[PT] "1Q84, Livro Um" de Haruki Murakami



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1Q84
Haruki Murakami
Vintage Books, 1318 páginas

O ano é 1984 e a cidade é Tóquio. Uma jovem mulher, Aomame, segue a enigmática sugestão de um taxista, e começa a notar chocantes discrepâncias no mundo à sua volta. Acaba de entrar, conclui, numa existência paralela, a que dá o nome de 1Q84 - Q de "questão". Ao mesmo tempo, um aspirante a escritor, Tengo, inicia um complicado projecto de ghostwriting - e envolve-se tanto com a tarefa e com a sua estranha autora que a sua vida anteriormente plácida se começa a desmoronar. À medida que as narrativas de Aomame e Tengo convergem ao longo de um ano, o leitor descobre as profundas ligações entre as duas: uma adolescente disléxica com uma visão única; um misterioso culto religioso; uma viúva rica e reclusiva que dirige um abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica; e um guarda-costas discreto mas assustadoramente eficiente.

O livro de hoje, 1Q84, do aclamado Haruki Murakami, foi originalmente publicado em três volumes – os primeiros dois em 2009, e o terceiro em 2010. Algumas editoras têm mantido esta organização tripartida – como é o caso da portuguesa Casa das Letras –, enquanto outras – como a britânica Vintage Books – têm optado por publicar a trilogia completa num único volume.

Ora, estava eu na Fnac em Dezembro do ano passado quando me apeteceu dar uma vista de olhos a este livro... a intenção era a de comprar apenas o primeiro volume, porque não sou pessoa de mergulhar na série toda de uma vez, mas uma análise atenta dos preços levou-me à conclusão de que cada volume individual, em português, custava 18.80€. Tudo bem, mas hey... a trilogia completa, em inglês, custava 18.75€. Escusado será dizer que optei por esta última.

Ainda assim, e como já disse, gosto de levar as séries um volume cada vez, pelo que esta opinião diz respeito apenas ao primeiro livro da trilogia.

1. Plot
O livro começa com Aomame, uma jovem profissional que, com pressa, abandona o seu táxi na auto-estrada para descer por uma escada de emergência e ir a pé até ao seu destino. Algures entre estes dois pontos, o mundo à sua volta muda de forma quase indescritível, e se, ao início, as únicas coisas diferentes são os uniformes dos polícias, à medida que avançamos na leitura, Aomame informa-nos que não tem memória de vários eventos descritos nos meios de comunicação social, e que existem agora duas luas no céu. Tudo isto já daria pano para mangas, mas há mais, pois Aomame não é uma profissional qualquer. Não, esta mulher é uma assassina contratada, e os seus alvos são homens culpados de actos de violência doméstica. Novamente, tudo isto já daria pano para mangas, mas há mais, pois o próximo alvo de Aomame não é uma pessoa qualquer, mas sim o líder de um perigoso culto religioso.

E isto é apenas uma protagonista. Do lado de Tengo, temos um aspirante a escritor que alinha com o seu traiçoeiro editor num plano ligeiramente pouco ético – pegar numa obra enviada por uma adolescente de 17 anos para um concurso literário, reescrevê-la sem que a organização se aperceba, e esperar para a ver voar das estantes. Porquê? Não sei, porque a obra é boa, aparentemente, mas não o suficiente. Tudo corre muito bem, mas a autora impõe várias condições, and next thing you know, BAM, estão demasiadas pessoas envolvidas, e talvez a obra dela (sobre pessoas a sair de dentro de animais e afins...) seja mais auto-biográfica do que ao início se pensava.

Este é o esqueleto do plot, sem grandes spoilers, e na minha opinião, lê-se extremamente bem. O único “aviso” que posso fazer é que este livro se inclina BASTANTE para o território do realismo mágico. As coisas acontecem, nunca nos são explicadas, e Murakami nem sequer se esforça para as fazer parecer credíveis. Portanto, ou vêm para este livro com uma mente muito aberta e uma capacidade descomunal de lidar com o absurdo, ou vão querer atirá-lo pela janela.

2. Personagens
Aomame e Tengo são perfeitos em tanta coisa (inteligentes, em boa forma, atraentes, bons em mais do que um desporto, óptima performance sexual, whoohoo!) que parecem quase super-humanos, mas ainda assim, e por uma qualquer razão inexplicável, as suas vidas têm muito pouco de agradável.

Especificamente, Tengo é, perdoem-me, um ligeiro totó. Oh eu escrevo livros e sou um homem sensível e ético e o meu pai não era assim grande pai, mas pronto, sou bom em muita coisa, tenho uma namorada que é casada com outro homem mas não interessa, porque só nos encontramos para ter sexo, e... é isto a minha vida, WOE IS ME. É um protagonista que se arrasta um bocado pelo mundo, sem aquecer nem arrefecer, mas pronto, lidamos com ele porque a sua plotline até é razoavelmente interessante.

Aomame é a parte complicada deste duo. Ao início, simpatizei bastante com ela, e quase me engasguei quando percebi que, contra todas as expectativas, Murakami, que normalmente escreve homens, optou por escrever uma mulher que é, em todos os aspectos, feminista (embora ela o negue no próprio texto). Ora, porque é que simpatizei com Aomame? Porque é uma mulher competente, racional, forte (tanto física como psicologicamente), com iniciativa face à sua vida sexual (ao invés de ser apenas um objecto desejado pelas personagens masculinas), e mais importante do que tudo isto, uma mulher que é levada a sério no seu contexto, e que não é definida por nenhum homem.


Pensava eu. Afinal, go figure, a nossa protagonista não quer uma relação estável com nenhum homem porque... continua apaixonada pelo rapaz que lhe deu a mão quando tinham dez anos. Wow. De todas as justificações possíveis. De todos os plot twists possíveis. Murakami vai para o amor à primeira vista aos dez anos de idade. Ok.

E voltando à questão da iniciativa face à sua vida sexual. É verdade, quando Aomame decide que quer uma one-night stand, vai a um bar, e consegue uma one-night stand. Mas isto acontece várias vezes, e sem qualquer relevância para o plot. A certa altura, Aomame até arranja uma amiga com quem vai procurar one-night stands, e fingem ser lésbicas (literalmente, we played lesbians), porque, sei lá, os homens devem gostar disso. Relevância para o plot, zero. E hey, porque raio é que Murakami não escreve de uma vez que a mulher é bissexual? Ela tem interesse suficiente no seu próprio género, basta ler o livro. Mas não, fingir ser lésbica é melhor, porque é seguro para os homens envolvidos. Aomame pode gostar de beijar mulheres, mas não se preocupem, cavalheiros, é para vos agradar, porque do que ela gosta mesmo é de vocês. É tão óbvio que foi um homem a escrever isto, que até dói.

Convenientemente, o tipo ideal de Aomame também é um homem de meia-idade que está a começar a perder cabelo, por isso... se esta mulher não foi escrita, em grande parte, para agradar às fantasias do autor, I will eat my hat.

3. Setting/worldbuilding
O setting é Tóquio em 1984, com ligeiros detalhes quase... surrealistas. Não há muito a dizer sobre este ponto. A acção desenrola-se entre os apartamentos dos protagonistas e vários cafés e restaurantes, passando por transportes públicos e o ocasional hotel. Alguns cenários, como a casa da viúva mencionada na sinopse, são descritos com tanto detalhe que quase conseguimos cheirar as flores dentro da estufa, e isso ajuda definitivamente a cimentar a imagem mental do setting. Ainda assim, esta é uma obra maioritariamente focada nos personagens e nos seus infindáveis monólogos mentais, por isso não esperem grande worldbuilding.

4. Estilo de escrita
Pessoalmente, adoro o estilo de escrita de Murakami – nem sempre é elegante, mas é leve e directo ao assunto, sem grandes artifícios ou tentativas de purple prose. O autor perde-se de vez em quando, é verdade, mas com tempo e paciência, acho que ler 1318 páginas disto não seria grande sacrifício.

Mas há um problema. Haruki Murakami é... obcecado por seios. Não há outra forma de pôr isto – o homem não vê mais nada à frente. De cada vez que nos apresenta uma personagem feminina, contem com isso, também nos vai apresentar o seu peito - e depois vai aproveitar todas as oportunidades possíveis para nos reorientar na direcção dele (a sério, cliquem neste link e façam scroll até encontrarem as citações). Aqui temos o meu exemplo preferido, de um diálogo entre Tengo e o seu editor, que discutem a primeira conferência de imprensa dada pela adolescente de 17 anos:

“What was Fuka-Eri wearing?”
“What was she wearing? Just normal clothes. A tight sweater and jeans.”
“A sweater that showed off her boobs?”
“Yes, now that you mention it. Nice shape. They looked brand new, fresh from the oven.”

Como desumanizar uma personagem em quatro linhas de diálogo, cortesia de Haruki Murakami. Nem sei o que esperava de um homem que já admitiu que escreve mulheres como plot devices:

In my books and stories, women are mediums, in a sense; the function of the medium is to make something happen through herself. It’s a kind of system to be experienced. The protagonist is always led somewhere by the medium and the visions that he sees are shown to him by her.

Vai para casa, Murakami. Vai para casa pensar no que fizeste. Entretanto, eu vou ficar aqui, e baixar uma estrela na rating que tinha planeado dar a este livro. É bom, bom o suficiente para me pôr a ler a trilogia inteira, mas dispenso devaneios destes, e não consigo ler uma obra em que até o peito de uma miúda de 10 anos (sim, leram bem, DEZ) é escrutinado sem qualquer razão aparente, só porque o autor tem uma qualquer fixação que não consegue controlar.

Três estrelas, I'm not even sorry.

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