sujeitos claros na primeira frase de cada nova cena. Exemplo, em que os nossos protagonistas estão a escapar de um palácio:

Then she was caught in strong arms that held her close and whispered with Darvish’s voice, “Hush, little one, you’re safe.” It didn’t seem worth it to argue with the form of address.
The crowd outside the palace gates surged back and forth like an angry sea.

Viram a mudança de cena? Eu também não. Como é que é suposto saber que o palácio da segunda frase não é o mesmo palácio de que os nossos heróis estão a escapar? Another:

King Harith drummed his fingers on the arm of his throne. “His kind,” he snorted. “Offer a purse of gold and a full pardon to anyone who gives information leading to their capture and that should take care of his kind.”
“I’m sorry. I can’t. It hurts.” Darvish reached out and shook Chandra’s shoulder gently.

Darvish não está a responder ao rei. Darvish nem sequer está na mesma cidade que o rei. What the hell, writer. Se há coisa que me deixa passadinha de todo, é isto – e especialmente porque a solução é literalmente tão simples quanto colocar um asterisco entre as passagens.

*sigh*

Eeeeeeee chegamos assim ao fim com um ligeiro conflito interior, porque esta review soava muito mais positiva na minha mente... mas agora que a escrevi (e li), não consigo justificar atribuir mais de três estrelas a este livro. São três e meia, três setenta e cinco, três noventa... mas mesmo assim três. Acho que sou capaz de o reler, though.

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