[PT] "The Dream Of Perpetual Motion" de Dexter Palmer



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The Dream Of Perpetual Motion
Dexter Palmer
Ebook, aprox. 350 páginas

Aprisionado para o resto da vida a bordo de um dirigível, o escritor de cartões Harold Winslow regista as suas memórias. Os seus únicos companheiros são a voz desencarnada de Miranda Taligent, a única mulher que alguma vez amou, e o corpo criogenicamente congelado do pai dela, Prospero, o génio e magnata que a levou à loucura. A história de vida de Harold é também a de uma realidade alternativa, onde os ricos têm homens mecânicos como servos, onde réplicas de ilhas desertas existem dentro de arranha-céus, e onde ele próprio participa, contra a sua vontade, na maior invenção de todos os tempos - a máquina de movimento perpétuo.

Está tudo muito bem, mas antes de mais nada, vamos discutir uma coisa muito séria. Traduzi e resumi a sinopse original, uma vez que... bem, este blog é em português. Mas, mesmo tendo sido cortada, há uma parte que merece uma menção honrosa:

Beautifully written, stunningly imagined, and wickedly funny, The Dream of Perpetual Motion is a heartfelt meditation on the place of love in a world dominated by technology.

Wickedly funny. Quem é que escreveu isto? Arriscaria dizer que foi provavelmente a mesma pessoa que descreveu The Book Of Human Skin como "funny, horrific, subversive", mas tal é pouco provável, uma vez que esta última citação se encontra na capa do livro, e assinada por Joanne Harris. A sério? Funny? Sinto-me numa realidade alternativa em que Vlad-O-Impalador é crítico literário. Funny. Deuses me ajudem, vamos mas é à minha crítica.

1. Plot
Well, well, well. Não fazia ideia quando comecei a ler o livro (porque os meus conhecimentos de Shakespeare se resumem à forma correcta de escrever o seu nome), mas é suposto isto ser uma retelling (ou talvez só uma adaptação muito, muito liberal) da peça The Tempest. Para que conste, não sei nada sobre esta peça - apenas que fizeram um filme em 2010 com um star-studded cast (Helen Mirren, Ben Whishaw, Djimon Hounsou, Alfred Molina, entre outros) e diálogos em Shakespeare!Speak, pelo que gostei muito do que vi, mas não percebi nada do que ouvi.



No entanto, uma vez que não sabia de nada disto quando li o livro, vou ignorar o source material (e o filme), e opinar apenas sobre o que tive à frente. Começando pelo plot, então. Era uma vez um rapaz perfeitamente normal (Harold) que entra na vida da rapariga não tão normal (Miranda) por intervenção exterior (Prospero). Beijam-se aos dez anos, são separados por intervenção exterior, reencontram-se aos vinte por intervenção exterior, ele está muito apaixonado por ela (e o que ela sente por ele é um mistério), são novamente separados por intervenção exterior, e quase se reencontram aos trinta por intervenção exterior. Meanwhile, o rapaz perfeitamente normal, que, coitadinho, não tem grandes sentimentos, alguém o ajude com a ManPain(TM), conta-nos toda esta história da sua prisão-dirigível, com todos os detalhes sórdidos (e machistas) que quase me fizeram atirar o livro pela janela.

Todo este conceito de herói passivo e intervenção exterior... não é mau. A ideia de que um homem manipulou a vida inteira do protagonista sem que ele se tenha (sempre) apercebido é bastante boa. A ideia de que um homem manipulou a vida inteira do protagonista sem que ele se tenha (sempre) apercebido porque lhe prometeu, quando o trouxe para a vida da sua filha, que o iria fazer até realizar o seu heart's desire, é brilhante. Infelizmente, este conceito acaba por ser abandonado a meio do livro, e recuperado a algumas páginas do fim para uma das conclusões mais mórbidas que alguma vez li. Contra todas as expectativas, um bom conceito e um final mórbido do not a book make, e especialmente não quando o final mórbido vem em consequência das falhas que vou enumerar a seguir.

2. Personagens
As personagens deste livro... falham, a todos os níveis. Harold Winslow, o nosso protagonista, é absolutamente detestável. Acompanhamo-lo ao longo da sua vida, mas a pouca empatia que lhe pode ser dedicada limita-se à sua infância. O que temos aqui é um homem que acha que nada importa, mas continua a viver... porque sim, suponho eu. Tudo bem, ele reitera várias vezes que não é um herói, mas continua a ser um dos protagonistas/narradores mais desagradáveis que já tive o desprazer de ler.

Prospero Taligent, o pai de Miranda, até parece boa pessoa (chega a ser quase... empático, em algumas partes?), até chegarmos aos bastidores dos seus milagres e invenções. Spoiler alert, o homem é um monstro. Ainda assim, é um monstro mal construído, porque não tenho qualquer noção de quem ele é, apenas das coisas que faz.

Miranda Taligent, descrita várias vezes ao longo do livro como "a donzela em apuros" (a sério?), é impossível de descrever. Objectivamente, não sabemos nada sobre ela - apenas que viveu a maior parte da sua vida fechada numa torre, fugiu uma vez ou outra, e depois sofreu um destino horrendo às mãos do próprio pai. Subjectivamente, temos uma ideia de quem ela é, porque o narrador não se inibe de nos dizer que está apaixonado por ela, que a vai salvar, etc etc etc. Para dizer as coisas de forma pura e dura, esta personagem é descrita como um objecto. Ela é a razão pela qual os homens deste livro fazem o que fazem, mas não tem qualquer agência ou personalidade. É uma tela em branco para as fantasias destes homens, que vêem nela uma pureza inigualável, imutável... até ao momento em que, whoa, ela afinal é capaz de mudar. É aí que all hell breaks loose, e é igualmente aí que eu começo a ter problemas com este livro. Esta obsessão com os conceitos de infância e pureza e virgindade (sempre aplicados ao género feminino, não esquecer) deixa-me doente. Miranda é perfeita até ao momento em que beija um rapaz, tem o seu primeiro período, atravessa a puberdade, tem a primeira relação sexual, and so on - a partir daí, passa a ser vista como uma mulher vil, ingrata, suja, que usurpa o lugar da menina sem a ele ter direito.

Emocionalmente, este tipo de narrativa mexe sempre comigo, e torna muito, muito difícil apreciar um livro. Sinto que estou basicamente a assistir, sem poder fazer nada, a um castigo bárbaro infligido a uma mulher por causa da sua sexualidade. Depois de trezentas páginas a ler este palavreado, não me consigo abstrair do género da pessoa que sofre no final - Miranda não sofreu por ser má pessoa, ou vilã, ou whatever. Sofreu por ser mulher, e isso anula todo o possível interesse do final mórbido (e só me dá vontade de atacar o autor com uma picareta).

No que toca a personagens femininas, só existem mais duas de relevo neste livro - Astrid, irmã de Harold, e Charmaine Saint Claire, amiga de Astrid (e um total estereótipo da feminista que ninguém suporta e que, por alguma razão, fala em itálicos). Nem me vou pronunciar relativamente a Charmaine, e sinto-me sinceramente envergonhada pelo autor, que achou que era boa ideia fazer uma paródia (bastante negra, diga-se) do movimento feminista num livro que já é, de si, problemático na forma como trata as suas mulheres. Quanto a Astrid, foi a minha personagem preferida, pela forma como lida com o seu passado, dedicando a sua vida à arte - no entanto, cada uma das peças que termina é indicadora de um maior e maior desespero (no qual ninguém repara), e será esta escalada que acabará por levar ao seu próprio destino horrendo. Hey, estão a ver aqui algum padrão, ou...?

Se há livro onde não é bom ser mulher, look no further, é mesmo este.

3. Setting/worldbuilding
O setting deste livro é... ligeiramente confuso. É difícil ter uma noção da época descrita, a nível visual, e o facto de saltarmos entre diferentes fases da vida de Harold não ajuda a "solidificar" o cenário - embora seja claro que nos encontramos numa versão alternativa do século XX. As secretárias de Prospero parecem ter saído directamente dos nossos anos 40, mas existem discotecas, mulheres de calças de ganga, carros normais (à falta de melhor termo) e carros voadores, e a cidade é descrita de forma assustadoramente contemporânea. E depois, claro, temos o dirigível - e o vilão a espalhar o terror com panfletos e ameaças de death rays. Não digo que estas coisas não possam fazer sentido em conjunto, mas pessoalmente, tive alguma dificuldade em visualizá-las num cenário coeso.

4. Estilo de escrita
Não há muito a dizer aqui. Dexter Palmer escreve bem que se farta, e vendia um braço... well, tendo lido este livro, talvez não, acho que vou ficar com todas as minhas partes... mas vendia definitivamente alguma coisa para conseguir escrever como ele. A forma como consegue transmitir uma imagem é absolutamente extraordinária - e não há muito autores que me consigam levar a uma reacção física, mas ele conseguiu. Neste ponto, leva cinco estrelas certinhas.

Infelizmente, no total, não vai levar mais de duas. Gostei muito da sua escrita, Sr. Palmer, mas é a única coisa verdadeiramente positiva que tenho a dizer sobre este trainwreck.

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