[PT] "O Ano da Morte de Ricardo Reis" de José Saramago



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O Ano da Morte de Ricardo Reis
José Saramago
Caminho, 582 páginas

Um tempo múltiplo. Labiríntico. As histórias das sociedades humanas. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de Dezembro de 1935. Fica até Setembro de 1936. Uma personagem vinda de uma outra ficção, a da heteronímia de Fernando Pessoa. E as relações entre a vida e a morte. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de Dezembro e Fernando Pessoa morreu a 30 de Novembro. Ricardo Reis visita-o ao cemitério. Um tempo complexo. O fascismo consolida-se em Portugal.

Não me lembro de tudo o que me foi ensinado no Secundário, e especialmente não na disciplina de Português... mas posso dizer que mantive algumas noções básicas de Fernando Pessoa & Companhia. Para começar, o ortónimo tinha dores quando pensava. O Álvaro era o high-tech do grupo. O Caeiro passeava-se pelos campos, e o Ricardo Reis... era o outro, vocês sabem, aquele do carpe diem e dos classicismos. A verdade é que a minha imagem mental de Ricardo Reis sempre foi muito de encontro à de um novato pretensioso que não sabe muito bem como se apresentar ao mundo ou o que fazer de si mesmo, o que também não é problema, porque não tem muito para mostrar.

Lamento informar que este livro de Saramago apenas contribuiu para reforçar esta minha imagem mental, e vou já explicar-vos porquê.

1. Plot
O plot é fino como... nem sei, hóstia. Ricardo Reis volta do Brasil para Portugal, vive num hotel por algum tempo, lê jornais, almoça fora e janta no hotel, envolve-se com uma criada, deixa-se fascinar por uma hóspede com idade para ser sua filha, arranja casa própria, almoça e janta fora, faz umas consultas, vai a Fátima, deprime, e morre.

Porque é que isto é digno de ser escrito, publicado, e lido, nem me perguntem. Ok, a popularidade de Fernando Pessoa & Companhia ajudam... afinal, esta trupe é o orgulho de muitos de nós, e é provável que a mera menção dos seus nomes seja capaz de transformar qualquer livro em ouro, mas isto? Isto é a descrição em 600 páginas da vida de um personagem que pouco vale (a não ser pelo nome), mais ou menos embrulhada num conceito que já foi por muitos integrado na corrente de magical realism (a razão pela qual li o livro, para ser sincera), completamente ofuscada por toneladas de descrição que não interessam nem ao proverbial menino Jesus.

2. Personagens
Ricardo Reis, quase nos seus 50 anos, um homem que detesta a sua barba porque está a ficar branca, aparentemente tem medo de mulheres, e passa o livro inteiro a tentar... ler um livro (oh, como o compreendo). Ocasionalmente, também lê os já mencionados jornais, e há inclusive um episódio em que Saramago nos dá uma página inteira de anúncios publicitários lidos pelo Sr. Reis. Não é um personagem de que seja possível gostar, porque depois de tudo o que li, continuo a não saber nada sobre ele. Arrasta-se por Lisboa, queixa-se da chuva, vai a Fátima, queixa-se do sol, filosofa sobre o Adamastor, o Adão, a Eva, esquece-se de comprar fósforos, acha-se incapaz de enfiar uma almofada numa fronha sem ajuda de uma mulher. É este o nosso protagonista. Só dá vontade de lhe dar um par de estalos e um sermão, acorda para a vida, Reis, tens 50 anos e o teu ortónimo morreu, se há hora para brilhares, é mesmo esta.

Mas não, está a chover, e a Lídia deve estar aí a chegar.

Falando de Lídia, é uma mulher "simples" (sim, ela é uma criada e ele é um doutor, Saramago, nós sabemos, lemos isso vinte vezes nas últimas três páginas) mas sábia, que sabe sempre mais do que diz. Posso estar errada, porque li Memorial do Convento há bastante tempo, mas não é essencialmente este o tipo de mulher que Blimunda é? Não sei, sempre que lia passagens sobre Lídia lembrava-me de outro alguém, outra personagem, outra mulher dentro do género. É como se ela não fosse uma personagem, mas apenas um arquétipo, a mulher.

Quanto a Marcenda, o segundo love interest de Ricardo Reis, muito pouco nos é dito sobre ela. Também sabe mais do que diz, é rica, bem comportada, e tem um braço paralisado, sendo que este último ponto acaba por ser a razão pela qual Ricardo Reis ganha interesse nela. É quase um fetish, sinceramente, a forma como o autor a descreve, a mão esquerda como um "animalzinho" que ela afaga e coloca no bolso para que não se note... tudo em Marcenda é infantilizado pela narrativa, desde as descrições do seu braço à forma como vive atrás da vontade do pai. Se Lídia é a mulher, Marcenda é a menina.

Fernando Pessoa faz algumas aparições, mas gostaria que tivessem sido mais frequentes - adoro o conceito de que uma pessoa, depois de morta, tem direito a nove meses para vaguear pelo mundo antes de se ir de vez, tal como um bebé teve nove meses para se desenvolver antes de nascer. É brilhante, e é aquele tipo de coisa na qual gostava de ter pensado primeiro. Infelizmente, é mal aproveitada.

Existem outras personagens recorrentes - as vizinhas curiosas, os idosos desconfiados, o gerente hiper-competente, os pagens e empregados prestáveis... etc etc etc -, mas nenhuma digna de crítica (ou elogio). São personagens secundárias, e cumprem a função para a qual foram desenhadas. Como nota final (e bastante pessoal), gostaria de ter visto mais dos restantes heterónimos, mas não me parece que isso tivesse contribuído para melhorar o livro, de qualquer forma.

3. Setting/worldbuilding
O livro passa-se em Lisboa, ano de 1936, e muitos dizem ser este o foco principal da história. O fascismo espalha-se pela Europa, a Guerra Civil deflagra em Espanha, Salazar vai apertando o cerco às liberdades dos portugueses... e Ricardo Reis deprime, claro. Concordo com quem quer que me diga que este livro tem uma atmosfera cinzenta, opressiva, sombria... mas pelo menos no que tocou à minha leitura pessoal, isso deveu-se mais à personalidade (ou falta dela) do protagonista do que ao momento histórico em questão. O avançar da Segunda Guerra Mundial foi impossivelmente dramático, não o nego (hey, tive três anos de história e vejo documentários sobre o Holocausto sempre que posso, sei do que falo) mas quando contado através dos olhos de um personagem que vê a vida a cinza e cinzento... torna-se aborrecido, e faz-se saltar páginas.

Claro que não posso reclamar com o nosso Nobel por ter escrito um livro de magical realism tendo os regimes fascistas Europeus como backdrop... isso seria tomar um livro como um afronta pessoal, e enquanto leitora, não me parece que possa fazer isso. Portanto, limitar-me-ei a dizer que não gostei das passagens em que Saramago se perde em diálogos militaristas, mas quem escolheu ler este livro fui eu - e talvez o tivesse evitado se tivesse levado a sinopse mais a sério.

Como ponto positivo, vou só acrescentar que as descrições de Lisboa estão praticamente perfeitas - ler algumas passagens deste livro é bem capaz de ser a forma mais fácil de dar uma passeata pela capital sem sair de casa.

4. Estilo de escrita
Saramago escreve muito e pontua pouco, isso todos sabemos. Mas se há momentos em que se torna excessivo, também há momentos em que a escrita quase nos... embala, e isto é algo que notei em todos os livros que li dele, até hoje. O problema é mesmo a raridade com que encontro esses momentos, portanto, talvez eu não seja simplesmente o tipo de leitora certa para este autor. Amigas e amigos já me ouviram dizer várias vezes que desconfio sempre de livros grandes - "será que não dava mesmo para dizer a mesma coisa em metade das páginas?" -, apenas porque, na grande maioria das vezes, encontro padding em vez de plot. Passagens de descrição sem fim, devaneios sobre tudo desde a cor do céu à forma correcta de fazer chá, diálogos que não têm qualquer ligação com a história principal... é só dizer. Prefiro mil vezes ler um livro de duzentas páginas, action-packed por todos os lados, do que um tijolo de papel que ocupa essas mesmas duzentas páginas... a apresentar personagens.

Portanto, a minha opinião aqui é que dava, efectivamente, para dizer a mesma coisa em metade das páginas. Eu teria gostado muito mais do livro, Ricardo Reis teria passado menos tempo a deprimir, e no geral, toda a gente teria ficado feliz. Infelizmente, aí já não seria um livro de Saramago, pelo que terei de me resignar à realidade. Duas estrelas, e fico feliz por ter acabado.

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