[PT] "Soulless" de Gail Carriger



★ ★ ★ ☆ ☆

Soulless
Gail Carriger
Ebook, aprox. 350 pages

Em primeiro lugar, ela não tem alma. Em segundo, é uma mulher solteira cujo pai era Italiano (e está morto). Em terceiro, foi recentemente atacada por um vampiro, quebrando todas as regras de etiqueta social. Daqui para a frente, as coisas vão de mal a pior, pois Alexia acaba por matar acidentalmente o vampiro - e depois, Lord Maccon (desleixado, lindo, e lobisomem) é enviado pela Rainha Victoria para investigar. Com vampiros a aparecer e desaparecer, toda a gente parece acreditar que Alexia é responsável. Conseguirá ela descobrir o que se está realmente a passar na alta sociedade londrina? Será que a sua capacidade de anular poderes sobrenaturais se provará útil ou apenas embaraçosa? E finalmente, quem é o verdadeiro inimigo, e será que têm tarte de melaço?

Na minha cruzada em busca de um livro steampunk a que possa chamar o meu Santo Graal, deixei para trás os sonhos de movimento perpétuo e optei por algo mais... bem, chamemos-lhe "seguro", e que já tinha inclusive alguma credibilidade no meu círculo social (adoro esta expressão, círculo social) pela qualidade da sua protagonista feminina. Vamos à review.

1. Plot
O enredo deste livro é simples, e não se alonga muito além do que é descrito na própria sinopse. Era uma vez uma donzela solteira (e sem alma, o que lhe dá a capacidade de neutralizar habilidades sobrenaturais com contacto físico) chamada Alexia Tarabotti, que se vê envolvida nos estranhos desaparecimentos e aparecimentos de vampiros na cidade de Londres. Sendo este um livro steampunk, é quase certo que mais cedo ou mais tarde nos vamos deparar com 1) cientistas, ou 2) inventores, mas não vou avançar muito mais ou acabo por desenrolar o enredo todo. Para pôr as pontos nos iii, é uma história simples, fácil de acompanhar, e duvido muito seriamente que alguém alguma vez tenha lido (ou aconselhado, for that matter) este livro pelo plot. Silly me.

2. Personagens
Efectivamente, este livro foi-me aconselhado por causa da protagonista, e devo admitir que Alexia Tarabotti tem muito que outras protagonistas dos dias de hoje não têm. Coisas como agência e iniciativa. Infelizmente, a coisa fica-se mais ou menos por aí, sendo que a donzela não possui grande personalidade ou qualidades (ou defeitos) para além desses - o que a safa (aka O Que A Torna Divertida De Ler) é que ter agência e iniciativa não era coisa a desejar numa solteirona Vitoriana. No fundo, não tenho grandes críticas ou elogios a tecer, e fico-me por dizer que Alexia me deixou bastante indiferente. (Sinceramente, dei por mim a encolher os ombros várias vezes ao longo desta review.)

Mas Alexia não vem sozinha, e se me tivesse apercebido disto mais cedo, talvez não tivesse lido o livro com tantas expectativas. Enter Lord Maccon, o interesse amoroso que consigo descrever de várias maneiras. A primeira é: basicamente, um animal. A segunda é: o estereótipo do brutamontes sem grandes maneiras ou talentos organizacionais numa posição de autoridade (lobisomem, Alfa), que as florzinhas de estufa Londrinas até curtem porque RAWRRR, ele cheira a prados verdejantes e traz consigo o ar bárbaro e selvagem da velha Escócia. Suponho que isso seja desejável? Ha. Haha. Haha. Ha-ha-haha... tirem-me este tipo da frente. Mencionei que é lobisomem? Ok.

As coisas começam a melhorar com Professor Lyall, o Beta do brutamontes. No que toca a personagens masculinas, este é claramente o meu tipo, o sidekick ultra competente, ultra bem vestido, ultra snarky, ultra discreto. O meu segundo tipo no que toca a personagens masculinas é personificado no ultra competente, ultra bem vestido, ultra snarky, mas NADA discreto Lord Akeldama, que posso descrever como um misto visual de Lestat (vocês sabem, o vampiro) e Visconde Druitt (vocês sabem, do manga Black Butler). Se houve alguma coisa a reter deste livro, é que estes dois dariam um casal fascinante.

Existem mais personagens, claro, mas não me vou alongar, porque nenhuma delas aquece ou arrefece grandemente o livro. O vilão é fraco, e todo o seu grupinho parece construído à pressão para nos dar um final mais ou menos de acção num livro que estava a descambar seriamente para o território dos romances Harlequin.

A minha menção honrosa vai para a inclusão no livro do americano Duncan MacDougall, uma pessoa mais do que real, que nos inícios do século XX decidiu dedicar o seu tempo a provar que a alma humana não só existia, como abandonava o corpo após a morte. Como é que ele fez isto? Pesando seis pacientes moribundos no exacto momento da sua morte, e chegando assim à conclusão de que a alma humana pesa, go figure, 21 gramas.

3. Setting/worldbuilding
Quanto a setting, vou fazer aqui um comentário que já fiz a um outro livro steampunk que li anteriormente. Podíamos tirar o steam, e não íamos perder nada. Não sei, pode ser só a minha voz inexperiente a falar, mas este é um setting 99% Vitoriano, com dirigíveis, umas engenhocas a vapor aqui e ali, e elementos sobrenaturais que ocupam a maior parte do worldbuilding. Again, nada de errado com isso, a autora tem todo o poder de criar o setting que bem lhe apetecer, mas no que toca a steampunk, ainda não é bem isto que procuro.

Ainda assim, leva pontos bónus pela forma como integrou os seres sobrenaturais na sociedade, com as suas próprias políticas e regras de etiqueta... quase como pequenas máfias. Se há razão para ler este livro, é bem capaz de ser essa.

4. Estilo de escrita
Neste ponto, não há muito a dizer. Gail Carriger é uma escritora competente, bastante sarcástica quando lhe convém, e dá-me muito pouco por onde me queixar. True, um bocadinho mais de descrição que não dissesse respeito a roupa ou comida não seria má de todo, mas não me vou alongar nisto. A escrita é leve, simples, e encaixa bem com o tom geral do livro.

Dito tudo isto, e julgando pelo número de vezes que encolhi os ombros, acho que a minha conclusão sobre este livro acaba por ser... não tem muito por onde se esprema. (Podemos até descrevê-lo como... sim, boa ideia... soulless.) É um livro, lê-se bem, entretém, mas não é propriamente algo que vá recomendar ou reler no futuro.

0 comentários:

Enviar um comentário